Cap. 85 – Aula de Espiritologia (1)

Elisa, que estava prestando atenção na prova de Rudger, ficou muito surpresa.

— Humm? Isso, talvez…

Após murmurar algo ininteligível, ela logo franziu os lábios, pegou sua caneta e começou a resolver as questões. Wilford, que estava assistindo, recuou em silêncio. Era incomum ver Elisa assim, então não quis interrompê-la.

Se fosse ela, levaria menos de cinco minutos para terminar tudo. Mas a previsão dele estava errada, como Elisa não mostrou sinais de terminar, embora tivesse passado mais de cinco minutos depois que ela começou.

Dez.

Quinze.

Vinte minutos se passaram assim.

Mesmo assim, Elisa se concentrou, focada nas perguntas com a caneta como se estivesse possuída.

— A diretora…

Wilford ficou, por dentro, surpreso com uma situação tão inesperada. Elisa sempre anotava as respostas às perguntas no local enquanto via as questões enviadas a cada semestre.

Era uma espécie de avaliação dos professores. E toda essa avaliação era feita pela própria Elisa resolvendo as questões dadas, considerando que ela também era uma maga com uma grande paixão pela aprendizagem.

Era uma experiência agradável olhar para o problema de uma nova maneira que ela desconhecia. Ocasionalmente, no caso de perguntas fáceis, ela apenas folheava, porém nunca demorava mais de cinco minutos para resolver, mesmo com as provas da quarta e quinta série.

Mesmo as questões difíceis que faziam sua cabeça latejar não a impressionaram muito. Talvez seja por isso que ela se sentia entediada hoje em dia. Então, quando via as poucas coisas interessantes, ela ficava muito preocupada, como agora.

Elisa lembrou-se da antiga ela, quando ainda estava aprendendo e ansiosa para explorar o desconhecido da magia. A sensação de realização e prazer quando enfim conseguia, mesmo que se sentisse sem esperança sobre o conhecimento que via pela primeira vez.

Elisa levou trinta minutos para responder à prova de Rudger, mas também foi devido ao seu desejo de saborear devagar os deliciosos pratos. Levaria pelo menos quinze a vinte minutos mesmo que fizesse o seu melhor.

— É incrível.

— Você finalmente terminou? — Wilford, que estava esperando, perguntou com uma voz surpresa.

— Desculpa ter feito você esperar.

— Haha. Não, estou feliz, faz um tempo desde que te vi tão motivada.

— Bem, isso é verdade.

Ela não se preocupou em negar que estava absorvida pelas perguntas. Ela decidiu que eram boas questões. Ao mesmo tempo em que exigia uma base sólida, pedia diversidade de opiniões e uma maneira flexível de pensar. Havia muitas pegadinhas, mas ela se sentia mais agradável do que irritada.

— É incrível. Isso foi por um novo professor? Eu quero deixar outros professores resolvê-los.

— Isso é bom?

— É que ele é uma pessoa tão chata que pensei que ele faria perguntas comuns. — Encolheu os ombros. — Eu estava enganada.

Pensando bem, ele mostrava magia além do senso comum básico. Não foi ele quem fez uma demonstração com um “código-fonte” em sua primeira aula? Magia que permite que a magia seja implementada em alta velocidade, tornando-a ridiculamente rápida. Era algo que não podia ser criado por pessoas comuns.

— Foi uma prova impecável.

— Comparado com as perguntas da prova de Chris?

— Não tem comparação. Exploração séria e respeito pelo aprendizado e um meio de se orgulhar do próprio conhecimento. Colocá-los na mesma linha é um insulto.

Chris tentou provar que era superior a Rudger com as questões, entretanto Rudger não se importava com ele. Ele nem sequer respondeu, apenas fez o melhor que pôde. Será que isso podia ser visto como uma briga?

— Se mostrar a Chris, a cara que ele fará será impressionante.

Elisa sorriu brincalhona como uma criança, imaginando o que aconteceria mais cedo ou mais tarde.

