Capítulo 06 – Para a Batalha Pessoal de Cada
Um dos primeiros a notar foi um dos trabalhadores.
— Hrmph, e justo quando pensei que o dia estava acabado.
Com uma pá no ombro e um olhar para o distante sol poente, ele soltou um suspiro.
Era um homem preguiçoso e inútil; não desejava ficar a serviço de alguma casa mercantil, e tampouco tinha dinheiro para viver uma vida de luxo. Assim, viu-se trabalhando com a pá na mão e apenas o suor da testa como companhia, mas mesmo assim não estava contente.
Droga, mas eu gosto daquelas aventureiras.
Elas podiam até não usar as roupas mais bonitas, mas se moviam com bastante liberdade. E ainda tinham aquelas garotas dos robes frouxos, as feiticeiras e as clérigas. Eram completamente diferentes das prostitutas que andavam por aí cheias de maquiagem e perfume.
Claro, as cortesãs de alta classe eram outro papo, mas também estavam fora do alcance de homens como ele.
E então havia os outros aventureiros, aqueles que dividiam a comida e as camas com aquelas mulheres.
Como suas vidas deviam ser fáceis. Vivendo como queriam, morrendo como queriam. Isso era o suficiente para deixar um homem com inveja.
— Essa coisa que eles têm é boa. Um pouco de bate e esmaga, uma eliminação de monstros e um saque de baús de tesouro, daí bam, ficam ricos.
É verdade que até mesmo esse homem sabia que as coisas não eram tão simples assim, mas todos querem pensar que são de alguma forma especiais, que terão um sucesso único. E todos querem ver as coisas da maneira que mais os beneficia.
Esse homem, que ficava ali se divertindo com a ideia de ser um aventureiro, não era diferente.
Ele não precisava ser um enorme sucesso. Não se importava se nunca se tornasse um guerreiro renomado. Tudo que precisava era de um pouco de equipamento decente, a chance de salvar uma ou duas aldeias e talvez receber os agradecimentos das garotas locais…
Ah, ou talvez pudesse comprar alguma garota nobre que se tornou escrava e tomar conta dela. Isso podia ser bom. Ele poderia encontrar uma bela feiticeira para entrar em seu grupo e, aos poucos, conseguir mais e mais companheiras. Todas lindas mulheres, é claro.
Encontraria cavernas secretas das quais ninguém sabia (não que ele soubesse delas, é claro), e seria ali que faria fortuna. E, por fim, estabeleceria residência com sua mulher favorita, abandonando suas dificuldades e a convidando para uma nova aventura.
— Heh hehe…!
O homem não se importou muito com o fato de sua visão de “sucesso modesto” não ter noção de realismo. Só estava curtindo a sua fantasia indulgente.
Ninguém apontaria e riria disso. Como forma de passar o tempo, isso não machucava ninguém.
Trabalhe, tome algum vinho, beba, divirta-se com mulheres e amigos, reclame da injustiça de tudo e, ocasionalmente, sonhe um pouco. Viva. Isso bastava.
— Hmm…?
E, novamente, ele foi o primeiro a notar.
O homem olhou para um canto do campo de treinamento, que estava agora quase totalmente cercado e a ponto de ser concluído.
Viu uma pilha de terra da qual não se lembrava.
A terra era, por si só, um recurso, então sempre que a desenterravam, tinham que depositá-la em um local designado.
— Droga, quem está relaxando no trabalho?
Não era como se ele não entendesse o quão irritante essa exigência era. Ele mesmo era conhecido por, ocasionalmente, colocar a terra em um local mais conveniente do que o especificado.
Mas, como havia notado o problema, a responsabilidade por consertar tudo era sua, e isso era irritante.
O homem cogitou a possibilidade de só fingir que não tinha visto a pilha, mas, infelizmente, ele estava com uma pá na mão.
— Então vou dar um jeito nisso — murmurou ele. Qual era o problema? Era só um pouquinho. Em vez de ficar com a consciência pesada, por que não cuidar de tudo e ter uma boa noite de sono?
