Cap. 86 – Aula de Espiritologia (2)
Os espíritos nasciam da natureza. Existiam desde o começo da Mãe Natureza, e, claro, viviam mais do que os seres humanos. Os derivados da natureza conservavam o poder natural; por isso eram fortes, bonitos e os mais puros. Existiam somente dois tipos de emoções que tais espíritos sentiam em relação aos seres humanos: amizade e indiferença.
Portanto, quando os espíritos assinavam contratos com humanos, determinavam os critérios com base na curiosidade. Não importava o quão cruel fosse a pessoa, os espíritos não se importam, pois o padrão do bem e do mal que os humanos compartilhavam na frente da Mãe Natureza não era nada mais do que um grão de areia.
A natureza não tinha medo dos humanos e os humanos também fazem parte dela. Eram um dos elementos do mundo, então espíritos naturais não possuíam razão ‘para temer os humanos, animais da natureza.
Todavia, isso estava acontecendo na frente de Selina. Os espíritos ficaram com medo de um ser humano, e ela sabia que nunca houve um caso parecido.
— Senhor Rudger, o que está acontecendo?
— Não precisa ficar tão surpresa.
Vendo Selina olhando para ele como se fosse estranho, ele decidiu acalmá-la um pouco.
— As pessoas são diferentes e o mundo é vasto. Não há nada de estranho, até com quem odeia espíritos.
— Os espíritos te odeiam?
— Sim. É algo único.
As desculpas dele eram tão absurdas que até mesmo para chamá-las de desculpas era difícil, mas essa era a melhor coisa que ele poderia falar, considerando que não podia falar a verdade.
— Sério?
Claro, ela também não era uma tola completa. Continha um certo grau de ingenuidade, mas mesmo ela nunca teria acreditado em tal absurdo. Contudo, como era ele falando, a história era diferente.
Rudger era um homem misterioso. Desde que chegou em Sören, mostrou grandes habilidades, uma após a outra, e era inacreditavelmente bom para um novo professor. Entre seus feitos, o mais famoso era a criação do chamado código-fonte, que nunca foi cogitado antes.
Ela, sua colega de profissão, sentia voltar aos seus dias de estudante sempre que o via. Mesmo que dissessem a mesma coisa, a credibilidade depende do mensageiro. Ele era tão confiável para ela que ela acreditaria em tudo que ele falasse.
— São principalmente os de baixo nível que me odeiam, outros espíritos não.
— Hum… Mas existem apenas espíritos de baixo nível por perto?
A maioria dos espíritos próximos eram de baixo nível. Ela, por outro lado, assinava contratos com os intermediários ou superiores, o que permitiu o seu convite para professora da academia tão jovem. Ela assinara contratos com três espíritos intermediários de água, vento e terra.
— Ah.
Era como Rudger falou: seus contratos, invisíveis aos olhos alheios, estavam em torno dela. Os três intermediários não tinham medo de dele, como os outros de baixo nível.
— O que você acha?
— Olha, isso é verdade. Os intermediários e superiores comigo estão quietos.
Os olhos de Selina brilharam ao descobrir algo novo.
— É mais incrível do que isso! Nunca vi espíritos de baixo nível terem medo de ninguém.
Ela deixou o rosto mais perto dele, fazendo com que ele afastasse um pouco a sua parte superior.
— Eu sinto muito. Eu queria que você também pudesse ser amigo deles.
— Tudo bem, Selina. Não tem nenhum problema você perder tanto tempo comigo? Os alunos estão esperando.
— Ah, é! O que eu estava pensando no meio de uma prova? Obrigada, senhor Rudger!
— Não há de quê.
Vendo-a se aproximando com pressa dos estudantes e arranjando contratos, Rudger suspirou de alívio. Passou assim porque era Selina, mas se fosse outra pessoa, ele poderia ter questionado.
“Estou feliz por não ter ficado sem energia.”
Ele estava plenamente ciente de que os espíritos tinham medo dele, mas não era bem dele, mas algo mais por trás dele.
“Ainda tenho muito poder mágico agora, então não acho que os espíritos intermediários viram isso.”
Ao consumir muita da sua magia e se o “ruído” ressoa em sua cabeça, os espíritos intermediários responderão. Caso contrário, teria sido difícil até mesmo explicar a Selina.
“Mesmo em minha condição, os espíritos inferiores estão cientes disso. Ironicamente, sendo o ser mais fraco, eles estão cientes desse estranho poder.”
Longe dos alunos, Rudger tomou uma pílula mágica para evitar ser pego por outros e se voltou para Selina, que elogiou a aluna que acabara de assinar com sucesso um contrato. Ela estava genuinamente encantada com o sucesso alheio como se fosse seu.
