Cap. 53 – James Moriaty (3)
Hans não se preocupou em perguntar por que Rudger lhe deu o dente do lobo, afinal, ele era o único que conhecia sua constituição melhor do que ninguém.
— Ainda assim, se eu for sozinho, será complicado. Preciso que você aja pelos fundos.
— Depois da luta, a gente parte na mesma hora.
— Não precisa se preocupar com isso.
Hans suspirou, pegou a presa e enfiou na palma da mão até sangrar. Logo depois, os seus dentes ficaram afiados e pelo preto começou a crescer no corpo dele.
Quando o gene contido na presa entrou em contato com o seu sangue, a constituição genética da besta expressa foi ativada.
Com o som de ossos torcendo, ele cresceu quase a metade do seu tamanho habitual. Em pouco tempo, Hans era um lobisomem pelagem negra, vestindo um manto quase que explodindo.
Com cuidado, ele tirou, notando que as suas roupas estavam apertadas, e as deixou nas proximidades.
— É o suficiente?
— Humm. Nada mal. Acho que nem precisaria de calças, mas…
— …Por favor, tome cuidado com isso.
— Sim, essa parte eu entendi.
Se a transformação fosse liberada mais tarde e ele removesse as calças, seria uma visão bem aterrorizante.
— Acho que isso é bom. — Hans suspirou de alívio.
— O tamanho também não está ruim. Afinal, a forma muda dependendo de quais dentes são usados.
— Bem, isso é algo que não tive escolha a não ser aprender na prática a partir de experiências tão diversas que me deixaram enjoado.
— Sinto muito. Se eu conseguisse, queria manter os dentes de um urso ou de um tigre.
— Mas a presa desse lobo parece bacana, não é?
Ele se transformou várias vezes, então conseguia sentir a diferença agora. Estava cheio de força, e os seus músculos eram 1,5 vezes mais grossos do que o habitual. Era óbvio que não era um dente de lobo comum.
— É o dente de um presa-negra do Continente Norte.
— Eles são ferozes demais, não é de se admirar. Senti que tinha mais energia do que o normal.
— Em comparação com tudo que você se transformou até agora, pode ter certeza de que isso está no topo da lista. É claro que, se você usar “aquilo”, pode ficar mais forte do que qualquer outra pessoa.
Com a palavra “aquilo” saindo da boca de Rudger, Hans franziu a testa ao ponto de ficar irreconhecível, mesmo estando no estado de lobisomem.
— Irmão, se eu usar algo perigoso assim e cometer um erro, posso ser comido pela natureza.
— Dei a você apenas para caso algo ocorra. Não sei como o mundo vai mudar, mas se a sua vida estiver em perigo, use. Seria melhor do que morrer.
— É, mas…
Hans se lembrou daquele enorme molar. O dente era tão grande e afiado que teve de ser esculpido para se tornar uma adaga. Foi um presente especial de Rudger para ele, e ele, que achava a sua constituição uma maldição, estava relutante em mantê-lo.
— Então, podemos ir?
— Vou dizer de novo: depois da luta, vou partir de imediato.
— Você só precisa arrumar o clima. Eu entro primeiro, então quando eu lhe der o sinal, siga-me.
— Entendo.
Rudger, vestido de preto, e Hans, agora uma besta negra, desapareceram na escuridão como sombras.
* * *
Localizada nos arredores do centro de Leathervelk, a rua Forges era famosa por suas muitas lojas, restaurantes e locais de música. Ademais, em algumas áreas, havia oficinas para criar dispositivos de energia mecânicos, por isso não apenas adultos, mas também crianças visitavam de forma ativa.
Na parte profunda da rua Forges ficava a divisa do brilho e breu da cidade. Em um grande pub conhecido por todos, homens com gênios ruins se reuniram, mantendo uma atmosfera desconfortável.
— Porra!
Entre eles estava um ruivo agarrado com vinho. O seu físico não era nada especial em comparação com outros cujos músculos eram definidos, mas o seu rosto era. De grandes costeletas, ele tinha uma grande cicatriz em um dos olhos, tornando a sua feiura única.