Quando o homem se aproximou da pilha de sujeira, pensou ter visto uma figura humanoide do outro lado. Era mais ou menos do tamanho de uma criança – e a luz fraca do sol não era suficiente para obscurecer os trejeitos cruéis de seu rosto enquanto gaguejava e grunhia.
Um goblin?!
O fato de não ter simplesmente começado a gritar no mesmo momento foi louvável. As ações que tomou a seguir também foram irrepreensíveis.
Ele agarrou a pá com as duas mãos, rastejou em direção à criatura o mais silenciosamente que pôde e ergueu a pá.
— GROB?!
A ponta da pá, polida pelo contato com a terra até ficar afiada como um machado, quebrou o crânio do goblin. Sangue escuro e miolos espirraram quando a criatura desabou e o homem pisou alegremente no cadáver.
— Ha ha! Toma essa, seu…!
Quando finalmente puxou a pá para trás e viu o fio de sangue ligado a ela, o homem franziu a testa. O pensamento racional o lembrou de que essa era uma ferramenta que precisaria no dia seguinte. Era melhor lavá-la.
Junto com a onda de repulsa, porém, surgiu uma profunda gratidão à sua ferramenta: quando exigido pelo momento, a pá serviu brilhantemente para esmagar a cabeça daquele goblin.
— De onde diabos saiu aquilo, afinal…? Cavou este buraco ou coisa assim?
Sacudindo o sangue de sua pá, o homem sorriu para o túnel. Era uma passagem tosca, mas sólida. O goblin devia ter cavado.
O homem não conseguia ver o fundo do buraco. Não só por estar escuro por lá – o sol estava se pondo enquanto ele ficava parado no lugar.
— …
Então estremeceu. Um medo sem igual correu pela sua espinha.
— Sem chances. Esquece. Não preciso ir lá. Isso é trabalho de aventureiro.
Deixe que eles cuidem disso. O trabalho não era dele. Ainda assim, teria que relatar. Mas, naquele momento…
— Ai…!
Sentiu uma dor aguda correndo pelo seu pé direito e, de repente, sua visão mudou enquanto caía no chão.
Que diabos? O homem se forçou a se curvar para poder ver seu pé, onde descobriu sangue escorrendo de seu tornozelo.
— GROB! GROORB!!
Então viu um goblin segurando uma adaga pingando um tipo de líquido não identificável.
Não… Não só um goblin. Dez, vinte deles, rindo baixinho enquanto emergiam das sombras da noite.
— …
O trabalhador abriu a boca, parecendo querer gritar por socorro, mas sua língua devia estar presa; não conseguiu emitir som algum.
Uma dor entorpecente surgiu de seu pé apunhalado. Sua garganta estava seca. Havia algum tipo de líquido em sua boca; sentiu o gosto de sangue. Não conseguia respirar. Sua visão começou a escurecer.
Por que não percebeu que havia mais de um goblin ali?
Se não tinha os visto, então é claro que não tinha visto a adaga envenenada que um dos monstros segurava.
O homem morreu pouco depois.
Mas é claro que não foi o primeiro a morrer naquela noite, tampouco seria o último.
— O tópico da lição desta noite é “Oito Maneiras de Matar Goblins Silenciosamente”. Agora…
Quando Matador de Goblins chegou a esse ponto em sua palestra para os aventureiros novatos, um grito soou.
Os aventureiros quase sempre precisavam lidar com a escuridão, não só quando voltavam para casa à noite.
Não havia garantia, por exemplo, de que uma aventura não aconteceria à noite. E mesmo durante o dia, as ruínas, labirintos e cavernas costumavam ficar sombrios.
Com certeza valia a pena treinar nas horas de escuridão, apenas com a luz das luas e das estrelas de iluminação.
Assim, pelo menos, pensavam os aventureiros ali reunidos – o garoto ruivo, a garota rhea, Guerreiro Novato e Clériga Aprendiz. Eles e cerca de dez outras pessoas reuniram-se no campo de treinamento, mesmo após um longo dia de aventuras.
