Cap. 46 – Uma Aposta Perigosa (3)

Para ser honesto, no começo, quando Chris quis que eu apostasse com ele no resultado do duelo, eu fiquei feliz por dentro, mas não demonstrei. Era uma aposta certa, já que Aidan conseguiu entrar em Sören, então ele devia ter talento e potencial suficiente.

Não importava se os estudantes de famílias comerciantes ricas e nobres tenham sido educados desde tenra idade. Era natural que estivessem muito à frente dos alunos plebeus, ainda mais no começo do semestre.

Mas Aidan era diferente dos estudantes normais.

“Chris Benimore parece não saber disso.”

Se eu estivesse no comando da classe de sistema de manifestação do primeiro ano, eu teria verificado a lista de alunos incomuns entre os do primeiro ano. Ainda assim, Chris não pensava muito em Aidan.

Então percebi uma coisa: ele afirmou nem prestar atenção aos plebeus.

“Talvez ele só tenha memorizado os nomes de alunos de boas famílias com quem deveria se preocupar.”

Era uma desqualificação como professor, mas eu entendia. Uma pessoa que nasceu como nobre e viveu como nobre continuará a viver como um. Se tal pessoa visse um plebeu vivendo em um mundo completamente diferente do seu, mas no mesmo lugar, ficaria ofendido. Nesse caso, era bastante sensato não prestar atenção a isso.

Não tenho intenção de culpar os alunos por julgarem por classe ou discriminarem os outros. O mundo é assim, Rudger.

“Mas ele nunca pensou que isso o atrasaria.”

Mesmo que Aidan não tivesse conhecimento mágico, entrou na escola com a sua magia incomum. Teve um certo benefício na admissão, mas isso não significa que ele fosse ruim porque o maior desejo da diretora agora é que mais pessoas com magias raras entrassem.

“Talvez seja tarde demais para perceber que tipo de magia Aidan aprendeu.”

A aposta já foi feita. Alegar invalidez por não saber antes é um ato de revelar as próprias falhas em não poder confirmar as informações com antecedência. Mesmo que Chris percebesse as habilidades de Aidan, não teria escolha a não ser continuar a aposta.

“Mas do que diabos esse cara está falando?”

Você quer vencer com as próprias forças? Por um momento, não entendi do que ele estava falando. Não tive escolha a não ser perceber o quão extrovertido e justo esse tal Aidan era. Ele se dispôs para ajudar um lobisomem que ameaçava a sua vida.

Eu estava considerando dizer algo para me acalmar, mas fiquei um pouco preocupado.

“Não é uma coisa boa dar uma olhada vez ou outra?”

Não parecia tão ruim aproveitar esta oportunidade para verificar sua vontade e talento para aprender algo novo. A manifestação elemental era muito básica, então era impossível avaliar o talento dele apenas com isso.

“Eu deveria te ensinar algo um pouco mais avançado.”

Olhei para Aidan. Talvez ele tenha sentido o olhar, todavia, pude vê-lo balançando os ombros.

— Aidan.

— Sim, sim.

— Se é isso que você quer, está tudo bem. Pelos três dias restantes, vou ajudá-lo a se preparar para o duelo.

— Sério? Mas…

— Os dados já foram lançados. Talvez o senhor Chris dê alguns conselhos a Jevan ou o ensine a polir sua magia básica. Isso não é um confronto entre estudantes, é uma questão de orgulho entre mim e ele como professores e magos.

Se for algo muito básico, como implementar um atributo elemental, não tem por que pensar nisso de novo.

— Mas isso não significa não haver nada para ensinar.

Uma partida entre magos não é apenas magia. A velocidade de conjuração, a magnificência e a precisão não bastam.

— Aidan, vou ensiná-lo a lutar contra magos.

— É mesmo?

— Sim. Contudo, o período restante é de três dias. É apertado, então o que posso te ensinar é só o básico. Vai ser muito difícil e você pode falhar. Ainda quer?

