Cap. 96 – Banquete das Chamas (1)
Rudger ficou um pouco perplexo.
— O que está fazendo aqui, Rene?
— É, então…
Ela ponderou se deveria ou não dizer. Não tinha nada a esconder, então decidiu ser honesta.
— Trabalho de meio período… é isso.
— Meio período?
— Sim, soube que estavam procurando pessoas para cá, então um veterano conhecido meu me indicou. O salário é bom e o trabalho não demora muito.
— Um trabalho de meio período?
Ele se perguntou se era necessário confiá-lo aos alunos, mas, surpreendentemente, esse tipo de coisa acontecia com bastante frequência.
Leathervelk tinha um acordo com Sören para que os estudantes da academia tivessem preferência em contratos para várias tarefas necessárias na cidade.
O mesmo era verdade para os quadros de avisos na academia. O objetivo do acordo era contratar os alunos para um trabalho menos difícil e dar-lhes a oportunidade de ganhar os fundos necessários.
Isso também era bom para Leathervelk, porque eles poderiam ter a oportunidade de conhecer os alunos e colocar um carimbo em pessoas talentosas que se tornariam grandes magos no futuro, juntamente com uma imagem positiva da cidade.
Mesmo com esses salões, não era incomum que alguns estudantes participassem como funcionários de meio período.
— Além de mim, há vários outros idosos, então está tudo bem — respondeu ela, sorrindo.
De acordo com Henry, era um trabalho fácil a parcial com um bom retorno financeiro, mas ela não esperava que seria em um salão de banquetes para professores e pessoas importantes.
— Entendi…
— Gostaria de tomar algo?
— Adoraria.
Ele pegou um copo da bandeja dela e bebeu.
Foi um pouco inesperado vê-la em um lugar como este, mas não era um verdadeiro problema. Foi apenas um pouco surpreendente, não algo com que precisasse se preocupar.
“Mas…”
Sempre que ele a via, se lembrava do que aconteceu no passado. Ainda mais com ela parada olhando para ele tomando uma bebida com olhos brilhantes. Ela tinha a mesma aparência de Rene, e ele não conseguia tirá-la da cabeça.
— Rene, você…
— O quê?
— Nada, não é nada.
Ele não podia contar a ela. Foi uma promessa. Dar o livro a ela era a única coisa que ele podia fazer.
— Não exagere, vá para casa mais cedo.
Tudo o que ele podia dizer era, afinal, apenas um conselho.
— Obrigada. Seguirei meu caminho.
Após ela inclinar a cabeça e recuar, Selina se aproximou dele e perguntou.
— Aquela menina agora era Rene?
— Você a conhece? Pensei que ela não estava na sua turma.
— Nós nos conhecemos outro dia. O que ela está fazendo aqui?
— Ela disse que era um trabalho de meio período.
Selina bateu palmas.
— Ah, sim. Me disseram que alguns estudantes que não recebiam bolsas de estudo ganhavam dinheiro com outros trabalhos. Não é de admirar que minha assistente estivesse aqui.
— Sua assistente? Quem é?
— Aquela menina ali.
Selina levantou a mão e apontou para um lado, onde estava uma garota de cabelos castanhos escuros e longas tranças sobre o ombro. Ele não conseguia ver bem o rosto dela porque ela estava usando óculos grandes, mas ele a reconheceu de imediato.
— O nome dela é Joanna Lovett, uma caloura. Eu a tomei como assistente porque ela tem um profundo conhecimento da espiritologia.
— Entendo.
Joanna Lovett? Foi a primeira vez que ele ouviu o nome dela, já que não era uma aluna sua.
Ele olhou comcuidado para a figura. Ela ficou parada com uma bandeja que agora havia sido esvaziada, parecendo os outros alunos trabalhando lá.
“Pensando bem… entre as pessoas em cena na hora, não prestei muita atenção aos assistentes.”
Esmeralda exerceia um espírito de fogo de alto nível, então essa foi a razão pela qual ele pensou que seria uma professora. Com a verdadeira identidade dela desconhecida, Joanna agora não pôde escapar da lista de suspeitos.
“O que ela está tentando fazer?”
Rudger observou seus movimentos de perto. Ela agora estava olhando em volta escondida para que ninguém mais a notasse. Ela moveu-se com cautela, pondo uma bandeja de prata na mesa no centro do salão.
“Para onde você vai?”
