Capítulo 4 – A Luta Com a Fera
Matador de Goblins e Alta Elfa Arqueira estavam descendo pela árvore zelkova quase ao mesmo tempo em que seus amigos subiam pela raíz.
Eles se reuniram em frente à fortificação dos elfos, mas se viram instintivamente parando ao som de árvores quebrando que podia ser ouvido de longe.
— O que diabos está havendo?! — gemeu Anão Xamã.
— Um monstro chamado de coisa-ou-outra está em fúria — respondeu Matador de Goblins, uma explicação que dificilmente explicaria alguma coisa. Ele olhou ao redor. — E quanto às outras duas?
— Ah, sim. Pensei em pedir que voltassem para o quarto e esperassem lá.
Quem respondeu foi Sacerdotisa, cujo cabelo e pele continuavam úmidos. Ela devia ter saído da área de banho com muita pressa. Suas bochechas estavam vermelhas e levava a mão ao peito para acalmar sua respiração e seu pulso.
— Lá provavelmente é seguro — acrescentou ela.
— Então nos desencontramos.
Bem, que seja.
Matador de Goblins logo chegou à sua conclusão.
Dificilmente poderia haver um lugar mais seguro do que dentro de um baluarte élfico – mesmo que nenhum lugar pudesse ser considerado completamente seguro. O fato de ele não poder vê-las era problemático, mas ali estavam inúmeros problemas. Não adiantaria se preocupar com mais um.
— MBEEEEEEENEE!!!!
Os gritos contínuos da fera abafaram os gritos dos elfos, mesmo enquanto os guerreiros élficos – caçadores – saltavam de folha em folha, suas aljavas de flechas nas costas.
— Parece que vão travar uma batalha — disse Lagarto Sacerdote, acariciando a mandíbula; ele era o único que parecia entretido com a situação toda. — Não vou perguntar se os elfos têm destreza em batalha. Duvido que sejam inexperientes.
A guerra era o estilo de vida do mundo desde a Era dos Deuses. Por mais que os elfos desejassem um lugar pacífico e seguro para viver, com certeza não poderiam ter evitado todos os combates. Deviam existir poucos que nunca tivessem enfrentado as forças do Caos, de arco na mão.
— Aquele é o Que Para as Águas — disse Alta Elfa Arqueira. — Se atirarmos para matar e ele represar o rio, teremos problemas reais.
Ela sabia a resposta. Mesmo enquanto pegava seu arco, casualmente colocando uma flecha nele, parecia estar com dificuldades para se mover. Suas orelhas se contraíram uma vez, então de novo, captando os sons ao redor.
— A Hidra Learneana… É assim que vocês humanos a chamam.
— …? — Sacerdotisa olhou para ela com surpresa. — Achei que hidras tivessem várias cabeças.
— Essa ainda é jovem.
— Mesmo que esteja por aí desde que eu era criança — murmurou Alta Elfa Arqueira sombriamente.
— De qualquer forma, é uma criatura que exige respeito. Isso é mais do que podemos lidar.
Não faço ideia sobre podermos vencer. Suas palavras fizeram Sacerdotisa assentir gravemente.
— Então está dizendo que precisamos impedir que aquilo se aproxime, que o façamos voltar para a floresta.
Isso seria mais do que difícil, mas, ainda assim…
Sacerdotisa, entretanto, agarrou seu cajado com as duas mãos, com força, e disse com um olhar de determinação:
— Faremos o nosso melhor!
Alguém riu – uma risada indiferente e relaxada, como se de repente descobrisse que estavam se divertindo. Lagarto Sacerdote avistou a criatura de longe e disse com jovialidade:
— Nunca pensei que seria agraciado com a oportunidade de festejar com um ancestral dos grandes nagas. Que excelente!
— Não engula isso, viu…? — Alta Elfa Arqueira olhou para ele como se não tivesse certeza sobre ele estar falando sério ou não; Lagarto Sacerdote abriu suas mandíbulas com a maior seriedade.
— Milady arqueira, vamos escalar o pescoço daquele monstro e enfiar uma flecha em seu olho!
— Eu falei que não podemos matá-lo!
— Não pode atirar no pé ou cortar um tendão?
— Coisas vivas às vezes morrem com o simples choque de levar um disparo, certo…?
— É uma hidra, não uma pulga.
— Mas — disse Matador de Goblins calmamente, desviando o olhar do monstro invasor —, em qualquer caso, teríamos que chegar perto o suficiente para disparar uma flecha.
A criatura já estava visível logo além das árvores derrubadas.
O grande monstro cinzento caminhava sobre suas pernas parecidas com troncos, sua cauda gigante e pescoço varrendo as árvores para o lado.
Parecia um dragão, mas não era. Parecia um lagarto, mas não era!
Lagarto Sacerdote não pôde deixar de soltar um suspiro de admiração ao ver diante de seus olhos a criatura metade fera, metade divindade, que diziam acompanhar os arco-íris.
— Oh! Era Braquiossauro ou Brontossauro, ou será que Alamossauro? — Ele soltou um uivo animalesco ao oferecer uma prece emocional aos seus lagartos ancestrais. — Nunca imaginei que veria tal coisa neste lugar…!
— Olhe. Lá, nas costas — disse Matador de Goblins suavemente, e todos fizeram o que ele disse.
— Hrm…! — Eram impossível dizer quem do grupo soltou o grunhido.
As costas do Mokele-Mbembe deviam estar a pelo menos quinze metros de altura. Cada vez que a criatura se debatia, as protuberâncias em forma de leque em suas costas soltavam um som crepitante.
Mas aquilo não era tudo.
Entre os espinhos em suas costas algumas sombras se contorciam.
Elas estavam agarradas a algo, agitando os braços loucamente e tagarelando.
— Aquilo é uma… sela?
Alta Elfa Arqueira piscou, surpresa com algo que deveria ser impossível.
— Goblins?!
E assim era.
