Capítulo 04 – Os Homens Sem Nomes
Quase uma semana depois, as pessoas começaram a usar os novos campos de treinamento, embora ainda não estivessem prontos.
O sol do início do verão banhava a colina gramada e uma brisa agradavelmente quente soprava. Qual clima poderia ser melhor para motivar alguém a trabalhar e suar?
— Caramba… ai! Cuidado, agora a minha mão ficou dormente!!
— Não abaixe a sua mão do escudo! Quer que eu abra a sua cabeça?!
— Eita! Ack! Waah…!
Metal bateu contra metal no círculo de areia branca.
O complexo (pode-se dizer que mágico) centro de treinamento ainda estava em construção, mas mesmo um completo novato poderia praticar a esgrima. O espaço circular para batalhas simuladas era a primeira coisa que foi concluída, e mãos jovens e ansiosas já o testavam. Afinal, a área atrás do prédio da Guilda era muito apertada, e era bom ter algum equipamento emprestado para fazer alguns testes.
— Sua mão está dormente? Não me importo se ela cair! Não abaixe o seu escudo! Ele precisa ser o mais fiel dos seus companheiros na luta!
— Não poderíamos, sabe, levar isso com um pouco mais de calma?!
No momento, era Cavaleira e Lutadora Rhea – a jovem lutadora vestida com uma armadura de couro e carregando um escudo redondo – que estavam competindo no ringue.
Bem, competir podia ser uma palavra meio forte. A Cavaleira duelava com tudo de si e estava se divertindo. Quanto à Lutadora Rhea, tudo o que ela podia fazer era gritar e levantar o escudo para bloquear os ataques advindos.
E ela precisava: as lâminas de treino podiam até não ter fio, mas ser atingida por elas ainda poderia deixar algo pior do que um simples hematoma.
— Algo de errado? Entre no seu jogo! Se não consegue enfrentar nem isso, como vai lidar com os dentes e garras de um dragão?!
— Eu sou só Porcelana! Não quero nem pensar em dragões!!
— Você não conhece nem a parábola do encontro aleatório com o dragão? Opa… atenção nos seus pés!
— Eek!!
Um balanço exemplar da Cavaleira acertou os pés da Lutadora Rhea, fazendo-a cair, toda sem graça, na areia.
Rindo e fazendo barulho, Cavaleira aproveitou a sua vantagem, atacando com o punho de sua espada. Um golpe de punho como esse, com a espada voltada para trás e erguida acima da cabeça, poderia ser crítico.
Ofegando e gritando, Lutadora Rhea tentou fugir da armadilha, só para tropeçar de novo.
Cavaleira estava implacável, ou talvez carecesse de alguma simpatia; de qualquer forma, não demonstrava misericórdia. Isso quase cruzava a linha para a crueldade. E a Rhea se perguntava por que ninguém queria se casar com ela…
— Whoa…
— Sim, isso aí.
Guerreiro Novato e o feiticeiro ruivo observavam, suas expressões rígidas, tentando não pensar no fato de que o próximo seria um deles. Não haviam percebido que sentar fora daquele círculo, tentando se preparar para o que estava por vir, poderia ser uma forma de treinamento por si só.
Onde pensavam que estavam – o inexpugnável Grande Labirinto nas terras do maior frio? Seria impossível ir ou voltar de lá.
— Ei, não se distraiam, seus bundões.
A coronha de uma lança deu a cada um dos jovens aventureiros uma leve batida na cabeça. E quem deveria estar segurando aquela lança senão Lanceiro, vestido não com sua armadura de sempre, mas com roupas civis, e com uma placa de prata pendurada no pescoço.
— Se distrair com as garotas é fácil. Acreditem em mim, eu sei. Mas se não se concentrarem, a próxima coisa que perceberão é que estarão mortos.
— Uh, não era disso que eu estava falando.
— Sim, e eu realmente não tenho os mesmos problemas que você, Lanceiro…
Um resmungou enquanto o outro ria sozinho.
— Escutem, vocês dois — começou a dizer Lanceiro, franzindo a testa. — Não sei o que pensam de mim, mas não parecem estar preparados para aprender nada.
— Sim, mas — disse Guerreiro Novato, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo —, você sempre dá em cima da recepcionista, certo?
— Acabei de chegar aqui e até eu já sei disso — acrescentou o feiticeiro.
Uma veia na têmpora de Lanceiro começou a visivelmente pulsar, mas era possível que nenhum dos garotos houvesse notado.
— Ah, entendo — disse ele com um sorriso amarelo, mas infinitamente amável. — Vocês são crianças inteligentes, não são? Bem, vocês não são os únicos que podem jogar esse jogo.
— ?
Os dois olharam para ele em dúvida, ao que Lanceiro ergueu o dedo indicador, reto como uma lança, e continuou:
— Em sua aventura mais recente, você saiu correndo, desperdiçou a sua magia e acabou não servindo para nada.
— Erk…
— E você sempre gasta todo o seu tempo caçando ratos gigantes, então não possui resistência para uma batalha mais longa e gasta toda a sua recompensa em poções de Vigor.
— Guh?!
Essas coisas eram ambas verdade. Eram segredos embaraçosos que os garotos preferiam que não fossem muito divulgados. Ninguém sabia, exceto os membros de seus grupos e…
— A-a recepcionista? Ela te contou…?
— Corretíssimo. Ela pediu para eu cuidar de vocês, para ter certeza de que teriam a força física que seria necessária. — Lanceiro riu um pouquinho, depois, levantou-se com a facilidade de um fantasma e assumiu uma postura de combate. Guerreiro Novato e o garoto feiticeiro estabeleceram posições baixas, parecendo tão aterrorizados quanto se estivessem se preparando para lutar contra um guerreiro que retornava dos mortos.
— Vamos brincar de esconde-esconde. Eu serei o caçador e vocês a caça.
Foi apenas quando Lanceiro girou a sua arma com um floreio e retomou a sua postura que os garotos perceberam o quanto ele estava zangado.
— Eita, vamos dar o fora daqui!
— S-sim, temos que ir!
Em vez de pedir desculpas ou refletir a respeito do que haviam feito, preferiram correr como lebres ao ver um cão. Essa foi, sem dúvidas, a decisão correta.
— Ei! Vocês não vão fugir tão fácil assim!
Os garotos começaram a correr pela área de treinamento tão rápido que deixaram seus equipamentos (incluindo o cajado do feiticeiro) jogados no chão. Lanceiro deu uma arrancada atrás deles.
Pedreiros, junto com aventureiros de folga, observaram a comoção com cansaço. Claro, todos sabiam que Lanceiro não estava falando sério. Ele estava mantendo uma velocidade que permitia que alcançasse os garotos se eles vacilassem, mesmo que pouco – mas julgar isso, por si só, já era impressionante.
Todos os que assistiam concordavam que, apesar da sua aparência, Lanceiro era bom em tomar conta dos outros.
A instrução neste lugar costumava ser administrada por aventureiros aposentados ou de alto escalão. Mas não havia nada que impedisse que os aventureiros ativos fornecessem um pouco de orientação. Talvez só para passar o tempo, ou até mesmo para complementar o próprio treinamento.
O campo de treinamento ainda não estava pronto, e os aventureiros já o usavam alegremente como um lugar para se reunir e conversar.