— O-O que foi isso?!
— Foi um grito… Certo?
Os jovens aventureiros sussurravam entre si com urgência, seus rostos tensos.
— …
Matador de Goblins, porém, puxou a espada em seu quadril.
Ele agiu rapidamente.
Ignorando os demais tagarelas, varreu a área circundante com o olhar, buscando a origem do grito.
Acontece que não foi só um grito. Um momento depois, soou um segundo, e um terceiro.
— E-Ei! O que diabos está acontecendo aqui…?! — perguntou o garoto ruivo, perplexo, mas Matador de Goblins apenas respondeu:
— Sem pânico. Levantem-se e fiquem contra a parede. Formem um semicírculo ao redor do lançadores de feitiços. Fila da frente, deixe as armas preparadas.
— Certo — disse Guerreiro Novato, seu rosto formando uma máscara de ansiedade enquanto ele se movia para proteger Clériga Aprendiz. — Ei… — acrescentou ele —, isso não é algum tipo de… teste ou coisa assim, é?
— Mesmo se fosse — disse Matador de Goblins brevemente —, não teríamos nada a ganhar ao tratar isso de forma leviana.
— Aah… Eu odeio isso! Não sei nem se estou com medo ou não!
Então, com uma gargalhada seca, Rhea Lutadora pegou sua espada e escudo diminutos e assumiu uma posição de combate. Seu rosto estava rígido; mesmo na escuridão da noite, era óbvio o quão pálida estava. Medo, nervosismo – uma clara combinação dos dois. Suas orelhas pontudas, não tão longas quanto as de um elfo, tremiam um pouco.
— Tsk… — Este estalar de língua foi do garoto ruivo. Ele ergueu seu cajado e se virou para os outros novatos, que ainda não haviam compreendido totalmente a situação em questão. — Ei, não ouviram ele? Não fiquem parados! Organizem-se!
— C-Certo…!
— Tá, saquei…!
Talvez o fato de as palavras saírem da boca de um de seus colegas tenha ajudado. Mesmo aqueles que estavam congelados, incapazes de pensar ou compreender a situação, por fim começaram a se mover. Cada um deles pegou uma arma e ajudou a formar um semicírculo contra a parede, embora não fosse um dos mais bonitos.
— Você aí, levante esse escudo! Proteja as pessoas ao seu lado e atrás de você! — gritou Clériga Aprendiz, pondo em ação um grupo desacostumado a tais manobras.
Conforme ela pensava sobre isso, era surpreendente: embora ela e Guerreiro Novato só tivessem lutado contra ratos gigantes, eram aventureiros à sua própria maneira experientes. Rhea Lutadora e o garoto ruivo estavam na mesma. Eles tinham dado um passo para deixar de ser completos iniciantes. Depois disso viria a próxima etapa, e a próxima…
— …
Matador de Goblins os observou, mas gemeu tão baixinho que ninguém conseguiu ouvir. Deveria deixar os novatos e verificar a situação ou ficar e protegê-los?
De certa forma, estava incerto… E, em parte, descobriu que não queria deixá-los sozinhos.
Um pensamento tolo.
Algo místico até para ele. Negligenciar a coleta de informações nessas circunstâncias era o mesmo que apenas esperar pela completa aniquilação. Depois de certo ponto, até mesmo pensar de nada serviria. Algumas coisas não deveriam ser pensadas.
Tendo chegado a essa conclusão, Matador de Goblins disse:
— Esperem aqui. — Ele olhou para os jovens aventureiros e completou: — Se eu não voltar em quinze minutos, vocês terão que agir por conta própria.
— Por conta própria…?
— Porque isso significará que estou morto, ou pelo menos gravemente ferido. — Sua voz era desapaixonada. Ele se forçou a ignorar o burburinho que isso provocou entre os alunos. — Voltar para a cidade deve ser a melhor decisão, mas se parecer impossível, fiquem por aqui até de manhã.
Então corram. O mais rápido possível, sem olhar para trás.
Vários outros gritos soaram. Gritos de guerra, gritos de raiva. O som de armas colidindo e espadas batendo.
