Capítulo 18: Lynne, a plebeia (1)

 

O centro de treinamento de Sören era um espaço aberto para qualquer um usar.

É amplo e tinha três centros de treinamento, para que os alunos pudessem conjurar feitiços livremente em qualquer lugar na área espaçosa.

Os usuários mais comuns do centro de treinamento no início do semestre eram especialmente os calouros, que ficavam curiosos sobre as instalações da prestigiada Sören.

Como resultado, era inevitável que os calouros acabassem obviamente envolvidos em pequenos acidentes.

As crianças que entravam na Sören já tinham ouvido falar que eram gênios em todos os lugares.

Os calouros, que não experimentaram a concorrência adequada, têm autoestima forte, porque ainda pensam que são os melhores.

Não tinha nenhuma chance de desistirem para o oponente.

No início, cada um cuidaria da própria vida, mas, conforme progrediam as aulas e se envolviam com os outros, um embate sempre ocorreria.

E o primeiro centro de treinamento era onde essas ocorrências ocorriam com mais frequência.

Exatamente como naquele momento.

— O quê? Repita.

— Aqui… é um lugar livre para todos usarem. Então por que eu deveria sair?

Lynne franziu a testa para os três alunos que estavam olhando com desdém para ela.

A mulher que tinha cabelos grisalhos, o que era raro no Império, foi pega em uma disputa quando visitou o primeiro centro de treinamento por curiosidade.

A razão era trivial…

Esses três usariam o local, então mandaram a Lynne sair.

Eles não foram educados, visto que ordenaram unilateralmente que ela saísse porque não queriam usar o mesmo espaço que um plebeu.

Não havia muitos alunos usando o centro de treinamento, de modo que tinha espaço livre suficiente.

Todavia, era um insulto flagrante qualquer um expulsar o outro e mandar sair.

Um total de três pessoas estavam brigando com ela: uma mulher e dois homens.

Eram todos filhos de famílias aristocráticas com a nobreza fluindo no sangue.

Entre eles estava Dynema Romley, uma primeiranista que era filha do conde Romley. Ela estava no centro do trio, enquanto abusava verbalmente da Lynne.

Seu cabelo loiro, que fluía até a cintura, estava enrolado como um rolo nas bordas.

Só ver a impressão feroz da outra, Lynne já podia assumir que a personalidade dela era geralmente rude.

Mesmo assim, Lynne não esperava que Dynema provocaria subitamente uma briga com ela desse jeito.

— Os incomodados que se retirem, não sabia?

— Hah! Como ousa me responder? Como uma plebeia tão vulgar e insolente como você ousa fala com alguém com sangue nobre como eu?

— Sören… não divide a classificação dos alunos por classe social e sangue. Você entrou aqui, mas ainda não sabe disso?

— Isso é exatamente o que querem acreditar. Vocês se iludam confiando cegamente no que eles disseram. É por isso que são inferiores.

— Isso mesmo, Srta. Dynema. É por isso que não devemos ter plebeus de classe baixa aqui.

— É por isso que as pessoas dizem que não pode ser legal com os subordinados.

Os dois alunos de ambos os lados estavam bajulando a Dynema, enquanto se ajustavam ao humor dela.

Lynne mordeu os lábios.

Eles nem mesmo tentaram ouvir o que ela disse em primeiro lugar… porque era uma plebeia.

Mesmo que continuasse a discutir, só se cansaria.

Lynne virou as costas, enquanto pensava que não valia a tempo perder seu tempo com eles.

O problema era que esse comportamento ofendeu a autoestima alta da Dynema.

— Como… uma plebeia se atreve a me ignorar quando estou falando?

O Conde Romley era um aristocrata típico que caiu no elitismo e desprezava os plebeus.

E Dynema, a única filha do conde, também herdou a tendência do pai.

Para ela, que só tinha visto e ouvido tais visões elitistas desde que era jovem, foi obrigada a ter esse tipo de personalidade.

Dynema pensou que deveria desempenhar um papel de liderança na Academia Sören.

Mesmo que houvesse muitos alunos excepcionais nos segundos anos, deveria ser a mais deslumbrante entre os primeiranistas.

Era nisso que acreditava.

Quando chegou na Sören, a maioria dos alunos se tornaram seus concorrentes. Era uma dura realidade para ela, que tinha recebido o melhor tratamento ao longo da vida.

‘Não pode continuar assim!’

Já machucava seu orgulho os plebeus usarem a mesma sala e terem aulas com ela, então não gostaria de aceitar o fato de que também tinha alunos que eram mais talentosos do que ela.

Um aristocrata deve estar sempre distante e acima de todos…

Porque foi assim que nasceu.

Ela era a escolhida, e aqueles plebeus humildes não eram nada além de uma ferramenta que usava para se destacar.

Para Dynema, a plebeia Lynne era apenas uma existência irritante.

A primeira vez que Dynema a notou foi quando estavam na sala de aula.