Goblins, agarrados às costas do Mokele-Mbembe, cuspindo a imundície que voava de suas bocas enquanto uivavam.
Alta Elfa Arqueira lembrava deles.
Eram as criaturas terríveis que os atacaram anteriormente na fazenda e depois no rio.
— Cavaleiros goblins… — A voz de Sacerdotisa estava tremendo diante deste primeiro vislumbre de algo inacreditável.
Ver os goblins nas costas dos lobos cinzas fazia algum sentido. Mesmo cavalos ou asnos não seriam tão assustadores.
Mas – mas – ah, sim.
— Aqueles goblins são… dragões…?
— Não parecem estar segurando as rédeas — disse Matador de Goblins suavemente, apenas relatando os fatos.
— De fato — concordou Lagarto Sacerdote. — Mesmo assim, mesmo quem não sabe montar pode esporar um cavalo… Suponho que seja isso que temos aqui.
— O que você acha sobre isso?
— Os cavaleiros não me assustam nem um pouco. Mas… — Lagarto Sacerdote levou a mão ao queixo e revirou os olhos, pensativamente encarando o monstrossauro. — Dizem que se você deseja parar o general, primeiro deve matar seu cavalo. Então suponho que se deseja parar um cavalo, deve primeiro matar o general.
— Estou preparado para isso. — Matador de Goblins olhou brevemente para cima, em direção à varanda do quarto que tinham para ficar. — De qualquer forma, vou matar os goblins. Não há razão para deixá-los viver.
— Deixe isso comigo! — disse Alta Elfa Arqueira, imediatamente erguendo a mão. Sua voz estava otimista, mas ela estava fixamente olhando para o Mokele-Mbembe e para os goblins em suas costas. — Francamente, estou começando a me cansar dos goblins. Ontem, hoje… E ainda por cima na minha casa!
Matador de Goblins balançou a cabeça. Em seguida, deu um tapinha gentil no ombro de Alta Elfa Arqueira. As orelhas dela estremeceram.
— Vamos segurar essa fera, seja lá como ela seja chamada, aqui. Vocês dois, ajudem-me.
— Claro — disse Anão Xamã.
— Sem dúvidas — acrescentou Lagarto Sacerdote.
Alta Elfa Arqueira ainda estava rígida por ter levado um tapinha no ombro.
Será que o julgamento de Matador de Goblins em um momento desses…? Não.
Sempre que ela soube dele deixando algo para os outros fazerem no ano anterior, foi sempre baseado em um firme conhecimento da situação. Havia uma razão para terem confiado a este estranho e bizarro aventureiro a liderança de seu pequeno bando.
— Hm, e quanto a mim…? — perguntou Sacerdotisa hesitante.
As instruções de Matador de Goblins foram dadas sem hesitação:
— Prepare-se para administrar os primeiros socorros. Se matá-lo não é bom, suponho que ele também não deveria se ferir.
E assim o plano foi traçado.
Alta Elfa Arqueira pegou seu arco e começou a procurar uma chance de lançar um ataque surpresa, enquanto Anão Xamã enfiava a mão em sua bolsa de catalisadores. Lagarto Sacerdote agarrou algumas presas e começou a orar, enquanto Sacerdotisa se agarrava ao cajado e suplicava à Mãe Terra.
Matador de Goblins estava começando seus próprios preparativos, até que…
— Ei, vocês! O que estão fazendo?
Uma voz aguda cortou o ar na direção deles. O elfo com o capacete brilhante, que estava fazendo uma ronda pela aldeia, aproximou-se coberto de suor, parecendo ansioso e excitado. Presumivelmente, estava evacuando as mulheres e crianças que estavam do lado de fora.
— Ah, ei, Mano. Olha, não se preocupa. — Alta Elfa Arqueira sorriu, completamente à vontade. — Estamos acostumados com esse tipo de coisa.
— Mas…!
— Isso — disse Matador de Goblins, interrompendo-o — é meu trabalho.
Com esta última e silenciosa declaração, Matador de Goblins desembainhou sua espada, girando-a com o pulso.
Estavam enfrentando os goblins.
Goblins.
A resposta era óbvia.
— Matar goblins é o meu trabalho.
Árvores caíram. Uivos soaram.
A fera chegou, suas presas correndo por todos os lugares, tentando matar qualquer um e qualquer coisa em que colocasse os olhos; não deu atenção aos goblins em suas costas.
Se o objetivo dos diabinhos era esporar este monstro e deixá-lo louco, então tinham cumprido sua missão.
Mas como se ainda pensassem no monstro como sua montaria, continuaram a segurar as rédeas e cuspir insultos. Não que qualquer tagarelice de alguns goblins mudasse algo.
Mokele-Mbembe não era esse tipo de criatura.
— GOO! GRRB!!
— MBEEEEMMMBE!!
Continuava, entretanto, uma criatura que ameaçava a pátria élfica.
O gigante trovejou pela floresta, cada vez mais perto da aldeia.
Se guiarem aquela coisa até o meio da aldeia…!
Mas os elfos que correram entre as árvores, tentando ficar de olho na situação, não puderam fazer nada a respeito. Chamaram os espíritos da terra e das árvores para ajudá-los, erguendo barreiras por seu caminho. Mokele-Mbembe os esmagou facilmente, mas isso era muito melhor do que nada.
Quase nenhum dos elfos disparou uma flecha na fera divina.
Ou, supostamente não deveriam…
— Hnn… yah…!
Alta Elfa Arqueira, movendo-se como uma rajada de vento, era uma das poucas exceções.
Ela disparou ao longo de um galho, balançou-se em uma videira, atirou-se no espaço e, em seguida, com um movimento elegante, lançou um disparo de ponta-broto pelo ar.
Ele cortou o ar, mas depois ricocheteou em uma das laterais de Mokele-Mbembe com um baque.
— Grr…
Seu inimigo se moveu mais rápido do que ela esperava.
