Cap. 47 – Duelo Estudantil (1)

Quando Chris Benimore recebeu uma carta do seu escritório particular, a leu de relance e a queimou de imediato.

— Sim. Eu também sabia disso.

O relatório que chegou foi o material enviado por um operador de Sören, e o conteúdo estava relacionado a Rudger Chelici.

— Está tão em cima do plebeu assim? Mesmo que finja, está desesperado para ganhar a aposta.

Ele murmurou e riu, mas não ficou parado. Ele virou a cabeça para olhar o menino tenso de pé na frente dele.

— Jevan Pellio.

— Sim!

— Acho que sabe o que quero dizer para você.

Jevan assentiu com a cabeça com um rosto determinado.

— Sim, sei. Tenho que vencer aquele plebeu atrevido.

— Não basta apenas vencer. Você tem que mostrar a diferença entre nobres e plebeus com poder esmagador.

Era uma exigência um pouco dura demais, mas Jevan não achava que iria falhar. Quando soube que Aidan estava sendo ensinado por Rudger, ficou aterrorizado, mas teve Chris.

— Pegue. — O professor jogou um frasco de reagente.

Jevan, que segurou com pressa, olhou para o líquido azul dentro e fez uma pergunta com um rosto intrigado.

— Isso é?

— É um impulsionador mágico. Beba antes da luta.

— Mas não é contra as regras?

— É um produto especial da minha família que não deixa vestígios se tomado com antecedência, por isso não tem por que se preocupar.

— Isso…

— Quando beber, o seu poder mágico será ampliado na mesma hora, mas a duração é inferior a cinco minutos.

— Cinco minutos é bem pouco tempo.

— Sim. Não amplificará a magia que já tem, mas aumentará o limite de quanto pode conjurar. Os traços da droga desaparecem rápido, deixando apenas o efeito. Basta prestar atenção à exaustão do poder mágico após trinta minutos.

O garoto engoliu em seco. Estava perto de uma droga que lhe permitia usar o poder mágico que você tinha de uma vez. O seu orgulho não lhe permitiria usá-la contra um plebeu.

“Mas se for para uma vitória certa…”

Com Rudger apoiando Aidan, Aidan podia ter recebido algo, já que era um plebeu sujo. Com isso em mente, Jevan pôs a poção no bolso, a expressão rígida.

Vendo isso, Chris riu.

* * *

O auditório do segundo campo de treinamento estava mais da metade cheio de pessoas atrás do duelo. A maioria do primeiro ano se reuniu, mas também havia alunos do segundo e outros professores.

Se fosse uma simples briga de primeiranistas, teriam ignorado, mas como dois professores estavam envolvidos, era uma história diferente.

Rudger e Chris acabaram de ser designados para Sören e ambos comandavam a mesma matéria. Contudo, um era um nobre caído, e o outro era um nobre revelante; um apoiava um plebeu, enquanto o outro um nobre.

— Quem será que vence?

— Tem certeza de que é uma luta de calouros? Se for, o plebeu tá na desvantagem. Eles não são educados desde cedo.

— Ouvi dizer que esse calouro plebeu não é fraco. Dizem que ele contribuiu muito durante o incidente dos lobisomens.

— Você não sabe, mas o senhor Rudger o treinou.

— Se for assim, o senhor Chris também ajudou o nobre.

— Eu não o conheço. Ele está no comando do primeiro ano?

— Mesmo que ambos ensinem o mesmo sistema de manifestação, parece que o senhor Rudger é melhor.

Durante a conversa, os olhos das pessoas se voltaram para o topo, onde apenas os professores podiam se sentar na plateia.

— Olha.

 Hum. É verdade.

Chris, que acabara de sentar, manteve a sua dignidade nobiliárquica na postura. Devido a isso, as alunas naturalmente o seguiram com o olhar. Não era como se ele tivesse desgostado disso.

Naquela hora, os murmúrios ficaram mais altos. Foi bem diferente de quando Chris apareceu.

“O quê?”

Ele olhou para Rudger se aproximando. O homem possuía longos cabelos negros amarrados em um rabo de cavalo, uma mandíbula afiada e uma ponte nasal alta. Suas características faciais frias e olhos profundos fizeram o coração de muitas mulheres vibrar.

De preto, ele tinha: camisa, calças, gravata e até o longo casaco. A impressão geral da cor era uma reminiscência de um corvo. Segurando um cajado na mão direita, parecia o chefe de uma família de magos de prestígio.

— Ei, olha pro senhor Rudger.

— Tu tá é doido…

Rudger não se importou que todos olharam para ele e foi para o assento vazio para professores e se sentou.

— Viu isso?

 Hã, o clima tá pesado. É compreensível por que os rumores se espalharam tanto.

— Ele é mesmo um nobre caído? Pensei que ele era mais até do que os outros professores.

Chris, que ouviu os alunos, sorriu e estalou a língua, sem esconder seus sentimentos desagradáveis. Então se virou para Rudger, sentado na fileira ao lado.

Era provável que Rudger olharia em volta dessa maneira, mas ele estava focado no campo de treinamento com um sorriso que não mostrava o que pensava. Chris passou a língua nos lábios, como se nem se importasse com isso.

“Essa atitude impertinente acabou. Eu vou te humilhar na frente de todos.”

Esta luta seria vencida por Jevan Pellio. Aidan, o plebeu? Chris sequer sabia da sua existência. Ele não verificou a lista de estudantes da plebe.

“De qualquer forma, plebeus são plebeus. Eles entraram na escola com tratamento preferencial.”

Quando ele estava pensando nisso, a comoção atingiu um clímax. Chris olhou para trás e pôde ver o porquê.

