Capítulo 14 – Com Estas Mãos. (Parte 2)
— Kuzaku, você fica na frente! Shihoru, Yume! — gritou Haruhiro.
— Certo!
— Okay! Dark!
— Miau!
Yume disparou uma flecha. Dark avançou. Kuzaku serviu como escudo.
Haruhiro procurou brechas, tentando acertar um golpe decisivo sempre que possível. Quando era possível, claro. Rapidamente, o combate virou um caos.
Sua mente parece que vai se tornar um turbilhão caótico, mas não se perca. Olhe ao seu redor.
Ele não conseguia ver através da névoa. Isso não era verdade apenas para Haruhiro; também era verdade para o inimigo. Não era uma desvantagem unilateral. Isso significava que estavam em condições iguais. O campo de visão dele era extremamente limitado.
Mantenha a cabeça fria.
Kuzaku estava mantendo os inimigos à sua frente sob controle. Isso não significava que ele poderia relaxar, mas Haruhiro precisava confiar nele.
Não era só Haruhiro; Shihoru também estava atenta. Yume ocasionalmente fazia algo cuidadoso também.
Não tente fazer tudo sozinho.
Ele não conseguiria fazer tudo, de qualquer maneira. Faria o melhor que pudesse, é claro. Ele, seus companheiros e todos os outros dariam tudo de si.
Não precisamos nos estender demais para derrotar inimigos. Sobreviver é o essencial. Primeiro, defender. Aguardar firme. Depois, ser persistente. Atrapalhar o inimigo.
Não ficar parado no mesmo lugar, também. Mover-se.
Não havia razão para lutarem diretamente com o inimigo. Podiam atacar os grupos inimigos que Arara, Katsuharu e os Rocks já estavam enfrentando pelos lados ou pelas costas. Assim que os provocassem um pouco, deveriam recuar imediatamente e mirar em outros inimigos.
Leia o fluxo. Se os Rocks, Arara e Katsuharu começarem a empurrar o inimigo e avançar, sigam imediatamente. Se o fluxo estagnar, de forma alguma avancem para a linha de frente.
Fundamentalmente, ficariam sempre prontos para recuar e agiriam para desestabilizar o inimigo. Não precisavam pensar em dar um golpe decisivo e esmagador. Na verdade, nem deveriam pensar nisso.
Houve momentos em que lutaram com um inimigo, e tudo o que puderam fazer foi proteger Shihoru. Não importava o quanto estivessem assustados, não entravam em pânico.
Os Rocks tinham Kuro, que adorava derrubar inimigos com um ataque surpresa, e era muito bom nisso. Sakanami era do mesmo jeito. Haruhiro não estava completamente contando com esses dois para salvá-los, mas sabia que eles não perderiam a chance perfeita quando surgisse.
Todos estavam mais expostos ao tentar atacar. Mesmo sabendo que não deveriam baixar a guarda, era natural que brechas surgissem em momentos assim. Se o inimigo demonstrasse a menor abertura, Kuro os derrubaria com um tiro certeiro de seu arco poderoso, ou Sakanami os eliminaria com um ataque tão frenético que parecia carregar algum tipo de rancor.
Haruhiro começava a entender a dinâmica. Os Rocks não faziam nada que pudesse ser chamado de coordenação. Cada um agia por conta própria. Rock e Kajita lutavam individualmente, e até Moyugi vagava sem muito critério. Tsuga, sendo o sacerdote, observava as coisas, indo de um lado para o outro, mas Kuro e Sakanami sumiam na maior parte do tempo para emboscar os inimigos.
Na party de Haruhiro, todos agiam como uma unidade só. Se um deles faltasse, a capacidade de combate caía drasticamente. Podiam até se tornar completamente disfuncionais.
Com os Rocks era diferente. Cada um deles era como uma unidade própria. Para Moyugi, que era o comandante, se contasse a si mesmo e sua demônio Moira, ele tinha até sete unidades para movimentar e com as quais poderia criar estratégias.
Se a party de Haruhiro conseguisse aumentar o número de unidades, também teriam mais opções. Isso ampliaria o alcance de suas ações.
Mas será que eles poderiam fazer isso?
Primeiro, havia Mary. Mary era indispensável. De qualquer forma, eles iriam resgatá-la.
E… Ranta.
Se tivessem Ranta…
Não, Ranta os havia traído. Como isso tinha acontecido ainda não estava claro, mas provavelmente ele acabou em uma situação em que estava prestes a ser morto, e então se rebaixou, talvez até se ajoelhou para que a Forgan o deixasse entrar.
Ranta era um inimigo. Eles ainda não tinham se deparado com ele, mas ele poderia aparecer como inimigo a qualquer momento. Os Rocks já poderiam tê-lo matado. Se o tivessem, bem, paciência.
Mas ele realmente os havia traído?
O sujeito estava com eles desde que chegaram em Grimgar, então talvez Haruhiro só não quisesse acreditar, mas algo o incomodava sobre isso.
O que era?
