Cap. 43 – Framework

— Flora, o que diabos está acontecendo aqui? Por que você está esgueirada na minha porta que nem uma ladra?

Com as palavras de Rudger, ela pulou do assento e tossiu, limpando a poeira da saia do uniforme.

Ele esbarrou na testa dela, que ainda estava vermelha, ao abrir a porta. Ela, todavia, tentou fingir que estava tudo bem e abriu a boca.

— Hummm… eu vim aqui porque queria te perguntar uma coisa.

Ela agiu de forma graciosa, mas não conseguiu esconder o tremor sutil da voz.

— Se você tiver alguma dúvida relacionada ao conteúdo da aula, pode vir até mim a qualquer momento. Não espere aí fora assim.

— Não, não é isso. Em primeiro lugar, gostaria de expressar minha gratidão ao senhor Rudger.

— Gratidão?

— Isso… Você me salvou naquela hora.

Então foi por causa disso. Ela foi lá para agradecer? Quando ele olhou para ela com um olhar de surpresa, Flora ficou furiosa.

— Por que está me olhando assim?

— Não é nada.

Talvez fosse porque ela nunca havia expressado gratidão a ninguém assim, então ela estava muito estranha consigo mesma. Ela sentiu algo fazendo cócegas na pele para dizer isso, mas estava determinada a falar.

— Obrigada por me salvar.

— Eu fiz o que tinha que fazer como professor.

Ele falou tão sucintamente que aparentou não ter sentimentos de altruísmo.

Ela parecia afortunada, mas também prejudicou de um jeito estranho a sua autoestima. Ainda assim, já que foi se desculpar, ela decidiu não reclamar das pequenas coisas.

— Pensei que o que o senhor disse não estava errado.

Ela massageou o cabelo com os dedos e bateu os pés. Ele ponderou sobre o que mais dizer e logo se tocou do que ela estava falando.

“Use magia significativa. Não diminua o seu valor.”

— Eu queria ter pensado nisso antes…

— Enfim, você está bem, senhor?

— O que quer dizer? — Ele franziu as sobrancelhas.

— O consumo de energia deve ter sido grande, já que também fiquei exausta ao suprimir o meu poder mágico. Não foi mais difícil para o senhor do que para mim? O fardo de ajudar as pessoas é várias vezes maior.

— Estou bem.

Era mentira dele. Ele teve a sorte de possuir uma poção mágica que havia preparado em caso de quaisquer imprevistos e ainda tinha um monte de remédios para falta de mana, por mais que tivesse usado quase todos. Caso contrário, ele poderia ter desmaiado ali.

“Bem, eu posso fazer isso de novo.”

Era Sören, então era óbvio que havia salas farmacêuticas. Além disso, os professores podiam entrar numa farmácia livremente no prédio de pesquisa.

Como a farmácia, onde ele podia fazer qualquer número de medicamentos que quisesse, estava equipada com todos os tipos de materiais, não importava se os professores apenas preenchessem uma ata sempre que quisessem e começassem os experimentos.

— Com quantos elementos o senhor lida?

— Por que quer saber?

— Você falou sobre cinco na aula. Não é muito?

Ele de repente se perguntou por que ela estava fazendo tantas perguntas. A maioria das crianças chamadas de gênios se moviam por conta própria, por causa do seu forte ego, e não conversavam muito com os outros.

Ele achava que ela era assim, e que esse fosse inclusive uma das razões dela ter tentado combinar três elementos na aula. Um estudante ainda era um estudante, certo? Era possível que ela somente quisesse saber o nível do seu professor.

“Na verdade, eu sei como lidar com quase tudo.”

Ele sabia como usar “todos” os dez elementos mais comuns; era o exato oposto de um mago de atributo único que alcançou o máximo em um deles. Entretanto, por isso, ele não alcançou um certo nível em nenhum deles.

Aos olhos dos outros, ele podia parecer um polivalente com grande talento, mas, na realidade, o próprio Rudger se avaliava como um incompetente.

“Mesmo assim, se eu disser que posso usar todos, vai ser um problema.”

Entre os magos remanescentes na história da Torre Mágica, oito eram conhecidos por terem lidado com a maioria dos elementos. Este era o recorde oficial número um especificado no “Livro Mago”, a história dos magos. Agora, ele já havia quebrado esse recorde.

Se descobrissem esse fato, a Torre seria derrubada mais uma vez, estabelecendo o caos. Uma pessoa temperamental poderia querer dissecá-lo vivo. Na verdade, ele não considerava incomum ele conseguir lidar com todos os dez.

“No começo, a mestra também não disse nada de bom para mim.”

Se eu tivesse que escolher a pessoa com maior influência sobre mim depois que nasci neste mundo, a mestra seria a número um. Ela foi quem me ensinou magia desde a infância, como viver no mundo, outras dicas e conhecimentos diversos.

Ela me tomou como um discípulo puramente porque me achava único e divertido. Mesmo considerando isso, fiquei muito grato a ela. Porém, como era uma pessoa tão excêntrica, avaliou o meu código-fonte como “nada mal”.

Naturalmente, foi ela que deu o seguinte conselho a ele: “você não vai a lugar nenhum com esse tipo de coisa”.

Assim, sob o conselho sério e ensinamentos dela, ele nunca foi arrogante, mesmo que soubesse como lidar com todos os dez elementos.