— …
Matador de Goblins assistiu tudo sem dizer nada, movendo sua mão inquietamente. Ele estava sentado em um campo aberto, onde a área de treinamento não estava concluída e também não havia construção.
Os pássaros cantavam no céu azul e a brisa enviava sopros suaves pela grama.
Se alguém olhasse em sua direção, teria visto duas jovens esperando ansiosamente até que ele terminasse o que estava fazendo.
Uma era a druidesa Rhea, a outra a clériga aprendiz que servia ao Deus Supremo.
— É assim que se faz — disse ele, por fim mostrando às garotas o produto final do seu trabalho. Elas piscaram para isso.
Era uma funda simples, uma tira de couro envolvendo uma pedrinha que poderia ser lançada.
— Hein? Isso é tudo que precisa fazer?
— Isso é surpreendentemente simples.
— Sim — disse Matador de Goblins com um aceno firme. — Os pastores às vezes as carregam consigo para desencorajar os lobos.
— Parece algo que poderia fazer até com pressa, caso precisasse.
— Tudo o que vocês precisam é de uma tira. A munição é fácil de se encontrar. Não há nada a perder ao aprender como se faz.
Tudo começou quando elas o viram lançar uma pedra em um certo festival. Pareceu-lhes a habilidade perfeita para duas pessoas que estavam na última classificação e precisavam de uma forma de se defender.
Quando Garota da Guilda mencionou que havia duas jovens aventureiras que queriam aprender a usar uma funda, Matador de Goblins se surpreendeu com a rapidez com que respondeu “É mesmo?” e concordou em ajudá-las.
Neste ponto, Matador de Goblins levantou-se.
— Espadas costumam ser consideradas a melhor arma para os humanos, mas as fundas são melhores — disse ele, começando a lentamente girar o dispositivo. Fez questão de ir com calma o suficiente para que as duas iniciantes pudessem acompanhar cada um de seus movimentos. Dado que em uma batalha o carregar, giro e golpe costumavam constituir um único movimento para ele, esta era uma demonstração com considerável cuidado. — Os humanos são insuperáveis em arremesso, sejam de pedras ou lanças. Nossos corpos são feitos para isso.
Ele levantou a funda ainda mais alto, lentamente aumentando a taxa de rotação, escolhendo um alvo. Ciente da possibilidade de um acidente, mirou longe do campo de treinamento.
No meio do mato, um manequim usando uma armadura e capacete – descartes da oficina da Guilda. Não era muito alto – para representar a altura de um goblin, desnecessário dizer.
— O resultado é esse.
Enquanto falava, Matador de Goblins deixou a pedra voar; ela assobiou pelo ar e atingiu o capacete do manequim. O equipamento rolou pela grama, que Matador de Goblins aproximou-se e pegou, jogando-o casualmente para as duas garotas.
— Wow!
— Eek!
Elas não puderam evitar de soltar um grito. Era natural: a pedra havia perfurado a parte exterior do capacete, assim como o forro de couro, e estava rolando pela parte de dentro. Era impensável o que aconteceria com o crânio de qualquer pessoa que usasse esse capacete em particular quando fosse atingido por aquela pedra.
— Desta forma, mesmo alguém relativamente fraco com um rhea deve ser capaz de lidar com ao menos um inimigo invasor. De qualquer forma, meu próprio mestre era um rhea. — Este quase sussurro resultou em uma série de piscadelas de Druidesa.
Matador de Goblins aproximou-se delas com seus passos ousados, recolhendo a pedra de dentro do capacete. Estava afiada, assim como uma ponta de flecha. Era algo que escolheu especificamente para o arremesso, com foco no poder e na estabilidade no ar. Ele suavemente acrescentou que essas preparações eram às vezes eficazes.
— Se conseguirem manter o primeiro inimigo afastado, é possível que os membros do seu grupo apareçam para ajudar.
— Só… possível? — Clériga Aprendiz perguntou em dúvida.
— Sim. — O tom de Matador de Goblins seguia sério. — Representa apenas mais uma carta que vocês podem jogar quando for preciso. Se isso for o suficiente, então pratiquem.
— Senhor Matador de Goblins, realmente acho que você tem uma maneira dura de dizer as coisas — disse Druidesa em desaprovação. Não admira que aquela sua doce sacerdotisa pareça sempre tão estressada.
— É mesmo? — perguntou Matador de Goblins, genuinamente perplexo. As duas garotas deixaram o assunto de lado, pegando suas fundas. Elas enrolaram as faixas perguntando “Isso está certo?” o tempo todo, além de “E quanto a isso?” antes de arremessar suas próprias pedras no manequim.
Alguns de seus tiros acertaram e outros erraram. Alguns nem mesmo foram na direção certa. Mas Matador de Goblins não fez questão de dizer nada a respeito de seus esforços. Se tivessem perguntas, elas perguntariam. Neste momento, seria melhor deixá-las concentradas na prática. Foi assim que Matador de Goblins aprendeu, e ele sentiu que deveria fazer o mesmo.
Aqueles que não tentam nunca serão capazes de conseguir.
Neste ponto, por fim, pensou que talvez tivesse entendido melhor o que seu mestre – Assaltante – dizia.
E foi ele, finalmente, capaz de fazer isso?
Não tinha uma resposta. Não tinha como responder.
Matador de Goblins soltou um suspiro, sentando-se onde estava, quase resignado.
Naquele momento, porém, uma voz interrompeu os seus pensamentos.
— Heh heh heh! Você não parece estar se dedicando muito. — Uma sombra caiu sobre ele.
— Ah… — Matador de Goblins virou-se para encontrar Garota da Guilda, segurando um guarda-sol e sorrindo. — Então você veio…
— É claro. Só para observar, ou talvez… bem, não para inspecionar. Mas, sim, aqui estou eu.
Ela deixou-se cair ao lado dele, os braços envolvendo os joelhos. Estava com suas roupas comuns, as de trabalho. Talvez fosse um pouco quentes para o começo de verão, já que uma gota de suor escorria por sua testa.
Era bastante claro que um trabalho burocrático como o dela não poderia ser feito com qualquer roupa esfarrapada. Garota da Guilda podia também ser um pouco tímida, mas, de qualquer forma, não estava a ponto de abrir o colarinho ou deitar na grama.
— Você não está com calor, Matador de Goblins…?
— Não — disse ele com um aceno de cabeça. — Não muito.
— Sério?
— O que eu ganharia mentindo a respeito disso?
A resposta não pareceu deixar Garota da Guilda nem remotamente feliz; ela fungou e murmurou:
— Deixa pra lá. — Depois de um momento, perguntou: — O que acha das nossas aventureiras Obsidiana e Porcelana?
— Hmm — disse Matador de Goblins, observando as garotas praticarem com a funda. Elas com certeza estavam entusiasmadas. E sérias. Eram boas garotas. Mas isso não era garantia de que sobreviveriam. — Não sei.
— Ah, seu… — Garota da Guilda estufou as bochechas e ergueu o dedo indicador, sacudindo-o sem pressa, em tom de censura. — Você deveria responder uma pergunta dessas com algo banal e inofensivo!
— É mesmo?
— É sim. Especialmente quando a sua resposta for incisiva.
— Lembrarei disso — disse Matador de Goblins e se levantou. Ele podia sentir Garota da Guilda olhando em sua direção.
