Cap. 60 – A Pedra Onipotente (2)

 Hummm…

Deitada e olhando fixamente para o teto, Rene continuou se mexendo na cama. Ela fechava os olhos, porém não conseguia dormir. O seu coração estava perturbado.

“Ele recrutou sua assistente.”

Não foi particularmente estranho, até porque ele era muito grande em termos de influência. Ela se sentiu um pouco arrependida de não ter sido ela, contudo, era outra coisa que a mantinha preocupada.

“Um livro sobre magia sem atributos.”

Ela segurou o livro na cabeceira da cama e o abriu, ainda deitada. Dentro dele estavam artigos detalhados a respeito de magia não elemental. O livro estava repleto de experiências semelhantes àquelas que ela teve com o desconforto que era tentar praticar magia.

Para ela, que sofreu muitos inconvenientes devido à sua inexistência de atributos, este livro era um item difícil de encontrar, mesmo com dinheiro.

“Não importa quantas vezes eu o leia, ele ainda me surpreende. Por que o senhor Rudger entregou ele para mim? E onde ele conseguiu?”

Era óbvio que o preço deste livro era astronômico. Ganharia fama e riqueza para o resto de sua vida só de levá-lo à Torre, mas ele não o fez. Ele disse que não escreveu o livro sozinho, e que era certo devolvê-lo ao seu dono merecedor.

“Então, quem escreveu?”

Toda vez que ela o abria, sentia uma sensação estranha. O autor não revelou seu nome e nem disse o porquê de ter escrito, como o comum.

“Mas não acho que seja um completo estranho.”

Foi só um pressentimento, todavia. Sempre que ela olhava para os textos, seu coração se sentia sufocado. A familiaridade e o anseio por uma razão desconhecida emanava da escrita e até mesmo uma tristeza que fazia seu coração doer. Ela não conseguia entender por que estava sentindo isso.

“Estranho. Não tenho ideia por que estou fazendo isso.”

No fim, ela não teve escolha a não ser fechar o livro.

— Ah! Vou dormir! Não tenho tempo para me preocupar com isso agora.

Ela se cobriu dos pés à cabeça com o cobertor, porém ainda não conseguia dormir. Por horas não teve escolha a não ser ir de um lado para o outro na cama.

* * *

Há muito tempo, viajei por todo o continente e mudei de identidade. Às vezes eu era um mercenário, às vezes um caçador, às vezes um consultor criminal e muitos outros, mas aqui estava a razão pela qual eu estava escondendo meu verdadeiro eu e vagando pelo mundo.

“Relíquia.”

Eu vaguei ao redor do mundo para encontrar fragmentos da relíquia que estava segurando.

O sol tinha se posto e o céu noturno estava cheio de estrelas. Sentei-me à janela do dormitório na minha cadeira sob o luar.

“Recebi a informação de que há uma relíquia no império e vim, mas tinha outra aqui.”

Sinto que ganhei uma renda inesperada. Porém, não acho que a que estou procurando e a Pedra Onipotente são as mesmas.

“Não há necessidade de cobiçar a Pedra Onipotente, mas posso usá-la para procurar o fragmento da relíquia que estou procurando.”

De certa forma, era uma oportunidade. Relíquias são muito raras, por isso eu não poderia encontrar com facilidade só porque queria. Mesmo eu, que vaguei pelo continente por um longo tempo, conheci inúmeras pessoas e experimentei todos os tipos de eventos.

Tenho três peças, incluindo esta

“Adivinhando o tamanho e a forma, restam quatro fragmentos.”

Um total de sete peças devem ser coletadas para completar a relíquia.

“Se eu fizer isso, obviamente eu…”

Em silêncio, olhei para a primeira peça, que eu estava segurando. Quando a ganhei por acaso, os restos do último poder contido no fragmento me mostraram um milagre.

Se eu pudesse reproduzi-lo de novo…

Bip.

Após pensar a respeito, levantei-me ao sinal da esfera de cristal que deixei para Hans entrar em contato comigo. Coloquei energia mágica na ponta dos meus dedos e derramei-a no objeto, que em seguida brilhou e vociferou.

— “Irmão, está aí?”

— É o Hans?

Foi Hans quem me contatou. Bem, na verdade, ele é a única pessoa que se comunica comigo. Haverá mais depois, mas não agora.

— O que está acontecendo?

— “Já que você, irmão, fez todo o trabalho, acabei de arrumar.”

