Cap. 71 – Freuden Ulburg

“Se você souber que sou uma plebeia, vai me atacar!”

Rene engoliu sua saliva, se perguntando se poderia afirmar não saber dali e sair.

— Humm… Você?

Freuden levantou uma sobrancelha antes de se aproximar dela.

O estômago dela estava queimando devido à expressão cética dele. Ele a reconheceu? Ele se lembraria de Dunema e pediria para que ela assumisse a responsabilidade agora? Esses pensamentos a deixaram bastante confusa.

De acordo com os rumores que ela havia ouvido, ele era famoso por ser um demônio que odiava a plebe e não tinha piedade. Enquanto isso, ele não tirava os olhos dela.

Quando seu olhar enfim se fixou no livro que ela segurava nos braços, ela o escondeu atrás das costas sem perceber. Ele estreitou os olhos, interessado.

— Você…

— P-pois não?

— Não… não é nada — disse, estranhando a reação até agressiva dela. — Como chegou aqui? Alunos comuns não chegariam tão longe.

— Bem, isso…

Ela parou para pensar no que responderia. Ele suspeitou da atitude dela e estreitou ainda mais os olhos, fazendo com que ela ficasse nervosa.

Ele era bonito e se destacava. De queixo e fino e pele leitosa, possuía uma imagem muito nítida e um bom carisma, característica atribuída aos seus olhos únicos e o penteado dividido.

Como os rumores eram tão intensos, ela respondeu com receio de que pudesse morrer se mentisse.

— Eu ouvi alguém cantando.

— Cantando?

— Sim… Eu não teria vindo se soubesse que este era seu espaço! Sério! Confie em mim!

Ele arregalou um pouco os olhos, depois desviou o olhar e murmurou.

— Você ouviu uma canção?

— Isso.

— Como era? Tenho certeza de que você veio por acaso.

— Sério? Graças a Deus.

— Mas quero que você mantenha isso em segredo de outros. Aqui é o meu espaço pessoal, e até meus guarda-costas não sabem disso.

Com a atitude dele, oposta do que ouvira, ela vacilou por um momento.

— Ei, você não está bravo?

— Bravo? Por quê?

— Ah, não, quero dizer…

“Eu sou uma plebeia.”

Ela não conseguia nem pensar demais nisso, então murmurou para si mesma.

—  Eu não vou culpá-la por ter vindo. Tudo o que precisa fazer é manter em segredo.

— Claro! Não vou contar a ninguém, eu juro!

— Promete?

— Com certeza! Eu prometo!

A conversa correu melhor do que ela esperava, e ela até começou a duvidar dos rumores sobre ele.

“Talvez você tenha me confundido com uma nobre? Acho que não.”

Pelo menos de acordo com os rumores que ela ouviu, Freuden sempre teve uma atitude fria hostil. Entretanto, o Freuden à sua frente não era assim, e o canteiro de flores somente reforçava isso.

“Ele cuidou de todas elas?”

O filho mais velho da Casa de Ulburg, um dos três ducados do império? Ele era um símbolo de medo para os plebeus e até para os nobres. Pelo menos, os nobres conhecidos por ela eram extravagantes e se gabavam o tempo todo das suas atividades, mas Freuden era diferente.

A natureza inesperadamente misericordiosa dele, ao contrário do que ela sabia, tornou-a uma escolha melhor para ela aproveitar essa oportunidade de sair.

— Desculpe, não vou falar sobre isso com ninguém. Eu não vi nada. Vou embora.

— Tudo bem.

Ela deu um passo para trás lentamente.

— Rene.

— Sim?!

— Se quiser, você pode vir de novo.

— Como assim?

— Você pode vir. Eu lhe darei permissão especial.

Rene não entendeu o que diabos isso significava. Ela não sabia se ele estava falando sério ou estava apenas brincando com ela.

— Ah, sim.

Ao se afastar dele, ela só conseguia pensar que estava sonhando com coisas incríveis. Em passos rápidos, escapou do jardim secreto de.

* * *

A aula de Rudger começou. Ele chegou bem na hora e examinou os alunos do púlpito. Antes, pareciam bastante entediados, mas depois da designação de coordenadas, a concentração deles havia retornado.

“Neste estado, um mês deve ser suficiente.”

Ele balançou a cabeça com satisfação e abriu a boca.

— O primeiro período de testes está chegando em breve.

Havia muitos testes a serem realizados durante o ano letivo, mas a palavra “primeiro” teve um peso maior. Era o primeiro exame dos calouros que acabaram de entrar na academia.