— Cinco elementos.

— Cinco… Surpreendentemente muito.

— É o fim das perguntas?

— Eu tenho mais uma a respeito do código-fonte. Ele será ensinado a todos os alunos da turma?

Na primeira aula, ele mostrou o código-fonte para atrair o interesse dos estudantes. Ainda pretendia de verdade o ensinar a eles, porém, não explicou de um jeito adequado para quem e quando.

— Não, porque essa magia é peculiar para mim também. Há condições.

— E quais são?

— É algo que vou passar só pros cinco melhores alunos

Em resposta, Flora sorriu curiosa.

— Isso é pouco, já que a capacidade total da turma é de cinquenta pessoas.

— Porque isso é magia.

— E a avaliação? Você está diminuindo isso como uma avaliação final do semestre? Em um semestre, ela é dividida em quatro partes. Deve ser difícil tomar uma decisão, pois os rankings estão mudando constantemente para cada uma.

— Eu esperava que isso acontecesse, então inventei uma maneira.

Ele de imediato ativou um truque mágico na palma da mão.

Poderia ser vista como monótona, já que era feita de apenas linhas brancas, mas a estrutura complexa criada impossibilitou tomar essa magia como leve.

Flora também exclamou suavemente com a cor.

— Isso é… uma parte do código-fonte.

— Você viu bem.

Ele assentiu com a cabeça.

Como ela disse, a técnica demonstrada era um dos principais componentes do código-fonte.

— Eu chamo isso de <Framework>

 Framework…

O código-fonte consistia em um total de quatro frameworks.

— Então você quer dar essa estrutura para os cinco primeiros a cada semestre?

— Sim. O semestre é dividido em quatro partes, e cada um dos quatro frameworks será entregue um a um. Em outras palavras, alguém que não se mantém nos cinco melhores não terá acesso a toda a magia.

Os alunos não podiam obter o código-fonte completo apenas por entrarem na lista de cinco melhores uma vez. Se quisessem tudo, teriam que assistir às aulas, enviar tarefas e passar bem nos exames em todos os semestres.

Ela, percebendo isso, olhou para ele com um olhar um pouco perplexo.

— Você é muito calculista…

— Eu me pergunto se isso resolve o problema.

— A propósito, você pode me mostrar?

— O que quer dizer?

— Não é um framework? E se eu analisar? — falou, apontando para a técnica ainda flutuando sobre a mão dele.

Era impossível para um mago continuar revelando a sua magia de modo tão aberto, a menos que ele confiasse na outra pessoa.

“Ah.”

Ele percebeu o seu erro. Os magos basicamente não mostravam a magia que desenvolviam por um longo tempo. Não publicavam teses ou submetiam uma patente, porque se uma pessoa copiasse e alegasse que era dona, seria uma dor de cabeça.

Na verdade, isso acontecia com frequência. Foi por essa razão que mantiveram a magia arcana deles em segredo. E ainda assim ele decidiu deixar para lá.

— Não me importo.

— O quê?

— Não importo se você vê ou não.

“Não importa o que ela faça na minha aula, ela vai ficar em primeiro lugar.”

Mesmo que ela não se esforçasse muito, estaria no top 5 sempre, então não seria um problema se ele mostrasse a ela um framework, de qualquer maneira. Se fosse ela, aprenderia todo o código-fonte.

— Como assim?!

Mas ela tomou as palavras dele de forma diferente. O seu rosto ficou vermelho, e então ela começou a gaguejar do nada, apesar da sua arrogância habitual.

— Por que você está assim? Não tem confiança que vai ficar em primeiro lugar nas minhas aulas e receber um framework?

— Ah, não, não é isso. Mas…

— Mesmo assim, é contra a lei dizer que…

Ela respondeu em voz baixa para que Rudger não pudesse ouvi-la. Todavia, pensando nisso, ela não conseguia parar o seu coração de bater. Mesmo que ela fingisse não ser franca por fora, o fato desse homem estar cuidando bem dela fez Flora estremecer o lábio e tentar continuar subindo.

— Vou te deixar ir.

Quando ele se virou, ela sem querer o chamou e o parou.

— Senhor!!

— O quê mais? Você tem mais alguma pergunta?

— Não. Isso, ah, nada.

Quando ela se virou e viu o rosto de Rudger olhando para ela com um olhar inabalável, ela corou como se estivesse prestes a explodir.

Após ouvir essas palavras, ela não poderia olhar diretamente para o rosto dele. Apenas a sensação dos seus olhos fazia cócegas na sua pele.

“Eu nunca vi nada assim antes.”

Ele, então, virou as costas para a indefesa Flora, que estava olhando incessantemente. Ela enfim recuperou a razão e acalmou a empolgação.

“Acalme-se, Flora Lumos. Você não é assim.”

Não era ela quem sempre zombava dos outros com as suas próprias habilidades?

Para ele, embora tenha tentado no primeiro dia, ela falhou horrivelmente. Ela perdeu de novo agora, mas a sua vontade ainda não foi quebrada.

Ela não prometeu superá-lo? O coração dela não deveria ter sido enfraquecido assim. Ela que decidiu ser fraca.

“Pensando bem, eu ia perguntar o que ele estava falando com aquela plebeia, mas esqueci.”

Mesmo que fingisse não estar, ficou curiosa quanto ao porquê dele ter chamado Rene.

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