Capítulo 4
Convergência
O amanhecer surgiu sobre o acampamento. Pouco depois das seis da manhã, horário em que a maioria dos estudantes ainda dormia em suas barracas.
O primeiro a sair de uma barraca individual e respirar o ar fresco da manhã foi Ryūen Kakeru, líder da Classe B.
O ar fresco da manhã roçava sua pele enquanto ele desdobrava um mapa, estendendo-o ao lado da barraca. Estudou-o em silêncio, refazendo as coordenadas de GPS registradas no final do dia anterior. Com a mente revigorada por algumas horas de descanso, observou atentamente a localização de cada turma.
O que ocupara seus pensamentos durante a noite e continuava a ocupá-los agora, era contra quem lutar. E como.
Para, no final, se destacar entre as outras três classes, qual caminho levaria a isso?
Como executar seus movimentos hoje? Ele precisava definir esses objetivos imediatos até as 9h da manhã.
As primeiras a serem descartadas foram as Classes A e D, entrincheiradas respectivamente nas regiões norte e leste. Suas posições eram estáveis, distantes e por ora não vantajosas para um confronto.
O que importava era o sudoeste.
A área ao redor da sede, onde dois grupos haviam se formado: sua própria turma e a Turma C.
Após a emboscada bem-sucedida, Ryūen dedicou todos os recursos disponíveis aos eventos. Ele exigiu muito de seus colegas, enviando-os repetidamente para garantir suprimentos, priorizando o ritmo em detrimento do descanso.
Mesmo assim, os alimentos continuaram sendo perpetuamente escassos.
Para manter o número total de alunos, a participação ativa nos eventos era inevitável. E embora a Turma C tivesse sofrido uma redução significativa de pessoal, o fato de não terem conseguido garantir suprimentos suficientes significava que sua situação não era melhor.
Ryūen compreendeu que aquilo não fora um acidente.
Foi uma calibração deliberada por parte da escola.
Uma pressão lenta, concebida para induzir ao desgaste, para fazer com que a fome e a fadiga corroam o discernimento, para impulsionar os alunos à agressão. Ao conflito.
Ainda assim, os alunos não eram tolos.
Eles ponderaram o perigo do combate contra o conteúdo incerto das caixas de suprimentos, e muitos optaram pela resistência em vez do risco. Perder um VIP ou vários guardas era um preço alto demais. Pelo menos no primeiro dia, a contenção prevaleceu.
Mas e quanto ao segundo?
Tudo dependia das novas zonas restritas — onde elas apareceriam, quanto território elas abrangeriam.
A Classe C estava atualmente entrincheirada perto do quartel-general, evitando confrontos. Mas se a área utilizável fosse reduzida à força, sua rota de fuga acabaria desaparecendo. Encurralados, eles poderiam finalmente se render a uma batalha total.
Os lábios de Ryūen se curvaram levemente.
“Nós te encurralamos” ele murmurou baixinho. “Então, o que você vai fazer… Ayanokōji?”
Ao menos uma coisa era certa.
Ryūen não tinha intenção de jogar na defesa indefinidamente.
Idealmente, ele queria lançar um ataque decisivo contra a Classe C, esmagá-los completamente, relegá-los direto ao último lugar. Com Ayanokōji ainda de pé, não seria fácil, mas, nas condições atuais, ele calculava suas chances de vitória em noventa e nove por cento.
Mas essa confiança vinha com uma ressalva: somente se o exame especial terminasse imediatamente depois.
Se a Classe C fosse eliminada agora, as forças restantes teriam que enfrentar as Classes A e D posteriormente. E enfrentar essas duas com efetivos reduzidos seria tudo menos simples.
“Eu poderia esmagar aquele monstro da Classe A em primeiro lugar… mas isso só deixaria os oportunistas felizes.”
Se duas classes se enfrentassem violentamente, as duas restantes lucrariam sem mover um dedo. Era uma verdade simples.
“Você acordou cedo.”
Ao perceber movimento, Katsuragi saiu da tenda e aproximou-se, falando baixo para não perturbar os outros. Parou ao lado de Ryūen, seguindo seu olhar.
“Ainda estou pensando em qual turma escolher?”
Ryūen soltou uma risada curta, daquelas que carregavam calor em vez de humor. Katsuragi podia sentir, aquilo não era mera contemplação. Havia sangue no ar, e Ryūen estava apreciando o aroma.
“Algo assim” respondeu Ryūen. “Embora meu verdadeiro alvo não tenha mudado. Sempre foi a Classe C.”
“Ser beligerante é bom e tudo mais, mas pense nisso…” Katsuragi cruzou os braços. “Se ficarmos tranquilos, o tempo fará o trabalho por nós. A escassez de suprimentos, combinada com a redução das zonas utilizáveis, inevitavelmente forçará todos ao combate. Obtivemos uma vantagem significativa com o ataque surpresa de ontem à Classe C. Por que desperdiçá-la com uma agressão prematura?”
Ryūen não respondeu imediatamente. Em vez disso, olhou para os suprimentos dispostos em frente à tenda — o pouco que haviam conseguido obter apesar de seus esforços.
“Você não está errado” disse ele finalmente. “Manter nossa vantagem numérica não é uma coisa ruim. Ora, temos a iniciativa a partir desta posição. Mas há um porém.”
Ele ergueu o olhar, com os olhos penetrantes.
“Ontem, usamos nossa principal carta tática para tomar a iniciativa. Isso significa que a Classe C ainda tem a sua. Enquanto a tiverem, podem fazer o mesmo tipo de emboscada que nós fizemos. Atacar antes que isso aconteça é uma opção. E mesmo que Ayanokōji decida que não pode lutar e queime sua tática só para escapar? Isso ainda é uma vitória para nós.”
Ryūen gesticulou novamente em direção aos suprimentos, quase com desdém.
“E a fome não se importa com estratégia. Uma vez que ela se instala, a resistência cai, quer você queira ou não. Ver um bando de idiotas perder a única coisa em que são bons, essa vantagem física, é frustrante.”
Na Classe B, não faltavam comedores vorazes. No momento, sua força era abundante. Mas Ryūen entendia melhor do que a maioria o quão rápido essa vantagem poderia se dissipar.
Quanto mais tempo isso se prolongasse, mais fina ficaria aquela borda.
Katsuragi ouviu em silêncio, de braços cruzados, analisando cuidadosamente o raciocínio de Ryūen. Ele conseguia ver a lógica nele, nada era irracional, mesmo que tendesse ao agressivo.
“…Verdade” disse ele finalmente. “Assim que distribuirmos os suprimentos para o café da manhã, o que estocamos estará quase no fim. Ao mesmo tempo, enviar os alunos para buscar mais comida enquanto estão com fome traz seus próprios riscos. Mesmo assim, é exatamente por isso que acredito que o segundo dia deva ser priorizado para a recuperação do evento.”
Katsuragi havia chegado à mesma conclusão depois de conversar sobre o assunto com Ryūen na noite anterior.
Essa opinião não havia mudado até a manhã seguinte. Mesmo agora, ele acreditava que a estratégia deles deveria permanecer fundamentalmente defensiva, e expressou essa convicção sem hesitar.
“A única turma que deveria estar se sentindo pressionada agora é a Turma C” disse Katsuragi calmamente. “Não há necessidade de se esforçar demais. Fique de olho nos outros, isso também fazia parte do seu plano original, não é?”
Ele entendia melhor do que a maioria que Ryūen não era alheio aos riscos de um ataque. A imprudência não era o problema. O que impedia Katsuragi de apoiar totalmente um ataque era a fixação anormal de Ryūen pela Classe C.
Mais precisamente, era sua obsessão em esmagar Ayanokōji.
Essa determinação obstinada carregava o perigo de se voltar para dentro, de se tornar um fim em si mesmo em vez de um meio para a vitória.
“É estranho” murmurou Ryūen, com os olhos ainda fixos nos marcadores ao sul no mapa. “Eles foram duramente atingidos, metade da turma foi dizimada naquela emboscada. E, no entanto… olhando para isso, não consigo ver Ayanokōji enfraquecendo nem um pouco.”
Katsuragi seguiu seu olhar e assentiu uma vez, lentamente.
“O medo de um inimigo invisível. Quanto mais forte for seu oponente, mais sua mente cria ameaças que podem não existir. Você começa a imaginar maneiras pelas quais ele poderia te superar, possibilidades que você jamais consideraria contra qualquer outra pessoa.”
Ryūen podia aceitar parte dessa avaliação. Ele sabia que havia um elemento de excesso de reflexão envolvido. Mas anos de batalhas, dois anos inteiros de testes e confrontos constantes, haviam lhe ensinado uma lição sem sombra de dúvida.
Nota do tradutor: A expressão「嫌というほど思い知らされている」é fortemente enfática, sugerindo que a compreensão foi tão profundamente martelada que se tornou desagradável e impossível de esquecer.