Aqueles elfos que eram mais velhos levantaram um coro de indignação para sua impetuosa irmã mais nova, mas Alta Elfa Arqueira não se distraiu com seus erros. Ela lambeu os lábios por um momento, depois deu um chute no chão, depois na casca de uma árvore e, em um piscar de olhos, estava mais uma vez ganhando velocidade.
Então alcançou o monstro cinza sem mais esforço, saltando para os galhos, agarrando o musgo das cascas.
— Sei que isso não é muito educado, mas… Yah!
Usando uma mão e um pé, saltou para frente, mantendo seu equilíbrio, enquanto com a outra mão agarrou seu arco e colocou uma flecha na boca. Ela puxou a corda do arco para trás, usando os dentes, e a soltou.
— GOORB?!
Um grito soou.
A flecha de ponta-broto passou perfeitamente pelas placas nas costas de Mokele-Mbembe e perfurou o olho de um dos goblins. A criatura, com o projétil alojado em seu olho direito, se contorceu e gritou até cair das costas do monstro e ser esmagado. Tudo o que podia ser visto sob o pé de Mokele-Mbembe eram quatro membros.
— Acertou em cheio!
— Hmm!
Foi Lagarto Sacerdote que respondeu ao grito um tanto estrangulado de Alta Elfa Arqueira. Ele plantou os dois pés no chão, abriu os braços e bloqueou o caminho de Mokele-Mbembe.
Uma fera furiosa estava cortando a floresta em sua direção, mas nenhuma escama tremia; nenhum músculo de sua cauda se contraía.
— Este é um formoso e glorioso adversário. Vamos ter um combate aqui e agora?
As grandes mandíbulas do homem-lagarto se abriram em um sorriso, e uma gargalhada selvagem escapou.
Que honra conquistaria se obtivesse a vitória! E se morresse em batalha, ao menos ganharia tempo para seus amigos. Não lhe importava muito para qual lado os dados cairiam. Ele havia tomado sua decisão e seguiria adiante.
Poucos homens-lagarto foram abençoados com a oportunidade de confrontar um ancestral dos grandes nagas em nome de seus amigos.
Maravilha!
Lagarto Sacerdote respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar úmido da floresta, e pensou claramente na morte. Como todo homem-lagarto, considerava a morte em batalha a maior das honras, pois, como todos, esperava se tornar uma alma que pudesse prosseguir ousadamente para a terra dos nagas no centro da roda da vida que sempre girava.
— Iiiiiiiiiiiyyyahhhhhhhhhhhh!!
Tomando emprestada a força de seus antepassados, o Rugido do Dragão de Lagarto Sacerdote deixou sua boca como um sopro de fogo. O ar quente que expulsou de seus pulmões fez todo o lugar tremer e chacoalhar enquanto voava para o mundo.
— MOOOOOBMMBE!! — Mokele-Mbembe gritou de volta. Bateu no chão com as patas traseiras, como se estivesse desafiando o homem-lagarto que estava em sua frente, segurando as patas dianteiras erguidas.
Era impossível dizer se uma criatura tão vasta e grandiosa estava realmente de alguma forma intimidada por Lagarto Sacerdote. Mas seja qual fosse o caso, o aventureiro conseguiu despertar a ira do monstro contra um desafiante impertinente.
As patas dianteiras erguidas caíram sobre Lagarto Sacerdote como dois martelos…
— Beba muito, cante alto, deixe os espíritos guiá-lo! Cante alto, dê um passo e, quando dormir, o verão, que uma jarra de vinho de fogo esteja em seus sonhos para cumprimentá-lo!
O monstro cambaleou e tropeçou. Seus pés bateram na terra, espalhando lama, bem longe de Lagarto Sacerdote.
— Hmm! Bem. Gracioso.
— Chame isso de empate e vamos continuar, Escamoso!
Foi Estupor. Anão Xamã, que apareceu ao lado de Lagarto Sacerdote sem que ele percebesse, segurava em uma das mãos a jarra de vinho que lhe permitia usar magia.
Podiam estar em uma aldeia élfica, no meio da floresta dos elfos, mas os espíritos continuavam com grande afinidade pelos anões. E pelos deuses.
— MOKEEEEEKELE…
Mokele-Mbembe, que havia absorvido grande parte do feitiço, balançou a cabeça, incerto.
— Tudo certo, Corta-Barba!
— Bom.
Então Matador de Goblins, que estava esperando perto da raiz de árvore gigante atrás deles, entrou em ação. Rapidamente puxou um objeto parecido com um ovo de sua bolsa, arremessando-o em um único movimento suave.
— MOLLLLKEEEEEL?!?!?!
O objeto atingiu o rosto do monstro, despertando-o, mas também fazendo-o gritar e se debater de dor.
O ovo estava cheio de um cegante pó feito de pimentas esmagadas e insetos. Ser atingido por isso não era nem remotamente agradável.
Incapaz de ver e ainda sem pensar com clareza, Mokele-Mbembe começou a violentamente se debater. Seu pescoço, seus chifres, sua cauda e as placas em suas costas, estavam em todos os lugares ao mesmo tempo, assim como um tufão localizado. Se alguém se aproximasse sem cuidado, logo seria jogado para trás.
— Então, o que faremos? — perguntou Sacerdotisa ao lado dele, sua expressão tensa. Ela devia ter ficado nervosa. Matador de Goblins, entretanto, não parecia incomodado com seu olhar implorante.
— Roubamos sua capacidade de pensar — respondeu calmamente. — Agora, vamos terminar isso.
Ele levantou a mão sobre a cabeça.
— Jogue aquilo.
— Hm, tem certeza? Isso está bem?
Acima deles, Vaqueira olhou por cima da borda da varanda que se projetava da grande árvore, claramente hesitante.
— Não me importo.
Certo. Ela assentiu, não parecendo totalmente convencida, então agarrou a coisa que estava no chão.
