Cap. 50 – Antimagia (2)

Chris pensou que a hora era aquela. Ele seria cobrado pela aposta com Rudger, onde o perdedor entregaria um dos documentos de pesquisa mágica ao vencedor. Não podia dizer não, pois foi ele mesmo quem sugeriu isso.

— Você sabia que o plebeu tinha antimagia?

— Sim, isso mesmo.

— Você fez essa aposta sabendo disso? — indagou ele, com uma voz chorosa.

— Não sei por que o senhor está tão zangado.

— Você diz isso…

— Senhor Chris, você não sabia? Soube que está no comando do primeiro ano, então deve ter visto os primeiranistas admitidos, certo? Além disso, a antimagia interferiu e contribuiu para a vitória dele?

Chris calou a boca. Como foi dito, ele não estava na razão para se atrever a discutir o resultado. O fato dele não saber não era culpa de Rudger. Afinal, era de quem? Como que um plebeu trivial e sem importância aprendeu antimagia?

A culpa era dele mesmo, porque não fez preparativos completos, e sem sequer coletou informações de antemão, apenas assumiu que ganharia. A sua arrogância foi a razão de sua perda.

— Se soubesse quem são os próprios alunos, isso não teria acontecido.

Trêmulo, Chris não respondeu. O que mais feria o orgulho dele era que o resultado não foi determinado pela antimagia. Aidan a usou apenas após a sua vitória.

— Lembro que apostamos uma tese acadêmica sobre magia.

— Nós fizemos. O que posso te dar?

— Nada.

— Mas que merda…? — perguntou, perplexo.

— Eu não vou pegar nada.

— Por que tão de repente?

— Não de repente. Isso é o que eu estava pensando desde o início.

Chris não conseguia entender aquilo. Não, entendeu, mas queria negar.

— É inferior extorquir os ensinamentos de outras pessoas em apostas.

Após falar essas palavras, Rudger virou as costas e saiu, confundindo Chris.

Ele nem ficou tão irritado quando foi ignorado ou quando perdeu a aposta; mesmo que tenha perdido, não precisou entregar nada. Quando ouviu que o ato de apostar em si era inferior, se sentiu mais do que irritado. Era decepção.

No espelho do coração que refletia o lado feio do homem, quanto mais olhasse com hostilidade e ódio, mais nojento seria o reflexo.

“Eu, Chris Benimore… você está dizendo que sou inferior?”

Ele mordeu o lábio com tanta força que fez sangue escorrer, mas nem considerou limpar. Ele estava apenas olhando para as costas de Rudger com um olhar sanguinário.

“Rudger Chelici… por mais quanto tempo vai pisar no meu orgulho? Eu tenho certeza de que vou pagar de voltar a desgra…”

— Senhor Chris.

Hugo se aproximou e o chamou, porém, não respondeu. Agora não queria mostrar a ninguém essa figura feia, o que o fez correr para longe.

Aborrecido, Hugo contorceu o rosto com a visão, até que viu a diretora olhando e sorrindo de leve. Este evento seria lembrado como um dia vergonhoso para a nobreza.

“Rudger Chelici…”

Pensando no homem que causou tudo isso, Hugo Burtag sentiu raiva no fundo da alma.

* * *

Aidan, embriagado com a alegria da vitória com os amigos, de repente se lembrou da promessa que fizera a Jevan. Os três se entreolharam e assentira, e aí ele cambaleou. Ele olhou para o nobre, que se levantou.

— O quê? — perguntou ele ao notar, a voz fraca. — Vieram rir de mim?

— Jevan, você esqueceu a promessa que fez antes da luta?

Ao escutar a palavra promessa, Jevan enrugou o rosto. Ele não conseguia nem pensar nisso, porque não conseguia se libertar do choque da derrota.

— Jevan Pellio, seja educado e peça desculpas agora por ser ríspido com os meus amigos.

— Agora, você se atreve… a me fazer pedir desculpas?

— Foi você quem apostou e solicitou um duelo, só estou dizendo para manter a sua palavra. Vamos lá, peça desculpas.

Jevan cerrou os punhos com força, mas isso foi tudo. Ele foi destruído, e até o seu ataque surpresa não teve sucesso. Não havia mais lugar para ele ficar em Sören.

— Droga. Tudo culpa sua! Por sua culpa eu…!

— Jevan…

— Cale a boca! Não chame o meu nome! Se não fosse por você, eu não teria passado por uma coisa tão feia na frente de todos! Sim, é tudo culpa sua!

Vendo a cena, Tracy quis dizer algo, no entanto, Aidan levantou a mão e a deteve.

— Aidan, por quê?

— Porque não adianta continuar.

Aidan sabia que não importava o que Tracy dissesse, Jevan não ouviria. Ele acreditava que as pessoas brigavam porque não se conheciam, e uma vez que elas se conhecessem, a história seria diferente. Ele percebeu algo ao ver o comportamento tomado pelo nobre.

Enquanto isso, Jevan chorou de modo ainda mais desesperador.

— Merda! Cacete! Por causa de vocês, plebeus imundos, não posso mais ficar aqui! Nós, a família Pellio, não poderemos levantar a cabeça, não importa aonde a gente vá! Por sua causa! Por sua causa!