Um plano poderia ter sucesso. Danos poderiam ser causados.
No entanto, isso não significava que o adversário estivesse acabado.
A emboscada funcionou. Provou que Ayanokōji tinha pontos fracos. Mas esses pontos fracos eram minúsculos, fissuras não maiores que uma rachadura fina.
Explorá-los novamente seria completamente diferente do primeiro ataque. A dificuldade era incomparável.
“De qualquer forma, não se prenda muito à Classe C” insistiu Katsuragi. “Se você realmente não consegue suprimir a vontade de lutar, redirecione-a, por enquanto, para a Classe A. Não podemos nos tornar a Classe A sem derrubar aqueles que estão acima de nós.”
“Talvez você tenha razão” disse Ryūen.
Ele finalmente desviou o olhar do mapa e olhou para cima, em direção às copas das árvores que começavam a brilhar com os primeiros raios de sol da manhã. A floresta estava silenciosa, quase serena, um contraste perturbador com os cálculos que fervilhavam sob sua copa.
*****
Eram exatamente 9h da manhã do segundo dia.
Com a retomada oficial do exame, o primeiro relatório chegou do comandante, Shimazaki, encaminhado pelo VIP, Shiraishi. Das seis da tarde às nove da manhã daquele dia, oficialmente fora do horário de prova, todos os dados de GPS permaneceram suspensos.
Dito isso, não havia muitos motivos para alarme. Os alunos deveriam retomar na mesma área que haviam ocupado às seis da tarde anterior, então, a menos que uma turma inimiga tivesse escolhido deliberadamente permanecer na mesma zona, não havia perigo imediato com que se preocupar.
“Parece que todas as posições de GPS foram atualizadas” relatou Shiraishi calmamente. “Sem ninguém desaparecido, tudo indica que todos permaneceram em suas respectivas áreas, com apenas movimentos mínimos registrados. Kōenji-kun, que está separado da Classe A, também está presente, ele está no D6.”
Eu esperava que alguém reclamasse de exaustão ou mal-estar após o primeiro dia, mas parece que todos conseguiram passar a noite sem incidentes.
“Então ele realmente atravessou montanhas e rios em um único dia, hein?” murmurou Hashimoto. “E agora ele está simplesmente… curtindo a vida por lá. Não tem como ele ter comida extra. Do que será que ele está se alimentando? Não me diga que ele está vivendo da terra.”
Não sou exatamente um especialista em plantas nativas desta ilha desabitada, mas não vi muitas que pudessem fornecer nutrição substancial. Seria possível pescar no oceano, mas não há varas de pesca entre os itens fornecidos desta vez. Isso significaria que teria que ser algo que ele pudesse encontrar na costa, mas pelo que vi de seus movimentos ontem, suas coordenadas de GPS não chegaram ao litoral.
“Bem, de qualquer forma, sem saber nenhuma senha, ele não consegue obter suprimentos adicionais” continuou Hashimoto. “É melhor deixá-lo em paz.”
Não está claro se ele se tornará ou não uma ameaça, mas é certo que não há nenhum benefício em nos envolvermos com ele.
“Kōenji, hein…”
Eu secretamente esperava que ele pudesse ter se eliminado voluntariamente durante o tempo livre. Aparentemente, não.
“Algo está te incomodando?” perguntou Shiraishi, inclinando levemente a cabeça. “Como o Hashimoto-kun disse, não seria melhor simplesmente ignorá-lo?”
“Essa é a nossa conclusão em comum, sim” respondi. “Mas ainda tem algo nisso que parece… estranho. Não entendo por que ele ainda não desistiu.”
“Você sempre achou que ele não estava levando o exame a sério, não é?”
“Seria mais preciso dizer que foi assim que o vi ” corrigi. “Por isso, esperava que ele já tivesse se eliminado esta manhã. Ou, no mínimo, que tivesse ido ao quartel-general durante a noite.”
Em vez disso, sua posição atual o colocava no interior da ilha, longe da base.
“Ele provavelmente pensa que isso é algum tipo de férias” Hashimoto deu de ombros. “Ele é esse tipo de pessoa.”
“E, no entanto, este local é o mesmo do ano passado” eu disse baixinho. “Não deveria haver nenhuma novidade aqui para ele.”
Será que ele realmente iria cooperar com Horikita e levar esse exame especial a sério…?
Não era impossível. Mas mesmo agora, as chances pareciam pequenas.
Essa é a minha linha de raciocínio, baseada na minha análise do aluno Kōenji Rokusuke.
“Não é uma perda de tempo ficar pensando nisso?” disse Hashimoto, dando de ombros. “Mesmo se — e isso é um grande ‘se ’ — ele de repente ficasse sério, não teríamos como saber. Ele é só um cara. Enquanto não cruzarmos com ele, não é exatamente um problema, certo?”
Foi uma opinião razoável.
Sem contato com o comandante, Kōenji não tinha como saber as posições dos aliados nem as dos inimigos. Mesmo que tivesse vontade de lutar, procurar ativamente os oponentes seria praticamente impossível. Desse ponto de vista, bastava rastrear sua localização por GPS. Enquanto soubéssemos onde ele estava, poderíamos controlá-lo como se não fosse um problema.
Em princípio, essa lógica era válida.
Mas havia exceções — exceções que não podiam ser ignoradas.
Encontros fortuitos, por exemplo. Esses eram inevitáveis por natureza.
E havia ainda outra possibilidade: mesmo que Kōenji não estivesse motivado agora, Horikita poderia mais tarde tentar motivá-lo, inseri-lo no ritmo do exame.
Desconsiderá-lo como ‘apenas mais uma pessoa’ seria um erro.
Ele era alguém para se ter em mente em todos os momentos.
“Como estão todos?” perguntei, mudando de assunto.
“Sinceramente? Eu não diria que foi ótimo” respondeu Hashimoto. “Quer dizer, estou com fome. Muita fome.”
Ainda tínhamos comida do que havíamos conseguido ontem. Se quiséssemos, poderíamos usar tudo e matar a fome temporariamente. Mas esse alívio momentâneo teria um custo para o amanhã e para o dia seguinte. Qualquer consumo desnecessário agora só agravaria a situação mais tarde.
“A menos que outra turma comece a fazer movimentos suspeitos” eu disse “permaneceremos em alerta até o próximo evento.”
Com essa política provisória definida, reiterei mais uma vez de forma clara e deliberada tanto para Shiraishi quanto para Takemoto, a importância de manter uma estreita coordenação entre o comandante e as autoridades.
*****
Às onze horas da manhã, a turma D havia chegado a um ponto de virada tranquilo.
A intenção de evitar conflitos o máximo possível — uma abordagem à qual se apegaram desde o início — começou a ruir a partir desse momento.
Kanzaki ficou ao lado de Andō, olhando fixamente para o tablet que o analista estava operando, e percebeu que estava prendendo a respiração sem se dar conta.
Os locais de entrega de suprimentos recém-anunciados foram exibidos em um texto claro e direto:
E4, E9, G8, G11, H5, J8, J13, K3, M12, N9, O14.
E então havia algo mais.
Algo inegavelmente diferente de ontem.
Grandes porções do mapa, numerosas demais para serem ignoradas, haviam sido sobrepostas em cinza.
Até mesmo o ponto de abastecimento O14, um dos recém-anunciados, teve sua cobertura parcial.

“…Ei, Kanzaki” murmurou alguém ao lado dele, sem conseguir disfarçar o tremor na voz. “Isso significa… o que eu acho que significa, certo?”
“É cedo demais para sermos definitivos” respondeu Kanzaki, embora seu tom demonstrasse pouca convicção. “Mas se o mesmo mecanismo se repetir da próxima vez, a probabilidade aumenta drasticamente.”
Segundo dia. Onze da manhã. O quinto evento no geral.
A suposição tácita de que hoje seria uma repetição do padrão de ontem, com mais quatro eventos ocorrendo da mesma maneira, agora tinha uma luz amarela de alerta piscando insistentemente ao lado.
O mapa estava dividido em uma grade de 15×15. Naturalmente, a maioria dos quadrados mais externos eram oceano. E agora, havia sido anunciado que cada um desses quadrados externos se tornaria uma área restrita em uma hora.
Quando essa hora passasse, o cinza se transformaria em um breu total.
Entrar nessas zonas acionaria uma regra que não admitia erros: permanecesse lá dentro por cinco minutos e você estaria fora.
Se fosse só isso, seria administrável. Um mero inconveniente, nada mais.
Mas a verdadeira questão estava por vir, duas horas depois no próximo evento.
E se a mesma coisa acontecesse de novo?
Se o anel externo fosse restringido mais uma vez.
Isso significaria que, a cada evento, o mapa encolheria silenciosa e inexoravelmente uma camada de cada vez, descascando de dentro para fora a partir das bordas.