Era bastante pesada e volumosa; mesmo com os músculos que desenvolveu durante o trabalho agrícola, ainda exigia algum esforço.
Ela olhou para Garota da Guilda na sua frente, grata por haver duas delas.
— Certo, eu fico deste lado…
— Tudo bem, eu cuido desse. Basta falar a palavra e levantamos.
— Hm. Tá… Agora!!
As duas garotas içaram a coisa do chão e a jogaram para longe: poderia ser quase descrito como um monte de cordas.
Especificamente, o monte de tiras de couro em que Matador de Goblins trabalhou até alguns momentos antes.
Caiu no chão fazendo uma grande ondulação, torcendo-se como algo vivo.
— Eek! — Sacerdotisa não pôde deixar de pular para trás, mas Matador de Goblins simplesmente agarrou a ponta de uma das correias.
— Vocês duas, fiquem aí em cima.
Uma voz respondeu:
— Você está bem?
Mas ele acenou com a mão, como se dissesse para ficarem lá, depois, ergueu a rede em suas costas. Lagarto Sacerdote pegou uma das pontas pendentes com um ruído de considerável interesse.
— E o que faremos com isso?
— Vamos jogar — disse Matador de Goblins. — E enredar as pernas da criatura.
— Enredar? Acha que isso será suficiente?
— Se não for, vou pensar em outra coisa.
— Bastante lógico.
Os dois guerreiros correram com pressa, mantendo uma distância perfeita.
— Oh-ho — disse Anão Xamã, pulando para trás; de seu ponto de vista, Alta Elfa Arqueira deixou um impressionado “Huh!” escapar.
Um, dois, três passos.
Quando diminuíram a distância, Matador de Goblins casualmente lançou a rede.
Claro, Mokele-Mbembe não se deixou enganar com tanta facilidade. A fera quase divina pisou na rede com seu pé gigante. A onda de choque fez com que as correias vibrassem.
A rede quicando prendeu o pé do monstro. A pontas e as bordas ficaram presas nas árvores e ficaram ainda mais emaranhadas.
— Ho! — Observando a situação, Lagarto Sacerdote acariciou sua mandíbula apreciativamente e revirou os olhos. — Um bom plano, de fato.
— Ainda não sabemos.
— Mas, mesmo que não façamos mais nada, a rede deve continuar prendendo.
Com sua visão restrita, o monstro se debateu, uivando e se sacudindo no chão. Mas cada vez que isso acontecia, a rede ficava cada vez mais presa em galhos e arbustos.
Quanto mais tentava escapar, mais as pedras pesadas amarradas à rede retardavam seus movimentos…
— MBEMBEMBEMBE?!?!
Por fim, a criatura atingiu seu ponto de ruptura.
O corpo maciço do Mokele-Mbembe, todos os quatro membros então contidos, começou a se inclinar.
E uma vez que o movimento começou, não havia como pará-lo.
Não havia nada para o monstro fazer além de cair.
Mokele-Mbembe desabou no chão com uma pancada estrondosa.
— V-Você derrubou aquilo…? — perguntou Sacerdotisa, atordoada.
— No sentido mais literal, sim.
Uma nuvem de poeira tomou o ar e os gemidos lamentáveis do monstro puderam ser ouvidos.
Matador de Goblins balançou a cabeça para a jovem clériga, e ela respondeu com um breve aceno de cabeça. Então agarrou seu cajado, fechou os olhos, rapidamente sussurrou o nome da Mãe Terra e começou a clamar – por todos os goblins mortos.
— Está satisfeita…?
— Sim. — Ela assentiu. — Vou cuidar dos primeiros socorros!
— Certo.
— Acho que posso simplesmente ir com você — disse Anão Xamã, dando um tapa na barriga e criando uma ondulação nos espíritos em sua jarra. — Se essa coisa ameaçar causar problemas, posso simplesmente lançar Estupor de novo.
— Lamento incomodá-lo, mas agradeceria!
Sacerdotisa saiu trotando, seguida pelos passos distintamente mais pesados de Anão Xamã.
Mokele-Mbembe gemeu lamentavelmente, projetando um ar de ansiedade, mas então surgiu o encantamento de cura de Sacerdotisa: “Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, coloque tua venerável mão sobre as feridas desta criança“, e os ferimentos da criatura foram curados.
A vontade divina estava presente. Esta criatura, mais deusa do que fera, devia entender isso. Assim, Mokele-Mbembe ficou cada vez mais imóvel. Matador de Goblins, portanto, o ignorou e moveu-se bruscamente para seu próximo destino.
Eram os cadáveres dos goblins esmagados pelo monstro, não que alguém tivesse pena deles.
— Hmm…
Os corpos se tornaram massas de sangue, vísceras e ossos, com pedaços de armadura de couro nesse meio. Embora suas armas anteriores estivessem quebradas demais para que pudesse afirmar, parecia que carregavam adagas. Os armamentos não eram feitos de pedra. Eram de metal… Lâminas de aço. Ele tinha certeza de que alguém estava produzindo isso.
— Onde aprendeu a lançar uma armadilha como essa…?
A voz de repente soou para ele.
— É um método antigo para capturar animais grandes — respondeu Matador de Goblins.
O elfo com o capacete brilhante estava lá, tendo chegado tão repentina e silenciosamente quanto o vento. Ele tinha um daqueles enormes arcos élficos pendurado nas costas e, no quadril, um feixe de cordas que pareciam feitas de videiras.
— Você enreda os pés e deixa a vítima cuidar do resto. Pensando bem, você já tinha isso preparado com antecedência.
— Eu já tinha ouvido falar desse “elefante”.
— Como é…?
O elfo se abaixou ao lado de Matador de Goblins, que mal olhou para ele.
— Existem outras aldeias mais adentro? Incluindo qualquer uma não-élfica?
