Cap. 69 – Sinestesia Mágica (2)
— Hummm…
Flora esfregou a testa, abrindo os olhos devagar.
“O quê?”
Ela desmaiou ao ver o feitiço de Rudger e teve um sonho que a fez sentir nostálgica. Seu corpo estava tão caloroso quanto os braços de sua falecida mãe.
Tardiamente, ela percebeu estar deitada no sofá.
— Ah… Está falando sério?
Devagar, ela levantou o tronco e notou o sobretudo que a cobria caindo. Ela reconheceu o familiar preto com detalhes dourados.
— Esse…
— Acordou?
Por instinto, virou a cabeça e enxergou Rudger, sentado em sua mesa de trabalho, lendo. Em vez do seu habitual sobretudo, estava com uma camisa branca e um colete preto.
Suas franjas longas foram levemente para trás, revelando sua testa. Seu olhar afiado habitual foi diluído graças aos óculos sem aro, acentuando ainda mais seu ar intelectual.
— Não se lembra?
— Do?
— Te mostrei um feitiço.
Foi só então que ela se lembrou do que ele falava. Ela, atordoada pela sensação intensa, desmaiou.
— Não, senhor, aquilo foi…
Ela se levantou do sofá, mas por conta do choque, suas pernas perderam força e ela caiu de volta no sofá.
— Fique sentada. Parece não ter se recuperado ainda.
— Faz muito tempo?
— Meia hora.
— Meia hora… — Chacoalhou a cabeça. — O que diabos era?
— O que quer dizer?
— O que você me mostrou antes de eu desmaiar?!
— Ah… isso. Foi apenas algo que acabei de inventar. Chama-se Garrafa de Klein.
— Garrafa de Klein? Existe esse feitiço?
— Não é um feitiço prático, em primeiro lugar. É mais um experimento.
— Um experimento?
Ela ficou descrente. Outros teriam pensado que era um tipo incomum de magia, porém ela sabia que a Garrafa de Klein era uma inovação. A limitação a três dimensões foi superada. Mesmo após ver, mal pôde acreditar nisso, mas aceitou.
— Sim.
Mas, para ele, não aparentava ser grande coisa.
— É para descobrir até onde a magia feita através da mana pode chegar? Essa grande coisa é apenas um experimento? O professor é…
“O que na face da Terra você está tentando fazer?”
Ela não suportava perguntar muito, já que não conseguia entender aquilo.
— Humm.
A razão pela qual ele criou a Garrafa de Klein foi porque sua curiosidade por mana não estava saciada.
“Mana existe apenas e somente materialmente? Em caso afirmativo, ela recebe efeitos físicos completos?”
Mana se manifestar em magia já era algo além das leis da física. Magia era a personificação do mistério; a mana, a base.
“O desconhecido que ainda não foi revelado.”
Com mana, podia-se saltar pelo espaço. A Garrafa de Klein foi criada para provar que magia podia ser manifestada em 4 dimensões.
“A mana vai além do mero espaço e pode interferir com dimensões além.”
Contudo, a garrafa só servia para provar a hipótese porque ainda não havia pesquisa suficiente para aplicá-la a outros feitiços.
— De qualquer forma, estou feliz por você ter acordado.
— Sim?
Pensando bem, ela desmaiou no laboratório, mas quando acordou, estava no escritório do Rudger.
— O senhor me trouxe aqui?
— Não posso deixar uma aluna desmaiada no laboratório.
— Ah, bem… — gaguejou, ficando vermelha.
— Seus olhos e nariz estão bem?
— Hã?
Por que de repente? Antes que ela pudesse questioná-lo, ele continuou.
— Ei, você não sente a magia de uma maneira diferente?
Flora ficou espantada com a fala. Ele descobriu o segredo de sua constituição peculiar que ninguém havia notado até o momento.
— Droga. Como você…
— Porque eu vi.
— Você viu?
— Sempre que você olha para os meus feitiços, suas pupilas se dilatam muito. Descobri que você não olhava para o feitiço em si, mas para os fenômenos secundários que resultaram dele.
Ela não podia acreditar que ele notara uma reação que nem ela estava ciente.
— E toda vez que você vê um feitiço novo, as pontas dos seus dedos tremem. É um comportamento reflexo que ocorre quando você sente prazer momentâneo. Em particular, é bom mudar o hábito de contrair a ponta do nariz. Ao meu ver, parece que você pode sentir magia com seu olfato, mas não seria bom se você abrisse suas narinas assim…— Ahhhh!
— Por que está gritando?
— Por que ser tão desrespeitoso falando do nariz de uma senhorita?
— Eu estava falando do seu hábito. Tenha cuidado para não ser pega pelos outros.