O barulho, de repente, parecia sair de todos os lugares ao mesmo tempo, chegando de todas as direções. Ele descobriu que, naquela noite de primavera, ainda fresca com o hálito de fadas de gelo, não sabia o que estava acontecendo.
A sombra da construção quase pronta era assustadoramente grande. Matador de Goblins soltou um suspiro.
Não…
— Um…
Correndo o mais rápido que podia, indiferentemente ergueu a mão direita e arremessou a espada.
Ela voou para as sombras dos materiais empilhados no prédio, evocando um estertor estrangulado de morte. Matador de Goblins o seguiu rapidamente para a escuridão, onde apoiou o pé contra o goblin que sua lâmina atravessou e puxou sua arma de volta.
Uma pá ensanguentada caiu das mãos do goblin morto, fazendo barulho ao bater no chão.
— Goblins. Eu sabia.
Quão cheias de significado foram aquelas breves palavras.
Goblins escondidos na noite, mais dois deles. Embora não pudesse ver com clareza, seus olhos ardentes estavam óbvios.
Em seguida, sentiu uma sensação espessa e pegajosa na planta do pé e o odor crescente de ferro.
Era um aventureiro novato, desmaiado no chão. Não sabia dizer qual era sua classe, idade ou raça.
O aventureiro não tinha rosto.
Algo afiado rasgou impiedosamente a cabeça dele, desde a coroa até o rosto, mas o pouco inchaço no peito e a construção dos membros ainda se contraindo sugeriam que era uma mulher.
— GOROROB!!
— GROOOORORB!!
Os goblins pularam nele, gritando. Sem qualquer palavra, Matador de Goblins os golpeou com sua espada.
Houve um som de metal contra metal. Os goblins carregavam picaretas. Ferramentas roubadas, sem dúvidas.
Sem hesitar, Matador de Goblins avançou e empurrou a picareta com uma das mãos. Mas…
— GROB!!
Havia outro. Ele também portava uma picareta e estava rapidamente a balançando.
— Hrg…
A ponta de aço do machado cortou seu escudo erguido. Essas armas sempre foram fortes contra armaduras.
Mas isso era perfeito.
Matador de Goblins dobrou seu braço esquerdo com força, puxando a picareta das mãos do goblin. Ao mesmo tempo, ele ergueu a perna em direção ao goblin à sua direita, dando o chute mais forte que pôde entre as pernas da criatura.
— GROOOROROROBB?!?!
— Dois.
Havia uma sensação nojenta de algo sendo esmagado sob seu pé, mas ele não se importou com isso ou com o grito abafado.
Pisou na cabeça do goblin que se contorcia, sua espada ao mesmo tempo zumbindo. Bem à sua esquerda, o goblin agora sem picareta tentava correr; Matador de Goblins atirou a lâmina nas costas dele.
— GOROORB?!
— E com esse…
A criatura podia não morrer instantaneamente, mas com sua coluna rompida, não seria capaz de se mover.
Matador de Goblins colocou o salto de sua bota contra a parte de trás do crânio do goblin que esperneava e o empurrou para baixo, sem qualquer piedade.
A sensação era como pisar em uma fruta madura. Ele limpou o sangue e os miolos e seguiu em frente.
Puxou a lâmina do monstro ainda se contorcendo, cortando enquanto o fazia, enviando-o para seu descanso final.
— Três…
Ele puxou a picareta que ainda estava enterrada em seu escudo com força.
Havia terra fresca nela. Os goblins deviam ter cavado um túnel em algum lugar para atacar os campos de treinamento.
Estavam tão ansiosos assim para atacar este lugar? Para matar as pessoas presentes?
Goblins.
Goblins.
Goblins.
Ele não gostou disso.
Não gostou nem um pouco disso.
Céu e terra giraram.
Havia quatro cadáveres. Três goblins, um aventureiro.
Exatamente como naquela noite há dez anos.
Mas não podia mais fugir. Já não sabia disso?
Ele era Matador de Goblins.
— Tem alguém aí…?!