Hoje. Amanhã. Depois de amanhã.
Excluindo este, ainda restavam dez eventos.
Era improvável, talvez até irrazoável, supor que o perímetro diminuiria a cada vez. Mas se a regra fundamental não mudasse, mais cedo ou mais tarde, todas as quatro classes seriam forçadas a se deslocar para o centro.
E quando isso acontecesse, o inimigo deixaria de ser apenas formas distantes em uma tela.
Estariam perto o suficiente para estender a mão e tocar.
“…Não há mais como evitar o combate” murmurou Kanzaki.
Uma sombra densa pairava sobre a Classe D.
Seu objetivo principal era simples: permanecer na área leste, manter distância das outras três classes e sobreviver até o fim.
Esse plano agora começava a ruir pelas bordas.
“Se as zonas restritas aumentarem mais uma ou duas vezes hoje” continuou Kanzaki, pensando em voz alta, “então precisaremos considerar seriamente uma grande mudança de local.”
O retorno do norte para as zonas centrais exigiria um longo desvio. Pior ainda, a Classe A estava posicionada na área norte, o que aumentava o risco de emboscadas. Mas avançar muito para o sul muito cedo também trazia seus problemas; o terreno ali não era ideal para coletar suprimentos do evento de forma eficiente.
Não havia uma solução simples.
Kanzaki não conseguia desviar os olhos do tablet enquanto seus pensamentos giravam em espiral, num ciclo interminável sem se acalmarem.
“Kanzaki-kun.”
Seu ombro tremeu levemente.
Ele piscou, percebendo que seu nome havia sido chamado mais de uma vez.
“Desculpe” disse ele, levantando a cabeça. “O que foi?”
“Acabei de falar com a Honami-chan” respondeu Andō. “Ela disse que vai pensar no plano sozinha, então não precisamos nos preocupar.”
A coincidência foi impressionante.
Como se Ichinose tivesse pressentido a crescente confusão de Kanzaki à distância, sua mensagem chegou precisamente quando seus pensamentos ameaçavam desmoronar.
“Ela quer que nos concentremos, antes de mais nada, no evento que está bem à nossa frente.”
“…Sim”, respondeu Kanzaki após uma breve pausa. “Faz sentido.”
“E sobre a O14” acrescentou Andō cuidadosamente, batendo na borda do tablet “ela diz que não devemos nos esforçar demais se houver o mínimo sinal de perigo.”
Essa advertência tinha peso.
Da posição atual, seguir em direção a O14 e depois lutar para localizar os suprimentos consumiria um tempo precioso. Se errassem o cálculo, mesmo que minimamente, poderiam se encontrar ainda dentro da área quando a restrição fosse ativada e, uma vez ativado, a eliminação seria inevitável.
“Por agora, vamos garantir o que pudermos” disse Kanzaki, firmando a voz. “O14 tem muito pouca área. Isso na verdade joga a nosso favor, o ponto de abastecimento em si deve ser mais fácil de encontrar.”
Ficar parado só faria o tempo passar mais devagar. Hesitar, nesse caso, significava perder uma oportunidade antes mesmo que ela realmente começasse.
“…Vamos nos dividir imediatamente em três grupos e sair para buscar os suprimentos.”
A decisão não foi dramática. Não dependeu de jogadas ousadas ou truques inteligentes. Mas foi sólida.
Eles repetiriam o que havia funcionado, com cuidado e método, e se apegariam a um único objetivo imutável: reunir recursos suficientes para garantir que todos sobrevivessem ao dia.
*****
Entre 11h28 e 11h29, enquanto o ponteiro dos segundos avançava quase imperceptivelmente, a Classe B já estava em movimento.
Seguindo as ordens de Ryūen, eles se dividiram claramente em três forças: duas equipes de dez pessoas enviadas para garantir suprimentos e a unidade principal encarregada de manter a Classe C sob controle. Uma dessas equipes de suprimentos, liderada por Komiya, com o VIP Morofuji a reboque, avançava em direção ao ponto de suprimentos que havia aparecido em E9.
Em circunstâncias normais, o E9 era tão gratuito quanto um local poderia ser.
Ficava muito longe da Classe A, numa posição muito desfavorável para a Classe C disputar sem se expor demais. Do ponto de vista da Classe B, deveria ter sido uma aquisição fácil, quase uma formalidade.
Mas, pouco antes de o relógio marcar onze horas, surgiu uma única preocupação.
Às nove horas daquela manhã, havia um único sinal de GPS, separado da Classe A, isolado na área D6.
E agora, por pura coincidência, aquele mesmo sinal parecia estar se movendo na direção deles.
“Relatório R” disse Morofuji, repassando as informações de Kaneda com um traço de incerteza na voz. “Aquele GPS solitário… parece que ainda está indo para cá.”
Komiya nem sequer diminuiu o passo.
“Indo para cá ou não, é só uma pessoa, certo?” disse ele com leveza. “Ele não sabe onde estamos. E se por acaso o encontrarmos, atiramos. Simples assim.”
Com nove guardas, dez pessoas no total, sem contar o VIP, não havia cenário realista em que eles perdessem. Komiya falava com a confiança tranquila de alguém que acreditava que os números por si só resolviam a questão.
“Mas… provavelmente é o Kōenji-kun, certo?” murmurou um dos alunos. “Ele é… perigoso. Pelo menos, como pessoa.”
“Não importa” interrompeu Komiya. “Isso não é uma briga de rua. É pega-pega de sobrevivência. Uma bala é uma bala, não importa quem atira. Não precisa pensar demais. O que importa é pegar os suprimentos rápido e voltar para a unidade principal.”
Ele lançou um breve olhar na direção sudoeste, onde a força principal mantinha a Classe C sob controle.
“Se a Classe C fizer uma movimentação repentina, as coisas podem ficar complicadas.”
A diferença numérica entre a equipe principal da Classe B e a da Classe C era pequena, pequena demais para ser ignorada. Se Ayanokōji calculasse o momento certo, poderia aproveitar a oportunidade e transformar a defesa em ataque num único golpe.
Foi exatamente por isso que Ryūen ordenou que eles retornassem assim que os suprimentos estivessem seguros.
“O que… o que devemos fazer, Oda-kun…? Será que realmente podemos deixá-lo ir assim?” perguntou Morofuji.
Ao ser chamado pelo nome, Oda hesitou por um breve momento. Ele ponderou a situação e então tomou sua decisão, dizendo para contatar Ryūen através de Kaneda e pedir instruções, antes de optar por seguir Komiya pessoalmente.
Morofuji, incapaz de esconder seu desconforto, mexia no rádio repetidamente.
No entanto…
“Não adianta. Ele deve estar falando com outra pessoa agora, porque não consigo completar a ligação de jeito nenhum.”
O comandante era apenas uma pessoa. Quando as comunicações se sobrepunham às de uma pessoa importante, a linha simplesmente não funcionava. Sempre que o comandante estava ocupado, uma lacuna inevitável se abria, um silêncio constrangedor onde nenhuma instrução podia ser recebida.
“Viu? Você está se preocupando demais” disse Komiya com um sorriso. “Se a gente se deparar com ele, eu só vou acertar um tiro direto no coração dele. Esse bebê aqui já eliminou quatro pessoas na emboscada!”
Rindo alto, Komiya fez uma pose exagerada com a espingarda nas mãos, como se estivesse exibindo uma companheira valiosa.
Rindo, Komiya segurou sua espingarda e fez uma pose como se quisesse se exibir.
“Onde você está, Kōenji?!”
Ele gritou para as árvores, demonstrando confiança deliberadamente, e então começou a correr, balançando o cano da espingarda para a esquerda e para a direita.
“Aqui?! Ou talvez aqui?!”
Bang!
Bang!
Duas explosões ensurdecedoras ecoaram pela floresta escura à frente.
“Ei, não desperdice muitas balas~”
“Hehe, um pouquinho não faz mal, né? Ele pode estar se escondendo, sabia?”
Ainda sorrindo, ele retirou o carregador e começou a recarregar, com as mãos habilidosas e tranquilas.
“Ele está ficando muito arrogante” disse Yamawaki com uma risadinha, inclinando-se na direção de Kinoshita enquanto caminhavam. “Isso é praticamente um sinal de que ele vai se dar mal, não é?”
Kinoshita suspirou baixinho.
“Os homens são mesmo estúpidos” murmurou ela, encarando o fuzil de assalto em suas mãos com um olhar frio. “Achar que esse tipo de coisa é divertido.”
“E, no entanto” disse Yamawaki com um sorriso torto, “quando atacamos a Classe C, você parecia estar se divertindo muito apertando o gatilho. Eu vi com meus próprios olhos.”
