Cap. 73 – Assunto de Beco (2)

A sala foi preenchida por silêncio.

— Mas que merda…?

A voz de Violetta tremeu como se ela não pudesse acreditar no que Rudger disse. O resto teve uma reação semelhante. No caso de Pinhão, seus lábios estavam se contorcendo e ele queria vomitar xingamentos.

— O que faremos agora?

Hans, que estava atrás de mim, sinalizou com urgência e perguntou. Ele também parecia um pouco envergonhado com o que eu disse.

Achou que eu estava aqui para ter uma discussão pacífica? Se assim for, é hora de corrigir esse mal-entendido.

— Acho que não entenderam, então deixem-me falar mais uma vez. Todos ficarão sob mim.

Com suas palavras arrogantes, Violetta mostrou sua objeção.

— Repugnante. Pensei que você seria diferente, já que se livrou da Sociedade Vermelha e ainda decidiu ter uma conversa conosco, mas vocês são iguais.

— Iguais?

— Você não está nos forçando a trabalhar para você?

— Pareceu assim?

— Perdão?

Eu sei com o que eles estão preocupados. Claro, não estou exigindo submissão incondicional.

— Podem manter o seu negócio.

Como organização, o dinheiro é essencial, e eles devem ganhar lotes. Todavia, a maior fonte era mantida pela Sociedade Vermelha.

— Não querem ganhar muito dinheiro?

Uma oferta que não podem recusar.

— Muito dinheiro?

— Do que você está falando de tão de repente?

Naturalmente, as respostas eram perguntas, então decidi explicar.

— Eu me livrei da Sociedade Vermelha e tomei posse dos vários pontos deles. Mas para ser honesto, não temos pessoas suficientes para operar todos.

Quando falei sobre as nossas fraquezas, Hans ficou surpreso. Ele deve ter escondido o máximo possível esse fato dos outros, mas, neste caso, é conveniente deixar em aberto.

— Nossa organização ainda não é grande. Como resultado, haverá campos que ainda não foram cobertos, os quais entregarei para vocês.

— O que quer dizer? — perguntou Mastella, desconfiada.

— Eu não disse? Vocês ficam sob minha proteção. — Dei de ombros.

— Quer dizer que está nos deixando assumir parte do seu negócio em vez de sermos seus subordinados?

— Se não quiserem, tudo bem. Serão partes que não preciso, de qualquer maneira. Como usarão dependerá somente de vocês.

— Eu não entendo… O que você quer?

Neste ponto, eles não terão escolha a não ser sentir algo além de suas dúvidas.

— Como sabem, estou em uma posição difícil para ser ativo agora.

Se eu tentar agir como James Moriarty, a segurança imperial tentaria me pegar, como foi o caso com aquela detetive. O que quero é firmar meu próprio poder, não fazer inimigos inúteis.

— Eu não quero disputas inúteis.

— A pessoa responsável por erradicar a Sociedade Vermelha está dizendo isso?

— Era necessário se livrar deles. Se tivessem sido deixados, teriam causado problemas de alguma forma.

— Falou quem começou uma guerra em Delica.

— Tudo bem se não quiserem acreditar, mas eu gostaria de ouvir a sua resposta aqui. Se juntarão a mim ou não? Não forçarei ninguém.

Mesmo que não me deem as mãos, farão parte. Para eles, não há nada a perder.

Eles trocaram olhares uns com os outros e pensaram se o que estou dizendo é verdade e se seria bom se aliarem comigo.

 Hummm. Posso saber o que é exatamente? — perguntou Pinhão.

— Pinhão, o que você está fazendo?

— Não se intrometa, Violetta. Deixei claro desde o começo que Circus estava com falta de suprimentos. Se pudermos ganhar dinheiro, faremos qualquer coisa.

— Este esnobe…!

— Vamos falar direto. No fim, isso é o que importa neste mundo.

O pinhão fez uma forma de dinheiro com a mão e a sacudiu para a esquerda e para a direita.

— Afinal, sem dinheiro, não somos nada. As pessoas desprezadas precisam de dinheiro para viver como seres humanos neste mundo. Eu não entendo a maneira como vocês vivem suas vidas.

— Você…

— Quando se trata de fluxo de caixa, recebemos de braços abertos.

Ele falou isso, mas não acreditou totalmente em mim.

— Claro, quero saber com antecedência o que é. Bem, não importa o quão perigoso seja, nossa vida não é assim? Não se sinta mal.

— Eu entendo. — Assenti.

