Capítulo 1 – Perdido na névoa. (Parte 2)
Tradução: Papupiro
Tudo era branco. Mal conseguia enxergar qualquer coisa. Isso o lembrou mais uma vez de que era cedo demais para começar a comemorar. Eles não tinham ideia de onde estavam ou de como era o terreno.
— A Yume e todo mundo conseguiu voltar, né… — disse Yume atrás dele. Pelo som de sua voz embargada, não era só o ar que estava um pouco úmido por ali.
Shihoru soltou um suspiro profundo.
Mary colocou um braço em volta dos ombros de Yume e Shihoru.
O jeito como Kuzaku deu um soco no próprio peito com um “É!” e então voltou a se concentrar na tarefa foi encorajador.
Ranta olhava ao redor, para todos os lados.
O céu estava nublado ou era apenas a névoa? Não dava para saber onde o sol estava, mas, com o tanto de luz ali, provavelmente ainda estava alto no céu.
— Aqui deve ser perto da fronteira dos antigos reinos de Nananka e Ishmal… acho — disse Haruhiro.
Suas pernas pareciam prestes a ceder. Haruhiro estalou a língua. Ele queria poder superar essa fraqueza. Precisava.
— Não sei a localização exata — acrescentou. — Mas uma coisa eu sei: precisamos ir para o sul. O sul é… Er, Yume?
— Miau? Ah. Bem, se o sol estivesse visível, a Yume te diria. A Sra. Lua ou as estrelas serviriam também. Dá até pra descobrir mais ou menos olhando pelos anéis de um toco de árvore, sabe.
— Não dá pra ver o sol aqui… — Kuzaku olhou para o céu, depois ao redor. — Mas tem tocos, ou pelo menos árvores.
Assim como Kuzaku havia notado, havia inúmeras árvores crescendo por perto. Algumas eram retas, outras tortas, mas nenhuma era especialmente grossa ou alta. No chão, havia plantas que pareciam samambaias. Ao caminhar por ali, o solo era tão macio que poderia ser chamado de lamacento.
— É difícil andar… — reclamou Shihoru.
— Pfeh — Ranta cuspiu. — Não sei o quão pesados seus peitos são, mas para de reclamar. Não é nada demais.
Mary imediatamente balançou seu bastão sem expressão. — Acho que não fizemos você se prostrar o suficiente da última vez, não é?
— Aaaaaah! C-Como eu já disse, foi só uma piada, tá bom, uma piada! Credo! Vocês nunca devem esquecer o senso de humor! É o lubrificante das relações! Igual eu!
Haruhiro poderia ter dado uma resposta inteligente, mas isso não teria fim, e dar atenção a Ranta só iria piorar a situação.
Ignorando Ranta e se movimentando um pouco perto da entrada do caminho, havia muitas elevações e quedas súbitas no terreno. Haruhiro não via tocos. Parecia que ninguém estava fazendo desmatamento por ali, humano ou não. Deveriam tentar derrubar uma árvore eles mesmos? Se usassem uma das lâminas que tinham à mão, não seria impossível, mas a RIPer de Ranta e a lâmina negra de Kuzaku eram armas, inadequadas para cortar árvores. A Wan-chan de Yume era como um facão, então provavelmente conseguiria cortar galhos. Derrubar uma árvore inteira, no entanto, poderia ser difícil.
— O quê, ela não pode derrubar uma árvore rapidinho com magia? Ela não serve pra nada além dos peitos… — Ranta disse em voz baixa.
Shihoru parecia não ter ouvido, mas ele claramente não havia aprendido a lição.
Será que iriam realmente se dar ao trabalho de derrubar uma árvore? O que fariam? Era uma decisão menor, mas Haruhiro se via surpreendentemente indeciso sobre isso.
Enquanto ainda hesitava, Yume disse:
— Hmm, vamos ver — e depois ofereceu um conselho. — Dá pra mais ou menos descobrir a direção pelos anéis das árvores, mas meu mestre disse que a precisão é baixa. Quando a Yume perguntou se ele queria dizer que deveria cortar bem rente, ele respondeu: Não, não é isso, quer dizer que não é muito preciso.
Era difícil ser um líder decisivo. Mesmo assim, ele ainda precisava almejar se tornar um.