— Não, não há outras aldeias. Até os curandeiros que vêm da cidade param na orla da floresta. Não que tenham aparecido muitos deles recentemente… — O elfo, pensativo, colocou a mão no queixo. — De vez em quando, aventureiros viajam até aqui em busca de ervas especiais ou de algum monstro para fazer algo, mas… Bem, eles não voltam.
— Entendo — disse Matador de Goblins com um aceno de cabeça; pegou a faca em sua mão e colocou no cinto em seu quadril. — Entendo…
— Não creio que obtive uma resposta adequada.
— Meu pai era o caçador-chefe da minha aldeia — disse Matador de Goblins com um aceno, sequer olhando para o elfo. — Isso é tudo.
Pouco depois, os últimos raios do sol poente desapareceram pelo horizonte. Em seu lugar, as luas gêmeas debilmente brilharam na floresta.
A reunião continuou mais e mais.
Os elfos tinham períodos de vida praticamente infinitos; como poderia um de seus conselhos não durar muito?
Pessoas de idade muito avançada se reuniram, sentaram-se em círculo e ali, sob a luz dos brilhos do mar, discutiram o futuro da aldeia.
Falaram da destruição do deus-fera, Mokele-Mbembe. Do terrível desrespeito ao prendê-lo.
Lá estava a horda de goblins que apareceu nas proximidades. Não era normal que eles fossem numerosos?
Havia o fato de que atacaram barcos e aventureiros. Os elfos não gostariam que os humanos aparecessem e causassem problemas na floresta.
Então, o que dizer do fato dos goblins montados no deus-fera? Os diabinhos possuíam tanta coragem?
Cada proposição convidava uma refutação: E se fizéssemos isso? Por que não fazer isso? As sugestões se acumularam.
Sejamos claros: elfos não eram tolos. Eram uma das raças mais sábias, talvez mais inteligentes do que qualquer um nos quatro cantos do mundo. Mais uma razão, então, para que gostassem de considerar todas as possibilidades e perspectivas antes de agir.
Estavam cientes da tolice da mentalidade da ralé, indo todos sem pensar na mesma direção.
Talvez devessem tomar alguma medida especial contra os goblins, mas, bem, seus temores talvez fossem infundados.
Estava claro que algo nefasto estava acontecendo, já que, no mínimo, alguém havia fornecido recursos aos goblins.
Foi um ataque dos Personagens que Não-Oram, ou uma disputa entre os humanos?
As respostas a essas perguntas muitas vezes levaram a ameaças e perigos sem precedentes.
Os humanos jogavam uma pedra na água e viam as ondulações, mas os elfos viam para onde as ondulações seguiam. Os humanos dificilmente poderiam pensar em dez anos no futuro, mas um elfo poderia facilmente contemplar um século, um milênio ainda por vir.
Os humanos zombavam deles por isso, diziam que isso tornava as ações dos elfos lentas, covardes e até mesmo estúpidas – mas isso era, em si, um sinal da arrogância humana.
E então o que equivalia a uma sessão para uma tempestade de ideias continuou.
Alta Elfa Arqueira, que tinha pouca paciência para essas coisas, logo retirou-se.
Aproveitando o ar da noite, soltou um grande bocejo.
Havia um galho da vasta árvore. Ela saltou da varanda do quarto de hóspedes e caminhou até o fim dele.
Saboreou o som do farfalhar das folhas, deixando seus pensamentos correrem até o fim das nuvens enquanto olhava para as estrelas e as duas luas.
Este tinha que ser um dos melhores lugares para apenas se deitar e desfrutar de tudo que o mundo tinha a oferecer.
Já sei mesmo o que ele vai dizer, então de que adianta falar?
Independentemente do resultado do conselho dos elfos, ela sabia muito bem para onde Orcbolg iria. Goblins, goblins, goblins, goblins.
Ela era a desertora que abandonou sua floresta, a delinquente que em sua juventude atirou uma flecha no deus-fera. Não tinha a obrigação de seguir o conselho de anciãos. Claro. Provavelmente. Pensou.
Alta Elfa Arqueira sorriu para a ideia, observando um pássaro que havia surgido voando, embora fosse noite.
Assim sendo…
— Atana. — Minha cara.
Ela ouviu uma voz melodiosa, embora nenhuma folha ou galho tivesse se mexido. A voz estava calma, sem repreensão, mas Alta Elfa Arqueira rapidamente largou o pássaro, cuja perna havia amarrado em um pequeno tubo.
Ele bateu as asas ruidosamente, depois desapareceu na janela do corredor onde o conselho estava sendo realizado.
— Ettobo ni norokotan nokatamu. Ianachisafu. — Subindo nas árvores de novo? Você não tem jeito.
— Ara, iana yujuretto bonettadasen. — Oh? E, ainda, aqui está você, querida irmã.
Alta Elfa Arqueira inclinou a cabeça para trás para espiar a outra elfa e sorriu. O rico vestido prateado cobrindo o voluptuoso corpo tomou sua visão de cima a baixo. Sua irmã silenciosamente caminhou ao longo do galho; Alta Elfa Arqueira se endireitou com um movimento fácil.
— Onii, etsuka nedigiaku? — Você não deveria estar no conselho?
— Awachisesakamo, inatagamashijo. — Vou deixar os velhos cuidarem das coisas.
A elfa com a coroa de flores balançou a cabeça elegantemente, uma expressão melancólica em seu rosto.
Era óbvio que também havia fugido do conselho. Ela era a filha do chefe, uma princesa dos elfos e, ainda assim, mesmo ela ainda era jovem demais para ter a permissão de falar no conselho.
Para os elfos, a idade era imutável. Mais uma razão para observar como os mortais se comportavam antes de julgá-los.
— Iromutsuki? — Quer ir?
— Oisedianekoettsuo? — Mal posso ignorar o problema, posso?
Não ficou claro se ela se referia aos goblins ou a Matador de Goblins. Mesmo se sua irmã tivesse se aventurado a perguntar, Alta Elfa Arqueira provavelmente revelaria um sorriso ambíguo e não se incomodaria em responder. Talvez sequer ela soubesse a resposta.
