Capítulo 8: Identidade Falsa (3)
Não tinha nada de surpreendente dentro da mala do Ludger.
Só algumas roupas e livros.
Além disso, tinha também alguns documentos e itens diversos.
‘Pensei que teria alguma coisa foda.’
Coloquei as teses, os livros didáticos e de magia juntos como um só, depois os coloquei de lado e separei as roupas adequadamente.
Além dos livros de magia, havia muitos outros; como romances populares e dissertações de cientistas famosos.
Ele realmente leu todos os tipos de coisas.
Outros itens foram algumas cartas, carteira de identidade e pertences pessoais.
Mesmo que fossem seus pertences, havia apenas um cachimbo pequeno e um relógio de bolso portátil para ser usado como um meio mágico, além de uma carteira contendo dinheiro.
Verifiquei sua carteira de identidade e documentos um por um.
‘Ludger Chelysie. Um aristocrata decaído do reino pequeno de Queoden do continente norte. Ele não tem irmãos, e seus pais estão mortos.’
‘Nada mal.’
Podia ser um aristocrata decaído, mas não seria muito insultado em qualquer lugar porque possuía um título nominalmente aristocrático, e não havia ninguém para reconhecê-lo visto que não tinha família.
‘Vamos ver… é um histórico extremamente extravagante. Ele submeteu 12 teses à torre mágica e foi o mago mais jovem a atingir o Rank 4? Até mesmo serviu como oficial militar?’
‘Como esperado de um professor de Sören.’
Não imaginei que tivesse um histórico desse nível mesmo sendo tão jovem.
‘Ele está ensinando conjuração de magia e suas consequências como uma matéria especializada? Portanto, a matéria principal é liberação de mana e atributos elementares.’
Como a conjuração de magia era uma matéria especializada, existia uma chance altíssima de eu ter que ensinar combate real.
Abri a carta e verifiquei o conteúdo.
Se tivesse alguma conversa com os conhecidos dele, então precisava compreender os mínimos hábitos dele.
‘Não tem muito nas cartas.’
Cartas que se acreditava terem sido trocadas com conhecidos consistiam apenas em conversas formais, como sua nomeação na academia, recomendações de livros ou o que aconteceu em algum lugar.
‘Não acho que ele era próximo a alguém quando serviu no exército.’
‘Tinha o estilo de um aluno nerd?’
Como tinha pouco conteúdo pessoal, não parecia ser tão próximo das pessoas que trocou cartas.
‘O que resta agora é…’
Revisar os conteúdos fundamentais da disciplina para ensinar aos alunos após o início do semestre, além de as informações sobre como era a Academia Sören e como funcionava.
Para o momento, era necessário viajar ao redor da terra e aprender a topografia de Sören.
Ronc ronc.
Assim que eu estava prestes a sair, não tive escolha a não ser parar com o som alto do meu estômago.
‘Pensando bem… Não comi nada desde que saí do trem.’
‘Deixo para ver isso amanhã.’
‘Estou mentalmente exausto porque muitas coisas aconteceram hoje.’
‘É melhor eu comer primeiro e descansar bem hoje.’
Duas semanas depois.
Andei por todos os cantos da Academia Sören para entender a geografia do lugar.
Como eu esperava quando vi pela primeira vez, a terra enorme da Academia Sören superou em muito as minhas expectativas.
‘Sören não é altamente respeitável sem motivo.’
Sentei-me em uma mesa ao ar livre numa lanchonete silenciosa e apreciei a paisagem tranquila.
Acabei de terminar de verificar tudo, então estava pensando apenas nas aulas que viriam.
‘É porque está quase na hora das aulas começarem? Estou vendo alunos com mais frequência.’
Dava para ver alunos com uniforme da Academia Sören andando por aí. O modelo do uniforme parecia legal para os meninos e bonito para as meninas.
Dizia-se que era um uniforme feito por um etilista de prestígio no Império.
Talvez porque fosse uma academia que ensinava magia, mas alguns dos alunos voavam em vassouras ou se moviam em bonecos mecânicos e estranhos.
Pensei que era um bom momento para ver os jovens rindo e conversando uns com os outros.
Todos os meus dias foram uma guerra feroz desde que vim para este mundo, e essas crianças viviam suas vidas abençoadas graças aos seus talentos naturais e ambiente.
— Hmm.
Duas alunas que passaram por mim me espiaram e começaram a sussurrar entre si.
Bem, eu ficaria desconfiado se visse alguém que nunca tinha visto antes das aulas começarem.
Tomei um gole de café enquanto ficava desnecessariamente autoconsciente do meu entorno.
‘Eu deveria voltar para o alojamento depois de beber tudo e me preparar para a introdução em uma semana.’
Quando estava prestes a me levantar depois de beber todo o café enquanto pensava nisso, uma mulher caminhou até a mesa atrás de mim e se sentou.
