Capítulo 5 (Parte 1)
Incapaz de Voltar
As construções da aldeia foram poupadas do avanço do fogo, e a maioria não foi queimada. Provavelmente porque, ainda que por pouco tempo, choveu forte.
Felizmente, se é que algo podia ser considerado sorte nessa situação, aquela construção também estava intacta.
Ela estava lá, no corredor de chão de terra da construção usada como prisão. Estava deitada de costas, olhando para cima, com a mão direita semiaberta ao lado do quadril. Seu braço esquerdo estava ligeiramente dobrado para fora, com a palma da mão voltada para baixo. A perna direita estava um pouco dobrada para dentro, enquanto a esquerda estava quase completamente esticada.
De forma alguma parecia que estava dormindo. Ela estava gravemente ferida.
Seu rosto, com as pálpebras fechadas, parecia completamente desprovido de sangue.
Ele queria, ao menos, colocar seus membros em uma posição correta. Mas o que era certo? A capacidade de Haruhiro de acreditar que algo fosse certo havia desaparecido há muito tempo. Sentia que não havia nada justo neste mundo. Tudo estava errado, e era por isso que as coisas haviam chegado a esse ponto.
Se pensasse a respeito, era isso. Tinha que ser.
Yume caminhou até ela, franziu a testa, alternando entre morder e apertar os lábios, e, por um tempo, ficou olhando para baixo, para ela. Então, caiu sentada no chão. Shihoru, silenciosamente, abraçou os ombros de Yume.
Kuzaku não tentou entrar na construção.
— …Por quê? — murmurava para si mesmo. — Isso não pode ser real…
Setora e Kiichi, o nyaa cinzento, também estavam do lado de fora.
Jessie se inclinou sobre a cabeça sem vida dela, acariciando os pelos do queixo.
Enquanto ele permanecia ali, a sombra de Haruhiro caiu sobre ela.
Jessie havia chamado o xamã, ou o que quer que fosse, para tratar Haruhiro, Kuzaku e Yume.
O xamã era um homem com pele como couro velho e rachado, que não se assemelhava nem a um orc, nem a um humano. Jessie o chamava de Niva.
Haruhiro achou que Niva os acompanharia até a prisão, mas Jessie não pediu isso. Haruhiro não ficou muito surpreso. Fosse um xamã, um sacerdote ou o que fosse, uma vez que uma pessoa perdesse sua única vida, não havia como salvá-la. “Existe uma maneira. Apenas uma,” Jessie havia dito.
Haruhiro não acreditou nessas palavras. Não havia mais nada em que ele pudesse acreditar. Ele não tinha a intenção de se agarrar a nada, mas, mesmo assim, trouxe Jessie até o local onde ela dormia e não despertaria mais.
— Entendo. Sim, ela está bem morta. — Jessie declarou o óbvio em termos diretos. Levantando o rosto, ele olhou para Haruhiro. — Posso tocá-la?
— Não pode! — Yume respondeu imediatamente, sua voz baixa, um pouco rouca, mas cheia de intensidade, algo incomum vindo dela. — Que história é essa? Mary-chan é minha companheira. Nem pense em tocar nela.
Jessie deu de ombros.
— Achei que seria errado tocar sem pedir permissão, por isso estou perguntando.
— Já disse que não pode! — Yume insistiu.
— Yume… — Shihoru abraçou Yume e lançou um olhar severo para Jessie. — …Por quê? Que sentido tem isso que está tentando fazer?
— Quero verificar se ela está fresca — respondeu Jessie, sorrindo de forma torta. — Ah. Foi uma escolha ruim de palavras. Muito direto? Minhas desculpas. “Roundabout…”Ele parou por um momento, procurando a palavra certa no idioma que todos ali falavam, e por fim disse: — Não sou muito bom em me expressar de forma indireta. Basicamente, se o corpo estiver muito danificado, isso pode causar problemas. Há preparativos envolvidos, entende? Quero verificar isso.
— O que… O que exatamente você está preparando para fazer? — Shihoru conseguiu perguntar.
— Eu não disse? Não há dúvida de que ela está morta, mas existe uma maneira de ressuscitá-la. É isso que estou preparando, claro.
