Cap. 35 – Rastreador Nortuno

 

A mansão de Ricksen se encheu de tensão após Terina Lionhowl e os seus dois tenentes apareceram. A polícia inspecionando a cena a notou e decidiu saudá-la.

— M-marquesa Terina, é uma honra conhecê-la! Eu sou o inspetor Teboran!

— Ah, sim. Vejo que trabalhou muito.

— Posso perguntar, se não se importa, o que a traz aqui, marquesa Terina?

— Não ouviu as notícias? A partir de agora, toda a investigação sobre o assassinato na mansão Ricksen está sob o controle do nosso departamento de segurança.

— Departamento de segurança, você disse?

O inspetor, que tinha um longo bigode, engoliu em seco a saliva. Também não acreditava que fosse apenas um simples caso de assassinato, porém, se o departamento de segurança se apresentou, significava que o caso era perigoso ao extremo.

— Por favor… nos dê licença! Todos, retirem-se!

Teboran e os seus subordinados correram do local na mesma hora. Tudo o que precisavam fazer era bloquear os repórteres, que pareciam hienas, se reunindo em frente ao portão para assistir aos eventos dentro da mansão.

Quando saíram do campo de visão de todos, a mais jovem cavaleira dos dois tenentes que seguiam Terina relaxou os ombros.

— Ufa. Eu estava tendo dificuldade com o clima.

— Enya, você ainda deve mostrar o comportamento honorífico da Ordem dos Cavaleiros Rastreadores Noturnos mesmo que não haja olhos nos observando.

A cavaleira, Enya, fez uma careta para o seu veterano irritante, Lloyd.

— Bem, não precisamos agir assim agora de qualquer forma.

— Enya, você…

— Pare com isso, Lloyd. Você só precisa ser assim na frente dos outros.

— Veja só, até a capitã disse isso.

— Essa pequena caloura é mesmo… — Balançando a cabeça, o tenente Lloyd levantou a bandeira branca.

Apenas as elites se reuniam na Ordem dos Cavaleiros Rastreadores Noturnos, já que deveriam ser os cavaleiros que guardavam o centro do império. Mas também era um local onde veteranos e calouros podiam conversar confortavelmente, tudo porque a própria Terina, a cavaleira-comandante, gostava de tal atmosfera. Contudo, isso não significava que os seus próprios regulamentos fossem leves.

Era uma longa tradição deles de lidar com o que tinha que ser feito da maneira mais infalível. Acima de tudo, o fato de que a ordem não entrou em colapso era evidência de que a atual capitã, Terina Lionhowl, tinha grande capacidade para liderar, tanto pelo carisma quanto pela excelência em serviço.

— Não se esqueçam do nosso propósito de vir aqui.

— Sim.

— Sim.

O incidente foi avaliado como um assunto tão sério que até mesmo o departamento de segurança teve que participar da investigação. Em particular, o fato de Terina em pessoa ter decidido verificar a conexão entre criptídeos e magia negra somente intensificava isso.

— Embora seja apenas um rumor, o falecido Belfort era um suspeito da lista de pessoas que nós, o departamento de segurança, deveríamos vigiar. Ele ter sido morto de repente por um monstro não pode ser uma mera coincidência.

Lloyd e Enya assentiram, e os três logo começaram a investigar o quarto de Ricksen. Acharam janelas quebradas e manchas pretas, indicando possível uso de fogo por um intruso. Além disso, o aparente sangue de Belfort estava espalhado.

Segundo testemunhas, de fato um monstro surgiu e matou Ricksen. Dado que as declarações eram todas idênticas e consistentes, não achavam que as informações fossem mentiras ou enganos.

Por mais de dez minutos, buscaram por pistas, mas não encontraram sinal algum. Entretanto, assim que Lloyd estava prestes a dizer algo após pensar que tinha terminado a sua procura, Terina, refletindo de braços cruzados, foi em direção a uma parede.

— Capitã?

— Então está aqui. Venham.

Como um dos homens mais ricos de Leathevelk, Belfort decorou o seu espaçoso quarto com todos os tipos de obras coloridas. Depois de analisar a pintura, ela pegou a moldura do quadro pelo canto e afastou.

— Capitã, que pintura é essa?

— Tem um espaço atrás disso.