Já estava na hora.
— Ei, vocês! Que tal um almoço?
— Fresco e da fazenda!
O barulho de uma carroça podia ser ouvido, acompanhado por vozes de mulheres: Sacerdotisa e Vaqueira.
Não houve nenhuma decisão específica a respeito disso. Não era um acordo formal. Não tinham a obrigação de aparecer com o almoço.
Este era um simples ato de bom coração.
Matador de Goblins estava profundamente grato pelo tio de Vaqueira fazer algo assim por aventureiros. O pensamento vaidoso de que poderia ser tudo para ele nunca passou por sua cabeça.
— Oopa, é melhor eu ir ajudar — disse Garota da Guilda.
Ela limpou a grama e a sujeira de sua saia enquanto se levantava. Soltou um bocejo curto, dobrando o guarda-sol e prendendo-o ao lado do corpo. Então caminhou pela grama como se fosse um passarinho.
— Ah, é mesmo — disse ela, virando-se com um sorriso. O vento soprou por suas tranças. — Devemos classificar isso como “visitantes em serviço”?
Mas Matador de Goblins não respondeu. Em vez disso, se virou para as garotas, trabalhando arduamente com a funda, e disse:
— Façam uma pausa.
As duas estavam com o rosto vermelho devido ao grande esforço. Elas acenaram com a cabeça, ansiosas, e dirigiram-se para o carrinho. Ele observou as duas, então deu as costas para a multidão cada vez maior de aventureiros reunindo-se em torno da comida e começou a se afastar.
Sentiu uma leve pontada de arrependimento por ter aceito ajudar em um treinamento como aquele.
— Ei, Matador de Goblins!
Foi Lanceiro quem o impediu. Ele não percebeu que o aventureiro estava ao seu lado.
Lanceiro observou Garota da Guilda partir, suas tranças balançando ao vento, então exalou e olhou direto para o capacete de Matador de Goblins.
— Onde está o grandalhão? — perguntou ele, referindo-se ao Guerreiro de Armadura Pesada.
— Para onde ele foi?
— Hoje ele decidiu levar as outras crianças para uma caverna.
Lutador Meio-Elfo e o tão perspicaz Garoto Batedor tinham ido com ele. Não existia aventura isenta de riscos, mas era provável que nada acontecesse em uma expedição dessas.
Matador de Goblins ficou quieto por um momento, então perguntou suavemente:
— O que você acha daquele garoto?
— Ahh, o pirralho feiticeiro? — Lanceiro sorriu com ferocidade.
O garoto estava ao lado do carrinho, pegando uma garrafa de água com limão que havia sido arrefecida no poço. O fervor com que bebeu indicava o quão duro Lanceiro havia sido em seus atos.
— Ele tem culhões. Mas não posso falar nada de demais sobre suas habilidades mágicas.
— É mesmo?
— Mas e aí, o que deu em você? — disse Lanceiro com um olhar de soslaio penetrante, direcionado ao capacete de aço encardido. — Tutoria nos campos de treinamento? Achei que você mantinha seu foco só naquela sua clériga.
— Não é necessariamente o caso — disse Matador de Goblins, brusco, e então começou a se afastar.
Ele parecia decidido a deixar a área o mais rápido possível. Isso deixou Lanceiro olhando para o céu, sem saber o que fazer.
— Uff…
O sol estava assustadoramente potente. Parecia que o verão seria quente.
— Ei, estará livre à noite…? — perguntou Lanceiro.
— Hrm… — grunhiu Matador de Goblins. Ele olhou em direção de Vaqueira; ela estava também olhando em sua direção. A garota sorriu, acenando com a mão à altura do quadril. Os dois pareciam estar, de alguma forma, conversando.
Matador de Goblins balançou a cabeça.
— Sim… Acho que estou.
— Então vamos beber alguma coisa.
— Diz álcool…?
— E homens bebem alguma outra coisa?
Matador de Goblins teve alguns problemas para entender o que Lanceiro quis dizer, ou talvez o que pretendia fazer. Que possível benefício havia em convidá-lo para tomar um drinque?
— Você está me convidando?
— Vê mais alguém por aqui? Vamos levar o grandalhão junto. Três homens. Sem desistências.
— Entendo…
— Vamos lá, ânimo.
Matador de Goblins olhou silenciosamente para o céu. O sol havia passado de seu zênite, brilhando na encosta suave. Neste lugar, era fácil ler o tempo que passava, independentemente da estação.
Foi sua irmã mais velha que o ensinou a fazer isso.
Ele jamais poderia esquecer.
— Tudo bem…
— Ótimo — disse Lanceiro, batendo com o punho no ombro de Matador de Goblins. — Então está decidido.
O céu azul claro parecia não ter fim.
O garoto estava jogado na grama, ofegante; podia sentir a laminazinhas verdes pressionando suas costas e bochechas banhadas de suor.
Ele deitou de costas, abrindo bem os braços e pernas, injetando oxigênio em seus pulmões. Era a falta de oxigênio que lhe causava falta de ar. Se respirasse, o obteria. E era por isso que sua respiração estava irregular.
A brisa do início do verão soprava suavemente por seu rosto enquanto um pensamento circulava em sua mente: ele com certeza não era patético.
Os feitiços esgotavam a força do usuário e as aventuras costumavam incluir muitas marchas por campos e montanhas.
Por quê? Bem, os cavalos eram caros. E eles precisavam de comida, de estábulos.
Precisavam de ferraduras e equipamentos.
Se fosse cavalgar apenas de cidade a cidade, de guarnição a guarnição, isso talvez não importaria tanto. Mas as aventuras costumavam levar as pessoas a labirintos subterrâneos e remotos, ou a terras sobrenaturais ainda não pisadas pelo homem.
Já seria difícil para um cavalo ou uma carruagem própria e, de certa forma, para um alugado seria ainda pior. Bravos aventureiros com muita experiência diziam que a aventura era um ofício ambulante, e essa era uma verdade absoluta. Um mago, portanto, precisava de tanto vigor quanto qualquer guerreiro. Ele já sabia disso.
Sim, claro que sabia – e ainda assim… E ainda assim…
— Isso simplesmente não funciona…
— T-Tãããão cansada…
Sim, seu oponente havia se contido. Mas havia clara diferença entre um Prata e um Porcelana. Entre a décima classificação e a terceira.
A segunda voz, juntando-se à reclamação do garoto, era de Lutadora Rhea, jogada ao seu lado, também na grama. Ela estava acabada, tendo, até pouco antes, inclusive seus ossos surrados por Cavaleira. Havia descartado a sua armadura, escudo e espada, talvez incapaz de suportar o calor, e estava agora deitada de bruços na grama. Seu peito (não tão grande, mas enorme para uma rhea) arfava para cima e para baixo.
O garoto olhou para ela, mas quando avistou sua camisa banhada de suor, obrigou-se a olhar para o céu. Sentiu um pouco de vergonha, parecia até que havia feito algo errado.
Sua cabeça latejava com o calor e com o ritmo de sua respiração, mas ele conseguia movê-la um pouco. Quando ela terminasse, seria a vez dele com Cavaleira.
— E-então… Você… pegou o jeito…?
— Sei lá…
Em outras palavras, não tinha sido nada mais do que uma sessão de bate e derruba.