Sua cor de cabelo cinza extremamente incomum também atraiu a atenção das pessoas, mas, acima de tudo, foi a beleza da Lynne que deixou a Dynema irritada.

Ela era como uma boneca feita pela deusa da beleza com todos os seus melhores esforços, sua beleza parecia ser de outro mundo.

Até mesmo ela, que também era uma mulher, sentiu inveja.

Seu orgulho foi ferido.

Dynema não poderia perdoar isso e não conseguia perdoar a si e essa plebeia desprezível.

Dynema precisava de um alvo para desabafar sua raiva, e o alvo era obviamente Lynne, que causou essas animosidades nela.

Assim, começou uma briga com a intenção de afundar a cara dela no chão.

‘Qual é a dessa atitude arrogante?!’

Os olhos da Lynne estavam olhando para ela como se fosse patética.

Dynema cerrou os dentes e olhou para a parte de trás da cabeça da Lynne.

‘Como se atreve a me ignorar e pensar que vai ficar tudo bem em seguida?’

Dynema pegou a varinha. Isso aconteceu inesperadamente, então até mesmo os dois seguidores, que estavam ao lado dela, não puderam reagir.

‘Sem chance, Dynema está alvejando a Lynne com a varinha e vai conjurar um feitiço, quando está saindo depois de virar as costas?’

O mesmo aconteceu com Lynne.

Ela nunca imaginou que a garota faria isso na Sören.

— Como uma mera plebeia como você se atreve…!

Uma técnica de feitiço foi formada com mana, e brotos de raios se formaram nos arredores.

Sentindo algo estranho, Lynne se virou, de modo que seus olhos azuis se arregalaram.

‘Idiota. Já é tarde demais.’

Um sorriso cruel se formou no rosto da Dynema.

Seu objetivo não era matar a garota, mas queimar seu rosto bonito.

No momento em que estava prestes a lançar o feitiço preparado no rosto daquela plebeia desprezível…

Um lampejo branco de luz atravessou sua magia.

Dynema franziu o rosto de um jeito demoníaco, quando viu a repercussão do raio disperso.

— Quem foi?!

Ela olhou para o lugar onde o feitiço foi conjurado.

E foi então que o viu…

Um homem que estava olhando para eles dos corrimãos do público.

— O que você está fazendo?

‘Será que os pilares de gelo no chão congelado do continente norte se sentem assim?’

A pele dela reagiu no momento em que a voz dele, que estava misturada com uma raiva sutil, soou nos seus ouvidos.

Era uma força e vigor que faria os dentes de qualquer um cerrar reflexivamente.

‘Ele não é um estudante, nem um empregado da Sören.’ Não tinha como Dynema não conhecer o homem com uma impressão tão intensa para começo de conversa.

— Pro… Professor Ludger?

— Eu estava de patrulha e vim aqui, porque senti um comprimento de onda de mana.

Seu olhar parou na Lynne, no grupinho da Dynema, e nos alunos que estavam assistindo nas proximidades e não tinham parado o grupinho.

— Quem diria que causariam tanto problema.

Não foi nem uma mera briga entre os alunos.

Sendo mais preciso, foi um incidente em que um lado tentou unilateralmente emboscar o outro.

— Devem pensar que Sören é uma escola qualquer.

Se tivessem lutado justamente, poderia só deixar passar com um aviso.

No entanto, foi, sem dúvida, negligência unilateral que a fez emboscar um oponente que não tinha intenção de lutar com ela.

O professor até testemunhou com os próprios olhos.

— Exatamente por que e como aconteceu?!

A raiva da Dynema já tinha chegado ao topo da cabeça, então gritou enquanto protestava com o Ludger.

— Foi para proteger minha autoridade como uma aristocrata…!

— Autoridade? E que raios de autoridade é essa?

— É que essa plebeia…

— Todos os alunos são iguais em Sören. Seu aprendizado, ensino e magia só serão julgados de acordo com os talentos e paixão. Não me importa o quão nobre é o seu sangue.

As palavras do Ludger foram direcionadas para eles pararem de blefar enquanto agiam como aristocratas.

Dynema mordeu os lábios.

Ludger negou com a cabeça em resposta ao comportamento dela, que não mostrava nenhum remorso.

Estava convencido de que os primeiranistas causariam problemas.

Afinal, era provável porque eram alunos do primeiro ano, que ainda eram ignorantes ao mundo.

Os calouros, que não conheciam a forma como Sören operava, naturalmente fizeram seus julgamentos com base no ambiente em que viveram até agora.

O que causava os problemas era esse modo mesquinho e preconceituoso de pensar que o mundo em que viviam era tudo.

Assim como Dynema Romley estava pensando.

Mas sua ignorância não a absolveria.

Se seu modo preconceituoso de pensar era a causa dos problemas, então era uma política da Sören impor ações disciplinares mais intensas para disciplinar esse tipo de aluno, ao invés de perdoar.

— Não faz muito tempo desde que as aulas começaram, e você já causou um problema tão grande, então não pense que vai se safar de uma ação disciplinar.