Foi então que alguém gritou uma pergunta de dentro das sombras – uma aventureira.
Bem, fazia sentido: o que mais uma aventureira faria quando se deparasse com alguém parado com uma arma no escuro, enquanto o cheiro de sangue se espalhava por toda parte?
A aventureira, carregando um enorme cajado, demorou algum tempo para entender exatamente o que estava vendo, mas quando viu…
— Matador de Goblins, senhor!
— Você está bem?
— Sim! — Sacerdotisa agarrou seu cajado firmemente com ambas as mãos e acenou feliz com a cabeça. — Hoje eu estava mais uma vez no dever de cura. Gastei meus milagres, então estava descansando no meu quarto, mas…
O olhar dela correu pelos goblins caídos… e então pelo cadáver do aventureiro. Suas lindas sobrancelhas ficaram franzidas em seu cenho.
Sacerdotisa ajoelhou-se, sem se importar com o sangue que manchava suas vestes brancas, e estendeu a mão para o corpo, que continuou contorcendo por reflexo.
— Foram os goblins?
— Sim. — Matador de Goblins não olhou para ela, apenas limpou o sangue da espada. — Você tem algum milagre sobrando?
— Graças a esse descanso, posso pedir três, como de costume.
— Nossos outros… — Matador de Goblins quase tropeçou nas palavras — amigos estão vindo…?
— Provavelmente…
— Bom.
Matador de Goblins finalmente se voltou para Sacerdotisa. Ela olhou para ele, seus olhos azuis visíveis ao luar pálido. Ocorreu ao aventureiro como os olhos dela eram claros, assim como contas de vidro.
— Pode se juntar a mim?
— Sim, posso…. — Sacerdotisa mordeu o lábio, sua voz trêmula. Ela não esfregou os olhos, já que não estava chorando. — Vamos lá…!
— Sim. — Matador de Goblins balançou a cabeça. — Vamos matar todos os goblins.
Pouco depois, chegaram ao prédio que serviria como centro administrativo do campo de treinamento quando fosse concluído.
Embora fosse o edifício central, ainda não estava pronto e parecia meio abandonado. Existiam muitas lacunas nas paredes e telhado, e as formas de muitos aventureiros que haviam se reunido com equipamentos em mãos podiam ser vistas.
Por sorte, parecia que mais do que alguns aventureiros fizeram o percurso para chegar ao local.
— Ei, olha! Se não é o Matador de Goblins! Tudo bem?
A primeira pessoa a cumprimentá-los foi o aventureiro que estava de guarda na porta – Lanceiro. Considerando que ele parecia sempre pronto para entrar em ação, foi realmente surpreendente vê-lo parado ali.
— Sim — disse Matador de Goblins com um aceno de cabeça. Ele analisou corretamente a intenção da pergunta. — Os que eu estava cuidando estão todos seguros.
— Ah, é? Mesmo assim, a maioria das crianças já voltou para casa, já estava tarde e tal.
— Antes de… ficar escuro… sim?
Havia outra pessoa ali. Uma bruxa sensual apareceu ao lado de Lanceiro, esgueirando-se como uma sombra; uma esfera de luz pálida flutuava ao seu redor. Um fogo-fátuo1? Não, não era um espírito. Talvez o feitiço Luz.
Ninguém queria correr o risco de usar fogo, mesmo o mágico, nesta área. O vento nesta noite de primavera estava forte. Se o fogo alcançasse qualquer coisa, seria uma catástrofe.
— Vocês estão ambos em segurança… — Sacerdotisa, talvez aliviada por ver alguns rostos familiares, soltou um suspiro suave.
Seus joelhos finalmente pararam de tremer, segurando seu bastão com as duas mãos e conseguindo parecer devidamente resoluta.
— Nós também estamos aqui! — A voz clara foi como um tapinha encorajador nas costas, e fez que um sorriso florescesse no rosto de Sacerdotisa.
— Vocês estão todos aqui!
— Ahh, e você também. Embora este seja um lugar para treinar para as batalhas, eu não esperava que se tornasse o terreno para uma das verdadeiras.