“I-isso foi diferente” protestou Kinoshita, constrangido. “Quer dizer, como posso dizer… eu simplesmente me deixei levar pelo momento…”
Ao perceber que havia sido flagrada revelando um lado inesperado de si mesma, as bochechas de Kinoshita coraram. Ela ergueu a mão e deu um tapa seco no ombro de Yamawaki.
“Ai…!”
Um grito de dor ecoou.
“Hã?!”
Kinoshita piscou. Ela não tinha atingido com tanta força, ou pelo menos era o que pensava. Mas a voz não era de Yamawaki.
Era Komiya.
O rapaz que caminhava na frente de repente desabou, caindo de cócoras como se suas pernas tivessem cedido. Ao mesmo tempo, a espingarda que ele segurava escorregou de sua mão e caiu no chão com um estrondo.
Por um instante, os alunos atrás dele ficaram paralisados, incapazes de processar o que estavam vendo.
“Ei, Komiya, o que você está…”
Antes que Yamawaki pudesse terminar, uma dor aguda atravessou o abdômen de Kinoshita.
Pow.
Primeiro veio o som, depois a sensação, um impacto que se espalhou por seu estômago, seguido pela sensação úmida e desagradável do líquido respingando em suas roupas.
“Ah…!”
A força em si não era avassaladora. O que arrancou o grito de seus lábios foi o choque puro, algo que ela jamais havia previsto.
Foi então que Yamawaki finalmente entendeu.
“Droga…! Fomos alvejados! Há um inimigo aqui!!”
Seu grito cortou a floresta como um sinalizador.
Como se desencadeadas pelo grito de Yamawaki, bolas de tinta também atingiram o flanco de Yabu, que estava parado ali atordoado. Outra bola de tinta atingiu a coxa esquerda de Sonoda, e seu relógio de pulso emitiu um sinal estridente de alerta, declarando-o fora de combate.
Só então o pânico realmente se instalou.
Os alunos restantes ergueram apressadamente suas armas de tinta, com os olhos atentos para a esquerda e para a direita, examinando as árvores e a vegetação rasteira à frente, tentando desesperadamente localizar o agressor.
Mas por mais que procurassem, não conseguiam ver ninguém.
“Tem que ser o Kōenji!” alguém gritou. “Ele está perto… tem que ser! Onde diabos está o Kaneda?! Por que ele não está nos avisando?!”
O medo e a frustração transbordaram de uma vez, e a raiva se voltou contra o comandante que não os havia avisado de que o perigo já estava sobre eles.
“Ainda não conseguimos contato, nada conecta!!”
“Que diabos está acontecendo?!”
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O pânico começou a transparecer em suas vozes, mas mesmo enquanto gritavam, os guardas restantes agiram por instinto, fechando sua formação em torno de Morofuji, o VIP, formando um escudo humano improvisado.
Mas por mais que procurassem, nada de Kōenji, nenhuma silhueta, nem mesmo o mais tênue indício de presença.
“De onde está vindo isso?!”
“Não sei!”
Um barulho seco cortou o ar, e quando alguém percebeu o som, outro projétil de tinta já havia atingido a pele.
Não houve tiros desperdiçados. Nenhuma hesitação. Cada disparo atingiu o alvo com uma precisão arrepiante.
Outro tiro veio, silencioso, repentino e Yamawaki foi atingido novamente.
Usando o ponto de impacto como pista, os quatro estudantes que ainda estavam de pé apontaram suas armas na direção presumida e revidaram numa saraivada desesperada.
Mas, mais uma vez, não havia nada.
Nenhum movimento. Nenhuma sombra. Nenhum inimigo.
“Por que você está nos atacando, Kōenji?!” gritou Komiya, com a voz embargada, ecoando pela floresta deserta. Ele já havia saído, mas a incredulidade o dominou. “Somos inimigos, claro, mas… você não deveria estar levando este exame a sério.”
A lógica por trás disso pouco importava. O que mais os perturbava era que aquilo não deveria estar acontecendo.
“É só uma pessoa, né?” Nishino murmurou, soltando um suspiro pesado. “Não tem como a gente perder para uma só.”
Antes que alguém pudesse impedi-la, ela se desvencilhou do grupo, correndo na direção de onde eles achavam que os tiros estavam vindo.
“Espere, Nishino…!”
O aviso de Oda chegou um segundo tarde demais.
Uma bala de tinta a atingiu no meio da corrida. Ela cambaleou, o choque a fez perder o equilíbrio e ela caiu com força no chão.
Menos de trinta segundos.
Foi só isso que bastou.
Seis alunos já haviam saído.
A ficha caiu para a Turma B como um soco no estômago, provocando tremores visíveis naqueles que ainda estavam de pé.
Agora, eles disparavam descontroladamente, sem mirar, apenas apertando os gatilhos. A tinta espirrava nos troncos das árvores, na terra, nas folhas, explodindo inutilmente no chão da floresta.
“Onde você está?!”
“Você está aqui, não é, Kōenji?!”
“Eu… eu não sei mais!”
Um a um, eles caíram.
Os oito guardas que formavam um círculo ao redor de Morofuji foram eliminados em rápida sucessão, seus relógios soando a derrota quase em tom de deboche a cada eliminação.
“O quê… o que está acontecendo…?”
Suzuki ficou paralisada, encarando as consequências, os colegas de classe caindo sem sequer ver o rosto do agressor.

Assim que a voz de Kaneda chegou a Morofuji pelo rádio, o ombro de Suzuki foi atingido em cheio, e seu relógio de pulso disparou um alerta quando ele foi eliminado.
A proteção em torno do VIP se desfez em um instante.
Morofuji virou-se e correu em pânico, mas seus pés se enroscaram antes de ela cair com força no chão.
“M-Morofuji! Ele está aqui, ele está vindo! Corra!”
Da direção daquele grito desesperado, surgiu Kōenji.
Ele não se apressou. Não se escondeu. Simplesmente caminhou para a frente, com a postura relaxada, como se fosse apenas um passeio casual.
Em um movimento rápido, Morofuji agarrou uma arma que havia sido deixada cair por um aliado caído e apontou-a para ele.
“N-Não chegue mais perto!”
“Você é a VIP, não é?” disse Kōenji calmamente. “Se você revidar, só vai ser eliminada desnecessariamente.”
Enquanto falava com uma compostura irritante, Komiya se obrigou a ficar de pé e avançou em sua direção.
“Que diabos você está tentando fazer?!”
“Não há nada a explicar” respondeu Kōenji sem irritação. “Eu sou da Classe A. Você é da Classe B. Somos inimigos.”
“I-Isso é…! Mas você está sozinho! Como você nos encontrou?!”
“Puxa vida” suspirou Kōenji. “Eu não tinha a menor intenção de cruzar o seu caminho. No entanto, quando se ouve vozes tão desagradáveis e tiros em meio a essa natureza grandiosa, é impossível não notar. Estou errado?”
Os gritos imprudentes de Komiya. Os tiros disparados em tom de bravata, que ecoavam.
Foram esses sons que o atraíram para cá.
“Eu já tinha passado um dia inteiro aproveitando esta ilha” continuou Kōenji. “Eu estava prestes a voltar para o barco.”
Ele ergueu seu fuzil de assalto e sorriu.
“Mas pensei em experimentar primeiro. Só isso.”
“Droga! A culpa é sua, Komiya!”
“D-Desculpe…”
“Não o culpe com tanta severidade” disse Kōenji, agradecido. “Graças a ele, eu me diverti bastante.”
Ele apontou o rifle na direção de Morofuji.
“Depois que você experimenta, esse jogo de sobrevivência é bem divertido.”
Kōenji, que havia expressado tanta gratidão, apontou o cano da arma para ela.
Certa de seu destino, Morofuji fechou os olhos.
Mas a bala nunca veio.
“Você veio porque há suprimentos por aqui, certo?”
“I-Isso é…”
“Sugiro que responda honestamente. Isso lhe será mais útil.”
“…S-Sim. Há balas aqui… então viemos buscá-las…”
“Entendo. Então você deve recuperar os suprimentos e leva-los de volta para a Sala B.”
“O que você quer dizer?”
“Ser derrotada por mim não passou de um azar” disse Kōenji com leveza.
“Seria cruel atormentar apenas a Classe B sem motivo.”
“Não caia nessa, Morofuji!” gritou um dos alunos eliminados. “No momento em que você abrir aquela caixa, ele vai atirar em você pelas costas! Kōenji só quer a munição!”
“S-Sim…!” Morofuji assentiu freneticamente, agarrando-se ao aviso como a uma tábua de salvação.
Observando a cena se desenrolar, Kōenji soltou um suspiro silencioso, leve, quase cansado.
“Meu Deus” disse ele. “Isso está completamente longe da verdade.”
Ele falou sem demonstrar irritação na voz.
