Capítulo 6.1
Fortuna e infortúnio: fios de uma corda torcida
O dia estava chegando ao fim e, antes que eu percebesse, já era hora do almoço. Já fazia cinco dias desde o anúncio da prova, mas nada de significativo havia acontecido.
Pelo que pude perceber, todas as turmas mantinham um registro de ausências ou atrasos. Os alunos estavam mais quietos do que o normal, vivendo suas vidas escolares com uma seriedade que quase parecia antinatural.
Mesmo o fim de semana, normalmente um momento de ânimos exaltados e falta de disciplina, transcorreu sem um único sinal de problema. Todos pareciam ter mantido firme o controle da tensão.
A julgar pela diligência de todos, pelo modo como estudavam e se exercitavam, evitando atrasos e faltas e mantendo ordem e educação rigorosas, ficou claro que todas as quatro turmas entendiam que sua conduta diária poderia ser a chave para o exame.
Até a turma de Ryuen, que não parecia ter entendido tudo no primeiro dia, se adaptou rapidamente. Kondo e os outros agiram com cautela, investigando e também considerando o estilo de vida desde o início.
Eu não sabia qual deles havia sugerido isso, mas naquela aula, a palavra do líder era lei. Se fosse colocada em prática, então o próprio Ryuen pelo menos entendera a necessidade.
Psiu! Psiu, psiu!
Quando eu estava prestes a me levantar do meu assento, senti pequenas pontadas agudas na parte de trás do meu pescoço.
“Ngh… ei, isso dói! O quê…?”
Virando-me ao sentir a pontada desconhecida, encontrei a culpada: Morishita, parada ali, segurando o que parecia ser… uma arma feita de pauzinhos descartáveis.
“Então você ainda está vivo, hein? Nada mal” disse ela.
“’Nada mal’ não é o ponto aqui… O que é isso?”
“Uma arma. Obviamente.”
Psiu!
Antes que eu pudesse reagir, um elástico estalou na minha palma. Percebi que a arma improvisada era um artefato rudimentar, mas surpreendentemente funcional. Vários elásticos se enrolavam e prendiam a uma estrutura de hashi, com um pequeno mecanismo moldado em algo parecido com um gatilho. Puxei-o e o elástico voou. Simples e eficaz. Minha mão ardia, moderadamente dolorosa.
“Isso dói, sabia?” eu disse, esfregando o local.
“É porque estou atirando com a intenção de machucar você” respondeu Morishita sem um pingo de remorso.
“E por que eu tenho que ser o único a se machucar em primeiro lugar…?”
Ainda assim, tenho que admitir que era bem feito… Não foi montado aleatoriamente no formato de uma arma; foi projetado especificamente para atirar elásticos.
“Quando foi que você fez isso?” perguntei.
“É uma arma secreta que criei diligentemente durante o intervalo. É uma arma letal maravilhosa que pode até passar pelos portões do detector de metais.”
Pelo menos ela não estava trabalhando nisso no meio de uma aula.
“Vamos dar uma volta até os confins do inferno juntos. Bang!”
“Eu absolutamente não quero fazer isso.”
Enquanto tínhamos essa conversa sem sentido, Satonaka se aproximou, parecendo um pouco hesitante.
“Tem um momento?”
“Sim. O que houve?” Eu respondi,.
Embora surpreso por ter que falar com alguém com quem raramente interajo, uma parte de mim achou que seria engraçado se Morishita atirasse um elástico em Satonaka.
Mas quando olhei, ela já tinha colocado a arma de elástico na mesa e estava olhando pela janela, com o tédio estampado no rosto.
Aparentemente, eu era o único que ela pretendia levar para os confins do inferno.
“Neste domingo” começou Satonaka, “eu queria saber se você gostaria de sair com o nosso grupo”.
Ele se virou enquanto falava, e atrás dele um pequeno grupo de dois meninos e uma menina acenou para mim — Yanagibashi, Tsukasaki e Hoashi. Eu mal havia trocado mais do que algumas palavras com qualquer um deles antes.
“Sem pressão” acrescentou ele, “mas o que você acha?”
“Não tenho planos. Se não se importarem, eu vou junto.”
Quando dei minha resposta, os lábios de Satonaka se curvaram em um sorriso caloroso e satisfeito.
Talvez a razão pela qual me senti estranhamente feliz só de ver isso foi porque ele tinha um rosto tão bonito e bem proporcionado que até mesmo um homem não conseguia deixar de ficar encantado.