— Esses pequenos bastardos me fizeram perder o jantar!
Lagarto Sacerdote apareceu, parecendo o mesmo de sempre, junto com Anão Xamã, que esfregava a barriga.
Sacerdotisa, antes que percebesse, começou a correr em direção deles, até que Alta Elfa Arqueira a segurou.
— Você está mesmo bem? Não se machucou? Aqueles goblins não fizeram nada com você, fizeram?
— Está tudo bem, estou bem. Ainda bem que vocês estão todos seguros…
Ainda bem que não foi como daquela vez.
Cercada por seus amigos, Sacerdotisa percebeu que seus olhos estavam marejados. Ninguém falou nada sobre isso. Quem suportaria perder seus amigos duas, ou até três vezes?
— …
Matador de Goblins observou seus camaradas por vários segundos, então lentamente girou seu capacete de aço.
O ponto chave era estar sempre pensando – pensando no que deveria e poderia fazer.
Esta construção continuava inacabada e frágil. Não seriam capazes de se barricar nela por muito tempo.
Sendo esse o caso, precisavam de poder de fogo. Não eram um bando de novatos escolhidos ao acaso. Nesse momento…
— Ei. Chegou inteiro, hein, Matador de Goblins? — Seus olhos se encontraram com os de um guerreiro bem construído.
Guerreiro de Armadura Pesada parecia já ter passado por uma batalha; o ligeiro fedor de sangue pairava sobre ele.
Provavelmente, claro, era dos goblins que matou. O que mais poderia ser?
Matador de Goblins olhou pela construção para descobrir se reconhecia mais alguém.
— Está sozinho hoje?
— Ela pode ser uma cavaleira, mas ainda é mulher. Existem momentos em que fica indisposta. Os pirralhos estão a fazendo companhia na pousada. — A expressão de Guerreiro de Armadura Pesada revelava indescritíveis profundidades. Ele encolheu os ombros, fazendo sua armadura chacoalhar. — Um líder de grupo tem que pensar na saúde da sua turma.
Foi um golpe de sorte, na verdade. A sensação de indisposição manteve seu grupo em casa e, portanto, longe desse problema.
— Mas, ouça — disse ele, sorrindo como um tubarão faminto. — Quando os três mais diversos da fronteira estão no mesmo lugar, as coisas tendem a ser interessantes.
É claro que não havia espaço para erros nessa situação. Os estertores da morte de aventureiros que não conseguiram chegar à base improvisada podiam ser ouvidos por toda parte. Cada vez que o uivo de um goblin ecoava pela noite, os novatos no prédio se entreolhavam e estremeciam.
Os aventureiros costumavam ser os atacantes, não os atacados. Sim, ocasionalmente sofriam emboscadas e às vezes pegavam missões de escolta. Mas, de alguma forma, no fundo de seus corações, continuavam acreditando que nunca seriam caçados.
Poderia ser dito que Sacerdotisa não tinha sorte, já que essa suposição foi refutada de forma tão violenta, mas, parando para pensar, era seu próprio tipo de boa sorte.
De qualquer forma, se não saíssem de lá – ou melhor, matassem os goblins – não viveriam para ver o sol novamente.
Todos os presentes entendiam isso. Lanceiro estava olhando para o lado de fora com um olhar azedo.
— Vamos simplesmente deixar que nos cerquem? Que chato. Não quero só ficar aqui até morrer.
— Qualquer… que seja… o caso, isso pode ser… melhor… se todos, primeiro… se unirem.
— Sim — concordou Matador de Goblins. — Minhas cargas estão estacionadas na praça.
— Então preciso de um mensageiro — disse rapidamente o Guerreiro de Armadura Pesada. — Situação avaliada… goblins. Venha conosco. Esse tipo de coisa. Temos que deixar todos os sobreviventes saberem o que está acontecendo e trazê-los o mais rápido possível.
— Eu vou! — Alta Elfa Arqueira deu um salto na mesma hora, levantando a mão. — Sou a corredora mais rápida!