— Como falei da última vez, ensinarei o código-fonte apenas para alunos de alto nível que se saírem bem nas provas. Claro, não será ele inteiro. O que vocês podem obter do primeiro teste é um dos seus componentes.

A fórmula consistia em um total de quatro frameworks. Em outras palavras, se quisessem aprender todo o código-fonte, precisariam estar entre os cinco melhores em todos os quatro testes do semestre.

— Eu me pergunto quem vai aprender todo o código-fonte neste semestre.

Alguns dos alunos engoliram em seco e cerraram os punhos. Suas respostas foram meio misturadas com antecipação e tensão, mas no meio disso, alguns demonstraram lazer.

— Como é o primeiro teste, o conteúdo será fácil. É um teste para verificar com quanto cuidado ouviram minhas aulas do básico. Acho que sabem tudo sobre o assunto, mas apenas no caso de não saberem, explicarei de novo. Se alguém ainda não souber, escreva agora.

Logo em seguida pegaram suas canetas. Mesmo que já soubessem, decidiram anotar em caso de quaisquer circunstâncias imprevistas.

“Tch. Eles são estúpidos. É óbvio que me lembro de tudo porque sou inteligente. Não é porque as aulas dele me interessavam muito.”

Enquanto ela estava racionalizando, Rudger apresentou os assuntos um por um aos alunos.

— A gama de perguntas será do primeiro volume de Mecânicas da Mana, de Fundamentos das Ciências Naturais e de Fundamentos da Compreensão e Introdução aos Elementos, totalizando vinte questões subjetivas.

Além disso, no caso de um problema precisar de cálculo, alertou firmemente para anotarem toda a conta por trás.

— Mesmo que a resposta estiver correta, se a explicação for estranha, será anulada. Caso contrário, darei pontos parciais. Então, não repassem o que sabem pouco e revisem do jeito certo. Como é o primeiro teste, pegarei leve.

— Qual leve?

— É com consulta.

— Como assim?!

Com isso, alguns calouros surpresos questionaram a razão, enquanto uma reação inesperada explodia entre os segundanistas.

“Vocês ainda são calouros, então não sabem o significado dos testes com consulta.”

Pensavam que coisa boba, já que só precisavam olhar para as respostas e escrevê-las. Era o oposto. Havia apenas um caso em que um professor permitia isso.

“Vai ser tão difícil que mesmo com livros terão dificuldade.”

Os segundanistas até riram dos calouros. Rene, que sabia daquilo, não parou de escrever, por mais que tivesse uma expressão um pouco vazia no rosto. Então ela de repente sentiu um olhar e virou a cabeça.

Flora Lumos estava olhando para ela, mas foi só por um instante.

“O quê?”

No entanto, ela sentiu uma estranha sensação de inquietação, como se Flora estivesse de alguma forma cautelosa quanto a ela.

— A explicação termina aqui. Começarei imediatamente.

* * *

Logo após o fim do turno, a noite chegou, anunciando que as férias estavam se aproximando. Rudger terminou de se preparar para sair e foi de carruagem até Leathervelk. Era o dia da reunião sobre como lidar com o submundo da cidade.

Vestido com um longo sobretudo preto, ele pressionou o chapéu de cima ainda na calçada. Naquela hora, um carro preto parou na frente dele. Uma das portas se abriu, revelando um rosto familiar.

— Irmão, vamos embora.

— Onde conseguiu o carro? — perguntou Rudger, se sentando no banco traseiro naturalmente.

Hans, o motorista, respondeu enquanto dava partida.

— Bem, os inimigos da Sociedade Vermelha estavam trabalhando nisso e naquilo. Entre eles estava a indústria de transporte, e eu só trouxe os veículos de melhor desempenho que eles tinham.

 — Humm.

— Ah, é claro, eu não estou dizendo que uso para fins pessoais. Temos que ser elegantes pra reunião.

— Sim.

— Como você irá?

Rudger tirou o monóculo do bolso interno, colocou-os e limpou o colarinho.

— O de sempre.

— HAha. Típico de você.

Hans dirigiu até o ponto de encontro.

Eventualmente, pararam em um bar do lado da rua iluminado com luzes coloridas. Da entrada, os clientes estavam enxameando, e as maquiadas mulheres próximas estavam acenando.

— É chamativo até demais.

— Bem, não é melhor do que em um lugar sujo e escuro?

— É.

— Vamos sair.

Os dois deixaram o veículo.

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