— Re… — Yume arregalou os olhos, olhando do rosto de Mary para Jessie e de volta. — Ressuscitar… Ressuscitar? Quer dizer trazer Mary-chan de volta à vida?
Jessie não respondeu à pergunta de Yume. Ele voltou o olhar para Haruhiro.
— Posso tocá-la?
Haruhiro olhou para Shihoru em busca de uma reação. Não, ele procurava ajuda. Não conseguia decidir nada sozinho. Não conseguia tomar nenhuma decisão. Se Shihoru não acenasse positivamente, Haruhiro provavelmente ficaria calado para sempre.
Sem esperar pela resposta de Haruhiro, Jessie colocou os dedos no pescoço de Mary, levantou o braço dela e tentou dobrar os dedos. Parecia que ele achava que Mary era algum tipo de boneca, testando a movimentação e durabilidade das juntas dela.
Haruhiro sentiu-se tonto. Pare! pensou ele. Queria gritar com Jessie e chutá-lo para longe. Por que não fazia isso? Provavelmente porque não achava que tinha o direito.
— Não está em mau estado. — Jessie afastou as mãos do corpo de Mary. — Se começarmos agora, não é necessário nenhum preparo especial. Agora é apenas uma questão de decidir o que fazer.
— …O que quer dizer com “o que fazer”? — Haruhiro finalmente abriu a boca, mas foi tudo o que conseguiu dizer.
— Vamos ressuscitá-la ou não? — Jessie se levantou e respirou fundo. — Não cabe a mim decidir isso, afinal. Depende de vocês.
— Depende… de nós?
— Antes disso, acho que devo explicar pelo menos um pouco.
— Existe alguma condição…? — Shihoru perguntou, hesitante.
— Pode-se chamar de condição, sim. — Jessie ergueu uma sobrancelha e deu uma risada curta. — Querem saber de antemão o que vai acontecer, certo?
Kuzaku, que aparentemente estivera ouvindo do lado de fora, entrou na prisão e ajoelhou-se ao lado de Haruhiro. Por que ele estava ajoelhado daquele jeito? Seu corpo grande tremia.
— O que… O que vai acontecer? — Kuzaku perguntou. — Com a Mary-san?
— Bem, se eu fizer uma determinada coisa, por enquanto ela voltará à vida.
Haruhiro tentou dizer algo, mas sua voz falhou.
Espere.
Aguarde.
Espere só um pouco.
O que significa isso, “por enquanto”?
“Por enquanto.” Que palavras terrivelmente inquietantes. “Por enquanto.” Meu peito está tão apertado que dói. Minha cabeça está uma bagunça.
— Há algum tipo de risco? — perguntou Shihoru, fazendo a pergunta certa. Provavelmente, ela era a única com a cabeça no lugar—ou tentando mantê-la no lugar.
— “Risco.” — Jessie repetiu a palavra, inclinando ligeiramente a cabeça. — Risco, é? Pode-se dizer que sim. Vou dizer isso, pelo menos: eu morri uma vez também, e voltei. Não sou o único que voltou assim. A chance de falha é—bem, não vou dizer que não existe, mas podem assumir que é praticamente inexistente.
— Você… — Kuzaku olhou para Jessie, sem conseguir falar direito. — Você… morreu uma vez…? Hã…? Morreu…? E depois vo—Q-Quê?
— Simplificando, ela pode voltar à vida, como eu, que já morri uma vez. Não há risco, mas há um preço a pagar. Isso porque ela voltará no meu lugar.
Foi difícil entender de imediato. O que Jessie tinha dito?
“Ela voltará no meu lugar?”
“No meu lugar”—o que isso significava exatamente?
Mary estava morta. Mas ele disse que poderia ressuscitá-la de uma certa maneira. Então?
E Jessie?
— Para trazer Mary de volta… — A voz de Haruhiro parecia ecoar em algum lugar muito distante. — …você tem que morrer…?
— Sim. Esse seria o fenômeno — disse Jessie, como se não fosse nada.
— Isso é… — Shihoru abaixou a cabeça. — M-Mas…
Yume deu um leve tapinha nas costas de Shihoru, como se estivesse tentando confortá-la. O gesto parecia inconsciente. Enquanto movia a mão, Yume parecia estar pensando.