Garoto Feiticeiro fez uma careta e soltou um gemido, mas Cavaleira não parecia pensar que estava sendo especialmente má com os jovens aventureiros. Poderia, no mínimo, ser considerado um treinamento para manter a defesa alta, mesmo quando confrontados por um oponente esmagadoramente forte – então, seria uma partida justa.
Lanceiro sem dúvida sentiria o mesmo caso alguém perguntasse a sua opinião. Afinal de contas, força e resistência eram ainda mais importantes do que raciocínio rápido. Aventureiros que caçavam dragões e ogros o tempo todo naturalmente estariam à frente de um par de Porcelanas.
Então, sim, os mentores se contiveram. Mas…
— Eles não estão exagerando com isso…? — disse a garota rhea.
— Não mesmo.
A uma curta distância, Guerreiro Novato descansou a cabeça nos joelhos de Clériga Aprendiz. Pareciam todos completamente exaustos. Druidesa talvez tivesse ido com Garoto Batedor, já que não a viam em lugar algum.
Lutadora Rhea resmungou que ela também deveria estar praticando com a funda, mas o garoto feiticeiro estalou a língua.
— Não há nada para se aprender com um cara daquele.
— Acha mesmo? Sabe, ele é um Prata.
— Mas nunca luta com nada além de goblins. E é obcecado e teimoso, e ninguém nunca sabe no que está pensando — acrescentou o garoto em um murmúrio emburrado. — Goblins? Um aventureiro deve ser capaz de matar um goblin com um único golpe.
— Nem mesmo eu perderia uma luta cara a cara contra um goblin — concordou a rhea.
— Não é? “Matador de Goblins” é o meu saco!
— O chamam assim porque ele mata goblins, não é? — Essa refutação não era de Lutadora Rhea, e sim de Clériga Aprendiz. — Olha, não estou dizendo que não tenho minhas dúvidas sobre ele. — Ela passou a mão pelo cabelo de Guerreiro Novato enquanto falava, e ele, em resposta, soltou murmúrios alegres. — Mas não acho que alguém que nunca fez nada deve sair criticando alguém que realmente faz algo por aí.
— …
— Ouvi dizer que você não mata nem mesmo goblins.
— E você podia calar a boca! — O garoto insistiu na questão. — Ouvi dizer que você nunca caçou nada além de ratos gigantes.
— Bem… isso é tudo que podemos fazer por enquanto — disse Guerreiro Novato, quase gemendo. Ao contrário de Lutadora Rhea, ele ainda usava sua armadura, espada e clava. Apenas afrouxou os fechos de seu equipamento, buscando permitir que seu corpo relaxasse.
— Finalmente chegamos ao ponto em que entendemos como atacar e se defender contra os ratos gigantes. Mas se apareceram três deles ao mesmo tempo, estamos ferrados.
— Mas os ratos são venenosos, certo? — disse a garota rhea. — Não é perigoso ficar o tempo todo lutando contra eles?
— Bem, é por isso que os antídotos e poções continuam esvaziando as nossas carteiras…
— Da próxima vez que o meu nível de clériga subir, planejo pedir o milagre de Cura à divindade.
Então, ela disse, os dois poderiam economizar um pouco de dinheiro e obter equipamentos melhores. Troque sua espada por uma lâmina maior, consiga, talvez, uma cota de malha para melhorar a proteção. Era difícil ver com capacetes, eles talvez pudessem ao menos obter um gorro resistente a algum tipo de…
— Pfft… — O garoto parecia não achar nada disso nem remotamente interessante. Ele estalou a língua, desdenhoso, e recebeu o olhar de Lutadora Rhea. — Tanto faz — murmurou, desviando o olhar para que ela não pudesse ver os seus olhos.
— Olá a todos! Que tal um pouco de água com limão? — Sacerdotisa apareceu, subindo a colina, revelando um enorme sorriso. Ela estava carregando uma grande cesta, repleta de garrafinhas e pacotes de comida. — Também tenho alguns lanches…
Ela não foi recebida com muito entusiasmo. Talvez não houvesse ninguém com vontade de comer depois de correr ou balançar a arma por todo canto. Guerreiro Novato só resmungou um “Urrrrgh” e Lutadora Rhea disse:
— Acho que se eu comer vou acabar vomitando tudo…
Clériga Aprendiz só balançou a cabeça, em silêncio, talvez não querendo ser a única que comeria.
— Er, mas… Se vocês não comerem, não vão conseguir continuar de tarde — disse Sacerdotisa, franzindo a testa. Ela obviamente, porém, não poderia forçá-los a aceitar a comida.
Garoto Feiticeiro com certeza não tinha qualquer vontade de ajudar Sacerdotisa, que ficou ali, sem saber o que fazer, mas, ainda assim, levantou a mão e disse:
— Eu vou comer.
— O quê, sério? — perguntou Lutadora Rhea.
— Sim — respondeu o garoto ruivo, cambaleando enquanto se levantava da grama. — Uma vez aprendi que… se não comer depois do treino… pode nunca ganhar músculos.
— Merda, isso é sério? Então é melhor eu comer.
— Certo… Eu também…
— Então acho que eu também vou querer um pouco. Obrigada.
O almoço consistia de um sanduíche simples: bacon, presunto, vegetais e um pouco de queijo, tudo entre dois pedaços de pão. Mesmo assim, o sabor salgado era muito agradável aos seus corpos suados e debilitados.
No início, o grupo pretendia beber alguma coisa enquanto comia, mas logo estavam vorazmente devorando as provisões.
Ela entende mesmo, não é?, percebeu Sacerdotisa, pensando com alguma admiração.
Aquela garota da fazenda ajudava Matador de Goblins há anos. Ela sabia exatamente do que os aventureiros precisariam após uma dura manhã de treino.
O que precisavam…
“Minha irmã era incrível! Se aqueles goblins não tivessem usado veneno, ela teria os arrasado!”
— Certo — disse calmamente a Sacerdotisa, fortalecendo a sua determinação. Então sentou-se ao lado do garoto.
— Como vão as coisas? Digo… como você está se sentindo?
Ela estava perguntando ao mesmo tempo a todos e a ele.
— Tãããão cansada! — respondeu Lutadora Rhea na mesma hora.
— Sim! — acrescentou Guerreiro Novato, audivelmente exausto.
— Acho que estou conseguindo — disse Clériga Aprendiz com um toque de orgulho.
— …
O garoto ruivo, entretanto, não disse nada; só bufou.
— Hm… — disse Sacerdotisa.
Ele me ignorou.
Ela franziu a sobrancelha de um jeito estranho, então decidiu mudar de assunto. Em vez de ficar paralisada, esperando por alguma inspiração, era melhor agir logo. Isso era algo que havia aprendido com Matador de Goblins.
— Ei — disse Sacerdotisa, fixando-se em Lutadora Rhea. — Não estou vendo o resto do seu grupo…
— Ah, eles. Nosso líder era o segundo ou terceiro filho de alguma casa nobre de algum lugar — disse Lutadora Rhea, dando uma enorme mordida em seu sanduíche e mastigando enquanto fazia barulho. — Mas o irmão mais velho dele foi assassinado, então ficaram sem nenhum herdeiro, e a família quis o nosso líder de volta. E foi assim que o nosso grupo acabou.
