Cap. 52 – James Moriarty (2)
O ar circulando nos becos de Leathervelk era frio o suficiente para fazer a pele doer. Naquele espaço escuro, Hans encostou as costas na parede e ergueu a cabeça.
“É alto demais.”
Por mais que ele se gabasse de ter visitado muitas cidades e visto muitas coisas, Leathervelk, a metrópole do império, era mais alta do que qualquer cidade que já tinha visto. Mesmo o pobre beco onde estava era como uma prisão de tijolos e latão.
“Será que fico com esse gancho de arame que nem o irmão?”
Se ele tivesse tal coisa, talvez fosse mais fácil escapar quando em perigo. A maior razão era que Rudger ao perseguir o lobisomem pareceu legal, claro.
Aí, a escuridão tremeu e as sombras se contorceram em uma visão surpreendente, como se um fantasma tivesse aparecido. Hans, ainda encostado na parede, dobrou o colarinho e o cumprimentou.
— Está aqui?
— Estou.
Em um instante, a sombra mudou de forma e assumiu uma forma humana vestida com um casaco preto Inverness, uma capa sobre os ombros e uma luva de couro preta na mão segurando um bastão dourado e preto.
Ao contrário do habitual, ele estava usando um chapéu de seda com o cabelo completamente desamarrado. Isso por si só diferenciou a impressão de Rudger.
— Qual é a situação?
— Deixe-me dizer o que descobri antes. Nosso esconderijo é em um beco, não é?
— Sim, é.
— Óbvio, existem várias gangues sombrias nas proximidades dividindo o território.
Hans resumiu o que descobriu nos últimos dias de trabalho duro.
— Elas são divididas em quatro grandes grupos: um grande, o mais forte de todos, e três outros de tamanho médio.
— Quatro? É uma cidade grande, então está um pouco cheia.
— Vou falar primeiro dos grupos médios. O primeiro é uma trupe de circo criada por pessoas deficientes ou marginalizadas.
— Circo?
— Porque em uma cidade dessas, é essencial ganhar a vida com habilidades decentes. Essa trupe de circo, Circus, é uma união de tais pessoas e uma espécie de gangue.
— Entendi. E quanto aos outros?
— O próximo lugar é composto apenas por mulheres. Não importa para qual cidade você vá, sempre tem.
— Um bordel.
Sem uma dica, Rudger acertou.
As pessoas comuns expressavam desconforto ou desprazer apenas pensando na palavra. Em um beco daqueles, era uma menção rotineira de se ouvir, mesmo na Terra no século XXI.
— Elas são fracas sozinhas, então dependem da organização. Além disso, também estão alcançando várias empresas na cidade. Disseram que elas compartilham o padrão de uma pequena rosa preta, então as chamaram de “Madames Rosas Negras”.
— Madames Rosas Negras — ele murmurou o nome. — E o último?
— É uma combinação feita por crianças e idosos. Pessoas velhas e incapazes de trabalhar, mas cheias de conhecimento e experiência, e jovens que saltam para a linha de frente para ganhar dinheiro.
Rudger assentiu. Na verdade, vender a força de trabalho em tenra idade era uma visão comum neste mundo. Se andasse pelas ruas, veria várias crianças vendendo jornais. Fora essas, havia as carteiras, ou então as domésticas; até as que trabalhavam em fábricas ou minas sem descanso adequado.
— Pelo visto, o nome é “Novas Anciãs”. Diz-se que se concentram na coleta de informações, os combinando com as Rosas Negras.
— Porque as crianças ouvem muito.
Resumindo o que Hans me contou, foi o seguinte: um circo, o bordel das Madames Rosas Negras e o sindicato Novas Anciãs. Todos os três grupos eram forças de tamanho médio.
— Só falta o grandalhão.
— A Sociedade Vermelha, a gangue do beco.
— Acho que já ouvi o nome.
— Eles ficam pelos becos de Leathervelk. Sequestro, intimidação, tráfico, indústria de bebidas alcoólicas, trabalho que requer um punho e muito mais… é mais fácil dizer o que não fazem.
E se os três primeiros grupos foram criados por acaso porque se uniram para sobreviver? A Sociedade Vermelha era a sombra do mundo, e era uma existência inevitável feita pela coleta de insetos atraídos por seu fedor.
— Este beco é mantido em um estado de equilíbrio entre a Sociedade Vermelha e os outros três grupos. É muito provável que a sociedade esteja lutando contra os outros.
— A única que precisamos lidar com é a Sociedade Vermelha.
— Certo. Primeiro: os outros três sequer respondem se não mexermos diretamente com eles. O risco em si é baixo. Mas… a Sociedade Vermelha é diferente.
— Sim, eles subjugarão todos os menores e os colocarão debaixo deles ou os esmagarão.
— Tenha cuidado, eles são bem poderosos. Recentemente, os olhos da Sociedade Vermelha estavam observando nosso esconderijo. Então, um passo de cada vez…
— Não, isso é perda de tempo.
— É?
— Nós já acabamos com o cabeça, então o resto vai descobrir.
— Mas como você…
Vendo Hans perplexo, Rudger sorriu.
— É claro que em um avanço frontal.
Por essa razão, ele adaptou as roupas dele.
Hans ia dizer para ele não ser louco, mas quando percebeu que Rudger estava dizendo isso de verdade, levantou a bandeira branca. Rudger faria o que dizia e teria sucesso, porque ele sempre foi assim.