Não era hora de pensar em Ranta. O fato de estar divagando mostrava que Haruhiro estava com a cabeça leve, mas havia um motivo: Rock liderava como vanguarda e avançava com confiança. A resistência dos inimigos era fraca. Haruhiro e sua party avançavam quase sem enfrentar oponentes.
Embora a névoa ainda estivesse espessa, o ambiente parecia incrivelmente claro. Brilhante, até.
Eles chegaram a uma área aberta. Finalmente tinham passado pelo vale.
— Ha ha ha ha ha ha ha! — Rock soltou uma gargalhada excessivamente animada.
Quando ele ria assim, Haruhiro se sentia impotente. Rock fazia parecer que nada era impossível. Se ficassem com ele, tudo daria certo de alguma forma.
Ele não só empurrava todos; ele os arrastava consigo. A força propulsora criada pela simples presença de Rock era insana. Aquilo devia ser algum tipo de carisma. Parecia perigoso, mas não havia outra escolha a não ser continuar avançando.
Haruhiro olhou para trás enquanto corria. Eles tinham estabelecido um sistema em que ele liderava a caminhada, e, ao encontrarem inimigos, rapidamente trocava de lugar com Kuzaku. Kuzaku e Yume caminhavam com passos estranhamente leves. Apenas Shihoru, que estava entre os dois, olhava ao redor inquieta, questionando se estava tudo bem e se havia algum problema.
— Mary deve estar mais à frente! — Haruhiro gritou para os companheiros. — Mantenham-se atentos e vamos avançar o máximo que pudermos!
— Miau!
— Beleza!
— Certo!
Rock. Arara. Katsuharu. Esses três estavam à frente e à esquerda da party de Haruhiro.
Será que Kajita ainda estava lutando com Godo Agaja em algum lugar? Tsuga estava atrás de Rock e dos outros. Moyugi estava sumido. Kuro e Sakanami estariam escondidos na névoa?
Não era só a party de Haruhiro; ninguém estava trocando golpes com os inimigos. Mesmo que ainda houvesse oponentes. Ele conseguia ver silhuetas que pareciam orcs e mortos-vivos aqui e ali.
Espera, estamos sendo atraídos…?
Um uivo ressoante e inquietante, provavelmente vindo do lobo gigante, ecoou.
Havia uma colina à frente. No topo da colina, havia pessoas. Três pessoas e um grande animal. E tinha uma pessoa em cima do animal, então eram quatro pessoas.
Então, na base da colina, havia um número muito maior de inimigos.
Rock, depois Arara, Katsuharu e Tsuga, todos pararam um após o outro. Haruhiro e sua party foram obrigados a parar também.
Moyugi os alcançou caminhando num ritmo despreocupado. Sua espada fina estava embainhada, e ele pressionou o dedo médio da mão direita na ponte dos óculos.
— As coisas foram exatamente como planejei, pelo que vejo.
Será que isso era verdade? Parecia uma mentira descarada, mas, mesmo que fosse verdade, era isso que ele havia planejado?
— Dohhhh! — gritou Kajita.
Algo grande veio voando na direção deles por trás. Bem, ora, quem mais senão Kajita-san.
Kajita aterrissou ao lado de Tsuga. Deitado de braços e pernas abertos, como antes. Não parecia morto, mas também não se movia.
O gigante orc Godo Agaja se aproximava deles, com sua enorme katana descansando no ombro. Havia uma horda de orcs e mortos-vivos atrás dele. Lobos negros também. Entre eles, alguns membros de outras raças que Haruhiro não reconhecia. Não eram muitos, mas estavam lá.
De qualquer forma que olhasse, Rocks, Arara, Katsuharu e a party de Haruhiro estavam sendo cercados num ataque em pinça. Além disso, Sakanami e Kuro não estavam presentes, então eram apenas dez pessoas e um mascote.
O inimigo não era só um grupo de cem, o que já seria dez vezes o número deles. Não era possível contar claramente por causa da névoa, mas havia provavelmente centenas deles.
As quatro figuras no topo da colina, da direita para a esquerda, eram o lobo gigante com Onsa montado nele, o humano de meia-idade Takasagi, com um braço e um olho, um pequeno orc com uma águia negra pousada em seu ombro e um morto-vivo de quatro braços, Arnold.
Entre a grande massa de membros da Forgan na base da colina, havia um rosto familiar. Bem, não era possível ver seu rosto. Ele estava usando um elmo. Mas não havia como ser outra pessoa.
Ele cruzou os braços, inflando o peito. Mais pomposo do que qualquer um ali. Parecia que ele já estava bem acomodado como membro da Forgan.
— Rantaaaa! — Kuzaku deu um passo à frente, apontando para Ranta. — Como ousa mostrar a cara na nossa frente! Eu sabia que você era descarado, mas ainda assim não consigo acreditar!
Ranta deu de ombros em silêncio. Não ia responder?
Haruhiro rangeu os dentes.
Isso não é do seu feitio, Ranta.
Ele era um cavaleiro das trevas desagradável, arbitrário, ilógico, estúpido e idiota, mas, de alguma forma, astuto, estranhamente confiante, mal-educado, irritante só por estar ali e de personalidade podre, então deveria estar jogando alguma provocação contra eles agora. Afinal, ele era um cavaleiro das trevas.