“Se eu ganhar ou perder este exame especial, para mim não tem a menor importância. Não tenho interesse em eliminar o VIP aqui, nem em obter suprimentos.”
Seu olhar se desviou brevemente para Morofuji.
“No entanto, para você, os pontos VIP são muito importantes, não são? O mesmo vale para os suprimentos.”
Ele deu de ombros levemente.
“Bem, deixa pra lá.”
Dito isso, Kōenji se virou e começou a se afastar.
“E-Espere…!” Morofuji exclamou. “Você está mesmo… me deixando ir?”
“Você é bastante persistente” respondeu Kōenji, parando apenas o suficiente para olhar para trás.
“Se é que desejas tanto assim, que eu te elimine aqui e te mande para casa?”
O fuzil de assalto ergueu-se suavemente, com o cano apontado diretamente para Morofuji.
A resposta veio instantaneamente: Morofuji balançou a cabeça violentamente, o pânico tomando conta de sua expressão.
“Muito bem” disse Kōenji, abaixando a arma. “Então, irei embora.”
Ele voltou a andar.
“Só tenha certeza de não me atrapalhar mais. Acho que já está na hora de eu voltar para o navio.”
À sua maneira, era a forma de misericórdia de Kōenji.
E, ao mesmo tempo, era um aviso absoluto, que jamais deveria ser desrespeitado.
*****
Aproximadamente trinta minutos antes da onda repentina de eliminações atingir a Classe B
Exatamente às onze da manhã, a Classe C iniciou o primeiro período de eventos do segundo dia. No momento em que soubemos que todos os quadrados ao longo do perímetro externo da ilha haviam sido designados como áreas proibidas, convocamos imediatamente uma nova reunião de estratégia.
Mesmo levando em conta que grande parte do perímetro externo era oceano, o número ainda era alarmante: cinquenta e seis quadrados, desaparecidos de uma só vez.
A compreensão se espalhou pelo grupo, a surpresa estampada em cada rosto.
“Então as zonas restritas podem continuar se expandindo para dentro…?” Hashimoto murmurou, expressando a hipótese à medida que ela se formava.
Morishita ofereceu imediatamente um suplemento.
“Não é um cenário improvável. Se continuar a encolher até restar apenas uma área, o conflito torna-se inevitável. Suponho que Ayanokōji Kiyotaka provavelmente veja da mesma forma?”
Era um mecanismo simples — brutal em sua eficiência. Uma maneira de forçar classes que haviam cuidadosamente mantido distância a convergir, quer quisessem ou não.
“Sim” respondi calmamente. “Mesmo que não conflua diretamente para o centro exato, expandir as zonas restritas do perímetro para dentro faz sentido. Da perspectiva de que este é um jogo de sobrevivência, com rodadas de tinta e eliminações como objetivo final, é uma das abordagens mais lógicas.”
Se, a cada evento, todos os quadrados restantes do perímetro se tornassem inutilizáveis, mais quarenta e oito desapareceriam. Após o terceiro evento, quarenta quadrados teriam sumido. Nesse ritmo, a ilha poderia se reduzir a um único quadrado amanhã.
Considerando a estrutura do exame, que dura três noites e quatro dias, a redução provavelmente seria mais gradual, mas seria prudente supor que, no último dia, o campo de batalha teria se reduzido a algo próximo disso.
Nordeste. Noroeste. Sudeste. Sudoeste. Ou talvez o próprio centro.
A ilha quase certamente começaria a desmoronar em torno de um eixo específico — mas, por ora, era impossível determinar qual.
Mais importante ainda, a escola não facilitaria as coisas. Qualquer padrão óbvio o suficiente para ser deduzido precocemente frustraria o objetivo.
Assim, cada turma ficou na mesma situação: continuar coletando suprimentos para o evento, enquanto ponderavam constantemente para onde deveriam se mover em seguida.
Se um padrão definitivo surgisse, provavelmente não seria antes do terceiro dia ou talvez apenas no quarto, quando o encolhimento atingisse seu estágio mais severo.
“Neste momento, todos estão focados em se movimentar pela ilha, coletar suprimentos e manter a saúde”, continuei. “Mas isso é só o prólogo. Quando o mapa nos forçar a combates corpo a corpo, o posicionamento será mais importante do que os estoques. A classe que conseguir aproveitar uma pequena mudança de ritmo poderá acabar vencendo tudo.”
“Então tudo será decidido por um jogo de pura sobrevivência? Se for esse o caso, estou louco para entrar em combate.”
Morishita cerrou o punho como se quisesse demonstrar coragem, mas só emitiu um som baixo e seco.
Na verdade, a possibilidade estava se tornando cada vez mais real.
Não importa quantas rodadas fossem realizadas, não importa o quão cuidadosamente a comida fosse racionada, um único momento de descuido poderia dizimar dez — vinte — estudantes em um instante.
O que levantou uma questão incômoda.
Qual foi, então, o significado dessas três noites e quatro dias?
Certamente, o sistema criava pequenas vantagens, ganhos marginais que podiam alterar as probabilidades. Mas a escala parecia excessiva apenas por isso.
Será que a ilha tinha como objetivo ensinar a sobreviver através da privação?
A comida das caixas de suprimentos nunca era abundante, e administrar a própria condição sob constante escassez exigia disciplina. Passar por esse tipo de pressão não era algo sem sentido. Mas…
Seria este um jogo de sobrevivência que por acaso continha elementos de sobrevivência?
Ou seria um treinamento de sobrevivência disfarçado de jogo de eliminação?
Ou talvez esse exame especial fosse apenas uma porta de entrada, algo que conectaria, dali em diante, a um julgamento completamente diferente.
“Seria ótimo para nós se as outras turmas se enfrentassem sozinhas na área reduzida. Se não diminuirmos a diferença numérica, nem que seja um pouco, com certeza estaremos em desvantagem em uma disputa de tiros” murmurou alguém.
Enquanto meus colegas continuavam a discussão, eu me desliguei deles, reduzindo o leque de possíveis desdobramentos a um punhado de padrões. Um a um, eu os sobrepus ao mapa virtual que já havia construído em minha mente.
O confronto caótico no final era inevitável.
Se, por puro azar, os três VIPs fossem eliminados por fogo perdido naquele caos, o jogo terminaria ali mesmo. Mas deixar apenas os VIPs recuarem também não era uma solução — isso interromperia a coordenação com o comandante, nos privaria de informações sobre as posições inimigas e, em vez disso, tornaria os próprios VIPs alvos principais. A existência de táticas projetadas para isolar indivíduos provavelmente visava exatamente cenários como esse.
No final, por mais que aprimorássemos nossa estratégia, nunca conseguiríamos elevar as probabilidades a cem por cento.
Ainda assim, mesmo aumentar nossas chances em apenas um ponto percentual já era motivo suficiente para construirmos a melhor estrutura possível.
Como as quatro classes reagiriam à expansão das zonas restritas?
Que conclusões eles tirariam e como essas conclusões moldariam seus movimentos?
Tive que elaborar a lógica e, em seguida, prever vários finais possíveis.
Eu precisava pensar mais rápido do que qualquer outra pessoa sobre como intervir, como direcionar os acontecimentos para o resultado mais favorável.
O papel dos VIPs. Movimentação na densa floresta. O estado psicológico que cada turma atingiria no momento da convergência.
As trajetórias futuras das classes A e D.
Até que ponto a Classe B pretendia manter a Classe C sob controle?
Levando tudo isso em consideração, a primeira pergunta foi simples: como essa turma deveria prosseguir?
E havia ainda a variável não resolvida.
Kōenji — movendo-se sozinho, livremente, sem restrições. O caminho que ele provavelmente seguiria dali em diante. Uma presença com a qual Horikita também certamente estava lutando.
Devo encarar isso como uma oportunidade? Uma chance de provocá-lo, observar sua reação e — se nada mais — tentar exercer algum controle, mesmo que falhe?
Ao sobrepor as localizações dos eventos exibidas no tablet do analista com os relatórios recebidos do comandante, finalmente levantei o olhar e observei meus colegas de classe.
“Vamos embora imediatamente” eu disse. “Vamos atrás dos suprimentos de alimentos no G11.”
Fugir só adiaria o inevitável. A batalha aconteceria de qualquer forma. Não se tratava de esperar, mas sim de atacar primeiro.
Os alunos trocaram olhares, uma leve confusão cruzando seus rostos.
“É uma pena que os suprimentos não tenham aparecido em uma área segura para recuperação. Mas ir para o G11 significa que vamos entrar em conflito com a classe do Ryūen, não é? E eles estão um pouco mais perto do que nós.”
Matoba foi o primeiro a expressar sua objeção, dizendo que não gostava da ideia de arriscar, chegar de repente e ter os suprimentos levados antes de chegarmos. Ele argumentou que esse evento poderia ser algo que valesse a pena observar, em vez de contestar.