“Se você quiser, Morishita-san, venha também” ele ofereceu.
“Eu passo” ela respondeu secamente.
Sem nem mesmo olhar para ele, ela fixou seu olhar firmemente na paisagem do lado de fora da janela enquanto dava sua recusa direta.
Satonaka, aparentemente imperturbável, disse que enviaria os detalhes mais tarde por mensagem e retornou ao grupo.
“Por que você recusou?”
“Nenhuma razão específica. Só não estou interessada.”
No tempo que levou para dizer aquela frase, ela desviou o olhar da janela para mim, sua mão direita agora segurando firmemente a arma de elástico novamente.
“Será que, Morishita, você… e Satonaka…?”
Psiu!
Uma ardência percorreu minha bochecha esquerda quando um elástico me atingiu sem piedade.
“Que pena, Ayanokoji Kiyotaka. Você achou que me veria toda corada e nervosa aqui?”
‘”Pensei isso por um segundo, mas parece que não é o caso… Além disso, dói e é perigoso” murmurei, esfregando a bochecha.
“Eu simplesmente não tenho interesse nele. Além disso, rostos excessivamente andróginos não são meu tipo. Até um rosto tão horrivelmente distorcido quanto o seu, Ayanokoji Kiyotaka, é melhor, pelo menos posso sentir um pouco de pena. Fica feliz em saber que eu gosto de você?”
“Tenho quase certeza de que a tristeza superou em muito a felicidade” respondi. “Desculpe, mas estou indo.”
“Fugindo?” ela provocou, pontuando as palavras com uma saraivada de elásticos. Abaixei-me e corri para o corredor, escapando de seus disparos rápidos.
Depois que escapei, peguei meu telefone e li a mensagem de Ichinose novamente.
「Parece que Hoshinomiya-sensei quer encontra-lo, Ayanokoji-kun.」
Após receber essa mensagem, dirigi-me ao edifício especial que ela havia especificado.
O sol mal havia se posto no horizonte. Àquela hora, o prédio especial estava quase sempre deserto.
Dois anos atrás, este mesmo lugar foi palco de um incidente — Sudo foi apanhado pela armadilha de Ryuen, emboscado em um ponto cego das câmeras de vigilância. Desde então, ainda mais câmeras foram instaladas nesta ala.
Hoje em dia, quase cada centímetro do campus estava sob olhares atentos, exceto os espaços privados, como vestiários e banheiros.
Alguns alunos achavam a observação constante sufocante, mas, para a maioria, era uma rede de segurança bem-vinda, um escudo silencioso contra problemas que poderiam surgir descontroladamente.
Quando cheguei ao ponto de encontro combinado, Hoshinomiya-sensei não estava em lugar nenhum. Sem mais nada para fazer, virei-me para a janela e deixei meu olhar vagar pelo terreno da escola, matando o tempo. Não pretendia ficar ali por muito tempo, já que pretendo encontrar Hiyori mais tarde.
Lá fora, eu podia ver os alunos indo em direção aos portões, enquanto outros iam para suas salas de aula, conversando em pequenos grupos.
…Atividades do clube, hein? murmurei para mim mesmo.
No fim das contas, nunca entrei em nenhuma. Mas se eu tivesse que recomeçar como calouro, talvez eu tentasse. Minha mentalidade tinha mudado o suficiente para que a ideia não parecesse mais tão estranha.
A ponto de, se me perguntassem: “Você está satisfeito como aluno?”, eu poderia balançar a cabeça, ainda que com alguma hesitação.
Desviei o olhar da janela e olhei para o corredor. Momentos depois, o som de passos rápidos e de salto alto ecoou pelo corredor. Uma figura familiar surgiu, nossos olhares se encontraram antes que ela acenasse levemente e se aproximasse com um sorriso fácil.
“Desculpe pela espera, Ayanokoji-kun. Me chamar para um lugar como este, você precisava de alguma coisa?”
“Foi você quem me chamou aqui, Sensei.”
Ela inclinou a cabeça, com um tom brincalhão na voz. “Do que você está falando? Não tem como uma professora chamar um aluno para um lugar como este. Ichinose-san me disse que você queria me ver, Ayanokoji-kun, então eu vim.”
Estou no mesmo barco, mas questioná-la mais parecia inútil.
Os olhos do Hoshinomiya-sensei estavam inconfundivelmente sorridentes.
Enquanto eu ainda tentava descobrir o que ela realmente queria, ela se aproximou, bem mais, até que seu corpo pressionou levemente o meu.
“O que você pensa que está fazendo?”