— Ha ha… — Kuzaku soltou uma risada curta. Ele já não tinha ideia do que estava acontecendo e, talvez por isso, tenha rido sem querer.
— A propósito, vocês não precisam se preocupar com essa parte. — O tom de Jessie era completamente desinteressado. Isso claramente envolvia ele, mas parecia que não tinha nada a ver com ele. — Foi um pouco assustador da primeira vez, mas já passei por isso antes, então sei o que vai acontecer. Minha Jessie Land levou um golpe decisivo. Dá muito trabalho recomeçar do estágio um. Estou feliz em chamar isso de fim de jogo.
— F-Fim de jogo? Isso é… — Kuzaku levantou os quadris, ajustou sua posição e pressionou as mãos sobre os joelhos. — …Irresponsável, não acha? Yanni-san ainda está…
Jessie suspirou e estalou os dedos.
— Isso nunca foi uma caridade, para começo de conversa. Fiz isso porque era divertido. Se ficou chato, acabou. É isso que é um fim de jogo, certo?
Esse homem era bizarro.
Ele já havia morrido uma vez, então, por ser sua segunda vida—
Não, e daí que ele sabe como é morrer? Ele ainda vai morrer.
Não, não é isso, certo?
Jessie tinha morrido uma vez e, se eles acreditassem no que ele dizia, alguém tinha morrido para trazê-lo de volta.
Antes disso, Jessie não era essa criatura difícil de chamar de humana, alguém capaz de ignorar um Backstab. Jessie tinha sido humano. Mas, quando voltou, isso mudou.
Haruhiro pressionou as mãos contra a parte de trás da cabeça. Ele agarrou o cabelo. Morrendo e voltando, Jessie acabou do jeito que é agora…?
“Ela pode voltar à vida, como eu, que já morri uma vez”, Jessie tinha dito, certo?
Isso não significava que… Mary ficaria como Jessie?
Haruhiro olhou para o rosto de Mary. O sorriso dela, prestes a morrer, tinha desaparecido. Ao analisá-la de perto assim, honestamente, aquilo só poderia ser chamado de uma expressão sem vida. Na verdade, ela não tinha mais expressão alguma. Porque suas funções vitais haviam cessado.
Ele não queria aceitar isso, mas a Mary ali não era mais que um objeto. Ele não conseguia pensar nela dessa forma, muito menos tratá-la como uma coisa, mas esse era o fato. A Mary ali não passava dos restos do que um dia foi Mary.
Se não usassem o método que Jessie mencionava, Mary não apenas permaneceria assim; ela nem mesmo seria capaz de manter a forma que tinha agora.
Levando em conta a estação do ano, ela começaria a se decompor em pouco tempo. Eventualmente, a maldição do No-Life King entraria em efeito, e ela começaria a se mover.
Precisavam enterrá-la rapidamente. Considerando a maldição, o melhor seria cremá-la. Mas ali não era Altana, então não havia crematório. Teriam que queimá-la por conta própria. Veriam Mary sendo consumida pelo fogo com seus próprios olhos.
Ele não queria ver isso. Mas provavelmente não tinha escolha. Se não encarasse isso, com certeza se arrependeria. Mesmo que encarasse, provavelmente ainda se arrependeria. Se fosse o mesmo de qualquer forma, deveria assistir. Haruhiro provavelmente ficaria para ver.
Eu não quero ver isso.
Até mesmo imaginar isso—não, só de tentar imaginar isso—parecia que cada célula de seu corpo seria esmagada em pó. Se alguém enfiar uma barra de ferro quente no meu cérebro e agitá-la, talvez seja assim que se sinta.
Eu não quero isso.
Mary.
Eu realmente não quero.
Ele não queria queimá-la de jeito nenhum. Mas precisava. A única outra opção era…
Trazê-la de volta à vida.
Jessie estava dizendo que era possível. Ele morreria, e Mary voltaria no lugar dele. Isso realmente era algo que poderia ser feito?
Se ela fosse sua mãe, sua amante ou alguém a quem ele devia muito, talvez fosse compreensível. Mas não era o caso. Não havia uma boa razão para ele se oferecer, mas Jessie tinha dito que não se importava de morrer para trazer Mary de volta.