Wilford balançou a cabeça com a visão. — Não posso impedi-la.

* * *

Rudger colocou os papéis em sua mala. Após a aplicação da prova, poderia pegar mais leve pelo resto do período de provas.

“Eu coloquei muito esforço, mas também estou curioso sobre o que os alunos escreveram.”

Os alunos que costumavam ouvir a aula teriam um bom desempenho? Quantas respostas incorretas inesperadas os que não estudaram teriam? Como professor, ele tinha uma expectativa estranha. Por mais que fosse uma identidade falsa, ele sentiu sua própria natureza em seu trabalho.

No caminho de volta para seu dormitório, ele encontrou alunos reunidos na frente dele.

“Terminaram a prova? Ah, é um teste prático?”

Rudger estava bastante familiarizado com a pessoa liderando os cinquenta ou mais alunos. A primeira coisa que viu foi o cabelo rosa brilhando sob a luz do sol. Ela era gentil com todos e sempre sorria, feito uma princesa de um conto de fadas. Era a Selina.

“Deve ser um teste para a aula de estudos espirituais.”

Selina estava encarregada da especialidade espírito natural na matéria de invocação. Os espíritos naturais eram a personificação da energia da natureza. Espiritologia era o estudo do empréstimo de poder através da comunicação com tais espíritos.

Como resultado, a parte teórica era toda sobre a história da espiritualidade e, de fato, a maioria das aulas conduzidas eram aulas práticas. De como convocar os espíritos, ao contrato com os espíritos, a como se comunicar com os espíritos e usar seus poderes.

Ainda era o começo do semestre, então mesmo que fosse um teste, não seria tão difícil.

— Não há espíritos com os alunos. A primeira prova é fazer um contrato com um?

Como havia apenas um número limitado de pessoas que podia estudar a respeito, a prova foi focada na avaliação absoluta, não na relativa. Mesmo se fosse um estudante médio, passaria, desde que assinasse um contrato com um espírito inferior.

Enquanto Selina pensava, viu Rudger se aproximando.

 — Senhor Rudger! — Cumprimentou-o, sorrindo. — Já aplicou as provas? Pensando bem, você disse que a sua era a primeira.

— Sim, apliquei tem pouco tempo. Estou a caminho de casa para corrigi-las.

— Entendi. Eu estou para começar uma, sabia?

— É uma prova de espiritologia?

— Sim. Quer dar uma olhada?

Rudger, prestes a recusar, não conseguiu fazer isso enquanto olhava atentamente, porque ela estava dando a ele um olhar de “por favor, me ajude com isso”.

“Está nervosa?”

Ele entendeu por que ela pediu que a acompanhasse. Devia ser a primeira prova dela, e como professora, avaliar os alunos podia ser uma tarefa onerosa e estressante. Como resultado, buscou por Rudger, que já havia aplicado sua prova, para obter ajuda. Ele não estava encarregado dos estudos espirituais, então não podia ajudá-la tanto.

“Também é verdade que ela se sentiria aliviada com pelo menos um colega por perto.”

Era algo que ele ignoraria e daria uma desculpa de que estava ocupado com as correções numa situação normal. Mas, então, decidiu que seria rude se recusasse depois de comerem e conversarem juntos.

“Não importa o quão falso você seja, você é um professor agora. Não é bom ser odiado por seus colegas.”

Os professores da facção liderados por Chris já eram hostis a ele. Ele poderia rejeitar Selina, que era popular entre estudantes e professores assim? Se fizesse isso, sua reputação seria arruinada.

“Na verdade, não me importo com minha reputação.”

O importante era que ele também foi ajudado por Selina e não podia ignorar o pedido. Graças a ela se aproximando dele primeiro, ele conseguiu conversar com outros professores.

— Eu irei.

A feição dela se iluminou visivelmente quando ele assentiu, os alunos os observando com olhos estranhos.

— O quê? O senhor Rudger vem?

— Qual é a relação deles? Eles estão namorando?

— Acho que não. É porque ambos são novos professores.

— Bicho, esqueci que você gosta dela.