“‘O que eu acho?’ Do que você está falando?”
Sua voz caiu para quase um sussurro enquanto ela se aproximava por vontade própria, ignorando minha pergunta completamente e fingindo inocência.
Antes que eu pudesse reagir, ela colocou seu braço fino em volta do meu.

“Ayanokoji-kun, você vai ter que trabalhar esse ano” disse ela com um sorriso malicioso. “Então acho justo que eu te preste um pequeno serviço… assim.”
Chamar descaradamente esse tipo de comportamento de “serviço” era típico dela, mas, para uma professora, era um ato totalmente fora dos limites.
Mesmo assim, eu não tinha intenção de dar um sermão nela, nem de me livrar do braço dela à força. O mais importante era que eu não dei o primeiro passo.
“Você continua tão astuta como sempre, Hoshinomiya-sensei.”
Eu disse em vez disso, escolhendo palavras em vez de ações para interromper seu ímpeto.
“Hã? Como assim, ‘astuta’?”
“Eu tinha uma suspeita sobre a natureza deste exame” continuei, “mas a sua pequena façanha confirmou. Durante a semana, a escola nos julgará com base na nossa ‘atitude durante a vida escolar diária’ — atrasos, faltas, conduta geral. Normalmente, esses fatores causam apenas pequenas flutuações mensais, mas agora pesarão bastante nas nossas avaliações. Com as inúmeras câmeras de vigilância nos corredores, o corpo docente pode facilmente analisar as imagens para nos avaliar. E se me virem em contato próximo com uma professora do sexo oposto, isso inevitavelmente prejudicará minha avaliação.”
Não muito tempo atrás, ela estava pronta para usar sua autoridade para levar sua classe à vitória por todos os meios necessários, quase ao ponto da imprudência.
Para evitar isso, contei a ela sobre minha aliança com Ichinose e os termos que a acompanhavam, o que foi o suficiente para mantê-la um tanto contida.
Mas, no fundo, seu verdadeiro desejo permanecia inalterado: um rápido retorno às classes altas e a queda da classe de Chabashira-sensei.
Ela deu uma risadinha. “Ayanokoji-kun, você está interpretando demais isso. Somos um time, não somos? Por que eu faria algo para te prejudicar? Além disso, nem sabemos se o seu palpite sobre a prova está correto.”
“Claro, não tenho provas definitivas” admiti calmamente. “É só a minha impressão. Mas não se preocupe, mesmo que você tentasse intencionalmente rebaixar minha avaliação, isso não afetaria nossa aliança.”
Minhas palavras eram calmas, quase burocráticas. E, enquanto eu falava, seu sorriso se aprofundou, como se ela entendesse exatamente o que eu queria dizer.
“Que bom ouvir isso. Então, você concorda em deixar minha turma vencer desta vez, certo? Só dando um pouco de glória a uma turma que está apenas um ponto atrás?”
“Se pudéssemos controlar totalmente o resultado, talvez. Mas esta é uma disputa a quatro. Se nossa turma sofrer uma avaliação negativa, podemos acabar em último lugar. Não há garantia de que a turma de Ichinose conquistará o primeiro lugar.’
“Ah, qual é. Não é aqui que seus talentos deveriam brilhar, Ayanokoji-kun? Você só precisa fazer da minha turma a número um e colocar a sua em segundo. Fácil.”
“Infelizmente” eu disse categoricamente, “não tenho intenção de interferir ou ajustar os resultados”.
“…Por que não? Você vai simplesmente ignorar o risco da Classe A ou da Classe B vencer?”
“Desta vez, até isso seria aceitável.”
Ela estreitou os olhos. “O quê? Você está dizendo que cinquenta pontos de classe não valem a pena? Isso é…”
“Não é isso”, interrompi. “Simplesmente considero esta situação indigna de revelar o verdadeiro valor da nossa aliança. Talvez você devesse começar acreditando na sua própria classe.”
Já fazia dois anos que a turma de Ichinose era um modelo de disciplina, igual ou até maior que a de Sakayanagi.
Entretanto, Hoshinomiya-sensei não conseguia suportar a realidade de estar na Classe D. Ela estava sempre tramando, sempre procurando maneiras de mudar o equilíbrio à força, independentemente do custo.
Eu poderia entender se isso viesse de pura frustração, mas em um caso como esse, essa abordagem ameaçava sufocar a maior força de sua classe.
“Por favor, aprenda a cuidar deles também. É algo que até a Chabashira-sensei sabe fazer.”