— Ah…
Bem, essas coisas de fato aconteciam. O segundo ou o terceiro filho – qualquer um, exceto o filho mais velho, na verdade – poderiam se ver em uma posição socialmente desagradável. Se quisessem qualquer papel além de ficar na espera para o caso de acontecer algo com o mais velho, tinham que sair e conseguir tudo por si mesmos. Poderiam conseguir que seus pais lhes concedesse um pedaço de terra, mas, caso contrário, estabelecer-se por meio de atos marciais seria uma opção ou, talvez, casar-se com outra casa…
As famílias de cavaleiros eram especialmente severas com isso. A cavalaria era, em geral, um título de geração única. Os pais não podiam repassá-lo aos filhos. Um filho mais velho poderia ter oportunidades de servir e treinar, uma chance de fazer um nome, mas os que chegavam após ele provavelmente não teriam tanta sorte.
Como consequência, um bom número de aventureiros era advindo de famílias nessa posição. Neste lugar não havia distinção entre homens e mulheres. Segundas e terceiras filhas de casas nobres eram cobres às dezenas entre os aventureiros.
E a taxa de sobrevivência desses autoproclamados cavaleiros errantes era notavelmente alta. Tinham equipamento, tinham conhecimento e, às vezes, eram versados inclusive em esgrima, o que contribuía para a sua longevidade.
Mas, às vezes, acontecia algo ao filho mais velho, e então esses aventureiros eram chamados de volta às famílias que haviam deixado. Para o líder do grupo em questão… Bem, o caminho para se tornar o patriarca da família foi aberto a ele, e nem mesmo havia se ferido nesse ínterim, então podia se considerar um grande sortudo.
Quer a pessoa tivesse conexões familiares ou não, equipamento de qualidade, conhecimento, experiência ou habilidades, a inevitável morte estava sempre à espreita nos bastidores.
— Acho que não vai ser exatamente fácil para ele. — Os nobres têm seus próprios problemas e tudo mais, pensou Lutadora Rhea consigo mesma. Ela falou com tanto conhecimento que foi até cômico, e Sacerdotisa não pôde deixar de rir.
E estava, ao mesmo tempo, um pouco preocupada. Isso significava que a jovem iria trilhar caminhos sinuosos sozinha. Como se lembrava, rheas atingiam a idade adulta por volta dos trinta, então, estritamente falando, Lutadora Rhea podia ser mais velha do que Sacerdotisa.
— Estar sozinha não é difícil? — perguntou.
— Não é fácil, mas, sabe… eu tenho os meus sonhos! — respondeu Lutadora Rhea, estufando o peito com orgulho. — Eu vou ser grande! Tão grande, mas tão grande, que ninguém vai se importar comigo sendo pequena!
— Cara, eu ouvi isso — disse Guerreiro Novato, empurrando o último pedaço de seu sanduíche boca adentro. — Quando eu disse que me tornaria o cara mais forte do mundo, riram de mim. Disseram que eu era cru demais para isso!
— Sim, isso aí! — disse a garota rhea, batendo palmas.
— É claro que riram — disse Clériga Aprendiz. — Se você for o mais forte, pense no quão crus os outros vão parecer! — Ela sorriu com uma pitada de orgulho; era vê-lo animado assim que a deixava mais orgulhosa do que qualquer um. — Heh heh! Aposto que agora você está feliz por ter decidido vir treinar comigo!
— Estou feliz por não ter deixado você sozinha. Isso teria sido perigoso.
— Sinto muito, quem não deixou quem?
— Guh?
— O quê, não quer admitir?
E continuaram discutindo.
Sacerdotisa semicerrou os olhos, alegre; sentia como se estivesse vendo algo rejubilante. As duas crianças discutindo lembravam dos membros de seu próprio grupo.
— Que bons amigos que vocês são — disse ela.
Com certeza não! Isso era algo que dificilmente poderiam dizer em resposta.
Os dois se entreolharam; cada um murmurando algo e depois calaram a boca.
A conversa foi interrompida ali.
Uma rajada de vento soprou as bochechas que ficaram vermelhas com o esforço.
— Simplesmente não entendo… — resmungou o garoto. — Mas, de qualquer forma, tenho que me concentrar em matar alguns goblins, e matar eles direito. A minha prioridade é essa.
Isso vai dar uma lição nos idiotas que riram da minha irmã mais velha.
Sacerdotisa não tinha certeza do que dizer dessa exibição de acrimônia. Ela era uma aventureira há menos de um ano. Mal tinha experiência suficiente para oferecer conselhos não solicitados. Especialmente, sentia, ao se tratar dos sentimentos desse jovem.
Foi por isso que…
— Eu sei… — Foi por isso que mordeu o lábio enquanto falava. — Uma vez conheci uma maga.
Sua garganta travou e sua voz tremeu. Ela tinha que se controlar.
— Ela disse que… um dia queria lutar contra um dragão.
— Um dragão…?
Dragões – os de verdade – eram inimigos mortalmente aterrorizantes. Não eram como as criaturas que às vezes se escondiam em campos e montanhas. Transbordavam poder. Possuíam força e vigor, inteligência e poder mágico, autoridade e riqueza.
Era exatamente por isso que os matadores de dragões eram tão louvados e admirados.
— Isso… Isso pode muito bem ser um sonho. É algo impossível.
— É claro que era um sonho — disse Sacerdotisa com um sorriso, sem qualquer irritação na voz. — Não precisa ser nada mais do que isso.
Sim; sim, ela tinha certeza disso.
Daquela vez, no momento em que visitaram aquela primeira caverna, continuava lá.
Só porque o grupo foi instantaneamente destruído…
Não significa que o valor de todos apenas desapareceu…
Neste momento, Sacerdotisa achava que podia entender isso, ou pelo menos um pouco.
Essa era uma coisa preciosa – não algo para se zombar ou ridicularizar.
Não importa quão irrealista, não importa quão inalcançável, não importa a probabilidade de falhar.
Sonhos eram sonhos.
Não era questão de poderem ser realizados.
Definitivamente não era algo para ser pisoteado por goblins.
— …
O garoto descobriu que não havia nada mais que pudesse dizer. Ou talvez pretendesse dizer algo, mas antes que pudesse voltar a abrir a boca:
— Olá, meus novatinhos lindos! Parece que vocês estão trabalhando duro!
Uma voz alta e clara, agradável ao ouvido, soou pela planície relvada.
Olharam em direção à cidade para se deparar com três figuras incomuns, mas familiares, andando em direção a eles.
— À tarde, sua elfa favorita irá levá-los em um passeio por algumas cavernas!
— E quem é a elfa favorita de seja lá quem for, Orelhas Compridas? — Ao lado da patrulheira, Anão Xamã deu-lhe uma cotovelada dolorida nas costelas. — Sei que é nosso dia de folga, mas sei que você dormiu quase até o meio-dia.
— Sabe como eles chamam o horário antes do meio-dia? Manhã. Pelo menos entre os elfos.
— Garanto que isso não é verdade.
A brincadeira amigável continuou enquanto eles se aproximavam. Sacerdotisa olhou para Guerreiro Novato e Clériga Aprendiz como se dissesse: Viram? Nenhum deles cruzou o olhar com o seu. Mas que seja.