— Murrgh! — Yume bateu os pés, com os olhos cheios de lágrimas. — Yume te odeia, Ranta!
— Yume… — Shihoru estendeu a mão e acariciou as costas de Yume.
— E então? — Takasagi girou o pescoço lentamente. — O que vocês querem fazendo provocação contra a gente? Querem apenas lutar? Se for isso, podemos enfrentar vocês. Não nos importamos de lutar um pouco. Se for para fazer isso, vamos até o fim. Vamos esmagar todos vocês aqui. Matar cada um de vocês.
— Eu não vim aqui para lutar com você. — Rock riu, erguendo sua espada em direção a Arnold. — Arnold! Quero um duelo com—
— Não! — Arara saltou à frente, colocando-se entre Rock e Arnold. — Rock! Sou grata a você por me trazer até aqui, mas isto, isto é uma coisa que não posso deixar para você! Arnold, o Redemoinho Sangrento! Se você é um guerreiro de honra, enfrente-me em um duelo!
Haruhiro viu Katsuharu baixar a cabeça e balançar-a. Kajita ainda não havia se levantado.
E quanto a Kuro? Sakanami? Ele não tinha sentido um nyaa desde que o nyaa preto matou o listrado. Setora teria conseguido reprimir os nyaas da Forgan para eles?
Se fossem lutar um contra um, Haruhiro ficaria feliz em deixá-los lutar. Por sua parte, queria sair dali o mais rápido possível. Precisava encontrar Mary e salvá-la.
Com sorte, poderiam escapar com os quatro, mas isso talvez fosse difícil. No mínimo, mesmo que Haruhiro tivesse que ir sozinho, não haveria uma maneira de escapar? Forgan estava na frente e atrás, mas não nos lados. Se ele acertasse o momento, talvez não fosse impossível, certo?
O momento. O momento era crucial. Mas, mesmo que Haruhiro conseguisse escapar sozinho e, supondo que de alguma forma conseguisse resgatar Mary, e os seus companheiros? O que faria com os outros três? Seria melhor desistir de Mary e tentar voltar vivo apenas os quatro? Se fizesse isso, teria que questionar o porquê de terem vindo até aqui. Mas, deixando de lado o motivo da vinda, não deveria ele usar o melhor método, o melhor caminho disponível para a situação em que se encontrava? Afinal, Haruhiro era o líder da party.
Como tinham chegado a esse ponto? Importava? Esse era apenas o jeito do acaso. Mesmo sem procurar problemas, ainda poderiam se encontrar em uma situação perigosa. Coisas assim aconteciam o tempo todo. Reclamar não adiantaria nada. A questão era o que fazer diante da situação em que se encontravam. Ou, se ele poderia mudar a situação de alguma forma, movê-la para uma direção melhor, ainda que só um pouco. Para isso, precisava pensar e, então, agir.
— Por qual razão? — perguntou o pequeno orc em uma fala humana fluente.
Isso pegou Haruhiro um pouco de surpresa. Aquele era Jumbo. Jumbo, o líder da Forgan, hein.
— Mulher da vila — disse Jumbo. — Por que deseja um duelo com meu companheiro Arnold?
— Havia um homem — disse Arara. — Eu o adorava. E ele também me amava. No entanto, fomos separados. Ele era desprezado na vila. Ao construir sua fama como guerreiro, esperava fazer com que a vila reconhecesse e aceitasse o amor que ele sentia por mim.
— De fato, houve um que veio sozinho à noite para desafiar Arnold — disse Jumbo.
— Ahh… Tatsuru-sama…
— Foi com um único golpe — Takasagi falou, dando uma risada debochada. — Eu não vi, só ouvi falar depois, mas aquele homem foi derrubado por Arnold mais facilmente do que se espantaria uma mosca irritante.
— …Ele nunca voltou — murmurou Arara suavemente.
— Bem, é claro que não — retrucou Takasagi. — Se ele fosse habilidoso, alguns de nossos mortos-vivos talvez tivessem interesse em um braço ou uma perna dele. Mas o corpo de um fraco não serve pra ninguém.
— Como ousa zombar dele?! — Arara gritou.
— Só estou dizendo a verdade. E? Você tem um rancor equivocado contra Arnold e está me dizendo que causou toda essa confusão só para ter um duelo com ele?
— Meu rancor não é equivocado! O primeiro a cometer um ato de violência foi Arnold! Foi por isso que Tatsuru-sama foi para matá-lo, o inimigo jurado da vila!
— Ah, sim, isso realmente aconteceu, né? — Takasagi refletiu. — Bem, às vezes o Arnold fica sedento por sangue e faz coisas estranhas. É como um surto. Quando isso acontece, nem nós conseguimos detê-lo. Ele está fazendo o possível para se controlar e não atacar os nossos. Temos que deixá-lo em paz. Ele não quer dizer nada com isso, então perdoe o cara.
— V-Você acha que o que ele fez é perdoável?!
— Bem, você tem um ponto.