Após ela deixar a bandeja, voltou para seu lugar e ficou parada.
“Ela estava apenas tentando guardar uma bandeja vazia?”
Talvez ele tenha ficado muito desconfiado.
Ele desviou o olhar dela e focou no salão em si, ouvindo as pessoas falando.
— Você ouviu as notícias desta vez?
— O que quer dizer?
— Dizem que os vagabundos do submundo têm agido de forma extraordinária ultimamente.
— Você quer dizer a classe baixa? Isso é o que acontece o tempo todo.
— Se fosse, eu teria perdido o interesse, mas desta vez é um pouco incomum.
— O que é tão incomum?
O homem de meia-idade que abriu a boca assentiu e pigarreou.
— Você acreditaria em mim se eu dissesse que eles estão fazendo negócios?
O riso era indistinto porque todos estavam falando, mas Rudger, que estava ouvindo, certamente ouviu. Era obviamente uma risada.
— Os miseráveis fazendo negócios? Você viu errado?
— Eu também não vi, só ouvi os rumores, mas não acho que sejam falsos.
— Não é um boato falso?
— Eu não sei o que está acontecendo no submundo, mas disseram que os caras que lutavam todos os dias estão agora de mãos dadas.
Era tudo que ele sabia.
— Eles limparam as favelas e começaram a usar um prédio como escritório. Disseram que até viram uma grande quantidade de tecido entrando.
— Mas que diabos estão fazendo?
— Parecem querer entrar no ramo de roupas, mas eles não têm chance.
— Isso mesmo. O que a classe baixa pode fazer, já que as lojas de roupas de luxo estão segurando o mercado com tanta firmeza como estão agor?
Escutando, ele percebeu que o que ele havia pedido estava indo bem.
“Estão indo mais rápido do que eu pensava. Como notaram o que está acontecendo, deve ter passado um bom tempo desde que levaram isso a sério.”
Eles tentaram fingir que não, mas estavam desesperados, e a estratégia que ele lhes mostrou foi mais do que eficaz e um pouco exagerada.
As pessoas que costumavam rolar na lama escura e suja encontraram esperança e perceberam que poderiam ser capazes de ascender, então como ficariam parados?
Esse forte desejo era uma onda enorme que ninguém podia parar.
— Não importa o que a classe baixa faça, será de lá.
— Isso mesmo. E o dinheiro que eles precisam para os negócios? Será que as prostitutas, mendigos e vagabundos mudarão alguma coisa?
— É incrível que haja alguém os financiando. Eu não posso nem pedir dinheiro emprestado, porque minha classificação de crédito é baixa.
— Não é porque a família real é toda para as pessoas comuns hoje em dia? Então, os mais baixos estão subindo.
— É ridículo. Eles só vão comer o pedaço de pão que rola do topo e vão desfrutar de algum tipo de riqueza.
— Não fique tão bravo. Ainda assim, não temos que pisar neles, não é? O que eles podem fazer? Eles vão se destruir. Vamos tomar vinho enquanto assistimos à cena.
Eventualmente, não conseguiram se conter e caíram na gargalhada.
“Seus tolos.”
Rudger balançou a cabeça. Eles não poderiam rir no futuro; eram apenas indivíduos que não conseguiam ler a maré dos tempos. A sociedade era minúscula, e, pelo contrário, o mundo era enorme. Mais do que o que viam, o que sabiam por conhecimento e o que existia em um mapa.
Do ponto de vista deles, o mundo pareceu ter ficado estagnado, mas não era bem assim.
“O mundo está se movendo infinitamente em direção ao futuro.”
A história provava isso.
Nada aconteceria em um dia ou dois, porém uma mudança gigante aconteceria em um ano ou dois, visto que a mudança era inevitável e onipresente.
“Vocês verão em breve.”
Depois de pensar tão longe, Rudger tropeçou em seu assento sem perceber.
— Professor Rudger, você está bem?
— Não é nada. O chão está um pouco escorregadio.
Apesar de não ter conseguido recuperar o juízo perdido pelo zumbido em sua cabeça, ele respondeu à pergunta ansiosa dela com calma.
— Você está… Eu vou…
— Vou sair para tomar um ar fresco.
As palavras ao seu redor começaram a ser devoradas pelo barulho. Ele então respirou fundo e saiu de imediato, preocupando Selina, que não o seguiu quando ele se recusou.