— Cavernas? Isso significa… goblins? — perguntou Sacerdotisa.
— Ah, por favor. Você está tentando soar como Orcbolg? — Alta Elfa Arqueira acenou com a mão, parecia até que estava enxotando um inseto. — Estou falando sobre uma toca de urso… bem, uma antiga toca de urso. A temporada de hibernação acabou e ele sai na primavera, então deve ser uma boa forma de se acostumar com a espeluncologia.
Sacerdotisa acenou com a cabeça, compreendendo. Ao contrário dos esgotos ou campos, existia um truque especial para se mover e usar armas em cavernas. Se as crianças pudessem praticar enquanto faziam as coisas em uma caverna sem monstros, isso com certeza iria beneficiá-las.
— Er, digamos que ainda não almoçamos — disse Lagarto Sacerdote, juntando as mãos em um gesto estranho. Sua respiração saiu por suas narinas situadas acima de suas enormes mandíbulas. — E parece que você preparou as refeições. Com sua indulgência, será que podemos participar…?
— Ah, claro. São sanduíches — disse Sacerdotisa. Ela vasculhou sua cesta e pegou vários almoços embrulhados. — Eles são de presunto e bacon, vegetais… Ah, e queijo.
— Ah! Um verdadeiro presente celestial! Néctar! Que coisa linda e maravilhosa é essa!
— Se quiser, tem alguns só de pepino e queijo. E também tem vinho.
— Muito bom!
— Ho ho ho! Você não é das pensativas. Obrigado, não irei negar!
Sacerdotisa largou a cesta e seus três amigos mergulharam para pegá-la, cada um mais ansioso que o outro para ser o primeiro a pegar a comida. Ela mostrou um sorriso irônico diante da visão. Mesmo enquanto os observava, a brisa do início do verão voltou a soprar.
Sacerdotisa então agarrou seu chapéu para que não voasse, fechando os olhos para apreciar os duendes do vento enquanto roçavam suas bochechas.
— Ah, e quanto a Matador de Goblins…?
Ele vai almoçar?
Antes que pudesse terminar a pergunta, Sacerdotisa olhou ao redor: não o viu em lugar algum.
Hein?
Então o avistou – à distância, conversando com outros dois aventureiros, Lanceiro e Guerreiro de Armadura Pesada.
— Hrm — suspirou, quase como se estivesse o imitando. Ela estava um pouco solitária; mas também um pouco feliz. — Heh heh…
Sim, não havia dúvida: isso era algo bom.
— Então eu vou — disse Matador de Goblins para Vaqueira. Ele estava em seu quarto fazendo uma rápida verificação em seu equipamento. — Chego tarde da noite. Não precisarei jantar.
Ele prendeu a espada ao quadril e fixou o escudo no braço, colocou proteção para as pernas e pendurou sua bolsa no cinto, então por fim colocou o capacete.
Matador de Goblins estava vestido e pronto para sair em uma aventura, mas Vaqueira já estava acostumada com isso tudo.
— Tá, certo — foi tudo o que disse em resposta.
Ele estava ajudando a treinar alguns aventureiros novatos, mas foi isso que fez no momento em que chegou em casa. O fato de ter voltado para casa – era essa a sua maneira de tentar ser atencioso?
— O Tio disse que tinha algumas coisas para fazer, então também vai chegar tarde. Acho que vou ficar sozinha, só eu…
— Não esqueça de trancar a porta. Mantenha a porteira fechada e feche as venezianas das janelas.
— Eu sei disso. Você é tão preocupado. — Ela riu e Matador de Goblins ficou em silêncio. Vaqueira aproveitou a oportunidade para tirar um pouco de poeira da armadura dele.
Ele disse “Hrm” – será que isso o desagradou? – e então virou a cabeça de um lado para o outro, verificando a mobilidade do capacete.
— Eu já estou preparada — disse Vaqueira. — Mas e quanto a você? Está com a sua carteira? Essa é uma das coisas mais importantes, sabe.
— Erm… — Ele obedientemente vasculhou por sua bolsa de itens. A pequena bolsa de moedas estava lá. — Estou.
— Então tá bom! — Vaqueira o pegou pelo ombro e fez que virasse. Ela ajustou a borla puída de seu capacete. — Posso ir te buscar se acabar caindo de tão bêbado — disse —, mas tente não causar muitos problemas aos seus amigos, viu?
A palavra amigos fez Matador de Goblins inclinar a cabeça de leve, mas, após um momento, ele respondeu um “Certo” e acenou com a cabeça.
— Não pretendo.
Ele não portava qualquer luz enquanto caminhava pela estrada da fazenda até a cidade, e depois pela cidade até a taverna. Atravessar campos escuros à noite fazia parte do seu treinamento e, assim que chegava à cidade, não precisava de qualquer luz.
A confusão incomum de uma cidade agitada ao crepúsculo o saudou; era uma situação com a qual não estava familiarizado e passou por ela em silêncio.
As pessoas se empurravam e acotovelavam. Não apenas aventureiros, mas viajantes, bem como os trabalhadores que construíram as instalações do centro de treinamento, estavam por toda parte.
Matador de Goblins avançou, olhando para um lado e para o outro, até que viu a placa que disseram-lhe para procurar.
— Hmph… — grunhiu enquanto abria caminho em direção àquilo, finalmente se livrando da multidão. Ao mesmo tempo, levou a mão a sua bolsa de itens, certificando-se de que não tinha sido vítima de qualquer tipo de furto. Estava tudo bem.
A placa possuía a inscrição O MACHADO AMIGÁVEL e tinha a forma de uma machadinha.
Matador de Goblins empurrou a porta de vaivém e foi imediatamente envolvido por uma cacofonia ensurdecedora. O interior cavernoso estava iluminado pelo brilho avermelhado das lanternas, e todas as muitas mesas redondas estavam ocupadas.
O prédio em si era menor do que a filial da Guilda, mas, ainda assim, ela era uma estrutura multifuncional. Do ponto de vista do antigo sistema, sob o qual lugares como aquele tinham uma taverna no primeiro andar e uma pousada no segundo, o Machado era bastante grande.
No passado, os alojamentos dos aventureiros serviam também como locais para encontrar trabalho – mas isso agora havia ficado na história. O sistema da Guilda foi bem adotado, e os aventureiros, que eram antes pouco mais que um bando de arruaceiros, adquiriram certo tipo de reconhecimento público.
Mesmo nos dias de então, havia lojas que trabalhavam com a Guilda para oferecer missões, mas, na maioria das vezes, as pousadas de aventureiros continuavam em declínio.
Então, mais uma vez, era dito que a lendária taverna O Cavaleiro Dourado nunca atribuiu qualquer missão, mas mesmo assim…
— Ei, Matador de Goblins! Você conseguiu!
Enquanto o aventureiro com armadura ficava na porta, uma voz poderosa chamou por ele. Seu capacete girou, examinando o interior do bar, como se estivesse avaliando uma caverna na qual recém adentrava. Lá – lá estava a fonte da voz.
Em um canto da taverna, em um assento de onde podia ver todo o local, estava sentado um homem bonito e de aparência durona, no momento acenando com o braço.
— Aqui, aqui!
— Você está atrasado, cara! Já começamos!
— Sinto muito — grunhiu Matador de Goblins.