— Primeiro… — Haruhiro decidiu falar. Se ficasse quieto, todos ficariam nervosos. Vou apenas dizer algo, pensou. Ele resolveria seus pensamentos enquanto falava. — …nosso maior objetivo é voltar para Altana. Mas é bem longe. Deve ser uns seiscentos, talvez setecentos quilômetros…
Mesmo tendo dito ele mesmo, era desconcertante ouvir. Eram supostos trezentos quilômetros só para cruzar as Planícies dos Ventos Rápidos ao norte de Altana e alcançar a Floresta das Sombras, onde se dizia que os elfos viviam. Ao norte da Floresta das Sombras ficava o antigo reino de Arabakia, e os antigos reinos de Nananka e Ishmal estavam ainda mais além.
Ou seja, estavam a cinco, seis ou até setecentos quilômetros de Altana. Talvez mais.
Como eles se moveriam por ali? Não conheciam as estradas. Além disso, estavam em território inimigo. Parecia praticamente impossível.
Não, não, não. Pare com isso, Haruhiro disse a si mesmo. Não pode desistir.
— Se assumirmos setecentos quilômetros, serão trinta e cinco dias se andarmos vinte quilômetros por dia — disse Haruhiro a eles. — Acho que vinte quilômetros por dia é bastante realista, mas vamos precisar de pelo menos esse tempo. Precisaremos de água e comida. É ruim que a névoa dificulte tanto a visibilidade, mas também ajuda, acho. Mesmo que haja inimigos por aí, será difícil sermos vistos. Se formos avistados, podemos usar isso a nosso favor enquanto fugimos. Quanto à direção… Bem, a névoa vai dissipar eventualmente. Se estivesse assim o ano inteiro, não haveria tantas árvores aqui. Se nos movermos de forma descuidada e depois descobrirmos que era a direção errada, não vai adiantar nada. Por enquanto, vamos ficar perto da saída e esperar a névoa diminuir. Quando soubermos a direção, partimos todos juntos. Eu vou explorar um pouco, tomando cuidado para não me perder. É mais seguro eu ir sozinho, então, mesmo que estejam inquietos, tentem descansar.
— Hum, ei. — Yume levantou a mão. — Tudo bem se a Yume for junto?
— Não faça isso — disse Ranta num sussurro. — Pode ser perigoso.
— Por que a Yume precisa de você se preocupando com ela? Deveria cuidar do seu próprio bucho — retrucou Yume.
— N-Não estou preocupado! Q-Quem se preocuparia com você, sua idiota?! A-A-Aliás, é umbigo, não bucho, tá?
— Ahh. Yume errou. Era umbigo, né.
— B-B-Bem, seja mais cuidadosa!
— Por que você tá tão nervoso…? — Shihoru estremeceu. — Isso é assustador.
— Eu sei — Mary lançou um olhar frio para Ranta, concordando. — Não me dá nada além de uma sensação ruim.
— Me deem alguns direitos humanos! — gritou Ranta. — Eu vou chorar, droga! Wahh, wahh, wahh, as mulheres estão me maltratando! Deixem eu apertar seus peitos! Só o suficiente pra ver como é a sensação!
O quão desesperado ele estava para apertá-los? Tinha que haver limites para o quão frustrado sexualmente alguém podia ficar. Ele ia ficar bem? Era um pouco assustador, mas, bem, provavelmente ficaria. Ranta não tinha coragem de tentar conseguir o que queria à força.
Haruhiro refletiu sobre o pedido de Yume. Yume era uma caçadora. Seu conhecimento e habilidades seriam úteis. Ela tinha bons olhos e ouvidos também. Além disso, era ágil, então não seria um fardo.
— Certo. Yume, você vem também — decidiu Haruhiro. — O resto espera aqui.
— Miau! — Yume exclamou.
Os dois partiram para explorar. Só para garantir, Haruhiro marcou as árvores com sua faca enquanto avançavam. Assim, mesmo que não soubessem a direção exata, poderiam seguir as marcas de volta até seus companheiros.
Ainda assim, o terreno ali era ridículo, ou simplesmente horrível. Subia e descia de repente, e quase não havia áreas planas. Mesmo que a névoa se dissipasse, provavelmente não conseguiriam ver muito longe. De fato, mesmo quando a névoa diminuía um pouco, a visão logo era bloqueada pelas árvores ou por alguma elevação no chão à frente.
— Deve ser mais ou menos entre meio-dia e o final da tarde, talvez — sugeriu Yume. — Só é o que parece, sabe?
— Acho que é por aí — Haruhiro concordou. — Mas é só um palpite vago também.
Com base nos sentidos de Haruhiro, eles haviam percorrido cerca de quinhentos metros em linha reta a partir da saída do buraco. Não encontraram nada. A sensação de que aquilo não seria fácil só se intensificava.
Mesmo assim, Yume estava animada e alegre, então, apesar da seriedade da situação, não parecia tão grave quanto deveria.