— Onuriettakau? — Você entende?
Foi exatamente por isso que a elfa com a coroa de flores teve que perguntar.
Ela não entendia o que sua irmã estava pensando, o que havia a levado a se tornar uma aventureira. Mesmo uma alta elfa não poderia ler a mente da outra.
— Hito nio numuuuya, oyoniakijimu. — Vidas humanas são curtas.
O galho não estremeceu enquanto ela caminhava, como se ela fosse parte da grande árvore. Como se fosse uma flor brotando dela.
— Uamisetiku, inuoyukatatamagisofu. — Como estrelas cintilantes, logo desaparecem.
A elfa gesticulou para o céu noturno salpicado por estrelas enquanto falava. Os céus brilhantes estavam tão distantes, inalcançáveis. A porta das chuvas. Casa de Flogisto, o vento escaldante.
A irmã mais nova riu do gesto da mais velha, que estava quase como se tentando agarrar o inalcançável, e então a irmã mais nova estendeu a própria mão para o céu.
— Oyonuriettakau, amaseen. — Eu entendo, Irmã.
Alta Elfa Arqueira fez um breve círculo no ar com um dedo pálido.
— Então, acho… — disse musicalmente, trocando para a língua comum.
Por que elfos são sempre tão conscientes da beleza? Era uma marca de graça? Ou era apenas porque essa garota fugiu da floresta, incapaz de ser contida na estrutura de seu povo?
— A vida dele talvez dure mais cinquenta, sessenta, setenta anos. Não sei. Pode acabar amanhã. — À luz da lua, seu sorriso a fazia parecer tão jovem, quase angelical, inocente. — Então por que não ficar com ele? Eu tenho tempo de sobra.
Seria como beber uma única taça de vinho.
Como a passagem de um sonho.
Altos Elfos não eram imortais?
Para eles, a vida de um mortal era como o brilho de uma estrela. Poderiam alcançar, mas não tocar. E se tocassem, o calor os queimaria.
— Não é isso que amigos são?
— A separação lhe entristecerá… — disse a elfa com a coroa de flores. Ela gesticulou para a irmã como se estivesse varrendo as estrelas que coletou.
— Acho que não — disse Alta Elfa Arqueira, desviando um pouco o olhar. — Isso não é nada de mais.
Seu tom soou indiferente; no instante seguinte, ela chutou perigosamente em direção ao céu.
Quase sem tempo para pensar, seu corpo flutuou no ar…
— O anão uma vez me disse…
Mas então agarrou o galho com muita destreza, deixando o impulso movê-la em um arco. Ela deu um salto mortal para trás, em pleno céu, e pousou ao lado de sua amada irmã mais velha.
— Ele disse que a ressaca faz parte da diversão da bebedeira.
— Posso ver que não importa o que eu diga… — O menor dos suspiros escapou dos lábios da donzela elfa. Ela olhou para sua amada irmã como o pássaro que chora para a lua à noite. — Você foi sempre assim. Não importa o que eu diga, nunca me escuta.
— Oh? E como isso me torna diferente de você? Senhorita Fugi-Do-Conselho-Porque-Quis. He-he. — Alta Elfa Arqueira soltou uma risadinha breve, como o chilrear de um pássaro. Então apertou os olhos com um gato, sorrindo para a irmã. — Não sei o que você vê em um elfo tão sério e obstinado quanto ele.
— Você não é de falar tanto… — A irmã mais velha moveu os lábios em desaprovação, dando à sua irmã um tapa não tão gentil na testa.
Exatamente como fazia quando eram pequenas – uns mil ou mais anos atrás, quando brincavam como garotas.
— Aaai — disse Alta Elfa Arqueira, dramatizando um ferimento. Então, percebeu.
Quando isso começou? Quando ela e sua irmã ficaram mais ou menos da mesma altura?
Quando isso começou? Quando sua irmã e aquele primo começaram a ter esses sentimentos um pelo outro?
Quando isso começou? Quando ela quis não ser a irmã mais nova de sua irmã, e sim uma elfa?
E agora sua irmã estava se casando. Ela não seria mais, acima de tudo, sua irmã mais velha, mas sim uma esposa, uma governante.
Ainda não fazia tantos anos que saiu para viajar, seguindo as folhas pela correnteza do riacho. E, ainda assim, parecia mais tempo do que as memórias de mil anos atrás.
— Faça o que fizer, volte em segurança… Porque estaremos esperando por você.
— Voltarei… — respondeu Alta Elfa Arqueira e então acenou com a cabeça.
***
— E exatamente o que estaremos fazendo mesmo…?
O elfo com o capacete brilhante era a perfeita imagem do aborrecimento ao se sentar em sua cadeira com a devida graça. Ele tinha uma beleza severa, assim como a escultura de um mito. O vento noturno soprou em seu cabelo e ele o afastou novamente com extrema irritação. O fato de que até mesmo esse simples movimento era repleto de elegância indicava o tipo de seres que os elfos eram.
Sentados diante dele na varanda sob o luar, havia vários jarros de vinho e um prato cheio de batatas fritas.
— Como é que é? — disse Anão Xamã entre o círculo de pessoas, acariciando sua barba e soando como se não achasse que a situação precisava de explicação. — No último dia de solteiro na vida de um homem, ele e os outros homens se reúnem e bebem para se divertir.
— Faltam vários dias para a cerimônia de casamento, e ainda estamos no conselho.
— Os elfos não diferenciam alguns dias a partir dos mil anos, e quanto ao conselho, ele continuará, esteja você presente ou não.
— Minha nossa. Vocês, anões, são insuportavelmente apáticos.
— E vocês, elfos, sempre sentem falta da floresta por causa das árvores… mesmo vivendo em uma! — Isso tira anos de sua vida, caso não tenha percebido.