O copo de um dos homens foi erguido e já estava quase meio vazio, e alguns dos petiscos haviam claramente sumido. Mas a maior pista era que o rosto de ambos os aventureiros já estavam corados.
Matador de Goblins sentou um tanto desajeitado à mesa circular.
Os outros dois homens vestiam roupas civis; Matador de Goblins era o único trajando a sua armadura. Era impossível não achar isso ao menos um pouco engraçado. Ao contrário da maneira como tantos jovens imaginavam as coisas, os aventureiros não costumavam andar com equipamento completo pela cidade.
Sim, Lanceiro e Guerreiro de Armadura Pesada eram ambos astutos e mesmo neste momento carregavam uma espada curta presa aos quadris, mas isso provavelmente era exagero. Os olhares que cruzavam com eles deviam ser de viajantes não acostumados com aventureiros.
Os três homens eram de algum renome: O Pior da Fronteira, Lanceiro. O Mais Gentil da Fronteira, Matador de Goblins. E o líder do Grupo Mais Legal da Fronteira, Guerreiro de Armadura Pesada. (A razão pela qual não podiam ser chamados de “rostos famosos” era por causa de apenas um deles…)
— Por que não fomos à taverna da Guilda? — perguntou Matador de Goblins.
— Porque não quero que espalhem boatos de que eu estava enturmando com um cara que nem mesmo quer tirar a armadura — disparou Lanceiro para ele.
— Isso é só da boca para fora — disse Guerreiro de Armadura Pesada na mesma hora. — Ele fica com vergonha de ser visto bebendo com você.
— É mesmo?
— Especialmente pela Senhorita Recepcionista, se é que me entende.
— Ah, fecha a matraca! — rosnou Lanceiro. Em seguida, ele apontou para o menu na parede com o polegar. — De qualquer forma, anda logo e pede alguma coisa.
— Sim — disse Matador de Goblins, estudando o menu. Havia ao menos uma dúzia de variedades de álcool, de cerveja a vinho de fogo e vinho de uva. — Hmmm…
— Escuta — disse Lanceiro com um suspiro exasperado. — Em momentos assim, você não pensa. Uma cerveja é mais que o suficiente!
— Uma cerveja, então.
— Bom! Ei, Senhorita! Três cervejas!
— Assumindo o comando, hein?
Guerreiro de Armadura Pesada foi incapaz de reprimir um sorriso e uma risada silenciosa.
— O quê? — exigiu Lanceiro com um olhar feroz, mas o guerreiro calmamente respondeu:
— Nada.
Quem servia colocou três canecas cheias de cerveja na mesa, seus movimentos experientes.
— Aqui, três cervejas! Aproveitem!
A garçonete era uma centaura, ainda jovem. Seria preciso ter cuidado para não, em qualquer lapso de embriaguez, chamá-la de Almofadinhas. Os centauros eram um povo muito orgulhoso e não tinham almofadas nos pés.
O mesmo devia se passar com minotauros, alguns dos quais se tornaram dos Que Rezam. Não que os minotauros fosse um grupo que se preocupasse com esses detalhes…
Mas, voltando à nossa história.
A garçonete colocou as canecas na mesa, seu busto generoso balançando, depois se afastou (nas quatro patas) balançando o rabo. Era impressionante como podia facilmente costurar por toda a taverna lotada, mesmo com uma estrutura tão grande.
Observando o seu traseiro musculoso de perto, Guerreiro de Armadura Pesada suspirou.
— Sei que seios são bons, mas uma bunda é uma bunda.
— Huh, então isso explica por que você gosta tanto daquela sua amiga cavaleira; ela cavalga!
— Ela não tem nada a ver com isso. — Guerreiro de Armadura Pesada parou por um momento e disse: — Acho que não poderíamos ter uma conversa dessas na taverna da Guilda, hein?
Lá, nunca se sabe quando uma mulher poderia estar assistindo – ou ouvindo. Guerreiro de Armadura Pesada suspirou e pegou a sua cerveja, erguendo-a alto.
— Que tal fazermos um brinde, hein?
— Pelo quê? — perguntou Matador de Goblins. Ele também pegou a sua caneca.
— Er… Ah, que diabo. Pensar em algo dá trabalho demais. Vamos continuar com o de costume.
Lanceiro balançou a cabeça, seguindo o exemplo dos outros ao erguer a sua bebida.
— Pela nossa cidade!
— Aos dados dos deuses!
— Pelos aventureiros.
— Saúde! — exclamaram e depois esvaziaram suas canecas.
Alguém – nenhum deles poderia dizer quem – sugeriu ir para fora e dar um tempo na bebedeira.
As ruas estavam lotadas de pessoas que haviam saboreado um pouco de vinho e estavam agora na cidade. Os três aventureiros abriram caminho pela multidão e acabaram chegando às margens de um rio.
O rio corria ao lado deles e as estrelas brilhavam acima. E as duas luas brilhavam ainda mais sobre elas.
A brisa da noite soprou agradável por seus corpos aquecidos pelo álcool. Seria impossível ficar de mau humor em uma noite destas.
Cantarolar uma ou duas músicas era algo natural.
Deixe a terra azedar e o vento ficar doente
E o mundo ficará escuro para sempre
Não haverá um momento em que esta joia cintilante
Que com quatro luzes brilhantes não cintile
Pois vou trilhar o caminho dos buscadores
Como jurei, com esses amigos meus.
Até os confins da terra e a casa do vento,
Embora seja tudo sonho, vou
Essas quatro luzes brilhantes nessa joia nunca acabam
Ou derretem ou queimam pouco
E quanto a nós, nunca vamos esquecer
Nossos amigos enquanto pela estrada caminhamos.
Era uma canção meio esquecida de valor militar de muito, muito tempo atrás. Um bardo com seu alaúde poderia cantar bela e corajosamente, mas três aventureiros bêbados teriam sorte ao serem considerados apenas desafinados.
— Que diabos? — Lanceiro parecia ter cansado de cantar passados alguns versos, já que interrompeu tudo no mesmo tom da melodia.
Seu olhar ficou fixo em Matador de Goblins. Havia algo o incomodando.
— O que você vai fazer?
— Como assim?
— Você sabe do que estou falando!
Ahh, começou, pensou Guerreiro de Armadura Pesada, olhando para as estrelas.
Deveriam ter trazido aquela bruxa? Bah. Ela provavelmente só ficaria olhando para longe. Talvez com um sorriso ambíguo. Não, não era possível contar com ela em um momento destes.
— Estou falando da recepcionista, babaca! Além disso, você tem aquela elfa, a sua garota da fazenda e aquela sacerdotisa! Você está rodeado por mulheres!
— … — Matador de Goblins ficou um momento sem falar. Por fim, disse bem baixinho: — Não acho que alguma coisa será possível até que todos os goblins tenham acabado. — Ele fez outra pausa. — Eu… — Então ficou em silêncio.
Lanceiro lançou-lhe um olhar de soslaio.
Isso era bastante compreensível.
Não era difícil adivinhar que tipo de passado devia ter um homem chamado Matador de Goblins.
Por isso, Lanceiro soltou um suspiro dramático e encolheu os ombros, exageradamente aborrecido.
— Aí está.
— Um goblin?
— Não, seu maluco — bufou Lanceiro. Guerreiro de Armadura Pesada riu em voz alta.