— O quê? Não é verdade!

Selina, agora com coragem, abriu a boca enquanto os alunos conversavam entre si.

— A prova começará em breve, então vamos todos nos mexer! Terminaremos rápido!

Selina assumiu a liderança com Rudger seguido pelos alunos. O lugar onde eles chegaram foi a entrada da “Floresta da Fantasia”, uma das três florestas de Sören. Nela, havia uma inundação de espíritos, animais e outros ecossistemas. Era a maior delas, sendo de risco três. O público geral estava proibido de entrar nela.

Contudo, em comparação com as outras duas florestas de nível de risco dois ou superior, a Floresta da Fantasia era até que segura e não seria um grande problema, já que estavam na entrada e não no fundo.

“Na verdade, este é um espaço seguro justamente porque é usado como local de prova.”

Vestígios de humanos eram visíveis em todos os lugares, mesmo os sinais de não entrada ou orientações feitas ao longo do caminho.

Rudger ergueu a cabeça e olhou para as árvores infinitamente altas. Árvores com raízes grossas como grandes pilares voavam alto em direção ao céu, com certeza com mais de dez metros. Mesmo que ainda não tivessem entrado tanto nela, ligou a densidade do seu interior à Amazônia.

“Esse é o espírito da luz?”

Algo estava flutuando no ar, espalhando uma luz sutil pelas árvores. De fato, era fácil notar os espíritos da entrada, talvez porque fosse uma floresta cheia de vitalidade. Seria fácil assinar um contrato mesmo para alunos que ainda não estavam familiarizados com a espiritualidade.

— Eu avisei antes que esta prova consiste em assinar um contrato com um espírito. Você pode usar sua magia para se comunicar com ele e se tornar amigo.

Enquanto falava, ela demonstrou como deveriam fazer. Ela fechou os olhos e ativou seus poderes mágicos, deixando os alunos admirados pela luz mágica quente e brilhante que surgiu.

— Caramba…

Espíritos escondidos em toda a floresta apareceram um por um em resposta à magia dela, e os curiosos voaram ainda mais próximos. Em um instante, havia vários ao redor dela, silenciando os alunos.

Ao abrir os olhos, Selina sorriu com benevolência pros seres e então estendeu a mão para um semelhante a uma bola pura de algodão.

— Olá.

— Piyong!

Rudger observou a cena do espírito aceitando o cumprimento dela em silêncio.

— Todos vocês viram, não foi? Não é difícil. Vocês só precisam fazer como eu.

Encorajados pelas palavras dela, logo tentaram a comunicação espiritual. Pequenos se reuniram em torno deles, atraídos pela magia ali presente.

— Ei, está funcionando!

— Ele é tão fofo!

As exclamações alegres dos alunos irromperam por toda parte, agradando bastante aos olhos de Rudger, que sem querer interrompê-los, se afastou um pouco.

— Gostaria de tentar, senhor Rudger? — questionou Selina ao chegar mais perto dele.

Ele planejava perguntar o progresso dos estudantes, mas desistiu quando viu três assistentes dela, seus monitores, trabalhando duro para guiá-los.

— Obrigado pela oferta, mas me recuso.

— O quê? Por quê?

— Eu não sou muito bem recebido pelos espíritos.

— O quê? De jeito nenhum. Eles são tão legais! Deixe-me apresentá-lo a um fofo! É de luz que assinou um contrato comigo agora há pouco. Eu o nomeei Pongue-pongue! — falou, levando a bola de algodão na palma da mão para Rudger. O processo foi interrompido, deixando-a chocada. — ? Pongue-pongue?

O espírito em sua palma tremia.

— O que foi, Pongue-pongue? Tem algo de errado?

Bastou um segundo para ela entender por que o espírito estava assim.

“Você está com medo?”

Não era apenas ele; os outros espíritos por perto também não se aproximavam de Rudger, que respondeu familiarmente ao olhar perplexo dela.

— Eu te falei.

— O quê?

— Os espíritos não gostam muito de mim.

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