A fim de confirmar o que disse, os seus dedos enluvados tocaram o meio da parede, a abrindo com um som estridente e revelando um espaço secreto que possuía um comprimento e largura de apenas um metro.

— O que diabos é isso? — perguntou Enya, observando com um olhar curioso.

— Com base no tamanho e localização, deve ser onde o cofre secreto dele estava escondido — respondeu Terina, cruzando os braços e erguendo a voz em um tom apático.

— Cofre secreto?

— Belfort Ricksen era notório por ser um empresário rico e ruim. Devia usar o cofre para esconder parte do dinheiro sujo, evitando a vigilância do império, ou para evitar pagar impostos atrelados ao seu capital.

— E este é o cofre, então?

— Mas não tem nenhum co… — Lloyd se interrompeu, como se tivesse ligado os pontos. — Alguém deve ter pegado.

— Sim.

— E quem levou? — questionou Enya. — Os empregados da mansão? Devemos interrogar o mordomo, o mais suspeito, primeiro?

— Não — a capitã negou com a cabeça —, não devemos. Vamos ser inconvenientes, porque ele não tem conexão com isso.

— Perdão?

— Não tem como Belfort ter confiado os seus fundos secretos a outra pessoa. Ele deve ter escondido de modo que só ele soubesse disso.

— Mas está vazio aqui.

— Só porque ele não contou a todos, não significa que ninguém sabia disso. Eu também não acabei de encontrar?

Empresários, milionários e comerciantes têm ideias parecidas: abrir uma conta bancária não é o bastante; sempre desejam manter o que for de valor, moedas de ouro ou objetos, ao seu alcance. Só então se sentem à vontade.

— Quem o levou?

— Vamos descobrir agora. É apenas um palpite, mas a pessoa que roubou o cofre deve ter tido algo a ver com a morte de Ricksen.

— Mas disseram que ele foi comido por um lobisomem.

— Duvido que seja verdade, é só olhar para os vestígios deixados para trás. Quase metade do chão foi queimado. Foi por magia, então não escalou a um incêndio. Teve precisão, mas continuam sendo manchas grandes.

— Quer dizer que…

— Criptídeos e lobisomens, não importa quão grandes sejam, têm somente, no máximo, três metros de altura. Se você os queimasse até a morte, não faria um estrago tão grande assim.

Foi dito que as testemunhas, no começo, confundiram o lobisomem com um “monstro”. Como estavam assustados e já era noite, acharam que podia ter tido algum tipo de ilusão. Não foi o caso, a julgar pelos vestígios.

— O resultado é que alguém está envolvido na morte de Belfort… Uma morte não natural, a aparição de um monstro e até mesmo os maus rumores sobre ele. Ainda há muito a ser verificado.

O que mais incomodava Terina era a capacidade do misterioso intruso de levar o cofre sem deixar rastros. Ela se concentrou e tentou achar qualquer coisa, porém a pessoa não deixou evidências, como se fosse um profissional; como se o cofre não existisse…

“Sem chances. Definitivamente tinha um cofre aqui… até a noite passada.”

A sua evidência para isso era que ainda não havia poeira no fundo daquele espaço vazio. Não importava o quão fechado fosse, o ar e a poeira estavam fadados a entrar ali.

“Quem na Terra levou embora?”

A sua sensação de que estava tentando segurar uma miragem borrada com as mãos não era desconhecida.

“Estou tão acostumada a isso que sinto que é déjà-vu.”

Era inevitável que Terina Lionhowl trouxesse à tona a memória do seu passado de repente.

Alguns anos antes, houve um ladrão de ações indescritíveis que criou caos em todo o continente. Ele era tão misterioso que ninguém nunca tinha visto o seu rosto real, já que ele era borrado pela escuridão da noite. Ele era o único que tinha penetrado sem dificuldade quaisquer medidas de segurança e sumia com objetos de valor sem deixar rastros, fazendo com que muitos homens ricos chorassem de raiva.

Arsène Lupin, o ladrão.

“Não me diga que… Não, de jeito nenhum. Já se passaram anos desde que ele parou as atividades. Mas e se ele tiver se mudado de novo?”

O método usado ainda perturbava a mente dela. Mesmo que não fosse ele, ela não podia negar a possibilidade do intruso ser um conhecido, cúmplice ou discípulo dele.

— Lloyd.

— Sim, capitã?

— Há mais algo incomum que aconteceu em Leathevelk?