— Você sempre me salva — disse Haruhiro para ela.
— Funya? O que é isso, de repente?
— Bem, quero dizer, sem você aqui, nossa equipe seria bem mais sombria.
— Hmm — disse Yume. — Mesmo sem a Yume, sabe, o Ranta ainda seria barulhento, não acha?
— Mas o motivo pelo qual não preciso brigar tanto com ele é porque você está aqui.
— Aquele Ranta… — Yume de repente parou, inclinando a cabeça para o lado. — Por que você acha que ele quer tanto apertar peitos? Todos os meninos querem apertar os peitos das meninas?
— Bem… — Olhando para a party como um todo, isso talvez não fosse totalmente falso, mas generalizar seria errado. Ou talvez não fosse. Mas ele tinha certeza de que seria.
— Depende da pessoa — Haruhiro respondeu por fim.
— E você, Haru-kun?
— Hã? Eu? Não, eu…
O que é isso? Ele pensou, subitamente tenso. O que eu faço? É mais seguro negar? Mas isso seria honesto? Se eu negar, estaria mentindo para a Yume? Não quero mentir para uma companheira de equipe valiosa. Mas que mal pode haver em uma mentirinha? Mesmo assim, como um homem com poucas qualidades redentoras, eu pelo menos quero ser sincero com meus companheiros.
— …S-S-Se fosse de alguém que eu gosto, talvez — hesitou Haruhiro.
— Ohhh. Entendi. Então é assim que funciona. Yume adora apertar os peitos da Shihoru e da Mary, afinal. A Yume, ela gosta da Shihoru e da Mary… Hm?
— Hã…? — Haruhiro perguntou, confuso.
— Nesse caso, será que o Ranta quer apertar os peitos da Yume porque gosta dela? Se ele odiasse a Yume, provavelmente não iria querer apertar os peitos dela.
Yume, pensou Haruhiro, estremecendo. Droga, ela é assustadora. Ela simplesmente abriu a Caixa de Pandora como se não fosse nada.
A verdade era que Haruhiro não podia negar essa possibilidade, e já havia pensado nisso antes. Tipo, ele achava que havia algo meio estranho na atitude de Ranta em relação a Yume. Mas não era o suficiente para ter certeza, e era questionável se o próprio Ranta percebia isso. Com tudo tão incerto, Haruhiro havia pensado que talvez fosse melhor não tocar no assunto—seria um incômodo, afinal—então ele fez o possível para fingir que não percebia.
Mas, então, Haruhiro provavelmente era o tipo de pessoa que era um pouco densa em relação a essas coisas, então talvez estivesse apenas entendendo tudo errado.
— …Acho que ele não te odeia, não — Haruhiro disse por fim. — Obviamente. Ele não te odeia. Tipo, para alguém te odiar, Yume, teria que haver algo de errado com essa pessoa… Bem, há algo de errado com ele…
— Por que teria que haver algo de errado com uma pessoa se ela odiasse a Yume? — ela perguntou.
— Ah, quero dizer, bem, não sei. É que tem tão pouco motivo para te odiar.
— Cê acha? Então, Haru-kun gosta da Yume?
— Claro. Eu gosto de você — ele disse, e logo pensou: Oh, isso foi certo? Ela vai entender errado? E começou a se sentir inseguro sobre o que havia dito.
Mas quando viu Yume sorrindo e dizendo, “Ah, entendi”, ficou envergonhado de como seus pensamentos eram impuros.
Sim. Sim! Era isso. Era isso que estava certo.
Gostar de uma pessoa era uma questão de gostar ou não dela, não de intenções românticas, e precisava ser visto de forma separada de qualquer coisa sexual. Nesse sentido, Haruhiro certamente gostava de Yume. Ele podia dizer isso com orgulho. Claro que gostava dela. Claro que sim. Ela era a Yume, afinal. Isso era óbvio. Ele tinha que gostar dela. Mas, ainda assim…
— Yume sente o mesmo — disse ela, com um sorriso bobo, e o coração de Haruhiro acelerou um pouco. — Yume gosta de você também, Haru-kun.
— …O-Obrigado. — Haruhiro coçou a cabeça. — Uh, é estranho eu dizer isso…?
— Não sei. Mas se você está se sentindo grato, Yume acha que está tudo bem dizer isso. Quando você diz, faz a pessoa que escutou se sentir bem também. Claro, isso vale pra Yume também. Ela está se sentindo super feliz agora.
— Eu… acho que sim — ele hesitou. — Se você não disser o que sente, as pessoas talvez nunca saibam, afinal. É…
— Então, se o Ranta gosta da Yume, ele devia só dizer, né? Ele tá sempre implicando com ela, ou chamando ela de Peitos Pequenos.