Rejeitei essa ideia de imediato e deixei claro que iríamos para a ofensiva.
“Chega de conversa” eu disse. “Como eles estão perto, precisamos chegar ao local primeiro.”
O grupo de Ryūen provavelmente chegaria em dez a quinze minutos. Nós, por outro lado, precisaríamos de quinze a vinte minutos.
Essa diferença de cinco minutos foi decisiva e eliminá-la exigia ação imediata.
“Ayanokōji é o líder” disse Hashimoto. “Confiamos nele e o seguimos. É assim que funciona, certo?”
“…Sim. Acho que sim” respondeu Matoba, embora a inquietação em sua voz não tivesse desaparecido completamente.
Essa inquietação não era infundada. Avançar para um local onde o inimigo já poderia estar à espera beirava o suicídio. Mas não tentei acalmar suas preocupações. Em vez disso, seguimos em frente.
Cinco minutos depois, na próxima atualização do GPS, todo o nosso grupo entrou na área G12.
“Aparentemente, a Classe B está dividida em três grupos” informou a rádio. “Um grupo de dez pessoas está se dirigindo para E9. Outros dez estão em G8. Os membros restantes estão se aproximando de G11.”
À medida que as informações chegavam, as atualizações sobre as outras turmas surgiam em rápida sucessão.
“Então é isso aí” murmurou alguém. “Uma briga de verdade, hein… Mesmo com uns vinte e poucos já fora, finalmente está quase empatado. Ou melhor, devemos agradecer que esteja empatado?”
“Não necessariamente” respondeu outra voz. “Eles provavelmente já perceberam que estamos caminhando para o G11. Na pior das hipóteses, eles retiram todos os seus oponentes e vêm para cima de nós com tudo o que têm. Se isso acontecer, o que acontece então?”
“Isso não vai acontecer” eu disse. “Mesmo que pareça que estamos mirando no G11, eles não conseguem perceber a seriedade da nossa situação. Se eles chamarem de volta as equipes enviadas para coletar suprimentos, nós nos retiraremos imediatamente. Eles sabem disso.”
A Classe B, por estar mais próxima, obteria vantagem no momento em que alcançasse a área do objetivo.
O fato de poderem nos receber em seus próprios termos — em terreno que controlavam — foi uma vantagem significativa. Só isso já lhes dava espaço para esperar, sondar e determinar o quanto estávamos realmente empenhados em tomar os suprimentos.
Não havia necessidade de partirem para um confronto em grande escala até que tivessem certeza.
Reorganizamos nossa formação com cuidado. As fileiras da frente e do meio foram reforçadas com guardas, em sua maioria meninos. Os dois VIPs foram posicionados na retaguarda; tomei meu lugar logo à frente deles, enquanto Hashimoto fechava a linha, ancorando-a como se protegesse as costas dos VIPs com sua própria presença.
“Até eu estou começando a ficar um pouco nervoso agora” murmurou Hashimoto.
Seja pelo peso do momento ou pela própria arma, o suor começou a se acumular em suas palmas. Ele mudou a empunhadura, firmando a arma com a mão esquerda enquanto enxugava a direita no agasalho. Um instante depois, repetiu o movimento com a outra mão.
Eram 11h15 da manhã. Conforme as últimas informações chegavam, descobrimos que o conjunto de GPS de Ryūen — aqueles que estavam à espreita — estava praticamente ao nosso alcance. Como de costume, vieram os relatórios sobre as posições das outras turmas.
“Eles estão logo à frente” sussurrou alguém. “Dois… talvez três minutos se continuarmos andando.”
Levantei a mão, sinalizando para que todos parassem.
“Vamos esperar aqui por cinco minutos.”
“Cinco minutos?” perguntou alguém, com incredulidade na voz. “Isso é mesmo aceitável? Se hesitarmos, eles podem levar os suprimentos primeiro.”
“Eles não terão essa margem de manobra” respondi.
Eles estavam claramente posicionados para nos receber, entrincheirados em uma formação compacta. Se desviassem ao menos uma fração de sua atenção para os suprimentos, sua resposta inicial a um ataque seria atrasada.
Em pouco tempo, o ambiente ficou em silêncio.
Um silêncio para garantir que não perderíamos o som caso eles nos atacassem primeiro.
Tudo o que restou foi o som da nossa própria respiração, tensa e contida, ecoando fracamente entre as árvores.
Os cinco minutos se estenderam de forma anormal, parecendo menos minutos e mais uma hora. Então Shiraishi falou, sua voz quase um sussurro.
“Eles quase não se movimentam. Estão completamente focados em nós, mantendo a posição. O Shimazaki-kun disse para avisá-lo a qualquer momento se quisermos usar alguma tática.”
“Não vamos” eu disse. “Enquanto não usarmos isso, eles não conseguem relaxar. Essa tensão constante vale mais do que a própria tática. E o mais importante: me dê os dados detalhados de GPS das outras turmas também.”
Algumas pessoas me olharam de relance, claramente se perguntando por que informações sobre as outras classes importavam naquele momento. Ignorando os olhares, pedi a Shiraishi que me transmitisse tudo o que conseguisse extrair do comandante, memorizando tudo.
“Mais cinco minutos” eu disse.
“…Sério?” alguém murmurou. Então, após uma pausa “Tudo bem”.
A forma como lutaríamos — se é que lutaríamos — já estava decidida.
Poderíamos ter nos movido há cinco minutos. Poderíamos nos mover agora.
E o resultado também já estava claro.
Mas se fôssemos entrar em uma batalha, então era melhor fazê-lo no momento ideal.
Seguiu-se outro período de silêncio. Quando este foi quebrado, o relógio já passava das 11h25.
Por meio de Shiraishi, confirmei que o grupo da frente ainda não havia se movido e que os últimos relatórios sobre as outras turmas já haviam chegado.
Só então levantei o braço.
“Vamos em frente” eu disse. “Se você avistar o inimigo, não hesite, ataque. E durante o combate, você assumirá o comando, Matoba.”
“O quê? Você não vai assumir o comando pessoalmente, Ayanokōji?”
“Para facilitar a coordenação da turma” respondi, “faz mais sentido deixar isso com você na frente.”
“…Entendo.” Matoba fez uma pausa para respirar, depois assentiu. “Certo. Aceito. Vamos lá!”
Não era uma tarefa que ele teria recebido de bom grado, não nessas circunstâncias — mas ele a aceitou sem questionar.
Um instante depois, Hashimoto se inclinou para mais perto e murmurou: “Ayanokōji, fique aqui e proteja os VIPs, certo? Contanto que eles estejam seguros, ainda acho que podemos sair com a vitória.”
Ele estava pensando no futuro, no que aconteceria se Matoba vacilasse.
“Entendido” eu disse.
Matoba partiu em corrida em direção à linha de frente, gritando uma ordem curta e incisiva para que ele e os outros se preparassem enquanto avançavam.
E então…
Creak.
Em algum lugar além das árvores, um galho grosso estalou ruidosamente.
A floresta respondeu imediatamente com tiros.
Uma rajada de tiros rasgou o ar, despedaçando-o com estampidos secos. Balas de tinta passaram zunindo, estilhaçando folhas e espalhando tinta pela vegetação. A linha de frente estremeceu instintivamente, os ombros tremendo com a violência repentina.
O inimigo atacou primeiro.
A Classe B detectou nossa presença e lançou o ataque inicial.
“Eles estão atirando! Revidem — não se contenham!” gritou alguém.
Aquilo já não era mais um treino. Os dedos agarraram os gatilhos e os alunos dispararam rajadas de fogo automático num frenesim desenfreado. Os tiros rasgaram os galhos finos em ângulos diversos, espalhando tinta pelos troncos e folhagens como jatos de sangue.
Ainda assim, nada pegou perfeitamente.
A distância era muito grande — quinze, talvez vinte metros, pelo menos.
O inimigo havia se entrincheirado entre árvores e rochas, expondo apenas fragmentos de si mesmos por vez. Um vislumbre de um ombro, um lampejo de movimento e então desapareciam novamente, recuando no instante em que eram vistos, apenas para responder com tiros certeiros.
“Três, diagonal frontal direita! Mais uma mais atrás!”
“Imobilizem-nos! Concentrem o fogo na base da árvore!”
Ao comando de Matoba, a linha de frente abriu fogo em uníssono. Projéteis de tinta cruzaram o céu em rápida sucessão, arrancando a casca dos troncos das árvores e espalhando estilhaços pelo ar.
Mas…
O alarme que deveria ter soado, proveniente do relógio de pulso atingido, nunca soou.
Em vez disso, o fogo de resposta foi imediato.
Um projétil veio de um ângulo baixo, passando por baixo da linha de fogo e atingindo um dos soldados da vanguarda da Classe C em cheio no peito. Uma tinta vermelha vibrante espalhou-se por todo o seu corpo, seguida por um som eletrônico agudo que cortou o ar da floresta.