— Você veio, diretora.

Quando Elisa Willow apareceu, Chris pulou do seu assento e a cumprimentou. A diretora abriu um grande sorriso e aceitou a saudação.

— Olá, senhor Chris Benimore. Uau. Há muitas pessoas aqui.

— Diretora, o que está fazendo aqui?

— Ouvi dizer que algo interessante estava acontecendo, então vim ver por mim mesma.

Os professores que a seguiam eram Marie Ross, do departamento de farmácia. Ela era quem serviu por mais tempo em Sören; Hugo Burtag, que liderava uma facção de professores nobres, incluindo Chris.

Quando todos os mais conhecidos da escola se reuniram, os alunos expressaram surpresa, afirmando que não tinham ideia de que esse combate poderia ser tão grande.

Aconteceu o mesmo com Chris. Ele apenas pensou que os dois estudantes teriam uma luta simples, não que a diretora em pessoa apareceria.

“E se ela não tem escolha a não ser comparecer numa luta da plebe e aristocracia?”

Ela era nominalmente neutra, sem pressionar nenhum dos lados, mas ele sabia que ela valorizava mais os estudantes plebeus. Foi por isso que Hugo não se dava muito bem com ela.

“Vai ficar tudo bem?”

Ele estava preocupado com o que aconteceria se ela interferisse, mas não aparentava ser necessário. Não tinha motivos para ela, uma pessoa neutra, intervir nesse assunto.

“Rudger Chelici…”

Mesmo quando ela apareceu, Rudger não olhou para trás. O seu comportamento foi atrevido e rude, o que irritou Chris.

— Senhor Rudger! Há quanto tempo!

A diretora o cumprimentou com um sorriso. Naquele momento, Rudger, que estava quieto, se levantou e a saudou devagar.

— Olá, diretora.

— Sim, olá. Como esteve?

— Bem.

— Fiquei bem surpresa. De repente, os senhores disseram que queriam assistir ao duelo dos estudantes, então quis saber o que estava acontecendo.

— Estávamos apenas fazendo uma aposta simples.

 Humm… E em quem você apostou?

— Apostei na vitória de Aidan.

— Apostas não acontecem a menos que haja duas pessoas contra, então o senhor Chris deve ter apostado na vitória do aluno Pellio?

— Sim… — respondeu ele, exasperado.

— Estou bastante ansiosa. Claro, a prioridade é garantir que os alunos não sejam feridos, certo?

— Não precisa se preocupar com isso. Colocamos em prática tantas salvaguardas quanto possível.

Marie Ross respondeu de lado. Mesmo que fosse uma partida informal, era provável que se ferissem, portanto, usavam equipamentos de proteção antes de entrar.

Equipamentos de proteção de metal que podiam ser usadas no peito, ombros e ambos os joelhos ressoavam entre si, e uma fina barreira mágica era colocada sobre a pessoa. No fim, o aluno cuja barreira ficava sem energia primeiro perdia.

— Então estou feliz.

— Ah, bem a tempo. Um apareceu.

O primeiro a ficar no centro do campo de treinamento foi Aidan, com uma expressão muito nervosa. A sua expressão era de quem vomitaria a qualquer momento, desacostumado com os tantos olhares.

— Mete bala, Aidan!

— Pega ele! Frita ele! Faz purêee!

Talvez por conta de Tracy e Leo na torcida, Aidan assentiu com um rosto mais relaxado e acenou para o público. Os plebeus o aplaudiram na esperança de que ele elevasse o status do povo.

Então Jevan apareceu pela entrada oposta.

— Vai que é tua, Jevan!

Os nobres aplaudiram Jevan, que assentiu com um sorriso como se estivesse familiarizado com essa situação. Os dois estavam de frente um para o outro, mas ele era o único com um sorriso malicioso.

— Pensei que tivesse fugido — afirmou Aidan.

— Está nervoso? Os plebeus não são acostumados a um lugar assim. Se fugir, não vai ser uma derrota catastrófica.

— Se eu ganhar…

— Sim?

— Peça desculpas a Tracy e Leo.

— O quê? Hahaha!

Talvez ele não soubesse que Aidan diria uma coisa dessas aqui, então caiu na gargalhada.

— Sim. Se você ganhar, vou me ajoelhar.

— Promessa é dívida.

— Mas o que você vai fazer depois que eu te bater?

Ele ficou confiante ao sentir a magia poderosa em seu corpo. Foi graças à poção mágica que bebeu havia um tempo antes de subir ao palco, um item cuja duração era tão curta que não se sabia se foi usado ou não.

Havia uma condição de que a partida precisava terminar em um curto espaço de tempo de menos de cinco minutos. Com essa força, parecia que não seria muito difícil.

“Se a mesma magia for usada, aquele que tiver o poder mais mágico vence.”

Não havia nada mais vantajoso do que a superioridade da capacidade ofensiva em um duelo entre magos. Mesmo que a mesma magia seja conjurada na mesma velocidade, era possível derrotar o oponente com força bruta.

Antes de iniciar a partida, o árbitro verificou as condições de Aidan e Jevan a fim de verificar se alguma irregularidade estava envolvida. O nobre acreditou nas palavras de Chris, então assentiu com orgulho.

Eventualmente, o árbitro, que estava verificando Aidan, viu o objeto pendurado na cintura e arregalou os olhos.

— Estudante, o que é isso?

— Ah, é o meu cajado para agora.

Aidan respondeu com um sorriso, mas o árbitro ainda estava intrigado. O cajado diferia das varinhas de materiais incomuns com os quais os bruxos lidam, e a sua forma era de espada.

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