O elfo realmente parecia um tanto envergonhado pelas palavras de Anão Xamã. Ele franziu a testa em uma demonstração de frustração, fazendo com que Lagarto Sacerdote revirasse os olhos.
— Bem, alguns bebem vinho antes de ir para a batalha — disse Lagarto Sacerdote. — Pode considerar isso como nossa maneira de recuperar o ânimo, se preferir.
— Ou será que os elfos não têm esse costume?
O elfo com o capacete brilhante permitiu a contragosto que o fizessem.
— Não te recuso, mas… realmente pretende ir?
— Claro.
Esta resposta, certa e imediata, foi naturalmente de Matador de Goblins.
O capacete de aço de aparência barata, a armadura de couro suja, a arma e o escudo que o aventureiro usava no momento… com tudo isso sobre ele, Matador de Goblins concordou.
— Isso diz respeito aos goblins. Não deixarei nem mesmo um deles vivo.
— Então como planeja atacá-los? — perguntou o elfo com o capacete brilhante com considerável interesse, passando a língua pelos lábios para umedecê-los. — Supondo que o ninho dos goblins esteja na floresta tropical…
— Hmm. Por terra ou por água, suponho — respondeu Matador de Goblins cruzando os braços e grunhindo. — O que acha disso?
— Acredito que a água é a nossa única opção. Nossa lady arqueira pode não ver problemas, mas eu gostaria de poupar nossa querida clériga da umidade da floresta tropical — respondeu Lagarto Sacerdote sem hesitação. — O terreno favorece o nosso inimigo. Em vez de vagar por entre as árvores, seria melhor, acho, seguir o rio.
— O problema é a jangada — disse Matador de Goblins, pensando em sua jornada. — Não oferece proteção contra flechas. Praticamente implora para ser virada ou afundada.
— Não temos tempo suficiente para fazer algumas melhorias?
— Os goblins sabem sobre este assentamento. Quanto mais cedo pudermos agir contra eles, mais limitadas serão suas opções.
— “Um ataque rápido é melhor do que um estratagema tardio.” De fato, de fato.
Enquanto se sentavam com as pernas dobradas, Matador de Goblins e Lagarto Sacerdote rapidamente elaboraram um plano.
Era totalmente típico como, em meio aos hmms e huhs, Lagarto Sacerdote esticou o longo pescoço para olhar para Anão Xamã.
— Mestre lançador de feitiços, você tem algum pequeno truque na manga?
— Bem, vejamos. — Anão Xamã lambeu os dedos para limpar das batatas que estava comendo e começou a vasculhar sua bolsa de catalisadores.
À primeira vista, podia parecer uma coleção de tralhas; a mente não treinada jamais imaginaria que esses itens fossem mágicos.
Anão Xamã examinou seu estoque assim como um jogador de cartas verificaria sua mão e, um momento depois, assentiu profundamente.
— Pode ser que eu consiga fazer com que os espíritos de vento desviem as flechas por nós. Infelizmente, eu e eles não nos damos muito bem. — É verdade que todos os quatro grandes elementos: terra, água, fogo e vento, eram usados para forjar o aço. Mesmo assim, o nível de sua relação com o vento era outra questão.
— Se isso é tudo que você precisa, eu talvez possa perguntar às sílfides — ofereceu o elfo com o capacete brilhante, ao que Anão Xamã deu um tapa na barriga e respondeu que ficaria muito grato.
Em contraste com o anão jovial, entretanto, o elfo murmurou:
— Isso não faz sentido.
Matador de Goblins olhou para ele.
— Se me permite dizer, não consigo acreditar… — disse o elfo.
— Acreditar em quê? — perguntou Matador de Goblins.
O futuro noivo talvez tivesse finalmente aceitado o humilde banquete, pois estava enchendo uma taça de chifre com uma prodigiosa quantidade de vinho.
— Esta é uma aldeia de elfos. Será que os diabinhos realmente construiriam um ninho tão perto de nós? — perguntou-se ele, mesmo após ter visto os cavaleiros, ter testemunhado como enviaram o deus fera Mokele-Mbembe em um ataque.
— Simplesmente não consigo pensar que fariam coisas tão mal concebidas — disse ele.
— Sim — respondeu Matador de Goblins. — Pensei a mesma coisa.
— Hrm…
— Goblins são estúpidos, mas não tolos. Eles são espertos. Mas…
Aqui. Anão Xamã serviu-lhe um pouco de vinho. Matador de Goblins aceitou e então tomou um único gole.
— Acha que os goblins são espertos o suficiente para serem intimidados pelos elfos?
Tudo se resumia a isso.
Eles não pensavam no futuro, apenas tentavam tirar o máximo de proveito do que estava logo à frente.
Se fossem atacados por elfos ou aventureiros, poderiam lutar ou fugir. Do contrário, isso indicava que havia apenas uma verdade para eles: Os estúpidos elfos estão vivendo uma vida fácil, então vamos atacá-los, roubá-los, estuprá-los e matá-los.
Isso era tudo.
Por quê? Porque os elfos sempre tornavam a vida deles muito mais desagradável.
Claro que matariam os elfos.
Claro que os estuprariam.
Usariam tudo o que tinham para ir contra aqueles que os desprezavam e consideravam fracos.
— Antes que perceba, haverá um ninho perto da aldeia. Primeiro, irão roubar o gado e as colheitas, as ferramentas. Então pessoas. E, por fim, sua aldeia.
— Nunca se elogia os goblins, nunca mesmo… — O Lagarto Sacerdote deu uma mordida apreciativa em uma rodela de queijo que trouxera em sua bagagem, mexendo suas grandes mandíbulas para cima e para baixo antes de engolir com um ruidoso gole de vinho. — Mas a mente não cansa de se surpreender com a motivação e a ganância deles.
— Você honra a ganância deles? — perguntou o elfo com o capacete brilhante, ao que Lagarto Sacerdote balançou a cabeça de maneira pronunciada e disse:
— Claro que não.