— O resto das gangues.

— “Exatamente.”

A voz de Hans, ouvida além da esfera, continha uma sensação de segurança.

— Então, o que aconteceu?

— “Por enquanto, não há ninguém que se oponha a nós. Isso é uma sorte para nós e para eles.”

— Eles inesperadamente aceitaram nossa existência?

— “Nós dois sozinhos dividimos a Sociedade Vermelha existente. Não, na verdade, foi somente você.”

— Mesmo assim, estão rolando na escuridão de Leathervelk há muito tempo. Não podem ser ignorados.

— “Eu sei. Bem, não estou interessado em supremacia ou algo assim, apenas ter espaço para sentar é suficiente.”

— Mesmo assim, deve ter havido um pouco de conversa sobre os poderes que a Sociedade Vermelha já tinha, certo?

A Sociedade Vermelha era responsável por todos os tipos de negócios sujos, como drogas, bebidas e jogos de azar no submundo de Leathervelk. Mesmo com drogas, os bares e cassinos operados pela por eles eram grandes o bastante para circular grandes somas de dinheiro.

A parede que os protegia desapareceu, então os arredores devem ter se tornado bastante barulhentos. Deve haver alguns que vão estender a mão tentando obter uma parte dos lucros. Caras que não podiam nem se atrever a mostrar seus rostos antes levantavam a cabeça um por um.

Um verdadeiro momento de caos. A menos que alguém apareça e acalme a situação, o cheiro de sangue se espalhará pela escuridão de Leathervelk.

— “Por enquanto, as outras três gangues estão trabalhando juntas para suprimi-lo, mas acho que precisamos discutir isso mais tarde.”

— Eu irei.

— “Pela primeira vez, o lado deles tomou a iniciativa. De qualquer forma, não estou com vontade de negociar sozinho, então preciso da sua ajuda.”

— Quando?

— “Quanto mais cedo melhor, mas não é urgente. Quero que você decida quando acha que é melhor para você.”

Dito isto, também sei que não devo adiar muito. Preciso ir à mesa de negociações em, pelo menos, uma semana, por mais que, na minha opinião, seria mais conveniente me mover agora.

“Há coisas relacionadas à Pedra Onipotente, então não seria razoável.”

Mais cedo ou mais tarde, ela será transferida de sua área de armazenamento original para uma temporária. Talvez se possa dizer que aqueles que lideram este trabalho já sabem a hora e o lugar para onde ela será transportada.

“As ações do Amanhecer Negro são certas, mas a questão é quem diabos está liderando isso.”

Ainda não recebi nenhum contato. Se houvesse um problema, Sedina teria me notificado de imediato.

“Ainda não sei se outras da Primeira Ordem além de mim estão fazendo as coisas por conta própria ou se há outra razão.”

Entretanto, uma coisa é certa: os eventos em torno desta Pedra Onipotente com certeza entrarão em erupção mais cedo ou mais tarde, então não posso deixar Sören.

— Vou precisar de uma semana.

— “O que aconteceu?”

— Tem a ver com uma relíquia.

Como Hans tem um ouvido aguçado para obter informações, ele logo entendeu a palavra.

— “Você é um bom professor, mas parece estar passando por mais coisas do que antes.”

— Concordo.

— “Mesmo assim, uma relíquia. Humm… Quem saberia que Sören mantinha uma?”

— Porque é um lugar com muita história e tradição.

— “De acordo com os rumores, há também uma masmorra secreta criada pelo primeiro diretor, não é?”

— Hans, deixe de besteira.

— “Estou brincando. De qualquer forma, vou tentar organizar a negociação para daqui uma semana.”

— Faça o seu melhor.

Depois que terminei de falar com ele, olhei pela janela sem dizer uma palavra.

“É uma relíquia?”

Não é para ser, mas tenho certeza que serei pego em um incidente relacionado com a relíquia. O pensamento de se este é o destino ou não veio à mente.

O luar parecia excepcionalmente frio.

* * *

— Princesa, vamos preparar um banho?

— Não.

— Você quer comer?

— Não estou com fome.

— E os lanches?

— Eu não preciso de nada, apenas me deixem em paz.

Ao comando de Erendir, os servos assentiram e recuaram, embora não soubessem o que fazer.

Ela, que mal foi deixada sozinha, soltou um pequeno suspiro para que não pudessem ouvi-la. Se alguém a ouvisse suspirar, ficariam por perto e a irritariam.