Ele saiu para a varanda, vazia pelo andamento do banquete, e se segurou no corrimão de mármore. O barulho começou a tomar a forma de uma linguagem clara.
“Aceite…”
“Vamos… Vamos… Vamos…”
“Você é… Você é o escolhido…”
— Cale a boca.”
Rudger ignorou a voz e tomou as pílulas. Ao contrário das habituais duas ou três pílulas, ele tomou o máximo possível desta vez. Ao mesmo tempo, sua própria voz, que se tornara cada vez mais distinta, começou a ser esmagada de novo, como se estivesse presa atrás de uma névoa.
Logo o ruído diminuiu e desapareceu como um eco numa montanha.
Rudger suspirou de alívio e prestou atenção na vista noturna de Leathervelk sobre o corrimão. A cidade, onde a luz fluía por toda parte, brilhava no escuro, que combinava com a brisa sobre seu corpo.
Ele fechou os olhos por um momento e pensou no que ele deveria fazer no futuro e no que ele podia fazer, e logo a resposta ficou clara em sua mente.
* * *
“Rudger Chelici?”
Chris Benimore, vagando por aí para fazer uma pausa, de forma involuntária se escondeu atrás de uma parede ao ver Rudger sozinho em uma varanda.
“O que você está fazendo aqui sozinho?”
Trinta minutos atrás ele tinha derrotado o mago contratado pelos Lukes na frente de todos. Chris também assistiu ao duelo, esperando que Rudger fosse brutalmente derrotado lá.
Rudger derrubou seu oponente com uma força esmagadora na frente de todos. A velocidade foi instantânea, e Chris percebeu que era o código-fonte.
“Ele é um homem formidável.”
Pensando, lutou para ignorar o crescente senso de inferioridade que tinha em seu coração.
“Você deveria estar cercado por pessoas e ouvindo todos os tipos de elogios.”
Mas ele estava sozinho.
“Está comendo algo?”
Aquele homem, na maioria das vezes inexpressivo e sem emoção, estava tão exausto que ficou irreconhecível ao tirar algo dos bolsos e despejar na boca.
“É remédio?”
Era o que ele costumava ingerir? Ele tinha uma doença crônica?
Chris Benimore chegou a uma conclusão neste momento.
“Tanto remédio assim é prejudicial para o corpo. Tem algum tipo que…”
Drogas que restauravam mana não eram prejudiciais.
Embora existam muito poucos medicamentos mágicos de recuperação na forma de pílulas, não se podia dizer que não existiam. Ele estava sofrendo de falta de poder mágico? Se sim, por quê?
“É por causa do duelo há pouco tempo.”
Rudger derrubou seu oponente usando uma série de feitiços coloridos na frente de todos. O poder não foi grande e era magia de segundo e terceiro nível, mas Chris podia dizer que ele estava lutando com a falta de mana.
Chris foi o primeiro a descobrir a fraqueza de Rudger.
“Entendo. É por isso que ele terminou o duelo mágico rapidamente.”
O segredo oculto de Rudger Chelici, desconhecido para os outros, era que a quantidade de mana que ele possuía era absurdamente baixa.
“Você toma regularmente pílulas mágicas para não ser pego.”
Chris não pôde deixar de sorrir.
“O festival de magia está prestes a acontecer. Eu posso fazer isso lá.”
Chris fugiu antes de se recuperar por completo, temendo ser pego por Rudger.
* * *
“Acabou?”
A causa foi que ele usou muita magia no duelo mágico havia pouco tempo. No começo, ele pensou que estava tudo bem, mas não percebeu que estava ficando sem mana devido às conversas com os outros.
“Eu me tornei muito frouxo.”
Ele costumava viver com uma pílula na boca como um hábito, mas ele esqueceu até mesmo isso. Havia tantas outras coisas para se preocupar, mas parecia necessário refletir um pouco sobre si mesmo.
“Pelo menos consegui restringir a lista de suspeitos e estou um passo mais perto de descobrir a identidade de Esmeralda.”
Quando ele voltou para o salão, gritos irromperam de todos os lugares.
— Um monstro, um monstro!
Todos gritaram com uma voz chorosa. Rudger, que acabara de voltar, viu no centro do salão a figura de um gigante de fogo ardente sobre a mesa.
“É Esmeralda!”
Uma Primeira Ordem do Amanhecer Negro convocou o espírito.