— Humm….
Ela parecia farta dele. Ele suspirou, levantou-se de seu assento e caminhou devagar em direção a ela.
— Não chegue perto de mim!
— Não sei qual foi o mal-entendido — disse, pegando seu sobretudo sobre ela. Depois de agitá-lo, o pendurou em ordem no cabide. — Pra estar gritando tão alto, se recuperou bem. Deveria ir embora.
— O quê?
— Não me ouviu? Eu mandei você sair.
— Não está curioso?
— O que quer dizer?
— Pelo meu corpo único.
— Está falando do fato de sentir magia de uma maneira diferente?
— Isso… — Assentiu francamente.
Sua sinestesia tinha dois dos cinco sentidos. Se fosse qualquer outro, ele não conseguiria tirar os olhos dessa constituição inacreditável. Por isso que ela perguntou com uma voz preocupada.
— De jeito nenhum — respondeu com uma voz firme. — Eu não estou interessado em como você é.
— Mas…
— Entretanto, seria melhor não contar aos outros a respeito. Os magos são muito perigosos quando descobrem algo. Na pior das hipóteses, alguém a sequestra e usa como cobaia.
Ela engoliu em seco com o aviso sincero dele. Ao mesmo tempo, não pôde deixar de pensar:
“Por que tanta calma? Você já conheceu alguém assim?”
— Professor, você já viu outra pessoa como eu?
Ele não respondeu, em vez disso levantou a mão e apontou para a porta do escritório.
Ela franziu as sobrancelhas, mas não saiu de imediato. Foi por um momento, mas ele assumiu uma expressão um pouco triste. Ela não teve escolha a não ser sair.
“Ele sabia. Ele deve ter conhecido outra pessoa além de mim.”
Não mais do que isso, como ele sabia que seria perigoso se sua constituição fosse descoberta? E a expressão sutil que ele mostrou no final…
“Eles eram próximos?”
Então o comportamento dele seria compreensível. Em caso afirmativo, quem era essa pessoa? Se fosse uma mulher, que tipo de relacionamento os dois tinham?
“Não!”, balançou a cabeça e parou de pensar nisso. “Sim, é hora de seguir em frente.”
Ela de repente se lembrou de outra coisa.
“A propósito, não recebi outro prêmio em vez dos pontos extras.”
Ele mostrou a Garrafa de Klein e não fez mais nada, visto que ela desmaiou. Ela olhou de volta para a porta do escritório.
“Se eu voltar agora e pedir o prêmio seria um pouco… Eu também sou meio idiota. Esqueci a coisa mais importante porque estava envolvida em outra.”
Ela quis arrancar o cabelo, mas não dava para voltar no tempo. Ela deixou seu arrependimento para trás e não teve escolha a não ser recuar agora.
Naquele momento, alguém de longe se aproximou dela com passos surpreendentes. Se aproximando do escritório dele, na verdade.
— Você?
— Hum?
Segurando um livro velho em seus braços e tomando passos cuidadosos, era uma garota com uma rara cor de cabelo grisalho.
“Eu me lembro.”
Flora não estava muito interessada em outras pessoas, porém se lembrava de algumas crianças incomuns em sua turma, e Rene era uma delas. No início do semestre, ela brigou com um nobre, mas o fato de que ela, uma plebeia, se dava bem com a terceira princesa ofuscou isso.
Ela também era incrivelmente bonita, por isso, mesmo que não quisessem conhecê-la, não podiam deixar de lembrar dela.
— Hum, você…
Rene também reconheceu Flora e parou. Se precisasse escolher a pessoa mais famosa do segundo ano, seria ela. Ela era filha do duque Lumos e continha um talento natural para a magia, além de sua beleza.
Sua veterana era o contrário dela, que não tinha atributos, e trilhava o próprio caminho. Mas por que essa pessoa estava na frente do escritório do Rudger?
As duas olharam uma para a outra sem dizer uma palavra. Acompanhavam a matéria dele juntas, mas fora isso, quase não havia contato. No entanto, Flora não pôde deixar de duvidar de por que Rene fora ao escritório dele, ainda mais segurando um livro.
Foi Flora quem se moveu primeiro naquele silêncio sutil e desconfortável.
— Hmpf.
Ela passou por Rene como se não estivesse interessada. Rene olhou para as costas de Flora e lembrou por que foi lá em primeiro lugar.
“Ah, certo. Livro!”
Após ler o livro de magia sem atributos, foi devolvê-lo a Rudger. Com esse pensamento em mente, engoliu em seco em frente à porta. Foi quando ela estava prestes a respirar fundo e depois bater.
— Entre. A porta está aberta.