Aquele homem, Takasagi… era difícil dizer se estava zombando ou se era sério. De qualquer forma, o fato de Arara estar enfurecida, pronta para explodir, fazia dela um brinquedo para Takasagi. Ele não apenas a estava enfrentando; estava brincando com ela. Não poderia tratá-la de forma mais desdenhosa.
— Chega, Arara — Rock disse calmamente. Com uma única palavra, o clima mudou drasticamente.
Rock estava de costas para Haruhiro, então ele não podia ver, mas era provável que Rock não estivesse sorrindo. Nem um pouco. Haruhiro já sentia um arrepio e agora seus pelos estavam completamente arrepiados.
— Quando uma pessoa– — Rock deu um passo à frente. Haruhiro sentiu um frio na barriga. — Seja humano, seja qualquer outra coisa, quando uma pessoa– — Rock estava com raiva. — Ela arriscou a vida para exigir que você a enfrentasse em um combate justo, e é essa sua atitude?
A cada passo que Rock dava, o estômago de Haruhiro parecia encolher mais alguns milímetros. Era assim que ele se sentia.
— Vocês são lamentáveis, Forgan. Dizem que têm orcs, goblins e até humanos, então achei que seriam um grupo mais interessante. Mas eu estava enganado. Vocês são um bando de escória.
A maioria dos Forgan provavelmente não entendia a língua humana. Ainda assim, conseguiriam entender que haviam sido insultados? Os membros da Forgan começaram a ferver de raiva e a fazer barulho.
— Calem a boca! — Rock bradou.
Com isso, ele silenciou a Forgan.
Rock começou a caminhar em direção à colina. Ninguém podia detê-lo. Nem Arara, nem ninguém.
Gettsu ficou sobre as patas traseiras e observou Rock se afastar. Os membros da Forgan na base da colina pareciam paralisados, incapazes de se mover.
— Venham — Rock parou a alguns metros da colina, acenando com uma das mãos. — Todos vocês, venham pra cima. Vou lançar cada um de vocês pelos ares. Entenderam? Estou furioso. Não pensem que vão sair impunes depois de me irritar. Sou um cara gentil, mas, sabem, uma vez que perco a paciência, não sossego até as coisas estarem resolvidas. Isso só termina quando eu caio, ou todos vocês são eliminados. Não gosto muito de matar, mas vocês… eu vou matar. Quero ver vocês levarem isso a sério. Foi pra isso que vim, afinal. Não estou planejando voltar vivo. Não dá pra viver com medo de morrer. Se você vive com medo, não aproveita o que há pra aproveitar. Vou mostrar pra vocês. A chama brilhante da vida que queima dentro de mim. Quero ver a de vocês também. Vivam, lutem e morram aqui. Me entretenham. Se fizerem uma luta chata, não vou deixar barato. Me matem. Se conseguirem, claro. Vou matar todos vocês. Vou lutar, lutar e matar vocês. Vamos começar? Estão prontos? Quem quer morrer? Quem vai me entreter? Eu aceito qualquer um de vocês. Gosto de quem me entretém. Amigo? Inimigo? Tanto faz. E aí? Por que ninguém vem? Não me digam que estão com medo. Vocês são tão patéticos assim? Mostrem coragem. Quero ver como vocês vivem e morrem!
— Eu que… duel… com… voc…
Aquilo… era uma voz?
Arnold saltou da colina. Ele fez isso com uma leveza que não deixava perceber seu verdadeiro peso. A própria personificação da morte havia descido. Era essa a impressão que passava.
Rock não se mexeu. Arnold se aproximava.
Agora havia menos de um metro entre eles. Quando essa distância reduziu para cinquenta centímetros—não, trinta centímetros—Arnold finalmente parou.
— Essa será nossa segunda vez. — Finalmente, um tom de riso surgiu na voz de Rock. — Vamos lá, Arnold. Eu não sou o mesmo de antes, então é bom se cuidar. Estou no auge da minha forma física e mental, sabe.
— Eu vo… mat… voc…
— Claro. Pode tentar.
Lá estavam eles de novo. Falando línguas diferentes. Como se entendiam?
Takasagi bateu a mão esquerda na testa e suspirou.
— Vocês vão mesmo fazer isso?
— Uh-hm… — Arara estendeu a mão, hesitante. — E quanto a… mim…?
— Vou ser direto, Arara — Rock disse, ainda encarando Arnold. — Esse cara é forte pra caramba. Você não tem a menor chance contra ele sozinha. Talvez você esteja disposta a perder e morrer. Eu não. Vou vingar Tatsuru por você. Deixe isso comigo.
Em vez de insistir, Arara abaixou a cabeça. Haruhiro só podia deduzir, mas talvez Arara estivesse bem ciente, desde o início, da dolorosa diferença de habilidade entre ela e Arnold. Mesmo que não tivesse chance, talvez ela pretendesse fazer o máximo que pudesse e, depois, seguir atrás de Tatsuru. Se esse fosse seu plano, bem, era praticamente suicídio. No entanto, talvez Arara tivesse mudado de ideia, e isso abalara sua determinação de lutar até o fim. Se ela não pretendia mais morrer, não poderia lutar contra Arnold. Mesmo Haruhiro podia perceber que ele era um adversário perigoso demais.