— Perfeito, vá em frente.
— Pode contar comigo!
Ela então foi embora como o vento da noite.
Guerreiro de Armadura Pesada observou sua partida, então olhou ao redor. Matador de Goblins e seu grupo somavam cinco. Depois, havia Lanceiro e Bruxa. E ele mesmo.
Dependendo de quantos novatos pudessem ser úteis em batalha, tinham cerca de dez pessoas aptas a lutar. Ele não contou aqueles que estavam se encolhendo em posições fetais. Guerreiro de Armadura Pesada decidiu: não os envolveria.
— Então, Matador de Goblins — falou. — Estamos lidando com goblins. O que você acha que está os liderando?
— Provavelmente outro goblin — disse Matador de Goblins sem qualquer hesitação. — Um superior, suponho, mas duvido que seja outro lorde. Talvez um xamã inteligente…
— Alguma prova?
— Se não fosse um goblin que estivesse os liderando, seriam tratados como soldados de infantaria, e não como a força principal.
Isso era verdade. Ninguém, fora um goblin, pensaria em usar outros goblins para cavar um túnel e atacar os campos de treinamento.
Guerreiro de Armadura Pesada balançou a cabeça.
— Temos de lidar com os peixes menores, mas também temos que nos certificar de lidar com o peixe maior — concluiu ele. — E onde estaria o peixe maior…?
— Na minha opinião, devem ter feito mais de um buraco — disse Lagarto Sacerdote, sua mandíbula cerrada. Ele bateu com o rabo no chão e ergueu um dedo escamado. — Provavelmente haverá um em cada direção. A solução mais rápida seria seguir algum deles em direção à fonte.
— Quanto a isso — disse Lanceiro, observando o lado de fora atentamente enquanto falava. — Como sabemos qual deles voltará?
— Tenho a mesma pergunta. Indo direto ao ponto, estão todos provavelmente conectados por dentro.
Em assuntos subterrâneos, ninguém poderia se igualar a um anão.
Anão Xamã tomou um gole da jarra de vinho em seu quadril e soltou um arroto com cheiro de álcool.
— Devem ter cavado só um túnel e dividido ele pouco antes do ataque. Afinal, assim seria mais fácil.
— Parece bom. Descemos pelo buraco mais próximo. Tudo bem com isso, Matador de Goblins?
— Não tenho objeções.
— Então, o problema, são, essas crianças. — Bruxa gesticulou significativamente em direção aos novatos. — Há, mais, não há? O que, fazemos… com os pequenos?
— Deixe-os, traga-os ou faça que fujam — ponderou Guerreiro de Armadura Pesada.
Lanceiro, entretanto, deu-lhe um sorriso e um cutucão no ombro.
— Penso que uma espada larga não vai ser muito útil em um túnel…
— Ah, vai se ferrar! — A lembrança do anterior fracasso de Guerreiro de Armadura Pesada acertou uma ferida. — Que inferno. Sempre gostei mais de ficar na superfície do que embaixo dela. Eu cuido das crianças. Vocês lidam com a sujeira.
— Certo — disse Lanceiro.
— Sem problemas — acrescentou Matador de Goblins.
Os veteranos calcularam isso tudo em um piscar de olhos. Embora não fosse mais exatamente uma iniciante, Sacerdotisa descobriu que não conseguia sugerir nem algo aleatório. Ao contrário de Alta Elfa Arqueira, que poderia ter optado por se conter, Sacerdotisa não poderia falar, mesmo se quisesse. (De qualquer forma, a elfa parecia ver as interjeições despreocupadas como seu papel.)
Era uma variedade de opiniões e perspectivas que levavam a uma conclusão sólida. Objeções e diálogo não eram a mesma coisa que negar o que outra pessoa estava dizendo. Mas nesse exato momento, perspectiva – algo enraizado na genuína experiência – era o que faltava à Sacerdotisa.
Mas…
O que era isso? Essa ansiedade inarticulada?
Embora não pudesse expressar em palavras, podia ser algum tipo de dica dos deuses.