“…!”
No momento em que mencionei o nome de sua rival de longa data, seu comportamento mudou.
Ela parou no meio do caminho e tirou o braço do meu.
“Posso confiar em você… certo?” ela perguntou baixinho.
O significado por trás dessas palavras era simples. Continha uma ameaça: se eu a traísse, ela ficaria furiosa a qualquer momento.
“Olhe para nossa aliança no longo prazo, não apenas no curto prazo, é tudo o que posso dizer agora.”
“Entendo… Bem, pelo menos você se saiu bem no exame especial anterior. Então, por enquanto… vou ficar de olho.”
Sua natureza cautelosa ainda estava firme. Ainda bem que Hoshinomiya-sensei permaneceu vigilante e não baixou a guarda.
Mesmo assim, não havia necessidade real de nos forçarmos a uma vitória forçada. Se a avaliação se resumisse a aspectos como conduta e atitude diárias, interferir demais seria problemático e arriscado.
Para turmas como a minha ou a de Ichinose, onde o comportamento disruptivo já era raro, elaborar estratégias desnecessárias só tornaria as coisas mais perigosas. A estratégia mais segura e eficaz era deixar todos continuarem como sempre.
Apenas trinta minutos haviam se passado desde o último sinal. Eu estava na biblioteca bem cedo.
Houve algumas reviravoltas, mas finalmente chegou a hora.
O início de uma nova prova durante a Semana Dourada, repetidos convites para atividades extracurriculares e encontros casuais. Um tempo considerável havia se passado desde que Ishizaki me disse para me encontrar com Hiyori.
No momento em que entrei na biblioteca, um aroma familiar me saudou, um aroma suave de papel, único neste lugar.
“Gostaria de saber se Hiyori está aqui.”
A biblioteca da escola era enorme, com prateleiras altas e corredores largos, o que tornava tão difícil encontrar uma pessoa quanto localizar um livro específico.
Quando por acaso olhei para a bibliotecária na entrada, ela me deu um sorriso caloroso e então silenciosamente levantou o dedo.
A direção que ela apontou era onde os romances de mistério estavam bem alinhados.
Parecia que a pessoa que eu estava procurando estava lá.
Caminhei lentamente naquela direção, ainda a uma boa distância, quando ela apareceu, surgindo de trás de uma prateleira alta. Por um breve e delicado momento, na biblioteca quase vazia, nossos olhares se encontraram.
Mas o momento passou num instante. Ela se virou sem dizer uma palavra, desaparecendo nas profundezas sombrias entre as prateleiras.
Senti que nossos olhares se encontraram… mas ela não me notou?
Chamar daqui seria como uma intrusão no silêncio, então caminhei silenciosamente em direção ao local onde ela havia desaparecido. No entanto, quando cheguei ao local, ela não estava em lugar nenhum.
E então comecei a procurar pelos estreitos espaços entre as prateleiras, meus passos engolidos pelo silêncio da biblioteca.
Um dois três….
Onde ela poderia estar? Certamente ela não poderia ter ido tão longe.
E então, lá estava ela. Na extremidade oposta da prateleira, em frente à minha, a figura de Hiyori apareceu no meu campo de visão.
Nossos olhares se encontraram. Eu tinha certeza disso.
Mas quase imediatamente, seu olhar desviou-se e ela se escondeu atrás de outra estante.
Sem dúvida, ela me viu. O que só podia significar uma coisa…
Ela estava me evitando?
Será que foi porque demorei tanto para vê-la? Ou porque não fui transferido para a turma do Ryuen?
Esses pensamentos giravam na minha cabeça enquanto eu começava a diminuir a distância entre nós.
Se ela pretendia continuar fugindo de mim nesta biblioteca, eu não teria escolha a não ser desistir.
Afinal, não posso encurralar alguém se ele não quiser me ver.
Esperando que não chegasse a esse ponto, caminhei até o último lugar onde a vira. Mas ela havia sumido novamente.
Para onde ela foi a partir daqui…?
Então, quase como se estivesse se perguntando para onde eu tinha ido, Hiyori colocou a cabeça para fora de trás de uma prateleira próxima.

Ela estava a menos de dois metros de distância, perto o suficiente para que, com um único passo à frente e uma mão estendida, eu pudesse alcançá-la.
“Oi…” comecei, mas antes que pudesse terminar, ela desapareceu de vista novamente.
Embora dessa vez ela não tenha se movido, eu ainda conseguia ver sua mão apoiada na estante e o leve contorno de seu uniforme aparecendo por trás dela.