O lutador musculoso então balançou a cabeça e disse:
— Ei, não é como se eu não entendesse.
— Ah, é?
— Sim. Isso é como… — Guerreiro de Armadura Pesada fez um enorme gesto em direção ao céu, como se procurasse por algo invisível. — É tipo, um homem quer ser livre, certo? Rei do seu próprio domínio.
— Um rei, hein! — Lanceiro sorriu enquanto caminhavam. Ele não estava tirando sarro; era um sorriso de compreensão. — Soa bem para mim. Existe aquela antiga história sobre o mercenário que se tornou rei.
— Pena que não sou dos inteligentes — disse Guerreiro de Armadura Pesada, dando um tapinha na lateral da própria cabeça.
— Se estudar, então vai ficar um pouco — disse Matador de Goblins. — Você também tem dinheiro. Deve ter alguma inteligência.
— O problema é que não tenho tempo. — Guerreiro de Armadura Pesada encolheu os ombros e a espada em seu cinto, que diligentemente usava mesmo quando bêbado, chacoalhou. — E você não pode começar a estudar depois de se tornar um rei. Isso significaria apenas que é um rei estúpido, e não existe nada pior para o povo do que um governante desmiolado.
— Sim.
— Mas se eu começar a estudar agora, não poderei continuar com as aventuras, e isso vai detonar com o resto do meu grupo.
— Entendo — disse Matador de Goblins. Ele cruzou os braços e murmurou de forma pensativa. Por fim, chegou a uma conclusão: — Complicado.
— Nisso você está certo — disse sobriamente Guerreiro de Armadura Pesada. Complicado o suficiente para fazer você desistir de suas armas, equipamentos e tudo o mais. Sua voz, entretanto, seguia leve e alegre. A forma como as bordas de seus lábios se curvaram era a prova de um sorriso. — Não que as coisas estejam chatas da forma como estão.
— Além disso, você tem a sua cavaleira, né? — interrompeu Lanceiro.
— Calado! — Guerreiro de Armadura Pesada deu-lhe um chute.
— Ai! — exclamou Lanceiro. Os músculos de um guerreiro treinado podiam ser qualificados como armas.
Guerreiro de Armadura Pesada ignorou os gritos, apoiando-se na grade da ponte em que estavam. Matador de Goblins estava ao seu lado.
— Duvido que isso seja algo tão ruim.
— …
— Tenho certeza que não.
— Acho que não — disse Guerreiro de Armadura Pesada, respondendo às palavras sombrias de Matador de Goblins com um sorriso malicioso. — Sim… Acho que também não me importaria de tê-la comigo.
— Feh! Vocês, rapazes livres, têm tanta sorte! — disse Lanceiro com um estalo de língua. Ele se recostou na grade e olhou para as estrelas. Apertou os olhos para ver uma luz, a uma altura logo além do seu alcance, além do outro lado do céu.
— Você só é ganancioso — brincou Guerreiro de Armadura Pesada.
— Seu idiota — rebateu Lanceiro. — Como homem, você nasce querendo duas coisas: mulheres bonitas e força. O que mais poderia almejar na vida?
— De novo, você está parecendo uma das crianças…
Ele estava falando de Garoto Batedor ou Guerreiro Novato? Procurar ser conhecido como o mais forte de todos os aventureiros era um privilégio concedido aos mais jovens.
— Sim, o mais forte, isso aí — disse Lanceiro, quase fazendo beicinho. — Porque acredito que quando eu for o mais forte, poderei fazer o que quiser. — Ele cuspiu em direção ao céu; não que isso fosse mudar o jogar de dados dos deuses. — As mulheres vão me amar, as pessoas vão me agradecer e eu poderei fazer o bem ao mundo. Não há nada de errado com isso, certo?
— Te amar? Mulheres de verdade? — Guerreiro de Armadura Pesada bufou. Isso talvez fosse o retorno da gentileza de antes.
— É bom você acreditar que irão!
— Hmm — murmurou Matador de Goblins. — Não consigo imaginar.
— Ah, fica de boa! — Lanceiro olhou para Matador de Goblins enquanto mantinha o rosto voltado para o céu. Como de costume, o aventureiro estava usando sua máscara de metal. Seu capacete de aço encardido. Não havia como saber que expressão havia por trás disso.
Aposto que nossa querida recepcionista saberia.
Era apenas uma prova de quanto e com que frequência eles haviam conversado. Lanceiro se perguntou: se ele colocasse um capacete, ela saberia qual seria a sua expressão?
Então respirou fundo, depois, soltou:
— E quanto a você, Matador de Goblins? — perguntou. — Com o que sonhava quando era criança?
— Eu?
— Acha que há mais alguém por aqui que mata goblins o suficiente para usar esse nome?
— Suponho que não…
Matador de Goblins ficou em silêncio, olhando para o rio. Mesmo à luz das luas gêmeas, ele parecia escuro e preto, igual tinta derramada.
De onde vinha o rio e para onde ia? Ele se lembrava de uma vez ter perguntado à irmã.
Ela disse que vinha das montanhas e ia para o mar. Certa vez, pensou em seguir até a sua origem, só para ver. Mas parecia improvável que agora tivesse a chance.
— Eu queria ser um aventureiro…
— Huh! — disse Lanceiro, dando uma cotovelada em Matador de Goblins. — Bem, esse é um sonho realizado, não é?!
— Não — disse Matador de Goblins com um breve aceno de cabeça. — É complicado.
— É, hein?
— Sim. — Matador de Goblins balançou a cabeça. — Isso não é tão fácil de fazer.
É mesmo?, adicionou Guerreiro de Armadura Pesada para si mesmo. Ele soltou um longo suspiro.
— O que você quer fazer, o que precisa fazer e o que pode fazer nem sempre são a mesma coisa, não é?
— Isso é o suficiente para deixar um cara louco — concordou Lanceiro.
Os três homens então ficaram quietos, olhando para as luas. O vento soprou pelo rio, prenhe da promessa de verão.
O que queríamos.
Ser guerreiros renomados. Grandes heróis ou reis; parte da história e da lenda.
Encontrar algum item da Era dos Deuses, resgatar princesas, lutar contra dragões e salvar o mundo.
Queriam explorar ruínas ocultas, descobrir os segredos do mundo e trazer suas verdades à luz.
Queriam ser rodeados por lindas mulheres, amados e admirados – e tão inteligentes quanto qualquer pessoa que encontrassem.
Ansiavam por empunhar armas que dominavam bem e verdadeiramente, realizando proezas de força que seriam cantadas nas gerações vindouras. Alguém para quem as pessoas apontavam, independentemente da tarefa, e diriam: Ele. Ele consegue.
Muito provavelmente, perceberam, neste ponto, que tais histórias não seriam deles.
Eles eram Prata, a terceira classificação, a mais alta dentre os aventureiros no campo. E isso lhes significava algo. Nunca rejeitaram essa conquista ou sentiram que ser Prata era tão problemático que seria melhor ficar no Bronze ou até no Aço.
Mesmo assim.
Ainda assim, na verdade…
— Então, bom…
Ele era Matador de Goblins.
Não o garoto ruivo.
Isso era motivo suficiente.
— No mínimo, quero deixá-la fazer o que quiser… — Todos os homens concordaram.