— Ele tem uma dificuldade enorme em ser honesto sobre o que sente — disse Haruhiro.
Ou melhor, o tipo de gostar que Yume estava falando e o jeito que Ranta gostava dela eram diferentes. Mesmo que Ranta confessasse seus sentimentos de forma honesta, Yume poderia entender de uma maneira diferente da que ele pretendia, e isso poderia virar uma grande confusão. Havia muito espaço para preocupação ali.
No fim, Haruhiro não podia evitar pensar que talvez o melhor fosse manter as coisas como estavam. Talvez houvesse espaço para melhorar sua atitude de sempre esperar e observar.
Ele teria que pensar nisso. Mas não agora.
Parecia que tinham preocupações maiores.
Haruhiro levou o dedo aos lábios e se pressionou contra uma árvore próxima. Yume o seguiu logo atrás.
Havia um barulho. O que era?
Yume apontou mais à frente, à esquerda. Haruhiro olhou naquela direção. Ele tentou apertar os olhos, mas não conseguia ver nada através da neblina. Mas se ele focasse naquela direção, conseguia ouvir o som com mais clareza do que antes. Barulho? Vozes? Luta? Seriam feras selvagens? Ou…?
Era hora de tomar uma decisão. Naturalmente, ele queria evitar o perigo. Deveriam recuar rapidamente? Não estava claro se havia perigo, então talvez fosse melhor verificar isso primeiro? Ele pessoalmente queria fugir, mas isso era só porque Haruhiro era um covarde.
Ele ainda conseguia ouvir os sons. Estavam gradualmente se aproximando? Espera, aquilo era… uma voz.
Sim. Era uma voz. Não gritando ou berrando. Falando com palavras. Era o que parecia.
— Humanos… — disse Yume, em um sussurro.
Ele concordou. Era difícil de acreditar, dado o local onde estavam, mas provavelmente era a voz de um homem humano. Naturalmente, Haruhiro ficou surpreso. Ele estava desorientado? Não, não era tão ruim. Seu coração estava batendo um pouco mais rápido, mas ele acreditava que ainda estava calmo.
Haruhiro fez sinal para Yume segui-lo e começou a caminhar. Então, menos de trinta segundos depois, ele sentiu uma presença que parecia perfurá-lo pelas costas.
Havia algo atrás dele.
Yume não parecia ter percebido. Se ele virasse para olhar, seria atacado. Era essa a sensação que tinha. Mas ele não podia simplesmente ficar parado. A outra parte certamente viria até eles eventualmente. Ele precisava agir primeiro.
— Yume, abaixa! — gritou Haruhiro, dando meia-volta. Yume já estava se abaixando. Haruhiro trocou sua faca para a mão esquerda, sacou o estilete com a direita e pulou sobre Yume.
— Espera, espera, espera! — Haruhiro gritou.
Uma pessoa. Era um humano, usando o que parecia ser um casaco forrado com pele e um gorro de tricô. Havia um arco na mão direita, uma flecha na esquerda. Ambas as mãos estavam levantadas.
Esse homem barbudo havia se aproximado a uma distância de trinta metros atrás de Haruhiro e Yume. Inacreditável. Ou melhor, Haruhiro não queria acreditar. Pensar que ele não havia notado até o homem chegar tão perto.
Haruhiro ainda mantinha a faca e o estilete prontos, só por precaução. Mas ele estava mais surpreso do que qualquer coisa. Estava abalado, e seus pensamentos eram um caos. Ele não poderia lutar desse jeito.
— Você disse “espera”? — Um sorriso apareceu nos traços marcantes do homem, e ele jogou o arco, e depois a flecha, para o lado. — Pronto. Não vou fazer nada com vocês. Tá tudo bem. Eu nunca quis matar vocês, afinal. Mas vocês são suspeitos, sabem disso, né? Humanos como vocês, num lugar como esse. Não parecem ser do vilarejo também. Mas eu também não sou, sabe?
— …Hmm — Yume ainda estava no chão, cobrindo a cabeça com as mãos enquanto olhava para cima. — Você meio que parece um caçador, né?
— Oh? Você também é uma caçadora, mocinha? Bem, eu sou ex-caçador. Agora sou um guerreiro, — disse o homem. — Então, isso faria de vocês soldados voluntários.
— Você também? — Haruhiro queria soltar um longo suspiro, mas se conteve e tentou manter a respiração curta e leve.
Não se deixe relaxar descuidadamente, ele se advertiu. Não baixe a guarda.