“Um fora! Recuem um pouco!”
“Droga! De onde eles estão atirando?!”
O pânico se espalhou num instante.
A Classe B não deixou escapar. O fogo irrompeu das sombras em ambos os flancos, os tiros estalando secamente, mais de uma dúzia em rápida sucessão. A formação se desfez, desmoronando em uma confusão difícil de contemplar.
“Ugh..!”
O segundo e o terceiro caíram quase em sequência.
Sem conseguir se expor o suficiente para se defender adequadamente, aqueles com as maiores áreas expostas foram abatidos um após o outro.
Hashimoto elevou a voz imediatamente. Qualquer vestígio de sorriso havia desaparecido de seu rosto.
“Linha de frente, recuem para se proteger! Usem as árvores corretamente! Linha do meio, suprimam o fogo enquanto atiram!”
Os alunos seguiram as ordens, mas a floresta conspirava contra eles. As árvores estavam muito próximas umas das outras, a visibilidade era emaranhada e estreita.
O fogo da Classe B foi claramente mais preciso. Eles leram nossas posições, mudaram seus ângulos e aproveitaram a vantagem.
Ainda assim, um dos nossos disparos de resposta atingiu o alvo, quase por milagre.
Um pequeno sinal eletrônico ecoou no meio da floresta, e um dos inimigos surgiu à vista.
Naquele instante, a atmosfera do nosso lado mudou, apenas ligeiramente.
“Conseguimos um! Derrubamos um!”
“Ótimo! Mantenha-os presos!”
Por um breve instante, o ritmo do nosso fogo retornou.
Então o inimigo se adaptou.
Sincronizando o som dos nossos tiros, eles revidaram com precisão, como se mapeassem nossas posições apenas pelo ouvido. Balas de tinta passaram raspando por cima das nossas cabeças, espalhando-se violentamente pelas árvores atrás de nós.
“Três à frente à esquerda diagonal! Há outro disparando mais ao fundo, na sombra das árvores!”
“Não tente flanqueá-los isso é muito perigoso! Aumentem a distância!”
A ordem foi dada, mas o aluno à direita reagiu uma fração de segundo tarde demais. Uma bala de tinta atingiu seu ombro, e o quarto alerta eletrônico soou estridentemente pela floresta.
Quase imediatamente, outro tiro foi disparado — baixo e preciso — atingindo um estudante que estava agachado atrás de uma árvore, bem na perna. O alarme inconfundível soou novamente.
Cinco a menos.
A tinta vermelha espessa escorria dos uniformes, respingando em gotas pesadas no chão da floresta.
A troca de tiros durou apenas alguns minutos, mas carregou a densidade de algo muito mais longo. Os pulmões ardiam. Os dedos tremiam. O próprio ar parecia saturado de tensão.
“Estamos sendo atingidos! Nem consigo dizer se estamos acertando os tiros neles!”
Um dos alunos, já agachado para ficar fora da linha de fogo, socou o chão com o punho em frustração.
“Não, eu acertei um! Eu sei que acertei, a minha com certeza pegou!”
“Do lado direito, há pelo menos cinco deles ali!”
Respirei fundo uma vez e de forma constante, concentrando-me além do caos e forçando meu olhar para a frente.
A Classe B permaneceu entrincheirada, seus corpos envoltos em sombras e cascas de árvores. Seu ritmo de disparos jamais vacilou. Fosse pelo excedente de munição de tinta que haviam obtido de suprimentos anteriores ou simplesmente por uma disciplina superior, a diferença era inegável.
Mesmo observando de longe, era óbvio.
Os números podem ter sido próximos, mas em munição, ímpeto e acima de tudo, compostura, a Classe B nos superou de forma esmagadora.
Diante das nossas crescentes perdas, as baixas deles foram mínimas. Uma, talvez duas no máximo.
Continuar essa troca de tiros só agravaria a ferida.
O resultado desse compromisso já havia sido decidido.
Mantendo a voz calma e concisa, dei a ordem.
“Qualquer combate adicional só agravará nossas perdas. Estamos recuando, agora.”
“Recuar? Quer dizer… que vamos recuar de verdade?!”
Fiz um sinal para todos que ainda estavam de pé. A ordem se espalhou instantaneamente. A linha de frente começou a recuar, não virando as costas, mas dando passos para trás, armas em punho, com cuidado para não atrair perseguição.
Morishita partiu da linha central, correndo em direção à retaguarda.
Foi então que aconteceu.
Um dos alunos da turma B avançou rapidamente por entre as árvores, rompendo a cobertura. Seu cano girou num movimento suave e preciso, mirando em Morishita.
“Cuidado, Yamamura Miki….!”
Morishita gritou enquanto agarrava Yamamura pelos ombros e a puxava para trás. Nesse exato instante, uma bala de tinta atingiu as costas de Morishita.
“Ugh…!”
Seu rosto se contorceu de dor. Então, quase sem pausa, um segundo tiro a atingiu, seguido por um terceiro, cada um deles acertando em cheio suas costas expostas.
Hashimoto disparou em desespero, revidando os tiros em direção às árvores, mas nenhum o atingiu. O aluno da Classe B recuou imediatamente, desaparecendo na floresta como se estivesse se escondendo nas sombras.
“Ai…”
Um gemido baixo escapou dos lábios de Morishita. Não havia mais como negar, o alarme impiedoso de seu relógio de pulso soou, alto e definitivo.
“M-Morishita-san!”
“Parece que… é o máximo que posso fazer” disse ela fracamente. “Pelo menos… você deveria correr. Fugir…”
“Por que… por que você protegeria alguém como eu?!”
Por um breve instante, uma possibilidade diferente me passou pela cabeça.
Será que Morishita realmente protegeu Yamamura?
A arma estava apontada para Morishita desde o início. Do lugar onde eu estava, parecia que ela tinha percebido que estava sendo alvejada e instintivamente tentou puxar Yamamura para a linha de fogo, mas falhou.
Não. Certamente nem mesmo Morishita faria algo assim…
…ou talvez ela fizesse isso.
“Suponho” murmurou ela, esboçando um leve sorriso, “que ainda restava um resquício de bondade em meu coração. Só isso.”
Qualquer que fosse a verdade, não havia tempo para refletir sobre ela.
“Viva, Yamamura Miki”, disse Morishita suavemente. “E em meu lugar… torne-se uma Amazona….”
Seu corpo subitamente relaxou.

“Morishita-san…? Morishita-san!”
Seus olhos estavam fechados, seu peso pendendo inerte sobre Yamamura, até que, abruptamente, se abriram.
“Você deveria se apressar e ir embora” acrescentou ela. “Eles podem vir atrás de você.”
“Eh. ah… s-sim… eu vou…”
Ela então voltou seu olhar para mim.
“Ayanokōji Kiyotaka” acrescentou Morishita, voltando seu olhar para mim. “Deixarei o resto com você. Acho que vou relaxar no navio agora.”
Para alguém que acabara de ser eliminada, ela não parecia nem um pouco incomodada.
Na verdade, ela parecia satisfeita, quase aliviada, por poder se despedir tão cedo.
Assim, a autoproclamada Amazona da Floresta Densa, que inclusive se ofereceu para servir como guarda, foi retirada do jogo, desaparecendo da floresta sem jamais dar uma contribuição decisiva.
No finalzinho, uma atmosfera estranha e relaxada nos envolveu por um instante, mas mesmo assim continuamos nossa retirada apressada.
*****
Nos desvencilhamos da área G11 e recuamos até H12, o ponto de recuo designado em caso de derrota. Depois de ordenar à turma que descansasse e recuperasse o pouco de compostura que lhes restava, afastei-me com Shiraishi e Hashimoto para conversar em um local um pouco mais afastado dos demais.
Yamamura estava sozinha ali. Quando percebeu nossa aproximação, hesitou como se fosse embora, mas quando lhe disse que não havia problema em ficar, assentiu silenciosamente e permaneceu onde estava.
“Não parece que estejamos sendo perseguidos” disse Shiraishi após verificar os últimos relatórios. “Por enquanto, acredito que podemos nos considerar seguros.”
“Fomos completamente superados” murmurou Hashimoto, meio resignado. “Isso realmente mostra o quão forte pode ser o time que espera. Comparados a nós, eles têm muito mais gente que é simplesmente… melhor em jogos de sobrevivência pura e simples.”
Havia, sem dúvida, uma diferença entre atacar e defender, mas mesmo levando isso em conta, a impressão dele não estava errada. Eu não achava que a diferença em habilidade bruta fosse tão grande. O que se destacava era a intensidade deles — a pressão e o ímpeto da vontade deles. A liderança dominante de Ryūen e as ordens implacáveis estavam claramente impulsionando a Classe B na direção certa.