A atitude de Pinhão é compreensível. Ele tem uma deficiência e a organização que lidera é uma trupe de deficientes.

No século XVIII, quando os direitos humanos não existiam direito na Europa, circos dos horrores eram populares. O circo dirigido por Pinhão é baseado neles.

“A diferença geral é que o dono também é deficiente.”

Ele não está tentando tirar proveito de pessoas em circunstâncias semelhantes. Eles fizeram essa escolha apenas porque não podiam sobreviver de outras formas.

— Eu prometo que nunca farei nada que os coloquem em perigo.

Os olhos dele se arregalaram com minhas palavras.

— Então, que tipo é? Podemos ouvir um pouco sobre o negócio?

— Pinhão, você sabe de que entretenimento os nobres gostam, não sabe?

— Bem… ópera e música.

O que é muitas vezes chamado de ópera é a principal cultura da nobreza desta época. Não só os aristocratas, mas também os ricos gostam disso. É um conto majestoso de deuses e heróis com histórias chatas e antiquadas da tragédia do antigo reino.

— Mas por que você está perguntando? Com certeza nosso circo não pode fazer isso.

— De jeito nenhum. Não é muito antiquado para os nobres desfrutarem agora?

— O que eu recomendo é maior do que isso.

— Maior?

— Não mais chamativo, mas mais divertido.

Pinhão não parecia entender o que eu estava dizendo. Isso é natural, pois para as pessoas desse tempo, o que falarei é uma palavra muito desconhecida.

— Você sabe o que é um musical?

— Musical…?

Uma performance esplêndida que combina canto, dança e teatro. É mais leve, saltitante e livre do que a ópera, por isso é o melhor caminho para eles.

— Trata-se de contar uma história com a mistura certa de peça e música e expressá-la alegremente com iluminação e danças coloridas no palco.

— Como isso é diferente do que os nobres gostam?

— É mais livre. Você não precisa apenas cantar. O importante é a harmonia e a dança.

— É isso mesmo…?

— Sim.

Lembro-me da primeira vez que vim a Leathervelk e vaguei pela cidade, pessoas cantando e dançando na rua. Há música e dança neste mundo, então considerei seriamente a existência de musicais.

— Acha que vai funcionar?

— Sim.

Tenho certeza disso porque a história me diz. Olhando para o desenvolvimento da cultura desta época, o aparecimento de musicais vai acontecer algum dia de qualquer maneira. Não agora, mas em, pelo menos, dez anos.

— Interessado?

— Não sei ainda.

— Não se preocupe com isso. Deixe-me mostrar-lhe os materiais que preparei.

Obviamente, haverá alguma reação no início. Alguns olharão de cima com desprezo, mas assim como o fluxo da história, o surgimento da cultura popular não é algo que alguns incumbentes possam impedir.

Peguei o livro de roteiro que havia preparado com antecedência e o entreguei a Pinhão, que pegou com frieza e verificou o conteúdo. Ao fim do virar das páginas, ele continuou.

— Parece certo que você tem uma visão clara. Vamos nos sair bem.

Essas palavras foram, com efeito, o mesmo que declarar que ele andaria comigo.

— É surpreendente.

Os líderes do Antigos Novos, Mastella e Deon, olharam para mim com leve descrença. Eles pensaram que eu usaria minha força para suprimi-los?

—  O que diabos você quer aqui, Moriarty?

— Mudanças — respondi, sem hesitação.

A maioria das pessoas na área industrial e na rua Forges não eram bem reconhecidas. O único lugar para ir para aqueles que vivem aqui são as fábricas cheias de fuligem no complexo industrial. Mais de dezoito horas de trabalho duro por dia, um mundo cinzento sem prazer algum que leva a um futuro sombrio.

Eu quero mudar isso.

— Mudanças.

Se eu fizer isso, Forges, onde as pessoas comuns vivem, se tornará a Broadway de Leathervelk. E, claro, isso começará com as pessoas reunidas aqui.

— Este lugar mudará para um lugar onde as pessoas possam viver, não um sombrio e fedido. O submundo está acabando.

Não é possível separar classes para sempre. O que eles precisam ver não é uma lama de água suja e apodrecida, mas olhar para o céu e viver. Decidi dar-lhes esperança, e isso parecerá a melhor oportunidade para eles.

— Claro, posso aconselhar outras organizações além da Circus em ideias que sejam adequadas para elas.

O olhar de Violetta e Mastella continha uma estranha aspiração.

— Estão ouvindo o que digo?

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