— Você também é um soldado voluntário? — ele perguntou.
— Já faz mais de dez anos — respondeu o homem. — Por causa disso, fiquei velho.
— Bem, isso te faz nosso veterano… eu acho.
— A única coisa que posso te ensinar é como beber até cair. — O homem barbudo deu de ombros, mostrando um sorriso que parecia incrivelmente despreocupado. — Sou o Kuro.
— Kuro… Espera… — murmurou Haruhiro.
Espera aí, ele pensou. Espera, espera, espera. Eu sinto que conheço esse nome. Já ouvi isso em algum lugar. Será que é só coincidência? Pura coincidência? Mas talvez ele seja realmente aquela pessoa. Dado o lugar onde estamos, não deve haver muitos soldados voluntários que chegam tão longe.
— …Você não seria o Kuro-san dos Day Breakers, seria?
— Hm? — Kuro apontou para si mesmo, com os olhos arregalados. — Espera, sou famoso?
— Não, hum… Eu, ou melhor, nós na verdade, somos tecnicamente meio que… membros dos Day Breakers.
— Pelo jeito que você está vestido, você é um ladrão — disse o homem. — …Haruhiro?
— Sim. –Huh? Como você sabe? Oh, é isso? Você ouviu do Soma que—
Kuro explodiu em risadas.
— Vocês estavam vivos! Bwahahaha!
— O-O que você tá rindo?! Isso é algo pra rir?!
— Que rude. — Yume ainda estava no chão. — É um dia feliz, não é? Né?
— Oh, dia feliz! — Kuro apontou para Yume e começou a rir alto. — Você está certa, é um dia feliz, bwahahaha! Bem, estou feliz que vocês estejam vivos, é, muito feliz! Esse é um dia feliz! Eu já tinha assumido que vocês tinham morrido, afinal! Gwahahahaha!
Haruhiro ficou pasmo. Kuro estava segurando a barriga, e havia até lágrimas em seus olhos. Ele estava rindo demais. Qual é o problema desse cara? Ele era estranho. Ou melhor, estava irritando Haruhiro.
— Ufa, desculpa, desculpa. — Kuro enxugou as lágrimas com o polegar e pegou seu arco e flecha. — Mas é certamente uma coincidência. Normalmente, a gente se encontraria assim? Bem, estou apenas feliz que vocês não são inimigos. Me poupa o trabalho de matar vocês. Estou ocupado o suficiente agora. Então, dito isso, não tenho tempo pra cuidar de vocês, mas se cuidem.
Guardando a flecha na aljava, Kuro acenou para eles com o arco na mão e começou a se afastar. Seus passos pareciam lentos e relaxados, mas eram misteriosamente rápidos. Silenciosos também. Ele mal fazia barulho. À primeira vista, parecia completamente vulnerável por trás, mas se eles o atacassem, ele desviaria facilmente. Mais do que isso, provavelmente receberiam um contra-ataque doloroso. Esse cara era bom.
— Espera… Hã? — Haruhiro exclamou. — Uh? Espera, você tá indo embora…? Não, espera, p-por favor, onde você vai?! E-Ei! Estamos perdidos! Não sabemos o caminho de volta!
— Huhhh? — Kuro se virou e começou a rir novamente. — Bwaha! Perdidos?! Vocês estão perdidos, uau, sério, vocês estão brincando, né? Se vocês não conseguem voltar pra casa, isso é hilário! Vocês são ótimos!
— …Não tem nada de engraçado nisso — murmurou Haruhiro.
— Hee. — Yume começou a rir também. Ela ainda estava no chão, por sinal. — De alguma forma, sabe, até a Yume tá começando a achar engraçado. Hee, hehehehehe…
— Tá bom, entendi. — Kuro fungou enquanto fazia sinal para que eles o seguissem. — Vocês, venham comigo por um tempo. Eu vou fazer algo sobre o caminho de volta pra vocês. Como eu disse antes, sou um homem ocupado. Tenho algumas coisas pra resolver. Vocês não precisam ajudar; só assistam. Certo?
Eles não podiam recusar. Kuro era claramente um esquisitão, mas fazia parte dos Day Breakers. Provavelmente. Ele deveria ser.
Isso era um golpe de sorte inesperado. O que era que ele precisava resolver? Não seria perigoso, seria? Havia coisas que deixavam Haruhiro incerto, mas se não aproveitassem essa oportunidade, talvez nunca conseguissem voltar.
— N-Nós vamos ajudar! — Haruhiro segurou a mão de Yume e a puxou para ficar de pé. — Bem, só se parecer que podemos, claro!