No momento em que pensei que era apenas uma nova cliente, ela falou comigo com uma voz baixa que só eu podia ouvir.
— Ainda bem que o senhor está bem. Por que não entrou em contato com a gente nessas duas semanas?
— …?
Meu instinto me parou quando minha cabeça estava prestes a se virar inconscientemente.
Tap.
Naturalmente, coloquei a xícara vazia na mesa.
— …
‘Ela está falando comigo?’
Olhei ao redor.
O que poderia ser mais vergonhoso do que eu respondê-la se não estivesse falando comigo?
Mas não importava o quanto eu olhasse ao redor, não tinha outras pessoas por perto; também não senti outras presenças.
As únicas pessoas sentadas nas mesas ao ar livre eram a mulher sentada atrás de mim e eu.
‘Significa que ela está falando comigo. Mas como devo responder?’
Ela continuou falando enquanto eu permanecia em silêncio.
— Fiquei preocupada que tivesse se metido em algum problema. Os outros membros também estão se perguntando o que aconteceu com o Sr. Primeira Ordem.
— …
Membros…
Primeira Ordem…
Alguém que ficou preocupada comigo no primeiro encontro…
Eu não poderia saber os detalhes da situação só por isso, mas de uma coisa tive certeza:
‘Estou com muitos problemas agora.’
‘O quê?’
Mexi na asa da xícara de café na minha mão.
Tinha acabado de beber café enquanto desfrutava da atmosfera na mesa ao ar livre da lanchonete, mas uma mulher estranha veio até mim e falou comigo do nada.
Tudo o que me disse era incomum.
Ela me falou sobre membros de alguma coisa com um tom educado que demonstrava que tinha um respeito enorme por mim.
Uma pessoa mentalmente doente? Não. Estava sendo honesta.
Então encontrou a pessoa errada? Não, encontrou a certa.
Ela estava lá para ver o tal de Ludger Chelysie, não eu.
Assim que entendi a situação, minha boca se moveu naturalmente, como se fosse um equipamento bem polido.
— Precisei verifiquei umas coisas primeiro.
— Está se referindo algo relacionado ao incidente terrorista? Foi só um acidente. Ninguém sabia que as forças rebeldes atacariam o trem onde o Sr. Primeira Ordem estava.
— Outras coisas também. Preciso descobrir as informações gerais sobre Sören.
— O senhor não recebeu nenhuma informação com antecedência?
— Não foi o suficiente. Tem uma grande diferença entre o que só ouço e o que realmente vejo.
— Ah… entendi.
A mulher assentiu com a cabeça enquanto ficava aparentemente convencida.
‘Que seja.’
Segui o curso para ver até onde iria.
— Cuidou de tudo como deveria?
— Sim, com certeza. Completei todos os assassinatos das figuras fundamentais da Academia antes de vir para cá; mesmo que a maioria fosse funcionário.
‘O quê? Assassinou as figuras fundamentais da Academia?’
Quase balbuciei por um momento, mas consegui me conter.
— E, enquanto isso, um traidor foi encontrado na organização, então cuidei disso.
‘O quê? Traidor? Cuidou dele?’
Engoli em seco sem perceber quando ela me contou sobre um traidor.
— E como o eliminou? — perguntei sem mostrar minha confusão.
— Eles arrancaram os membros e colocaram na boca dele. O resto do torso foi dado de alimento para os cães. Eu não vi pessoalmente, só ouvi dos outros membros. Dá para dizer que foi uma morte apropriada para um traidor.
— …
Eles… eram mais loucos do que pensei.
No entanto, minha mente ficava mais calma nesse tipo de situação.
Quando o ar ao redor ficou mais pesado, pude sentir a mulher sentada ao meu lado tremendo.
— Me… Desculpa. Eu deveria ter visto e relatado…!
— Deixa para lá. Por que veio me encontrar do nada?
— B-bem. Eles disseram que o Sr. Primeira Ordem já chegou, mas não tivemos notícias suas nas últimas duas semanas…
— Então agiu por conta própria neste momento importante?
Eu estava analisando a situação enquanto conversava.
Ela me chamou de Primeira Ordem, não de Ludger.
Dado que a palavra “primeira” estava vinculada ao nome, era altamente provável que ele ocupasse uma posição altíssima dentro da organização.
Confiei nisso e tentei blefar um pouco, e acho que essa foi a resposta certa.
— Hee, heek! Me desculpa!
— Fique quieta. Quer que as pessoas ao redor suspeitem? — eespondi com uma voz fria para a mulher que estava prestes a inclinar a cabeça para mim.
— Hum. Peço desculpas.
— Não se desculpe.
— …
— Bem, já está na hora de verificar de qualquer maneira. Quantos membros estão reunidos agora?
— O-oi?
— Quantos dos nossos membros estão aqui?
— Ah!