— Vai usar essa identidade desta vez? Um autoproclamado consultor criminal, um magnata do submundo?
— Sim — respondeu Rudger enquanto colocava um monóculo dourado.
Sua habitual aparência afiada e fria de soldado foi apagada de uma só vez. Em vez disso, o que apareceu foi um homem com a impressão de inteligente e quieto, mas era como uma cobra venenosa.
James Moriarty era uma de suas identidades passadas que ele usaria agora.
— Você está mesmo planejando ir de frente?
— Por quê?
— É porque a atmosfera da Sociedade Vermelha está bastante feia agora. Sem surpresa, os membros do grupo se reuniram com as lâminas pra cima.
— Está; acho que sei por quê.
— Como?
Hans ficou intrigado quando Rudger respondeu que sabia o que ainda não havia descoberto.
— A morte do ricaço Bellbot Rickson deve ser o motivo pelo qual a Sociedade Vermelha está em apuros agora.
— A morte de Rickson e o que eles… Ah!
— Acho que você notou.
— Acho que devia ter algum tipo de conexão entre Rickson e a Sociedade Vermelha. — O rosto de Hans ficou mais sério.
— Sim, ele era notório pelo seu trabalho sujo. Um caso misterioso de um empresário concorrente, ou um incêndio em uma favela que se opõe à construção de uma fábrica, etc. Poderia tal pessoa ter feito todas essas coisas por conta própria?
— Então, a Sociedade Vermelha estava fazendo o trabalho para ele.
— Isso.
— Acho que os ricos precisam de alguém para fazer a parte ruim.
— Hans, agora que Rickson está morto, a Sociedade Vermelha deve estar pegando fogo, já que a maior fonte de dinheiro deles se foi. Por ora, ficarão quietos, mas mais cedo ou mais tarde se mexerão para compensar a falta de dinheiro.
— Acho que é por isso que eles estão se reunindo. Não, calma aí. Se for esse o caso, você não é o principal culpado?
— Sou.
Com a resposta fria, a expressão de Hans ficou intrigada. A Sociedade Vermelha estava muito zangada com o fato de Rudger ter matado Rickson. Eles nem sabem que foi ele quem fez isso, então podiam chamá-lo de inimigo?
— E agora é o momento certo, para dizer o mínimo. As pessoas que normalmente estariam dispersas estão reunidas em um lugar por um longo tempo.
— Você vai mesmo fazer isso?
— Por quê?
— Bem, irmão, você é um mago, então mesmo que alguns bandidos o ataquem, você ficará bem. O problema é que a Sociedade Vermelha também não é uma gangue comum.
— Não é comum?
— Armada com todos os tipos de armas… Bem, as balas não são sempre eficazes, então há uns espadachins entre eles.
— Hum…
— Aqueles que tentaram se tornar cavaleiros, mas falharam devido a problemas financeiros ou de personalidade, ou então os cheios de calos devido ao trabalho mercenário. Há muitos assim na Sociedade Vermelha.
— Eles têm quase-cavaleiros, certo?
Quando você pensa em um cavaleiro na Terra, pensa em um europeu blindado à moda antiga, mas não é o caso aqui. Um cavaleiro é um sobre-humano com uma capacidade física extraordinária, capazes de desviar até mesmo de balas com pouco equipamento.
Eles foram rivais por muito tempo, então o adversário mais difícil de lidar como um mago é um cavaleiro. Quem lida com aura corta ou rompe qualquer feitiço, e Hans queria tomar a rota segura, mesmo que levasse tempo.
— Isso é divertido.
Mas Rudger sorriu. Hans sabia que tinha ouvido algo errado.
— Irmão, você vai mesmo assim?
— Tem alguma razão para não ir?
— Quase-cavaleiros!
— Um quase-cavaleiro é só um quase-cavaleiro, não um por inteiro. Hans, não acho que você esteja familiarizado com isso, mas há uma grande diferença entre um quase e um todo, e é ainda maior quando você os compara aos altos escalões.
— Não, não quero dizer isso…
— Cavaleiros de pleno direito podem fazer a diferença, mas quase-cavaleiros são insignificantes.
“…….”
Com o tom confiante de Rudger, Hans manteve a boca fechada e pensou seriamente: “então é isso?”.
Não havia nada muito errado com aquelas palavras. A diferença deles era mesmo enorme, e eles eram ainda mais fracos do que os aprendizes que acompanhavam os plenos.
— À primeira vista, parece isso?
Pensando bem, ele era muito pessimista. Ele estava com medo apenas porque tinham “cavaleiro” no nome. Hans, acreditando que estava se preocupando demais, assentiu.
— Bem, se é isso que você diz, irmão.
Claro, foi o grande erro dele. Era verdade que um quase-cavaleiro era fraco em comparação com um regular ou um aprendiz, mas não era para tanto. Embora houvesse uma diferença, não poderia ser chamada de decisiva.
Até os quase-cavaleiros podiam arrancar a garganta do adversário com apenas uma colher. Para as pessoas do outro mundo, isso por si só seria um terror.
Rudger sabia disso e escondeu de Hans porque, mesmo que soubesse desse fato, teria atacado a Sociedade Vermelha. Nesse caso, seria mais conveniente para ele seguir sem saber o que estava fazendo.
— Pegue.
Rudger jogou algo, e Hans pegou e foi ver de imediato.
— Preciso da sua ajuda.
— Está falando sério…?
Era um dente de lobo.