“…Eu estava incomodando você?” perguntei baixinho.
Houve um momento de silêncio. Então, lentamente, seu rosto emergiu novamente.
Por enquanto, pelo menos recebi uma resposta. Só isso já foi o suficiente para me deixar aliviado.
“Não, eu vim aqui hoje para te ver, Hiyori.”
“..…”
O significado das minhas palavras deveria tê-la alcançado sem questionamentos, mas ela permaneceu meio escondida atrás da estante alta.
Lembrei-me do que Ishizaki me disse há pouco tempo:
“Não deixe de visitar a Shiina em breve. Ela anda bem deprimida, talvez não tanto quanto eu, mas mesmo assim.”
E então, houve aquele encontro estranho quando acabamos no mesmo elevador alguns dias atrás.
Por que não fui vê-la antes?
Eu podia dizer a mim mesmo que estava ocupado, que havia motivos… mas a verdade era mais simples: eu a vinha evitando, fugindo da culpa da minha transferência de classe. E agora, eu me arrependia.
“Você ainda está incomodada” perguntei cuidadosamente, “pelo fato de eu ter recusado seu convite para ingressar na sua turma… e ter sido transferido para a Turma C?”
Antes que pudéssemos ter uma conversa de verdade, o muro desnecessário entre nós precisava cair. Por isso, decidi encarar a situação de frente.
A compostura de Hiyori se desfez quase instantaneamente. Seus olhos, que tentavam encontrar os meus, desviaram-se e seus lábios se apertaram firmemente.
“Eu… não posso dizer que não me incomoda. Fiquei me perguntando se, ao te convidar, acabei te afastando, Ayanokoji-kun…”
“Isso não é típico de você. Você deveria saber que algo assim é impossível, certo?”
A Hiyori que eu conhecia era sempre tranquila, inabalável, alguém com um coração firme e um olhar claro que conseguia enxergar através do barulho.
Eu presumi que ela entenderia, sem que eu dissesse uma palavra, que minha mudança da Classe A para a Classe C tinha seu próprio propósito, um propósito que eu só poderia alcançar lá.
Só porque recebi um convite para transferência, não havia como me distanciar dela.
Mas ainda assim, o fato permanecia: eu tinha demorado muito para vê-la.
“Quero me desculpar. Por não ter aceitado a transferência para a Classe B e por ter demorado tanto para explicar o motivo. Essa demora só causou mal-entendidos.”
Hiyori ouviu em silêncio, absorvendo minhas palavras antes de balançar a cabeça.
“Não… Ayanokoji-kun, você não fez nada de errado” disse ela, balançando a cabeça. “Toda essa questão da transferência de classe… foi só eu tendo expectativas egoístas, só isso. E mesmo pensando… que talvez o motivo de você não ter vindo me ver fosse por causa de algo meu… eu ainda não consegui me obrigar a ir te ver. Por favor… deixe-me me desculpar por isso.”
Quando essas palavras saíram de seus lábios, a parte de seu corpo ainda escondida atrás da estante emergiu lentamente.
Então, com lentidão deliberada, ela abaixou a cabeça, cada vez mais, até que pareceu que não conseguia mais se curvar.
Mesmo que Hiyori não tivesse nada do que se desculpar.
Dito isso, continuar com esse vai e vem de desculpas aqui não levaria a nada produtivo.
“Eu pensei…” ela começou, com a voz trêmula, “eu pensei que já tivesse me preparado para isso…”
“Preparou-se?”
“Que você e eu estamos em turmas diferentes agora” continuou ela, olhando para o chão. “Que talvez… não devêssemos mais conversar tão casualmente. Que eu devesse terminar essa parte do nosso relacionamento. Mas agora… falando com você assim… eu não posso…” Sua voz sumiu, sufocada pela hesitação.
Então era isso, ela estava tentando cortar nossa amizade, para se forçar a me ver como nada mais que um oponente.
Ao ouvir isso, senti uma onda de alívio me invadir. Eu tinha chegado a tempo.
“Se não se importa, Hiyori” eu disse, encontrando seu olhar, “por que não conversamos sobre o último mês em que estivemos separados? Tenho bastante tempo hoje.”
“…Tudo bem para você mesmo?”
“Claro” respondi sem hesitar. “Vim aqui hoje para te ver e conversar com você, Hiyori.”
Quando lhe transmiti meus sentimentos sinceros, pela primeira vez naquele dia, vi um sorriso gentil surgir em seu rosto.