— Você vem comigo agora.

Ludger disse isso e virou as costas imediatamente.

‘Ela deve ter entendido agora.’

Pensou que seu aviso acalmaria moderadamente o incidente.

Claro, não era apenas um aviso verbal, porque realmente pretendia dar uma ação disciplinar.

Não foi uma mera briga, pois, estava tentando fazer uma emboscada covarde na colega de classe.

— Um mero aristocrata decaído como você…

Mas com essa frase da Dynema Romley…

O centro de treinamento, que já estava quieto, ficou mudo.

— S-srta. Dynema?

Os dois alunos, que estavam seguindo a Dynema, ficaram encharcados de suor frio.

Não importa o quanto agissem mal, ainda pensaram que as palavras dela não foram uma boa escolha.

Até Ludger Chelysie, que estava prestes a sair, parou de andar.

Virou um problema dos grandes.

Os alunos que estavam assistindo à situação ficaram pálidos.

Dynema percebeu tardiamente o que acabou de falar.

Mas não podia retirar o que já tinha dito.

— O que você disse?

A voz mais abrandada do Ludger foi direcionada para a Dynema.

Não parou por aí, seu corpo também flutuou sutilmente no ar.

Ludger, que lentamente desceu dos corrimões do público, enquanto caminhava no ar, pousou no chão e caminhou na direção da Dynema.

Thump thump~

A cada passo que Ludger dava, Dynema sentia a ilusão de que seu mundo estava desmoronando.

Ela não percebeu quando ele estava longe, mas quando o encarou de perto, a pressão que Ludger emitia estava além da sua imaginação.

Parecia exatamente como um gigante.

Tinha uma aparência enorme como uma montanha, que dava a impressão de que poderia esmagá-la só com um dedo.

— Ah, aah.

Ela acidentalmente disse uma coisa rude.

Era algo que não deveria ter dito, mas tinha passado dos limites.

Não é à toa que Ludger ficou com raiva.

— Você acabou de me chamar de aristocrata decaído?

— Ah, uh, aah…

Dynema não conseguiu nem mexer a boca direito, enquanto Ludger olhava para ela com uma expressão sombria.

A atmosfera dele era tão brutal que não pareceria estranho se alguém morresse.

Quando os alunos estavam pensando se deveriam pará-lo enquanto olhavam um para o outro…

— Professor Ludger!

Selena, a nova professora de Estudos Espirituais, correu enquanto chamava Ludger do lado de fora.

Ela tinha acabado de chegar depois de ouvir a notícia um pouco antes.

Mas, assim que chegou lá, viu Ludger, que estava olhando para uma garota trêmula como se estivesse prestes a devorá-la.

Não é possível… Só por precaução… Talvez…

Um pensamento desconfortável surgiu na sua mente.

No momento em que Selena estava prestes a parar Ludger…

Ludger abriu a boca.

— Não está exatamente errado.

Todos ouviram algo completamente inesperado.

— O quê?

— O que o professor acabou de falar…

Pensaram que ele ficaria com raiva.

Ou pensaram que a puniria fisicamente no local.

— Sou mesmo um aristocrata decaído, mas estamos em Sören onde sou um professor. Dynema. Você claramente desafiou a autoridade do professor.

Mas Ludger não fez isso.

Ele apenas falou com uma voz infinitamente calma e repreensora.

— Mas você ainda é uma criança antes de ser uma aristocrata e uma estudante. É a sua primeira vez, então talvez não saiba.

— Ah

— Vou deixar passar desta vez como um descuido de fala, mas que fique bem claro que não terá uma segunda chance.

Foi um tratamento totalmente inesperado, mas, ao mesmo tempo, bastante maduro.

Os alunos não tiveram escolha a não ser olhar fixamente para Ludger.

— Claro, você receberá uma ação disciplinar de acordo com o que fez com sua colega de classe. Espero que esteja ciente disso.

Dynema sentiu a ilusão de que o mundo estava desmoronando com a menção da ação disciplinar, mas, mesmo assim, não pôde protestar.

O que Ludger disse estava muito mais do que correto…

Ao ponto em que acharam que foi muito brando com ela.

Os olhos do Ludger se voltaram para Lynne, a garota de cabelos grisalhos, já que Dynema não mostrou palavras de consentimento.

— E você aí. Lynne.

— Sim, sim.

O ombro da Lynne tremeu, quando ouviu Ludger chamar seu nome.

— Você se machucou em algum lugar?

— Oi?

— Perguntei se você se machucou em algum lugar.

— Ah, aaaah não! Não! Estou bem! P-porque o senhor me ajudou…

— Que alívio, então.

Ludger virou a cabeça imediatamente e olhou para Selena.

— Professora Selena, deixarei o resto com você.

— Ah, sim!

Ludger deixou o centro de treinamento depois de falar isso para Selena.

Ninguém se atreveu a se mover até que ele desapareceu na escuridão do corredor.

Só conseguiram…

Só conseguiram encarar fixamente as costas do Ludger.

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