Ele já havia apagado o ato covarde que havia feito da sua memória. Ele simplesmente não podia suportar isso.

— Por quê? Por que pessoas como você têm tais poderes? Por que não eu?

— Jevan…

— Merda. Eu só… eu só queria aumentar a reputação da minha família!

Jevan baixou a cabeça e gritou. Ele não teria parado se soubesse que era o caminho errado, porque ele só visava esse propósito.

Aidan olhou para ele assim e tentou dizer algo, mas logo fechou a boca. Longe de receber um pedido de desculpas, era difícil continuar uma conversa adequada. Mesmo Tracy, quem mais deveria ter se irritado, ficou em silêncio.

“Talvez eu também pudesse ter me tornado assim.”

Quando pensou nisso, tremeu de medo.

— A partida acabou. O que ainda estão fazendo aqui? — questionou uma voz fria atrás deles.

— Senhor Rudger?

Vestido com uma roupa toda preta, Rudger exalava uma atmosfera estranhamente irresistível. Ele olhou para Aidan e seus amigos, então caiu no seu assento e disparou um olhar frio contra o chorão Jevan.

 — Jevan Pellio, por que está agindo de uma maneira feia após perder? Você não aceitou a derrota e até fez um ataque surpresa. Está chorando porque foi injusto demais? Pobrezinho, você merece a justiça? Do jeito que está agora, não está muito pior do que os plebeus que você costumava odiar e desprezar tanto?

— O que você sabe…? Você não sabe como eu me sinto!

— Eu deveria saber?

— Como é…?

— Eu preciso mesmo saber?

— Você…

Jevan, prestes a gritar algo, teve a raiva substituída pelo medo ao ver os olhos do professor. Era como se ele enfrentasse um pesadelo na escuridão.

— Você lutou à vontade e perdeu a própria aposta. Nem isso aceitou, mas quer que os outros meçam os seus sentimentos. Por que preciso saber como você se sente?

— Isso…

— Você acha que essa ainda é a sua família? Pareço uma babá para escutar suas reclamações?

— Eu… eu…

— Você, que não sabe quão vergonhosas são suas ações, é desqualificado como um mago. O que é um nobre e o que é um mago?

— Eu… eu…

— Barulhento. Eu nem quero ouvir as suas desculpas. O que você fez será encaminhado ao comitê disciplinar. Saiba disso e saia da minha vista. Agora.

A pele dele ficou pálida, e ele recuou e depois fugiu da arena.

— Aidan.

— Sim, professor?

— Você usou com sucesso o movens-magus. Muito bem.

— É tudo graças ao senhor.

— Mas não pareceu muito bom.

— Sobre isso…

Aidan não conseguia entender por que estava se sentindo tão deprimido. Obviamente, na frente de todos, venceu o duelo de um jeito brilhante.

— Bem… eu não sei.

— Você não sabe?

— No começo, obviamente, fiquei alegre. Meu desejo de derrotá-lo com certeza não mudou, até porque ele insultou vocês. Mas… depois disso, foi um problema.

— Você foi influenciado por esse absurdo?

— É óbvio que eu não precisava ouvir isso. Sim. Ele ignorou. — Sorriu amargamente.

Rudger olhou para Aidan sem dizer uma palavra. Ele sabia desde antes dos seus valores justos em excesso, mas não esperava que o seu coração fosse tão fraco. Era um aluno jovem, e por isso não podia culpá-lo por ser estúpido. Era assim que uma criança olhava para o mundo.

— Aidan.

— Professor?

— À medida que você vive, vai encontrar várias pessoas.

— Hã?

— Nem todos são como você. Alguns vão te odiar e até mesmo ser agressivos. No fim, é isso. O seu mundo é diferente dos outros.

— Entendi…

— Mas depende de como você se comporta.

Com essas palavras, os três olharam para Rudger um pouco surpresos.

— Não tem nada de errado em tentar cuidar de si mesmo e não é estúpido desistir de tudo o que tem. Tudo o que você precisa para viver neste mundo é moderação.

— Apropriado…

— Aidan, o egoísmo e o altruísmo são meio a meio. Se eu ceder metade em vez de levar metade para alguém, chegará o dia em que nos entenderemos até certo ponto.

Com isso dito, Aidan se virou para Tracy. Ele se lembrava com clareza de quando se conheceram e que ela não era tão boa. Ela era que nem uma rosa cheia de espinhos, todavia, a partir de um certo momento, os dois se apegaram um ao outro.

— Eu não vou te dizer para não ceder nada a ninguém ou não ser atencioso, porque isso é impossível. Estou dizendo que não tem problema em ser pelo menos meio egoísta.

Com essas palavras, Aidan sentiu como se estivesse prestes a pegar alguma coisa.

— Eu falei demais. Eu vou agora.

— Senhor Rudger?

— O quê?

— Eu tenho certeza de que vou me lembrar do que falou!

Rudger olhou para Aidan, que respondeu com um rosto determinado, e depois saiu da arena com um leve aceno de cabeça.

Os três olharam para as costas de Rudger sem dizerem uma palavra até ele desaparecer.

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