— Não precisam se esforçar. — Kuro sorriu e começou a andar.
Ele era bastante rápido, e acompanhar seu ritmo era difícil. Não era apenas uma questão de correr. O terreno estava realmente ruim, e se dessem um passo em falso, poderiam tropeçar ou escorregar. Se não fossem cuidadosos, até poderiam torcer um tornozelo. Só por serem Haruhiro um ladrão e Yume uma caçadora é que estavam conseguindo não ficar para trás. Esse era o melhor que conseguiam fazer. Não podiam nem se dar ao luxo de observar a área ao redor.
Ele conseguia ouvir os sons.
Além da névoa, algo… ou alguém… estava lá. Havia um ponto onde o solo de repente se elevava, e quando eles deram a volta, viram várias figuras humanoides. Era difícil vê-las através da névoa, mas talvez nem todas fossem humanas.
Não, “talvez” não. Definitivamente não eram.
— Parem. — Kuro levantou a mão, impedindo Haruhiro e Yume de avançarem. — Ora, ora. Moyugi-kun está trabalhando duro. Bem, ele está com a Moira, afinal.
— Moira… — Haruhiro disse devagar.
Era um nome que ele não reconhecia. Mas ele reconhecia “Moyugi”. Ele era um membro dos Day Breakers, como Kuro. Era integrante de uma party famosa, os Rocks, ou Typhoon Rocks, liderados por Rock.
Qual deles seria Moyugi? As figuras em movimento… havia seis delas? Um deles tinha que ser—
— Oh… — Haruhiro sussurrou.
Agora havia uma figura a menos.
Aquela figura esbranquiçada. Aquela era provavelmente humana. A figura recuou, estendendo uma arma, e isso fez com que outra figura caísse. Ele havia derrotado um deles.
— Acho que eu também vou me mexer. — Kuro encaixou uma flecha em seu arco. Ou foi isso que Haruhiro pensou, mas ele já havia disparado.
Aquele disparo não foi meio rápido demais? Será que ele mirou corretamente?
De qualquer forma, parecia que ele havia acertado. Mais uma das figuras caiu.
— Você se importaria em cuidar dos seus próprios assuntos?! — alguém gritou. Provavelmente era a voz de Moyugi. Talvez ele estivesse dizendo isso para Kuro.
Kuro disse: — Tá, tá — e abaixou o arco. Pode não ser da conta de Haruhiro pensar nisso, mas será que era realmente certo ele fazer isso?
A Yume, que estava agachada ao lado de Haruhiro, soltou um suspiro de admiração.
Com licença…? Por que você está agachada e relaxando? Eu sei que há uma atmosfera, ou um fluxo geral dos eventos aqui, como se não precisássemos fazer nada, mas…
— Eu planejei tudo isso direitinho! — declarou a pessoa que parecia ser Moyugi.
A figura esbranquiçada se movia suavemente. As três figuras restantes tentaram cercá-lo pelos três lados.
Moyugi fugiu. Ou melhor, correu em direção a eles. Ele estava correndo para cá.
Mas Haruhiro estava imaginando? Aquele cara, ele estava virado de costas…?
Moyugi parecia estar correndo de costas.
Ele vai ser pego desse jeito, não vai? Não há como ele escapar. Nenhuma. Deveríamos ajudá-lo? Mas ele ficou bravo com Kuro por ter interferido. Ele disse que tinha tudo planejado, ou algo assim.
— Funah! — Yume soltou um grito estranho, e Haruhiro engoliu em seco.
De repente, Moyugi tropeçou. No entanto, em vez de cair de costas, parecia que ele havia sentado de propósito…?
Naturalmente, percebendo que aquela era a oportunidade, as três figuras correram em direção a Moyugi.
Aquele é um orc, percebeu Haruhiro.
A figura humanoide que balançava uma espada curva de um único gume sobre Moyugi tinha que ser um orc, pela estrutura de seu corpo. Os outros dois pareciam humanos, mas não estava claro o que eram.
De repente, algo apareceu acima da cabeça do orc. Ou foi isso que pareceu, mas era impossível, então devia estar escondido em algum lugar. Ele montou no pescoço do orc, envolveu as pernas ao redor e torceu, enquanto enfiava uma lâmina em forma de tesoura no topo da cabeça dele, soltando um grito perturbador que irritava os nervos de todos que o ouviam. — Nãããããããão!
Tendo visto a coisa horrível que havia acontecido com o orc, os outros dois ficaram chocados. Bem, claro que ficaram. Os dois recuaram e gritaram algo, depois pararam.