A águia negra ergueu voo do ombro de Jumbo.
Parecia que estavam prestes a começar. Poderia acontecer a qualquer momento.
Mas, espera… isso…
Poderia ser a chance de Haruhiro?
Quando o duelo um contra um entre Rock e Arnold começasse, aliados e inimigos ficariam concentrados neles. Durante esse tempo, ele poderia escapar silenciosamente. Era possível. Não, ele conseguiria. Ele iria.
Faltava apenas o momento certo. Quando ele deveria agir? Consultaria seus companheiros? Iriam todos? Ou apenas ele? Iria sem dizer uma palavra?
Jumbo se abaixou, sentando-se no chão com um joelho erguido.
A grande águia negra ergueu-se diante deles, desaparecendo na névoa.
Todos prenderam a respiração e aguardaram o momento decisivo.
Quem faria o primeiro movimento? De qualquer forma, eles não estavam próximos demais uns do outros?
Haruhiro não conseguia decidir o que fazer. Era seguro se mover agora? Estaria cedo demais?
Ele olhou para Ranta. Ainda usava o elmo, mas a viseira estava levantada. Parecia estar observando Rock e Arnold.
Se Ranta tivesse traído completamente a party, talvez estivesse vigiando Haruhiro discretamente. Se notasse algo, poderia reportar a Jumbo ou a alguém. Isso seria ruim.
E… começaram.
Foi Arnold. Aquele morto-vivo tinha quatro braços. Enquanto se movia para trás, usou dois daqueles braços, um de cada lado, para desembainhar katanas.
Rock não deu um único passo atrás. Ele rebateu as katanas com sua espada.
Ele avançou.
Arnold sacou outras duas katanas, parando e permanecendo imóvel. Quatro katanas e uma espada colidiam como se entrelaçassem umas nas outras.
Nem Rock nem Arnold se moviam, como se ambos estivessem fincados em seus respectivos lugares. Eles apenas continuavam trocando golpes.
Como isso era possível? Especialmente Rock? Seu oponente empunhava quatro lâminas, então como ele conseguia rebater todas com uma única espada?
Tão rápido.
As quatro katanas e a espada aceleravam o ritmo.
Assustador.
Isso inevitavelmente desmoronaria em algum momento. Se qualquer um deles hesitasse, mesmo que um pouco, esse equilíbrio ruiria. E, se alguém fosse vacilar, seria Rock.
Pensando normalmente, não havia como ele continuar defendendo ataques incessantes vindos de quatro direções diferentes indefinidamente.
Mas veja.
Essa previsão estava completamente errada. Uma das katanas de Arnold quebrou e foi lançada ao ar.
No momento em que ficou com três katanas, Arnold moveu-se suavemente para a esquerda. Rock guardou a espada na bainha e sacou outra.
Ele se aproximou e atacou.
Arnold bloqueou a série de ataques de Rock com suas três katanas. Enquanto se defendia, movia-se cada vez mais para a esquerda, como se tentasse desviar o impulso de Rock.
De repente, Rock parou e trocou de espada novamente.
— Parece que meus movimentos estão afiados hoje. E você, Arnold? Vamos logo, comece a levar isso a sério.
Haruhiro voltou a si. Tinha ficado observando, hipnotizado.
Isso era inesperado. Rock não era simplesmente incrível? Honestamente, Haruhiro achava que, no melhor dos casos, seria um empate, ou que Arnold teria a vantagem. Mas Rock tinha dito que estava em plena forma, então talvez fosse isso.
Será que ele conseguiria vencer? Rock estava prestes a ganhar? Talvez ele resolvesse isso de forma surpreendentemente rápida e fácil?
Se conseguisse—e então?
Se dissesse: Muito bem, vencemos, agora devolvam a Mary, que está presa, será que conseguiria que eles aceitassem isso? Provavelmente seria esperar demais. Se o resto agisse como Rock, desafiando-os para um duelo e pedindo a devolução dela em caso de vitória, talvez aceitassem. Mas quem lutaria? Haruhiro? Contra quem? Ranta estava dizendo que “aquela mulher pertence a mim” ou algo assim. Então, com Ranta, talvez?
— KYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY! — Arnold gritou.
Os pensamentos de Haruhiro foram interrompidos à força. Aquele som assustador. Arnold estava com os braços abertos e arqueado para trás. Estava vindo, lá vem, lá vem… Agora…!
Arnold deu um salto giratório. Era como se tivesse se tornado um redemoinho.
Provavelmente esse era Arnold lutando a sério. Não era possível. Não havia como defender isso. Rock precisava recuar, não havia outra escolha.
Mas, claro, Rock não recuou. Mais do que isso, ele avançou. Houve um estrondo incrível, e Arnold foi empurrado para trás.
Como Rock conseguiu conter o ataque giratório de Arnold? Ele o rebateu? Haruhiro não conseguia ver direito, então não sabia. Mas, de qualquer forma, estava completamente surpreso. A sequência de surpresas continuava.
Mesmo depois de ser empurrado, Arnold continuou girando!