Ela, liberta dos olhares, entrou em seu quarto.

“É complicado.”

Enquanto os outros receberam dormitórios, ela recebeu uma grande mansão e estava morando lá. Não importava o quanto tratasse a todos igualmente, não ousaram ignorar o seu sangue imperial, apesar de que estivesse insatisfeita com isso.

“Eu também queria viver uma vida normal como os outros alunos.”

Ela de fato queria fazer novos amigos e ter uma vida acadêmica emocionante. Todavia, sua posição como a terceira princesa não lhe permitiu. Sua grandiosa mansão era a segunda maior, e a hospitalidade de seus mais de trinta servos estava além de sua gratidão e era muito desconfortável.

“É inevitável.”

Se ela se comportasse como quisesse, só tornaria mais difícil para os servos. Para ser atenciosa com eles, era necessário dar-lhes um pouco do que queriam, mesmo que fosse desconfortável.

“Não a ponto de eu não aguentar.”

Era para ela ter ficado muito, muito estressada. Contudo, tinha quem chamar de amiga.

Rene era uma caloura fofa, e o fato dela ser uma plebeia deixou Erendir preocupada, mas não tinha intenção de zombar dela por causa disso.

Talvez fosse porque ela era amiga de Rene e a tratava como alguém normal, Erendir se sentia bem. Ela aparentava estar vivendo a vida que queria pouco a pouco.

“Espero aumentar o número de amigos assim um por um no futuro.”

Pelo menos neste lugar, podia escapar do toque severo de sua irmã.

Enquanto pensava nisso, alguém bateu na porta. Ela, solene e relaxada, se endireitou.

— O que aconteceu?

— Princesa, recebi uma mensagem de fora.

Era impossível entrar em contato com ela assim, a menos que alguém tivesse uma posição muito elevada.

“Eu tenho certeza de que não é ela, não tenho?”

Por mais que fossem herdeiras do mesmo trono, a primeira princesa e ela não tinham um relacionamento ruim. Na verdade, como a primeira havia confirmado sua sucessão, não havia competição entre seus irmãos e irmãs.

Erendir não queria esse tipo de posto. Entretanto, sua irmã mais velha mostrou que ela se importava tanto com ela que era estranho. Ela às vezes ia longe demais.

“Não sou a boneca dela.”

A razão para Erendir vir a Sören foi para escapar da interferência da sua irmã. De certa forma, era natural se preocupar se ela estava tentando interferir mesmo na academia. E felizmente, quem a contatou não foi a primeira princesa.

— É Terina Lionhowl.

— Terina, a cavaleira-comandante?

Foi inesperado ser contatada por ela. Ela nunca pensou que aquela considerada a cavaleira mais forte do Império Exilion chegaria até ela.

— Diga.

O funcionário logo trouxe a esfera de cristal que havia preparado, então assentiu e deu um passo para trás. Erendir a ativou quando confirmou que ninguém estava presente.

— Queria falar comigo, cavaleira-comandante Terina?

— “Perdão por ligar tarde da noite, princesa Erendir, mas é uma emergência.”

— Está tudo bem. Fiquei curiosa para saber por que a comandante de repente me contatou. O que está acontecendo?

— “Ouvi dizer que um lobisomem apareceu em Sören há pouco. Já ouviu falar disso, princesa?”

Não só ouviu falar, como também o encontrou. Aliás, se Rudger não tivesse aparecido, ela poderia ter saído com ferimentos sérios. Entretanto, se fosse para Terina começar a falar da sua segurança, ela decidiu esconder o fato por ora.

— Sim, ouvi, mas não demorou para ser resolvido.

— “Um lobisomem também apareceu aqui em Leathervelk.”

— Sim? A senhora está em Leathervelk agora?

— Sim. Estamos investigando um caso relacionado a esse.

— É…?

— “Por favor, perdoe-me por não poder informá-la. É uma investigação secreta.”

— Eu entendo.

O fato de Terina ter saído significava que ela foi transferida pelo escritório do xerife.

— “Enquanto eu investigava, foi confirmado que esse incidente foi mais incomum do que pensávamos.”

— Incomum?

— “Alguém fez isso de propósito. Quando rastreei, as pistas foram destruídas.”

A voz poderosa de Terina Lionhowl ecoou pela sala além da esfera de cristal.

— “Princesa, posso saber quem resolveu o caso em Sören?”

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