“Mais do que isso. Contrato apenas com espíritos intermediários?”
Primeiro de tudo, ela era conhecida por ter três espíritos intermediários: um de água, um de vento e outro de terra. Era ótima, mas para se tornar uma professora de Sören, deveria ter mais algo além.
Rudger estreitou os olhos com uma sensação estranha repentina.
“Visão. Onde está?”
Não foram os alunos. A fonte estava entre as árvores densas, porém era difícil adivinhar com exatidão, como se uma névoa tivesse se espalhado.
“É um espírito?”
Espíritos de baixo nível o temiam e relutavam em se aproximar dele; espíritos intermediários ficavam apenas em torno de Selina.
“O calor estranho vindo de um olhar… Deve ser muito poderoso.”
Sim, com certeza era um espírito de fogo. Apenas estar um pouco interessado nele era suficiente para afetar a temperatura da atmosfera circundante. E, no mínimo, era um espírito avançado.
Quando comparados aos magos, exerciam o poder da quinta classe. Em especial no caso de alguns fortes, até a sexta era possível. Acima de tudo, eram muito vigilantes.
“Não tem como um espírito superior aparecer em um lugar desses. Ainda é a entrada da floresta.”
Além disso, era uma floresta. Verde. Os espíritos das florestas eram constituídos por espíritos de plantas, luz, água, vento e terra. Os do fogo eram vistos em lugares quentes, como áreas vulcânicas e desertos.
“Os outros alunos e nem Selina parecem estar cientes de sua existência. Não é natural, mas artificial.”
Dava até para sentir a intenção de criticar o tipo de pessoa dele. Na verdade, o espírito estava tentando confirmar se ele era uma ameaça por ser temido? Era um pouco irritante, mas Rudger não queria deixar óbvio na situação atual.
“Tem mais alguém nesta floresta que comanda espíritos? Ou tem alguém escondido entre os estudantes controlando?”
Ele ainda não tinha certeza, mas se mostrasse sua força para identificar o espírito, ele fugiria na mesma hora. Por ora, não tinha escolha a não ser deixá-lo agir como bem entendesse.
“Uma pessoa que comanda espíritos superiores capaz de esconder a sua identidade…”
Um professor de espiritologia encarregado de estudantes veteranos? As chances eram baixíssimas. Em vez disso, havia apenas uma existência capaz disso: um Primeira Ordem.
Um membro do Amanhecer Negro escondido em Sören. Ele ou ela, estudante ou professor, ainda nem identificado. Ao contrário de outros membros, se tornou o único digno de nota. Sua estranheza era enorme.
“Eu não sei por que de repente olhar para mim assim. Ou é algum tipo de sinal?”
Se sim, como deveria reagir? Se fosse explícito, poderia ser contraproducente. Era um Primeira Ordem, e como executivo de uma organização secreta, precisava tomar cuidado ao entrar em contato com um da mesma categoria.
Por precaução, ele decidiu falar.
— Está um pouco quente.
Um murmúrio espontâneo não era nada mais do que uma reação normal. Entretanto, o significado foi transmitido com clareza para o observador.
“Uma resposta.”
A procura não era algo que ele poderia fazer, porque perderia muita mana e precisaria levantar suas restrições. Era por isso que ele tomava suas pílulas. Havia um total de três, a fim de que somente os espíritos de baixo nível respondessem.
“É apenas uma previsão, mas espíritos de grau superior responderão se duas ou todas as três forem levantadas.”
Também não era um grande prazer para ele. Mesmo que apenas uma restrição fosse levantada, ele ouviria os ruídos cansativos em sua cabeça, e se duas fossem levantadas, sentiria o toque deles.
E para a última restrição, sua professora lhe disse para não levantar mesmo que morresse por isso, então era difícil imaginar o que aconteceria.
“Como isso aconteceu?”
De repente, ele se lembrou do que sua mãe disse em sua vida anterior.
“Todos os tipos de seres estão observando você.”
Ele não acreditou na época, mas estava ciente disso desde sempre ao chegar neste mundo. Então, se irritava por ficar lembrando de coisas que ele não queria.
Naquele momento, uma pequena faísca acendeu na frente dos olhos de Rudger e acabou se transformando em letras. Ele não ficou surpreso, já havia terminado de preparar sua mente, e com calma examinou a escrita em fogo.
“O que é tão frustrante pro outro lado se aproximar de mim primeiro? ‘Três dias depois. Depois do horário escolar. Aqui de novo’.”
O Primeira Ordem que ele tanto procurava tentou contatá-lo primeiro.