Assim, ele se aproximou de Rock novamente.
— Haha! — Rock finalmente riu.
Quebrou.
Uma das katanas se despedaçou.
Rock tinha empurrado Arnold para trás novamente e, além disso, quebrado outra katana.
— Lá vai eu — disse Rock.
Ele trocou de espada mais uma vez e se aproximou de Arnold. Até então, estava usando a espada apenas com a mão direita, mas dessa vez segurou-a com as duas mãos.
— Ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora, ora! — ele gritava.
Era uma sequência rápida demais para o olho acompanhar. Além disso, cada golpe vinha com uma força impressionante.
Ele estava pressionando Arnold. Talvez fosse até mais correto dizer que estava sufocando Arnold. Sim, isso fazia sentido.
As katanas. As espadas de Rock estavam focadas nas katanas de Arnold. Quando Arnold começava a balançar sua katana, Rock golpeava com sua espada. Arnold nem conseguia girar. Ele tinha problemas muito maiores.
Rock tinha duas espadas, mas usava apenas uma de cada vez. No entanto, o comprimento e a espessura das duas eram consideravelmente diferentes. Ao alternar entre as duas, dependendo da necessidade, ele dificultava a reação do oponente. Essa parte era um pouco fora do comum, mas, no resto, era um ataque direto.
Rock não possuía uma técnica especialmente refinada. Seus ataques e defesas eram, na verdade, bem definidos. Como ele era tão forte?
Ele tinha um porte pequeno, mas uma habilidade física elevada. Se isso fosse correto, talvez o segredo estivesse nos olhos. Rock tinha bons olhos. Sua visão cinética era impressionante.
Ele não estava apenas em boa forma. Rock já havia enfrentado Arnold uma vez antes. Naquela ocasião, ele observou os movimentos de Arnold.
Rock havia decifrado Arnold.
Provavelmente, por isso ele estava tão confiante. Rock sabia que, se lutassem uma segunda vez, ele poderia vencer. Mais do que isso, talvez desde o início tivesse planejado cruzar espadas com Arnold de leve na primeira vez e resolver tudo de uma vez na segunda.
A terceira katana quebrou.
Falta apenas uma.
Por um momento, Arnold parou de se mover. Ele havia sentido a derrota e sido tomado pela surpresa? Ou seria uma armadilha?
Seja como for, Rock não se precipitou para dar o golpe final. Com a espada erguida nas duas mãos, ele relaxou todos os músculos do corpo. Em meio a uma batalha tão intensa, não era normal que ele conseguisse aliviar a tensão assim. Isso demonstrava domínio sobre sua mente e corpo.
Arnold balançou a katana contra ele. Rock imediatamente a rebateu.
No momento seguinte, Haruhiro duvidou de seus próprios olhos.
Arnold segurava a katana com uma de suas duas mãos direitas. Ele desferiu um golpe em Rock com as duas mãos esquerdas vazias. Se fizesse isso…
É claro, o inevitável aconteceu.
Rock cortou ambas as mãos esquerdas de Arnold com sua espada. Não foi com força suficiente para arrancá-las.
Uma das mãos.
A espada de Rock cortou uma das mãos esquerdas de Arnold e penetrou fundo na outra. Ele não conseguiu separá-las.
Arnold podia estar sacrificando seu braço esquerdo numa tentativa de roubar a espada de Rock. De fato, a mão direita livre de Arnold estendeu-se em direção a Rock. Mas antes que sua espada fosse tomada, Rock a soltou e sacou a outra.
— Se você quer, é toda sua.
A espada de Rock lançou a katana de Arnold pelos ares. Ele fez um corte superficial no ombro de Arnold. Um dos braços direitos estava bastante machucado.
Arnold cambaleou para trás. Cada passo que Arnold recuava, Rock avançava.
— Zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah, zoah! — Rock gritava.
Era unilateral.
Arnold fugia desesperadamente, tentando escapar. Ele não dava as costas para Rock, mas não por escolha; era porque não conseguia.
— Ei — alguém sussurrou no ouvido de Haruhiro.
Haruhiro quase teve um ataque cardíaco. Ele queria se elogiar por não ter gritado e pulado. Não, talvez nem fosse algo tão digno de elogio.
Havia alguém atrás dele. Não estavam tocando-o, mas estavam tão próximos que era como se estivessem.
Pensar que ele não perceberia até estarem tão próximos. Ele estava tão absorto no duelo entre Rock e Arnold. Isso enquanto Haruhiro tinha coisas importantes a fazer. Ele era tão tolo.
Pelo tom da voz, ele tinha uma ideia de quem era.
Sem virar o rosto, Haruhiro disse: — …Sakanami-san?
— Eu sou seu substituto — respondeu Sakanami. — Não deixe que a luz da juventude se ofusque, pois é uma maldição de alta densidade. Não deve ser manchada com sangue. Se tiver tempo para se arrepender, abrace a ambição. Seu coração vai se partir de qualquer forma.
— Não faz sentido nenhum, cara…
Mas Haruhiro entendeu o que ele queria dizer. Sakanami estava sugerindo: Vá procurar Mary. Ele ia atuar como substituto de Haruhiro.