Será que havia algo que ele não estava dizendo?
Por exemplo, será que Jessie estava pensando que estava pronto para morrer? Ou ele preferia estar morto e só queria que tudo acabasse logo? Talvez houvesse algum tipo de desvantagem em voltar à vida e, embora Jessie parecesse saudável, ele realmente não estivesse? Talvez ele estivesse sofrendo ou sentindo algum desconforto e estivesse tentando passar isso para a Mary?
E se ela voltasse, o que aconteceria com a Mary?
Naturalmente, Haruhiro queria que ela voltasse. Se significasse que Mary viva voltaria para ele, ele faria qualquer coisa. Não se importaria em morrer ele mesmo. Na verdade, estava disposto a oferecer sua vida no lugar da de Jessie.
Mas e se isso resultasse em algo com o qual Mary não pudesse ser feliz? “Se for para ficar assim, eu preferia que tivesse me deixado morta.” E se Mary se transformasse em algo que a fizesse sentir isso?
— Bem então… — Jessie abriu os braços e olhou para Haruhiro e cada um de seus companheiros.
Haruhiro subitamente ficou desconfiado. Como esse homem era antes de morrer? Ele podia ter sido uma pessoa completamente diferente. Talvez tivesse acabado assim porque foi revivido. Mary poderia ser igual. Se ela voltasse à vida, isso não aconteceria com ela…?
— O que vocês vão fazer? — perguntou Jessie. — Enterrá-la ou trazê-la de volta? Decidam o mais rápido possível. Vai ser complicado se a condição dela piorar, e do jeito que as coisas estão, os vooloos vão aparecer até o pôr do sol. Isso leva um tempo, afinal. Se formos fazer isso, quero terminar antes disso.
— …Vooloos? — perguntou Shihoru, em um sussurro.
Vooloos. Era uma palavra que eles estavam ouvindo pela primeira vez. Se ele lembrava bem, Jessie e Yanni tinham mencionado antes.
Ele não sabia o que significava, mas “Vooloo yakah,” eles haviam dito.
Não foi Jessie quem respondeu, mas Setora, que estava perto da entrada.
— Vooloos são lobos necrófagos — disse ela em um tom estranhamente neutro. — Eles são aparentados aos canídeos, aparentemente, mas também se parecem com felinos. Embora prefiram carniça, às vezes atacam criaturas vivas, incluindo humanos e orcs. Frequentemente, eles atacam caçadores que fizeram uma caça e estão no processo de levá-la para casa. O caçador se torna a caça, e tanto ele quanto sua presa são devorados pelos vooloos. Com tantas pessoas mortas por aqui, não seria estranho se os vooloos sentissem o cheiro.
— Os daqui do Vale dos Mil são pequenos, certo? — Jessie apontou para o norte. — A leste das Montanhas Kuaron, há vooloos maiores do que as panteras da névoa do Vale dos Mil. Eles têm o tamanho de ursos. Se tudo tivesse queimado, não sei como seria, mas choveu. As águias e corvos provavelmente já estão se reunindo. Os vooloos serão os próximos. Podemos espantar águias e corvos, mas vooloos são bem mais difíceis. De qualquer forma, precisamos abandonar este lugar por agora. Eu já avisei a Yanni.
— Eles já começaram a evacuar? — perguntou Shihoru.
Jessie respondeu: — Sim, isso mesmo — com um sotaque que parecia deliberadamente estrangeiro. — Se eles vão voltar aqui para reconstruir, ou procurar outro lugar, isso é com Yanni e os outros. Não vou me envolver. Perdi o interesse, sabe. Não faço coisas que não quero fazer. Decidi isso antes de morrer, e mantenho essa decisão.
Jessie fez uma pausa.
Então acrescentou: — A propósito. Já que isso provavelmente está preocupando vocês, só vou dizer: nada mudou dramaticamente dentro de mim quando voltei à vida. Vocês podem acreditar nisso ou não. Mas eu sempre tive esse tipo de personalidade. Só ficou mais difícil para mim morrer depois que voltei. Isso foi, bem, acho que é uma grande mudança, não uma pequena. Mas não foi algo ruim. Na verdade, é conveniente.