“Tenho uma boa notícia” disse Shiraishi, interrompendo suavemente. Ela continuou trocando informações pelo rádio mesmo depois de confirmar que a Classe B não estava aproveitando sua vantagem.
“Os sinais de GPS dos dez alunos da turma B que se dirigiram para E9… todos, exceto um, ficaram offline.”
“…Hã?” Hashimoto piscou. “O que isso quer dizer?”
“Parece que a rota deles coincidiu completamente com o GPS do Kōenji-kun” respondeu Shiraishi.
“…Não me diga” disse Hashimoto lentamente. “Você está dizendo que ele eliminou nove pessoas sozinho?”
“Parece que sim” respondi. “Não está claro se ele agiu sob as instruções de Horikita ou simplesmente por capricho. Dado o desenrolar dos acontecimentos, a segunda opção parece mais provável.”
“Heh” disse Hashimoto, sorrindo. “Se isso for verdade, é como transformar desastre em fortuna. Ryūen levou um golpe feio ali.”
Ele parecia genuinamente satisfeito. E não estava errado, este era quase certamente um desenvolvimento que Ryūen não havia previsto. Contra a Classe C, ele havia alcançado resultados quase ideais, trocando seis de nós por um ou dois deles. Mas, nos bastidores, ele havia perdido nove alunos.
Esse tipo de dano não podia ser ignorado.
“Mas mesmo assim” acrescentou Hashimoto, “enquanto nós lutávamos para eliminar uma ou duas pessoas, Kōenji eliminou nove sozinho? Foi uma baita troca de golpes.”
“Kōenji-kun não foi eliminado” continuou Shiraishi calmamente. “De acordo com o GPS, ele ainda está sozinho na E9.”
Então ele não só eliminou nove oponentes, como fez isso sem ser derrubado.
“Um efeito colateral inesperado” murmurei. “Mesmo assim, a diferença entre a Classe C e a Classe B ainda está longe de ser pequena.”
Eu sempre soube que Kōenji era do tipo que espantava uma mosca irritante assim que ela zumbia ao seu redor. Se o contato acontecesse em uma área confinada e escalasse para um combate, isso por si só não seria surpreendente. O que superou as expectativas foi o quão completamente unilateral o resultado havia sido.
Ainda assim, restava a dúvida se isso despertaria alguma motivação real nele. Na verdade, parecia igualmente provável que ele se sentisse satisfeito e desistisse de vez agora que já havia se divertido o suficiente.
Foi exatamente por isso que não consegui compartilhar o alívio simples e genuíno de Hashimoto ao saber que Kōenji havia derrotado nove oponentes.
Superficialmente, parecia um ganho puro para todos nós, mas coisas assim nunca existiram isoladamente. O equilíbrio importava. Se as ações dele nos beneficiariam ou desestabilizariam ainda mais a situação era uma questão de sorte, e uma que merecia uma análise cuidadosa.
Enquanto Shiraishi, Hashimoto e eu continuávamos conversando, Matoba se aproximou de nós vindo da direção da linha de frente. Seu rosto estava contraído de exaustão, cada passo carregando o peso dos ferimentos acumulados.
“…Posso falar com você um instante?” perguntou ele em voz baixa.
“Se você está prestes a culpar Ayanokōji pelo que aconteceu, pare com isso” respondeu Hashimoto imediatamente. “Ele está fazendo tudo o que pode com uma turma que já está meio debilitada.”
“Eu sei” respondeu Matoba, balançando a cabeça. “É exatamente por isso que quero conversar. Sobre ontem… não, sobre a conversa que interrompemos abruptamente.”
“Aquela que cortamos mais cedo?” Inclinei ligeiramente a cabeça, sem entender o que ele queria dizer.
Após uma breve hesitação, Matoba falou novamente, suas palavras saindo rígidas e irregulares.
“A aliança. Com a Classe D.”
“Isso é algo que podemos discutir adequadamente depois que essa prova especial terminar” eu disse calmamente. “Mesmo que eu seja expulso, o acordo não será desfeito, então não se preocupe.”
“Não” disse ele, agora com mais firmeza. “É porque as coisas chegaram a este ponto que quero falar sobre isso aqui e agora. Sei que parece interesseiro, mas depois daquela luta, finalmente caiu a ficha. Não estamos apenas falhando em reagir. Estamos perdendo a capacidade de nos mover completamente. As áreas restritas quase certamente continuarão diminuindo. E quando isso acontecer, as classes A e D podem decidir nos aniquilar enquanto estivermos fracos. Nesse ritmo… não consigo ver como sobreviveremos, muito menos como venceremos.”
Enfrentar a Classe B de frente e vivenciar seu estilo agressivo e implacável, provavelmente o abalou mais do que ele gostaria de admitir.
“É frustrante” admiti, “mas não posso negar. Acredito que estamos fazendo tudo o que podemos para vencer, mas não há garantia de que conseguiremos reverter essa desvantagem.”
“Eu sei” disse Matoba. “É por isso que estou perguntando: podemos oficializar a aliança? Agora mesmo.”
“Uma aliança?”
“Se a Classe D estiver disposta a nos aceitar, quero que unamos forças imediatamente. Essa me parece a melhor opção. Se a aliança se concretizar, teremos quase cinquenta pessoas no total. Nesse ponto, não seria mais uma recuperação. Seria um renascimento completo, não é?”
Foi um apelo desprovido de orgulho, a tampa que ele outrora selara finalmente escancarada. Ele falou como se não houvesse outro caminho a seguir.
Hashimoto respondeu imediatamente, estendendo a mão e dando um tapinha no ombro de Matoba.
“Não, eu estava pensando a mesma coisa” disse Hashimoto. “Já informamos a turma sobre a ideia da aliança. De qualquer forma, é só uma questão de tempo até a aliança C–D vir à tona, certo? Isso pode estar acontecendo um pouco mais rápido do que o planejado, mas, honestamente, acho que é a melhor maneira de nos protegermos.”
Ele havia seguido minhas instruções sem reclamar até então, mas se houvesse um caminho mais seguro disponível, era natural que ele quisesse escolhê-lo.
Um breve silêncio se instalou entre nós. Todos os olhares se voltaram para mim, prendendo a respiração enquanto aguardavam minha resposta.
“O motivo pelo qual as coisas pioraram tanto é que baixei a guarda” disse finalmente. “A culpa é toda minha. Mas justamente por termos deixado a opção da aliança em aberto, ela pode ser agora nossa última esperança. Se Matoba, não, se todos na turma aceitarem, então acho que vale a pena apostar nisso novamente.”
Matoba assentiu com a cabeça no instante em que terminei. Quase ao mesmo tempo, Hashimoto juntou as mãos num estalo seco.
“Eu explico para os outros” disse ele. “Tudo bem para você?”
“Sim. Estou contando com você.”
“Certo. Deixe comigo.”
Com um sorriso, ele fez um sinal de positivo com o polegar e correu em direção aos nossos colegas exaustos, sua energia contrastando com o cansaço deles.
Durante toda a conversa, Yamamura permaneceu em silêncio, observando-nos de lado. Agora, como se finalmente tivesse se decidido, olhou para mim com hesitação, claramente com algo a incomodando.
“O que foi?” perguntei. “Se você está pensando em alguma coisa, diga.”
“Ah… não, é que…” Ela gaguejou, mas se obrigou a continuar. “Fiquei um pouco surpresa, só isso. Você aceitou o novo pedido de parceria do Matoba-kun tão facilmente, mesmo ele tendo rejeitado uma vez. Não pude deixar de pensar que… desculpe.”
“Será que tomei a decisão errada?” perguntei.
“N-não, de jeito nenhum” ela se apressou em se corrigir. “Considerando o quão encurralados estamos, também acho que nos unirmos à Classe D é uma das melhores maneiras de proteger a turma agora. É só que… se isso fosse acontecer de qualquer jeito, eu me perguntei se não teria sido melhor reconsiderar a aliança antes. Se tivéssemos feito isso… talvez a Morishita-san não tivesse sido eliminada…”
Aos olhos dela, parecia óbvio. Que depois da emboscada, eu poderia ter reaberto as negociações da aliança se realmente quisesse.
“Disseram-me para deixar a aliança de lado” respondi calmamente. “Por isso, não achei que fosse da minha conta voltar a mencioná-la.”
“Entendo. Você tem razão” disse ela suavemente. “Desculpe por ter dito algo estranho.”
Mesmo depois de ouvir minha resposta, Yamamura não pareceu aliviada, pelo contrário, uma sombra ainda mais profunda se instalou em seu rosto.
Nota do tradutor: O miserável realmente planejou isso, um fato que demostra é que ele não atacou e ficou somente olhando no último confronto.
Nos próximos capítulos Ayanokoji vai dar umas mitadas, espero que seja bom.
Amanhã sai o capítulo 5.