Ela olhou em volta o máximo que pôde e falou com uma voz baixa.
— Atualmente, 31 membros da Terceira Ordem e sete da Segunda Ordem conseguiram se infiltrar, e outro membro da Primeira Ordem veio aqui primeiro como planejado e já se estabeleceu.
— Hum, isso basta.
Enquanto assentia com a cabeça, examinei as informações que reuni o máximo possível.
‘Então tem mais uma pessoa na Primeira Ordem além de mim e tem quase 40 membros.’
‘Eles não são grandes em número, mas o poder deles deve ser bem extraordinário, visto que plantaram tantas pessoas em Sören.’
‘Ainda bem que essa mulher nem questiona a minha identidade.’
Em vez disso, ela me mostrou medo e respeito, bem como a visão de espanto ao mesmo tempo.
‘Como esperado, Sr. Primeira Ordem!’ Parecia óbvio que ela estava pensando algo desse tipo.
Quando a vi assim, percebi que eu podia sair na vantagem.
— Tá. Chega de checar, então vou me levantar agora.
— Oh! O senhor pode vir ao lugar designado para nossa reunião secreta mais tarde.
‘Um ponto de encontro? Tinha um lugar assim também?’
Mas era impossível eu poder perguntar “onde ficar?” no momento.
Pensei sobre o que fazer, quando tive uma ideia boa.
— Ir? Alguém como está me falando sobre ir?
Abaixei minha voz de propósito e mostrei um olhar frio, de modo que pude ver o rosto dela ficando pálido.
Parecia que o blefe funcionou corretamente, visto que ela tremia o corpo como um filhote de esquilo e se desculpava desesperadamente.
— Não… não é isso. Eu… só…
— Não quero ouvir as suas desculpas. Se precisar de uma reunião secreta no futuro, serei eu quem vou decidir. O mesmo vale para o lugar e a hora. Entendeu?
— S-sim, senhor.
— Se tiver realmente algo para me dizer, só vou permitir se eu for chamado por alguém da Primeira Ordem como eu ou superior.
— Su… superior, então se refere à Ordem Zero?
‘Então tem uma Ordem Zero.’
Só falei por acaso, mas acabei acertando.
— Sim, não me incomode com coisas triviais, a não ser que seja pedido dessa pessoa. Entendeu? É um aviso.
Em outras palavras: estou dizendo para você se comportar bem.
Falei isso e me levantei.
Estava prestes a sair sem olhar para trás, mas ela me chamou.
Parei no meu lugar e virei a cabeça levemente para encará-la.
— O que foi?
— Bem, é que… Como o senhor vai nos chamar…?
No momento em que ouvi, percebi uma coisa.
‘Pensando bem… Não expliquei nada direito para ela.’
‘Mas não posso falar algo para ela que eu também não sei.’
— Preciso… mesmo dizer?
— Heek! N-não! Eu não deveria ter perguntado.
— Vou deixar passar desta vez.
Assim que terminei de falar, saí com passos rápidos.
Thump! Thump! Thump!
Ao voltar para casa, corri para o quarto no segundo andar e peguei a mala que coloquei no armário.
Depois de espalhar as cartas do Ludger na cama, uma por uma, percebi que minha imaginação ansiosa finalmente se tornou realidade.
— Hah… droga.
A sensação estranha que senti ao ler as cartas…
Por que eles tiveram que trocar cartas com palavras tão formais com um conhecido que não tinha família?
Por que um homem com um histórico tão esplêndido se retirou da própria vida privada para viver como professor?
Todas essas perguntas foram finalmente respondidas.
‘Essas cartas não são normais para começo de conversa.’
Verifiquei as frases especiais de algumas palavras específicas das cartas. A estranha sensação que senti instintivamente era que havia um certo padrão nessas frases.
Certo…
Era uma “cifra”.
Uma cifra própria que usavam para não serem pegos pelos outros.
Joguei fora as cartas e reli os documentos de identidade.
‘Ele é um aristocrata decaído? Não tem família? E, principalmente, é de um país estrangeiro e pequeno que fica muito longe do império?’
Tudo era falso.
Até mesmo os históricos extravagantes do passado dele eram uma completa mentira.
A existência do Ludger Chelysie era uma identidade criada por alguém que se esforçou muito para isso.
Por que não percebi? Por que não duvidei?
Por que aceitei naturalmente uma identidade que parecia tão ideal?
‘Então, o Ludger que conheci no trem…’
Ele era um membro da sociedade secreta que se escondia na Academia Sören.
Era até um executivo que tinha o título de Primeira Ordem.
‘E agora estou me passando por ele.’
Perdi a força nas pernas e caí na cama.
— Desgraça.
A identidade do Ludger Chelysie que eu pensei que era ideal para começar uma nova vida… era, na verdade, uma bomba nuclear mais perigosa do que qualquer coisa.
‘To fodido.’