Meu substituto?
— …Não — sussurrou Haruhiro. — Não nos parecemos muito, Sakanami-san, então, se trocarmos de lugar, vão perceber na hora que não sou eu.
— Compartilhamos o mesmo sangue.
— Não, não compartilhamos. Não tem como sermos parentes de sangue.
— Sua mentora é a Barbara? Aquela mulher te amarra e te faz desmaiar?
— Ah, porque nós dois somos ladrões? Isso é um pouco simplista, não acha?
— Você consegue distinguir orcs de mortos-vivos? — perguntou Sakanami.
— Bem, não tão bem assim, não, — confessou Haruhiro.
Haruhiro compreendeu. Precisava fazer isso. Rock estava perseguindo Arnold. Ele não tinha confiança no sucesso, não podia prever o resultado, mas era agora ou nunca.
Onde estava Ranta? Não estava olhando para cá. Parecia estar acompanhando a luta entre Rock e Arnold. Kuzaku, Shihoru e Yume estavam iguais.
A grande águia negra não estava à vista. Talvez fosse exagero pensar que ela poderia estar vigiando Haruhiro e os outros de cima.
Haruhiro fez um leve aceno com a cabeça.
— Vou nessa.
— Trocamos de lugar na contagem de cinco, oito.
— …Por que não um, dois?
— Cinco, oito.
Segurando a vontade de dizer: Escute quando as pessoas falam com você, Haruhiro se virou e trocou de lugar com Sakanami. Ao olhar, ficou surpreso com o que viu das costas de Sakanami. A postura, a posição do centro de gravidade, o jeito de ficar de pé… era exatamente igual a Haruhiro. Ele estava imitando? Que tipo de talento especial era aquele? Chegava a ser perturbador.
Shihoru colocou a mão direita atrás das costas e fez um punho. Essa era Shihoru. Ela foi a única a notar. Ela estava silenciosamente se despedindo de Haruhiro, dizendo: Dê o seu melhor, para incentivá-lo.
Haruhiro acenou com a cabeça.
Stealth. A névoa. Esta névoa que envolve o Vale dos Mil. Torne-se um com a névoa.
Primeiro, ele foi para o sul. Não havia ninguém ali.
Ele se esforçou para prestar o mínimo de atenção possível ao duelo entre Rock e Arnold. Isso o distraía, por mais que tentasse ignorar.
Não tenha pressa.
Vai suave.
Não se apresse.
Não permita, sob nenhuma circunstância, que sua respiração se descontrole.
Meu coração está sob controle.
Eu consigo.
Esse foi seu último pensamento antes de entrar em pânico.
— AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH! — Arnold virou um redemoinho novamente. Dessa vez, estava mais baixo. Dobrou o corpo, abaixando-se o máximo que podia, e girou como um pião.
— Oh?! — Rock deu uma cambalhota.
Arnold o derrubou? Aquilo não era um pouco ruim?
Arnold rapidamente pegou sua katana e foi atrás de Rock. Rock se levantou e se preparou para revidar.
A espada de Rock e a katana de Arnold se quebraram.
Virou uma briga de socos. Se acabassem lutando corpo a corpo, quem teria vantagem? Haruhiro não sabia ao certo. Contudo, a única coisa clara era que seria mais complicado do que uma luta com espadas e katanas que poderiam causar ferimentos letais. Com certeza ia ser uma bagunça.
Não hesite, repreendeu a si mesmo. Vá.
Siga em frente.
Transforme seu coração em gelo. Não sinta nada agora.
Se vir algo com forma humanoide, apenas evite. Enquanto se certifica de não ser visto, siga para o sul. Depois, para o oeste.
Se procurasse sem direção, jamais encontraria Mary. Com o mapa aproximado que tinha em mente, ele sabia, ainda que vagamente, o tamanho do acampamento da Forgan. Primeiro, tentaria focar sua atenção no centro.
Era como tentar agarrar uma nuvem. Talvez estivesse fazendo algo imprudente.
Isso talvez fosse imprudente da parte dele. Será que estava tudo bem? Ele não estava cometendo um erro?
Haruhiro afastou toda hesitação. Dependendo de como as coisas fossem, talvez fosse inútil.
Mary.
Mary.
Eu quero você.
Quero ouvir sua voz. Quero ver seu rosto. Quero que me chame de Haru. Quero saber que você está segura o mais rápido possível. Será que estou agindo por impulso aqui? Sim, estou. São meus sentimentos. Não consigo me livrar deles.
Não dá. Meu coração está tão acelerado que parece que vai explodir.
Calma. Mesmo que eu tirasse meus sentimentos da equação, não poderia abandonar um companheiro. Em primeiro lugar, Mary é nossa sacerdotisa, o centro da party. O quanto a ausência de um curandeiro limita uma party? Aprendemos isso naquele outro mundo onde não podíamos usar magia de luz. Agora, quando finalmente voltamos para Grimgar, isso acontece. Não ter a Mary é mais do que um incômodo.
Eu vou.
Para o centro do acampamento da Forgan.
— Nyaa.