Moyugi se levantou. Ele não tinha tropeçado, afinal. Ele tinha se sentado de propósito. Se não tivesse, não poderia ter se levantado como se nada tivesse acontecido.
Como um gesto final, Moyugi enfiou sua arma fina no rosto de um dos inimigos e depois a puxou de volta. Não parecia ser um movimento particularmente ágil, e Haruhiro não pôde deixar de pensar, O quê, ele vai cair só com isso?
Ele também pensou, Rápido, rápido.
Ainda havia outro inimigo, afinal.
Não fique só relaxando, você precisa atacar logo ou—Viu.
Viu, viu, viu!
Eu te avisei. Bem, eu não avisei, mas eu pensei nisso. Eu sabia que você precisava se apressar.
Talvez por estar enfurecido pela morte de seus companheiros, o inimigo restante avançou em Moyugi com incrível vigor.
No entanto, Haruhiro só notou isso agora, Moyugi estava usando óculos. Ele os empurrou com a mão esquerda e cumprimentou o inimigo que se aproximava com—nada. Ele recuou.
Ele não pulou para trás exatamente, foi mais como se estivesse se afastando, serpenteando de um lado para o outro enquanto fazia isso.
O inimigo estava logo atrás de Moyugi.
Ah, não, Haruhiro pensou. Isso não é bom. Ele vai alcançá-lo logo. Só mais um passo e—
Nesse momento, por algum motivo, o inimigo perdeu o equilíbrio. Algo o fez tropeçar? Foi o que pareceu. Era a chance perfeita para Moyugi. Claro que ele não a desperdiçou. Parecia até que ele já havia previsto aquilo, e sua arma fina perfurou o inimigo. Quando ele a retirou, o inimigo caiu no chão.
A coisa que havia quebrado o pescoço do orc com as pernas agora mexia dentro do crânio do orc com algo parecido com uma tesoura. Pelo visto, havia terminado seu trabalho. A coisa deixou o cadáver do orc e foi ficar ao lado de Moyugi. Parecia quase uma mulher de cabelos longos, mas provavelmente não era humana. Os ombros eram largos demais, as costas arqueadas e a cintura muito fina. Era algo diferente.
— Parece que acabou. — Kuro se aproximou de Moyugi.
Haruhiro trocou olhares com Yume e seguiu atrás de Kuro. Yume também pulou atrás deles.
Moyugi estava com ainda menos equipamentos do que Kuro. Ele vestia uma camisa branca, praticamente uma blusa, e calças comuns. Seus sapatos não tinham nada de especial. Sua mochila não era particularmente grande. Havia uma bainha pendurada em seu quadril. Em suas mãos, ele segurava uma espada fina e reta. Honestamente, seu traje não tinha nada de notável. Isso era bizarro e um pouco assustador.
(NT: De acordo com a descrição, a espada dele deve ser uma rapieira (rapier).)
Mais ainda, Moyugi estendeu a mão para Haruhiro imediatamente e se apresentou assim: — Saudações. Eu sou o atual cavaleiro das trevas mais forte, Moyugi. Não sei quem vocês são, mas é um prazer conhecê-los.
— Pra-pra-prazer… — Haruhiro aceitou a mão estendida sem querer. — …em conhecê-lo. Eu sou Haruhiro. Dos Day Breakers…
— De fato. — Quando Moyugi soltou a mão de Haruhiro, ele empurrou os óculos pelo meio com o dedo médio da mão direita, e os cantos de sua boca se ergueram. — Eu suspeitava que você fosse quem eu pensava. Não importa o quanto nosso Kuro seja um tolo incorrigível, ele não arrastaria qualquer um que encontrasse por aí. Pelo que parece, você é um jovem ladrão. A jovem mulher é uma caçadora. Devem ser Haruhiro-kun e Yume-kun, certo? Já ouvi falar de vocês por Soma. Pensar que vocês realmente voltaram vivos do Reino do Crepúsculo. Estou surpreso. São só vocês dois? E o Ranta-kun, Shihoru-kun, Mary-kun e Kuzaku-kun? Eles morreram?
— Claro que não! — Yume fez uma cara de raiva, mas, sendo Yume, não era tão intimidadora assim.
Mesmo assim, ela avançou contra Moyugi com uma atitude razoavelmente ameaçadora, com as sobrancelhas franzidas e as bochechas infladas. Ela ficou na ponta dos pés e tentou chegar o mais perto possível do rosto de Moyugi. Yume devia estar achando que estava sendo intimidadora.
— Entendo. — Sem mudar sua expressão, ele agarrou o queixo de Yume. — Isso é maravilhoso. Agora, você se importaria se eu chupasse seu rosto?