Quando ele se irritou, os subordinados próximos notaram na hora. Então, um deles, que estava agindo como conselheiro, arranjou coragem para questionar.
— Está tudo bem?
— Eu pareço estar, cacete?
— Para ser honesto… é difícil dizer.
Era o líder da Sociedade Vermelha, a cobra vermelha, Dutri.
Era esperado a sua raiva, até porque era o melhor amigo de Rickson, o maior suporte financeiro da gangue. Dutri construiu a Sociedade Vermelha com seu prestígio nas costas, e aí um dos grandes pilares desmoronou de repente.
Havia mais alguns pilares para ajudá-los, mas o problema era que, antes da morte de Rickson, investiram enormes somas nos negócios dele. E como o gerente do projeto morreu, a sua riqueza seria espalhada.
A maioria dos investidores iria compartilhá-la, mas seria difícil recuperar o capital investido de Dutri, que gastou uma grande quantia. Era impossível a gangue ser destruída por tal coisa, porém era inevitável que fosse perturbada.
— Mas ainda vale a pena. Por que não encontrar um novo caminho?
— Foi por isso que chamei vocês aqui. Acho que teremos que expandir nossos negócios em um futuro próximo.
A expansão dos negócios envolvia sangue e violência. Talvez tivessem que lutar contra outras gangues, contudo ninguém estava preocupado. Eram os melhores no submundo de Leathervelk quando se tratava de forças armadas.
— Uma vez peguei algumas vadias rosas negras e as pressionei para…
Quando Dutri murmurou, um homem abriu a porta do pub e entrou.
— Quê?
— Hã?
A princípio, ele pensou ser um atrasado, entretanto, mudou de ideia ao ver que a pessoa era muito limpa para ser uma integrante da gangue.
Com um casaco preto Inverness e uma bengala na mão, juntamente com o chapéu de seda preta na cabeça e o monóculo em um olho, parecia um cavalheiro rico.
— Quem é esse arrombado? Você não sabe que a loja está fechada? — indagou Dutri.
O homem pegou uma cadeira vazia próxima e se sentou no centro do pub, como se não tivesse ouvido nada. A figura dele sentado com as pernas um pouco afastadas, se apoiando no cajado com as duas mãos, estava cheia de uma estranha dignidade difícil de descrever em palavras.
— Ficou maluco?
Todos os integrantes da Sociedade Vermelha olharam para o convidado não convidado.
Após esvaziar a garrafa, Dutri saiu do seu assento.
— Quem é você?
— Dutri, líder da Sociedade Vermelha. Estou certo?
— Sim, mas não vi seu rosto nesses lugares. Você veio aqui sozinho sabendo quem somos?
Mesmo com olhares vindo de todas as direções, a pessoa estava confiante. Dutri sentiu uma estranha insegurança, já que não parecia um blefe.
Ele esteve por muito tempo no submundo e sabia distinguir entre a pretensão de um incompetente e a ousadia de alguém talentoso de verdade. O ser humano à sua frente era a última opção.
“As roupas dele parecem luxuosas. Ele veio até mim?”
— Humm… Pra que porra você veio até mim?
— Já faz um tempo desde que cheguei na cidade, então estou tentando começar um novo negócio.
— Ah! Negócios! É bom! Você encontrou a pessoa certa.
Dutri bateu palmas de alegria. O homem estava falando de negócios, todavia ninguém lá desconhecia que era dinheiro e trabalho sujo. A julgar pelas aparências, devia ser um comerciante rico e um coração sombrio, assim como Rickson.
“É um dinheiro que tenho que pegar!”
No entanto, Dutri não ficou satisfeito por inteiro. Ele sabia que não podia acreditar em alguém que acabara de conhecer.
Se não se conhecia a pessoa, não confiava. E mesmo que conhecesse, acreditava somente na metade. Trair primeiro antes de ser traído era o caminho e a disciplina dos que frequentavam aqueles becos.
— Então, qual o seu nome!