— Sim! Deixa comigo — exclamou ele em voz alta, decidido.

“Boa atitude.”

— Vamos começar hoje.

— É? Sério?

Aidan assumiu uma expressão meio confusa, pois não sabia que começaríamos agora. Eu balancei a cabeça e apontei para os dois que estavam nos observando à distância.

— O mesmo vale para vocês dois.

— Hã?

— Eu também?

Leo e Tracy ficaram envergonhados quando os chamei, mas não puderam recusar. Ele não será o único que terá que melhorar, e acho que eles vão continuar juntos no futuro.

Com três dias restantes, Chris e Jevan devem ter pensado que venceram e que os deixei se divertirem. Mas será que eles ainda sorrirão depois do que acontecerá daqui três dias?

Passei a olhar um pouco para o futuro.

* * *

— Ugh… Eu vou morrer.

Na noite escura, depois que o sol se pôs por completo, Aidan voltou para o dormitório e se deitou na cama, exausto. Se orgulhava de não pular o treino desde que chegou a Sören, mas o treinamento de Rudger era difícil de uma forma inimaginável. Talvez fosse porque o professor também tenha sido um soldado.

“Eu não sabia que o meu corpo tinha tanto potencial assim.”

O que foi ensinado não foi a magia de manifestação ou outros feitiços, mas como usar o corpo na luta. Ele precisava usar o físico e a mente em simultâneo. Por causa disso, não sabia quantas vezes rolou no chão do campo de treinamento alternativo. Não dava para acreditar que teria que fazer isso pelos próximos dois dias.

“Ainda assim, parece que algo melhorou.”

Os ensinamentos eram difíceis o suficiente para sobrecarregá-lo, porém não abrigava nenhuma insatisfação e os absorveu em silêncio. Por instinto, estava certo de isso o ajudaria.

“Mais do que isso… por que ele disse que confiava em mim?”

O menino não achava que ia perder? Em caso afirmativo, qual seria o motivo?

“É por conta da minha magia?”

Havia uma possibilidade, uma vez que os professores tinham o direito de acessar as informações dos alunos. Entretanto, não fazia sentido para Rudger ser convencido com somente isso.

Ele nunca devia tê-lo visto usar magia incomum, então por que tinha tanta certeza? A magia que ele aprendeu foi transmitida pela sua mestra, então seria difícil entender tudo apenas ouvindo o seu nome.

“Será que ele sabe algo da minha professora?”

Aidan fechou os olhos com esse pensamento em mente. O dia foi tão duro que ele adormeceu sem sequer pensar em trocar de roupa.

* * *

Dois dias depois, estava correndo pelo campo de treinamento ao ar livre sem fôlego.

 He, he, he, he.

Na estrada para onde o garoto estava indo, o professor estava de pé com as costas cruzadas. Aidan foi estimulado a correr ainda mais ao vê-lo, e Rudger estendeu a mão direita. Naquele momento, uma esfera de pura magia branca voou em direção ao jovem.

Aidan olhou para ela, cerrou os dentes e virou para o lado enquanto despertava os seus poderes mágicos. Ele torceu a perna e caiu, mas evitou o feitiço rolando várias vezes no chão.

— O ciclo da magia é a circulação — disse Rudger, se aproximando devagar — e mexer o corpo é mexer o corpo. Não tente sobrepô-los, mas os reconheça separadamente.

— Sim! — respondeu o lamacento Aidan ao saltar do chão.

— Você falhou de novo, então corra outra volta.

— Sim!

E assim o fez. Leo e Tracy, sentados em cadeiras no campo de treinamento enquanto descansavam, olharam para o amigo com o mesmo olhar que se observa um monstro.

— Tô cansada e não consigo mais correr, mas ele tem boa resistência.

Tracy estava puramente admirando o fôlego infinito dele. Ela estava cultivando a sua resistência mesmo antes dos três anos, mas não estava no nível de Aidan. Até tentou alcançá-lo, se sentindo para trás, mas acabou levantando a bandeira branca.