— …Meu rosto? — Yume piscou. — Chupar? Hmmm…?
— O-o-o que é que você está fazendo?! — Haruhiro puxou Moyugi para longe de Yume apressadamente. — Que história é essa, do nada?! Dá pra parar com isso?! Não faz sentido nenhum!
— Não faz sentido? Você diz coisas estranhas. — Moyugi inclinou a cabeça para o lado. — Se você vê uma mulher, a primeira coisa que deve fazer é pegá-la, não é? Sou o cavaleiro das trevas mais forte em atividade, sabia?
— Bem, é… — Kuro acariciou a barba. — Não sei sobre ser o cavaleiro das trevas mais forte, mas se você acha que pode conseguir, tem que ir em frente. Eu não gosto de crianças, no entanto.
— Sou heterossexual, então me limito com base no gênero, mas quando se trata de mulheres, eu topo praticamente qualquer uma. — declarou Moyugi. — Não importa o quão bizarra ou pouco atraente, cada uma tem seu próprio sabor único, sabe?
O que havia de errado com essas pessoas? Talvez, só talvez, eles tivessem esbarrado em dois malucos? Não, não era talvez—aqueles caras eram definitivamente insanos. O melhor seria não se envolver com eles.
Se fosse possível, Haruhiro não queria estar em lugar nenhum perto deles, mas, mesmo deixando de lado a conexão com os Day Breakers, se ele não conseguisse que aqueles dois lhes dissessem o caminho, a viagem de volta para Altana seria muito mais longa. Pior ainda, talvez nem fosse possível voltar sem depender deles. Quando Haruhiro colocou Yume atrás de si para protegê-la, seus olhos estavam quase girando.
O que ele faria? O que poderia fazer? O que deveria fazer?
— Pode esperar por enquanto. — Moyugi embainhou sua espada fina. — Estamos um pouco ocupados no momento. Vamos, Kuro, Moira.
— Nãããããããão… — A figura que parecia uma mulher de cabelos longos lhe deu uma resposta insatisfeita. Pelo visto, aquela era Moira. Moyugi era um cavaleiro das trevas, então talvez ela fosse seu demônio.
Moyugi saiu andando em um ritmo acelerado com Moira logo atrás.
— Vocês venham também. — Kuro fez um gesto com o queixo e então seguiu Moyugi e Moira.
— …Nossos companheiros ainda não estão com a gente — disse Haruhiro, mas Kuro se virou com uma expressão irritada.
— Eles podem esperar até depois. Estamos com um pouco de pressa. Vou deixar vocês para trás.
Eles realmente não podem esperar, e vocês não parecem estar com tanta pressa assim, né? Haruhiro queria retrucar, mas sabia que isso não o levaria a lugar nenhum, então seguiu Kuro. Moyugi e Moira já estavam do outro lado da névoa.
— Ei, Haru-kun. — Yume puxou sua capa. — Yume tá pensando que talvez fosse melhor voltar. Será que você sabe o caminho, talvez…?
— Vamos seguir essas pessoas — respondeu Haruhiro imediatamente e puxou Yume pela mão enquanto seguia Kuro.
Quando Yume disse isso, ele percebeu que havia cometido um erro fatal, mas, em vez de se perder na névoa, era melhor cooperar com seus veteranos altamente capazes nos Day Breakers, que sem dúvida conheciam bem a área. Por essa razão, eles não podiam se separar de Kuro e Moyugi.
Até o momento em que notou Kuro se aproximando deles, Haruhiro havia marcado as árvores enquanto avançavam. Desde então, não havia deixado mais nenhuma marca.
— Desculpa, Yume — disse Haruhiro. — Eu me esqueci completamente de deixar marcas.
— Bem, se você vai dizer isso — Yume apertou a mão de Haruhiro com força —, Yume também não fez isso. É um hábito ruim seu, esse de querer assumir toda a culpa.
— …Entendo. Vou tentar tomar cuidado com isso. Mas, embora isso seja culpa de nós dois, ainda estou errado.
Porque eu sou o líder.
Será que ele não conseguia dizer isso em voz alta por vergonha? Ou era porque ainda não conseguia carregar totalmente esse fardo?
De qualquer forma, não havia necessidade de eles estarem de mãos dadas, certo? E parecia ainda menos necessário continuarem assim agora. No entanto, Yume estava segurando sua mão com tanta força que era difícil soltá-la. Se ele pudesse oferecer a ela algum apoio, sentia que não deveria largar.
Honestamente, aquilo também trazia conforto para Haruhiro, e encontrar o momento certo para soltar a mão dela era complicado…