— Meu nome é James Moriarty.
— James Moriarty?
Dutri ficou intrigado com o nome e sentiu algo assustador.
“Eu acho que já ouvi o nome antes, mas eu realmente não me lembro.”
Então seu braço direito percebeu algo e logo se aproximou e sussurrou no seu ouvido.
— James Moriarty! É aquele cara.
— Quem é?
— Um magnata que uma vez governou o submundo de Delica.
— Ah, lembro um pouco.
James Moriarty se autodenominava professor e era um notório consultor criminal no submundo. Delica, o reino do ferro, fez progressos notáveis na indústria siderúrgica, e foi ele quem governou a escuridão de lá. Ele era famoso o suficiente para ser considerado meio lendário no campo.
“Mas é verdade?”
Dutri estava desconfiado, já que o professor Moriarty desaparecera de Delica havia vários anos. Existiam rumores de que ele tinha sido levado ao fim por um detetive de uma famosa família nobre.
Alguns diziam que ele foi capturado e apodreceu nas masmorras profundas do reino, outros que ele escolheu morrer antes de ser capturado. Havia a possibilidade de que esse professor na frente dele era uma farsa.
“Bem, talvez eu devesse dar uma olhada.”
Dutri suspirou e acenou para seu subordinado.
— Professor Moriarty, ouvi falar muito de você.
— Fico feliz que você me conheça.
— Se o senhor é o verdadeiro ou não é um pouco vago.
— Acha que sou um impostor?
— Um desaparecido de vários anos atrás aparecer do nada na minha frente assim…
Moriarty olhou em volta; o pessoal havia retirado as armas da cintura. O cheiro de pólvora barata, irritando de leve a ponta do seu nariz, o convenceu do fato de que a Sociedade Vermelha era bastante grande, uma vez que possuíam armas.
— Um aviso.
— Diga.
— Recomendo não sacarem as armas, se puderem.
Moriarty levantou a mão direita na mesma hora. Ao mesmo tempo, inúmeros capangas sacaram as armas e apontaram para ele.
— Se fizer algo suspeito, você vira peneira.
Moriarty não estava nem um pouco intimidado. Dutri começou a se perguntar se o homem à sua frente era o verdadeiro Moriarty.
— Que barulho.
Por provocação de Moriarty, alguns dos mais jovens da gangue olharam para Dutri e perguntaram se deveriam atirar. Ele ponderou por um momento e depois assentiu.
Reconhecendo o sinal, um deles puxou devagar o gatilho da arma e apontou para o ombro do professor, não a cabeça. Nenhuma bala saiu.
— Hã?
Não foi só isso. As armas de todos ficaram inúteis.
— Por isso que alertei vocês. — Moriarty riu baixinho. — Não saquem a sua arma.
— Mago!
Dutri percebeu a clara razão para todas as armas terem parado de funcionar: o feitiço “Cessar-fogo”. Era óbvio que o professor era um mago.
Então, Moriarty assobiou. Quando o som ecoou através do bar e se espalhou para fora, a entrada do pub foi destruída e um gigante entrou.
— Ai, caralho!
— Toma no cu! Que porra é essa, doidão?
Era um lobo preto, gigante e bípede que aparentava ter mais de dois metros e meio de altura e até mesmo garras afiadas. Todos estavam cientes do incidente do lobisomem em Leathervelk.
O lobisomem entrou lentamente e parou atrás de Moriarty, como se quisesse protegê-lo.
Dutri mudou de ideia em um instante.
— Parece que você é o legítimo.
— Isso é prova suficiente?
— É, sim.
— Então podemos ter uma conversa séria agora.
— Com certeza. Que tipo de negócio quer? Do que precisa?
— Antes disso, tenho algo para lhe dizer.
— Algo para me dizer…?
Com as palavras de Moriarty, os olhos de Dutri se arregalaram.
— Eu não gosto de coisas sujas.
— Sim?
— Eu quis dizer que a Sociedade Vermelha desaparecerá de Leathervelk a partir de hoje.