— Ele tem uma vontade forte.

Por outro lado, Leo começou sua pausa primeiro porque a sua resistência era inferior à de Tracy devido à sua pequena estatura. Contudo, os seus olhos eram mais afiados do que os dela.

Embora parecesse bom para ela, Aidan estava em uma situação em que estava com o físico no limite. Ele só deveria estar correndo por causa da vontade de não perder no duelo.

— Ugh.

Ela ignorou as palavras dele e fixou os olhos em Aidan. Ele era um menino que não disse que a odiava, mesmo que ela agisse tão mal. Em vez disso, ele sorria e pedia para que comessem juntos; foi o primeiro estúpido que quis ser amigo dela. Agora com ele podre e suando horrores, era estranho que ela o achasse legal?

Em algum momento, ele completou uma volta outra vez e estava correndo em direção ao professor. Então Rudger levantou a mão.

“Venha.”

Leo e Tracy estavam nervosos, os punhos cerrados suando frio.

O feitiço voou a Aidan, ofegante à beira da exaustão. Era a “Pedra Brilhante”, um feitiço básico do tipo manifestação. Visto que Rudger estava assistindo e disparando, não era um problema desviar, desde que se concentrasse. O problema era se esquivar correndo.

Vendo Aidan deslizando para os lados em sua postura de corrida, quase evitando o feitiço, Tracy pulou do seu assento sem perceber.

— Desviou!

— Ainda não. O que importa é o próximo passo — apontou Leo.

Desviar e depois contra-atacar. De imediato, o garoto reuniu o seu poder mágico em movimento e quis ativar um feitiço. Era uma técnica que requeria o uso separado da cabeça e do corpo e podia parecer simples à primeira vista, mas para quem ainda não havia dominado a magia do jeito correto, era dificílimo.

Era mais difícil do que desenhar um quadrado com uma mão e um triângulo com a outra. Se mexer e conjurar simultaneamente era uma divisão de pensamento.

“Aidan, você consegue”, pensou Leo, cerrando os punhos.

Os magos devem concentrar muito de suas mentes para lançar feitiços a fim de que, quando o fizerem, não se movam, de modo que sempre estejam expostos ao perigo. Eles firmavam uma barreira ao redor ou encurtavam o tempo de conjuração para manifestar com segurança o feitiço, mas também havia aqueles que caminhavam por um caminho diferente.

Havia aqueles com a ideia de que, se fosse perigoso ficar imóvel, poderiam usar em movimento. Eram magos, porém não ficavam parados e treinavam os corpos até o limite para implementar a magia.

Ao contrário daqueles que estudavam a ciência e exploravam magia, eles vagavam pelo mundo para desafiar e lutar contra o desconhecido, recebendo o nome de “magos guerreiros”. O método que Rudger ensinou foi o “movens-magus”, o método de luta mais básico que aprendiam.

— Merda!

Aidan respirou fundo e juntou poder mágico. As suas pernas não pararam e ele nem teve tempo de recuperar o fôlego, mas nenhuma palavra foi necessária. Só precisou da vontade para manifestar um feitiço na mão, surpreendendo e muito os dois amigos sentados.

A magia se desdobrou. Era de primeiro nível e a mesma Pedra Brilhante, só que mais fraca, permitindo que Rudger a segurasse com a enluvada mão direita com grande facilidade. A ação fez Leo e Tracy exclamarem sem saber.

Aidan, bem mais ofegante, parou na frente do professor.

— Aidan.

— Huff… huff… Sim, professor.

— Você passou.

Antes que a resposta chegasse aos seus ouvidos, ele caiu no chão com um sorriso de realização.

— O duelo é amanhã, então descanse o suficiente hoje.

 Hã? Tá.

Ele não podia se dar ao luxo de responder direito.

— Você consegue — falou Rudger, sorrindo e agora de costas.

O tão exausto Aidan não o ouviu.

Deixe um comentário