Ele arrastou o rabo pelo chão da varanda e abriu as mãos como se estivesse dando um sermão.
— O que é essa coisa que chamamos de ganância?
— Bem, você sabe, Escamoso. É… quando você quer comer algo delicioso, ou fazer amor com uma mulher, ou quando está atrás de algum dinheiro.
— Mm. O apetite é uma forma de ganância, assim como nossos amigos, nossos amores, nossos sonhos. Se uma coisa é boa ou ruim, é uma preocupação secundária ou até terciária.
Não havia garantia de que os fortes devorariam os fracos, de que os grandes um dia cairiam ou de que os mais aptos sobreviveriam. Lagarto Sacerdote abriu as mandíbulas com um sorriso réptil.
— Estar vivo é desejar e ter esperança, querer coisas; o modo de vida é até o menor inseto em uma folha de grama se virando para viver.
— … — O elfo com o capacete brilhante fez uma pausa e grunhiu em apreciação. — Entretanto, não tenho certeza sobre isso se aplicar aos elfos.
— Deuses. Vocês todos são incrivelmente lentos para agir. O quê, estão muito gordos para se mover? Mais gordos do que um anão? Hmm?
— Mortais são simplesmente apressados.
— É por isso que vocês levam tantos séculos para escolher uma esposa, eh?
— Hrm… Cuidado com a boca — disse o elfo, irritado. Lagarto Sacerdote mostrou a língua alegremente e serviu mais vinho.
— Aqui, aqui, tome um pouco.
— Tudo bem…
O elfo esvaziou o chifre. Suas bochechas já estavam começando a brilhar.
— Se não se importam que eu diga, todos vocês souberam por minha cunhada, suponho.
— Sim. — Matador de Goblins balançou a cabeça. — Nós a conhecemos há um ano… Já há um ano e meio.
— Vou me casar com a irmã mais velha dela. — Ele estendeu a mão, quase irritado, e pegou uma das batatas fritas; enfiou na boca e franziu a testa. — Muito salgado…
— Também adoro um pouco de sal — disse Lagarto Sacerdote, alegremente jogando punhados de salgadinhos mandíbula adentro.
O elfo com o capacete brilhante, abandonando sua augusta dignidade de pouco antes, colocou os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos.
— A irmã mais nova é quem é, e, bem, a mais velha também. Minhas preocupações não têm fim, mas não tenho a sensação de que sou muito querido.
— Hoo, hoo hoo — riu Lagarto Sacerdote. — Milorde Matador de Goblins sabe algo sobre ser o irmão mais novo. Será que ele teria alguma ideia?
— Ho — disse o elfo, um senso de proximidade obviamente aguçado. — Ele tem uma irmã mais velha?
— Bem, foi o que uma vez ouvi.
— Imagino… — murmurou Matador de Goblins, então tomou um gole de vinho. — Nunca fui nada além de um problema para minha irmã mais velha.
— Um pirralho sempre causa problemas, é assim que as coisas são — disse Anão Xamã enquanto colocava uma quantia generosa de vinho em seu copo vazio. Seu rosto barbudo revelava um sorriso suave. — Isso não é motivo para se envergonhar.
— Não. — Matador de Goblins esvaziou outro copo, suavemente balançando a cabeça. — Se eu não estivesse lá, ela provavelmente teria deixado a cidade.
E isso teria sido melhor para todos. Ele gemeu. Então esvaziou outro copo.
Anão Xamã serviu-lhe mais vinho, e Matador de Goblins tomou.
— Fui eu quem prendeu minha irmã à aldeia.
— Não fale essas tolices — bufou o elfo com o capacete brilhante. — Perguntamos o valor de uma flor que murcha em um ano? Qual é o significado da semente que cai na areia? Pode comparar a vida de um rato com a de um dragão?
— O que está falando? — disse Anão Xamã, ainda alegremente tomando seu vinho.
— É um aforismo élfico — respondeu o elfo, como se contasse um segredo. — Onde quer que se esteja e seja o que for, não importa como a pessoa viva ou morra, é tudo igual. Isso é algo precioso. — Ele ergueu o dedo indicador, fazendo círculos no ar. Foi um gesto elegante e bonito. — Todas as coisas são uma na vida. Algo tão simples como a localização mudaria o quão feliz alguém era?
— Entendo — disse Matador de Goblins, balançando a cabeça. — Entendo…
— Acho que sim — disse o elfo com o capacete brilhante, em seguida, respirou fundo. O ar noturno encheu seus pulmões.
Amor é destino
destino é morte
Mesmo um cavaleiro que serve a uma donzela
um dia cairá nas garras da morte
Até mesmo o príncipe amigável a um Drake Celestial
deve deixar a mulher de suas fantasias para trás
O mercenário que amava uma clériga
cairá na batalha perseguindo seu sonho
E o rei que amava a donzela do santuário
controla tudo, exceto a hora de sua separação
O fim da vida
não é o último capítulo de uma saga heroica
Então, a aventura chamada vida
continuará até o fim
Amizade e amor
vida e morte
Dessas coisas
não podemos escapar
Portanto, o que temos
a temer
Amor é destino
e nosso destino é a morte
Ho. Anão Xamã bateu palmas. Lagarto Sacerdote revirou os olhos para indicar seu profundo compromisso. O elfo, tendo terminado sua canção, deve ter ficado envergonhado, pois esvaziou seu chifre de bebida.
— É por isso que vou me casar.
— Mas o problema que dei à minha irmã mais velha… — disse Matador de Goblins sem qualquer paixão —, é parte do motivo pelo qual ela nunca se casou.
— Mais uma razão para pagar sua dívida para com ela.
— Sim — disse Matador de Goblins, dando um tapinha no ombro de Lagarto Sacerdote. Ele tinha muito em que pensar e ainda mais a fazer. — É essa a minha intenção.