Inspirando fundo, Haruhiro preparou seu estilete e a faca com guarda-mão, sem perceber.
Ele tinha ouvido o miado de um nyaa. Onde? Não estava longe. Estava perto.
Ali.
Adiante, à direita. Havia um nyaa cinza espiando com a cabeça para fora dos arbustos.
O nyaa cinza fez um miado silencioso para Haruhiro. Dizia que era um amigo.
Poderia confiar nele? Era difícil decidir.
Quando o nyaa cinza saiu dos arbustos, começou a andar de quatro. Foi um pouco à frente e, então, olhou para trás. Fez outro miado silencioso.
Haruhiro mordeu o canto dos lábios. — …Quer que eu te siga?
O nyaa cinza virou-se para frente e começou a correr a meio galope.
Tenho que ir, decidiu Haruhiro.
Intuição, era só isso que podia chamar. Mas havia, pelo menos, uma certa lógica por trás disso.
Os nyaas da Forgan estavam sendo contidos pelos nyaas de Setora. Isso significava que provavelmente era um dos nyaas de Setora. Setora sabia qual era o objetivo de Haruhiro. Aquele nyaa devia ter encontrado onde ela estava. Estava tentando levar Haruhiro até lá.
Dito isso, ele havia montado toda essa lógica enquanto seguia o nyaa cinza. Parecia lógico, mas ele só tinha juntado essas peças depois. A intuição veio primeiro.
No fim, foi bom ter seguido seus instintos. Porque, com o nyaa cinza guiando o caminho, ele só precisou ter o mínimo de cautela, e pôde focar-se em avançar enquanto cruzavam dois pequenos vales. Além deles, havia um lugar como uma bacia, pequeno, mas amplo e profundo, provavelmente com mais de cem metros.
No canto dele, ela estava ali.
Era Mary.
Ela estava com a cabeça baixa, sentada no chão. Será que estava acorrentada ou amarrada de alguma forma?
Perto dela, seria um humano? Era de uma raça que parecia humana, uma criança…? Seria? Havia uma criatura assim deitada, com a cabeça apoiada nos cotovelos. Estava guardando Mary? Se fosse o caso, ele não podia estar dormindo. Será que estava apenas descansando, sem nada para fazer?
Haruhiro e o nyaa cinza estavam espiando por trás de uma elevação no chão para ver como estava a situação, então ainda estavam a certa distância. O guarda de Mary ainda não os havia notado. Pelo que parecia, não havia mais nada se movendo.
O nyaa cinza olhou para Haruhiro. Quando Haruhiro assentiu, o nyaa cinza fez outro miado silencioso e saiu correndo.
Ainda não parecia real. Ele sentia como se seus pés não estivessem tocando o chão.
Mary estava ali. Viva. Ele deveria estar feliz, mas não sentia nenhuma emoção.
Estranho. Ele estava calmo? Será que era isso? Ele precisava ajudar Mary. Certo. Não importava de que jeito; ele só precisava fazer isso rápido.
Mary estava virada para o norte. O guarda, que parecia uma criança, estava a sudeste dela, a uns dois metros, com o corpo voltado para o noroeste.
Por trás. Ele iria se aproximar do guarda por trás. Não podia deixá-lo escapar. Também não queria que ele fizesse barulho. Derrubá-lo? Não, isso não era bom. Tinha esquecido o erro que cometeu em Waluandin?
O guarda tinha que morrer. Ele faria isso com um golpe.
Esse… não é uma criança, certo? Haruhiro pensou. É um guarda, então não pode ser. Provavelmente é de uma raça que é assim. Além disso, mesmo que fosse uma criança humana, isso não mudaria o que eu preciso fazer.
Eu vou matá-lo.
Eu consigo.
Haruhiro se aproximou cuidadosamente do guarda usando Stealth. A possibilidade de fazer barulho nem passava por sua cabeça. Sua maior preocupação era que o guarda, por acaso, olhasse em sua direção. Ou que Mary o visse e isso chamasse a atenção do guarda para sua presença.
Não havia como evitar acidentes como esse. Se acontecesse, ele resolveria rapidamente. Estava preparado. Mas ficou aliviado por não ter chegado a esse ponto.
Haruhiro estava quase alcançando o guarda de aparência infantil. Ele era baixo e gordo, tinha orelhas pontudas e cantarolava uma melodia alegre. Haruhiro não precisava se preparar com um “Um, dois, já”.
Ele se inclinou sobre o guarda e usou Spider. Com a mão esquerda, cobriu a boca do guarda, virou-o e enfiou a faca em sua garganta com a mão direita, então cortou. O guarda se debateu, mas já era tarde. Enquanto Haruhiro usava toda sua força para segurá-lo, Mary ergueu o rosto. Quando olhou na direção dele, seus olhos se arregalaram.
— …Haru — ela sussurrou.
Haruhiro não sabia como responder. Para começar, ele sorriu. Devia ser um sorriso terrivelmente desajeitado. Afinal, o guarda ainda estava vivo. Lutando desesperadamente. Mas, claro, era tudo em vão. Finalmente, o guarda parou de se mover.