— Bom, tem mais uma coisa.

— O que é?

— Uma das fábricas abandonadas foi incendiada no mesmo dia em que Belfort morreu.

— Está lá, então.

O que aconteceu na fábrica abandonada incendiada? Mesmo o local não era mais visitado pelas pessoas.

— Vamos.

* * *

O caso do lobisomem que atacou Sören e Leathevelk terminou com a morte do maléfico milionário.

Doente, eu estava deitado na cama do meu quarto.

Ugh. Se eu soubesse que isso aconteceria, teria me preparado um pouco mais antes de ir. Estou feliz por não ter precisado ministrar aulas hoje; caso contrário, estaria em grandes apuros.”

Em vez de ser a dor em si, a cabeça girando e a enxaqueca foram o que mais me incomodou.

Peguei três pílulas e as coloquei na boca, ainda deitado. Outros poderiam pensar que elas eram algo como remédio para dor de cabeça ou analgésicos, mas eu estava mastigando, no sentindo literal, pílulas de mana.

Mmmm, mmmm.

Se alguém estava recuperando a mana, era comum que recuperassem ao longo do tempo ou bebessem poções. Todavia, graças à farmacologia desenvolvida, se tornou possível moer pílulas de recuperação em pó e bebê-las com água ou misturar com amido, como fiz, e comer.

Pó e pílulas eram mais fáceis de armazenar e transportar do que poções. Em outras palavras, acreditavam que elas eram muito superiores às bebidas. Portanto, o que era importante era a eficiência dos ingredientes em comparação aos outros.

Combinando três fatores — efeito, risco e eficiência —, as drogas poderiam ser classificadas do melhor nível, um, ao mais baixo, dez.

As pílulas que eu estava tomando foram criadas por mim mesmo maximizando a eficiência às custas do aumento do risco devido à minha “condição corporal”. Não passou por nenhum teste clínico, mas também não possuía uma etiqueta de classificação, por mais que eu acreditasse que deviam ser de bons níveis.

“Foi um problema eu ter usado muita energia. Sempre venci rápido, mas quem diria que ele seria um bruxo sombrio que se transformava daquela maneira?”

Irmãos Insetos…

Graças ao mais velho, Veron, não me foi dada escolha a não ser usar não a magia daqui, mas a “magia verdadeira”, que combinava o conhecimento oculto e mitológico do meu antigo mundo. Contudo, os efeitos colaterais não eram brincadeira, o que me levava a tomar drogas reabastecedoras de mana.

Som…

O som que continuava me incomodando desapareceu com o tempo. Essa voz só poderia ser suprimida com mana, então eu acabava a consumindo só de respirar. Então, era necessário que eu compensasse a falta da energia de tempos em tempos.

“Está um pouco melhor.”

Eu estava imerso em um pensamento diferente quando a dor de cabeça foi embora.

O caso do lobisomem foi concluído após eu me envolver. Queimei tudo sem deixar vestígios, e não conseguiram encontrar evidência alguma dos experimentos. O que complicava era que havia uma testemunha no local.

“Aidan.”

De comuns cabelos castanhos, o calouro que tentou me impedir de matar os lobisomens tinha uma expressão simpática e uma personalidade incrível. A sua ação de se arriscar para proteger a amiga sem saber que estava em perigo era uma visão rara mesmo em Sören.

Sim, se tivesse que defini-lo, ele era que nem o personagem principal de um anime ou romance. Dos alunos que assistiam às minhas aulas, ele era o aluno modelo que se concentrava mais do que todos. Ele se esforçou para entrar na academia e estudava magia por gostar dela de verdade, diferente dos outros.

Tal sujeito havia testemunhado o segredo dos lobisomens. Se fosse um jogo, acho que o título “Ato um: O Lobisomem de Sören” seria o mais apropriado.

“Ele pode suspeitar de mim por ter matado os lobisomens.”

Felizmente, Leo e Tessie Friad, que estavam lá com ele, não notaram isso. No entanto, se ele tivesse contado, seria uma história diferente. Como um calouro que nem queria se envolver em problemas se meteu numa confusão daquelas a ponto de ficar perto da verdade?

Pus a mão na testa e coloquei o cabelo para trás.

“Se for assim…”

Um método me veio à mente.

“Eu devo matá-lo?”

Deixe um comentário