Ela pensou no alarme que soou dentro dela quando seu grupo entrou na caverna naquela primeira aventura. O pânico crescente aumentando em seu pouco peito – a sensação de que tinha que fazer algo.
As coisas acabariam mal se apenas deixasse que continuassem. Ela tinha que fazer alguma coisa.
Mas o quê?
— Ah.
O som escapou de sua boca no momento em que pensou na possibilidade.
O olhar coletivo dos demais aventureiros a perfurou, fazendo-a corar um pouco.
— O que houve? — Matador de Goblins foi o primeiro a falar. — Goblins?
— Uh… hm…! — A voz dela estava estridente. O foco em sua direção ficou ainda mais intenso. O suficiente para fazê-la querer fugir. — Os outros aventureiros novatos, já voltaram para casa, certo?
— Sim — disse Lanceiro. — Todos, exceto aqueles que queriam praticar lutas noturnas. Foram no momento em que o sol se pôs.
— Onde você… acha que estão agora?
— Onde você quer chegar? — disse Guerreiro de Armadura Pesada, olhando para ela. Ele com certeza não estava intencionalmente tentando assustá-la, mas as circunstâncias eram as que eram. A seriedade dele próprio, sua intenção de não ignorar qualquer ideia ou informação, eram intimidantes.
— Bem, hm…
Sacerdotisa recuou.
Havia mesmo algum valor em dar a sua opinião?
E se acabasse por ser uma simples ideia ao vento?
Que negócios havia ela pensado que poderia…?
— Apenas diga. — A voz de Matador de Goblins soou suave, desapaixonada. Evidentemente a mesma de sempre. Sacerdotisa engoliu em seco; agarrou seu cajado com ainda mais força, buscando esconder o tremor de suas mãos.
Ela respirou fundo e expirou.
— Os goblins… Acho que também devem estar atrás dos novatos a caminho de casa…
— O quê?! — exclamou Guerreiro de Armadura Pesada, apesar dos pesares. Sua armadura estalou, fazendo Sacerdotisa estremecer por um segundo. Mas ela não parou de falar. Não podia.
— Não é estranho? Sei que os goblins são criaturas covardes e intrigantes.
Já que alguém me ensinou bastante.
Ensinou a pensar como um goblin. Como viviam. Seus medos.
— Se eu fosse um goblin, o último lugar que gostaria de atacar seria um prédio cheio de aventureiros fortes.
E também, como poderiam usar um grande exército como distração…
Isso era algo que ele mencionou quando lutaram contra o lorde goblin – há quanto tempo tinha sido?
Ela ainda estava aprendendo. Ela ainda tinha experiência a ganhar. Mas já tinha alguma experiência.
Só não havia percebido.
— Acredito que ela está correta… — rosnou Matador de Goblins bem baixinho. — Não me atentei a isso.
— E eu… tenho uma ideia.
Depois que Sacerdotisa começou a falar, o resto ficou fácil.
Não que isso deixasse mais fácil expressar suas ideias de forma clara e sucinta, mas a fala surgiu prontamente, e ela não hesitou.
— E então… vou prosseguir.
Com todos ao redor completamente focados nela, Sacerdotisa delineou seu plano.
— Nossos amigos aventureiros incluem, hm, dois guerreiros, uma clériga, um feiticeiro…
Ela contou nos dedos. Guerreiro Novato, Lutadora Rhea. Clériga Aprendiz e Garoto Feiticeiro.
— Acho que só a minha participação, outra clériga, poderia mudar a maré. Então…
Vou ajudá-los. Eu quero ir.
Essas palavras sinceras fizeram com que os aventureiros Prata se olhassem.
— O tempo, é pouco… não é…? — Bruxa olhou para fora e soltou um único riso sedutor, mas falou de forma encorajadora.
— Não faço ideia do que essa garota é ou não capaz de fazer. Portanto, vou me abster — acrescentou Lanceiro rapidamente.
— Faz sentido… — disse Guerreiro de Armadura Pesada. Ele então fixou o olhar em Sacerdotisa, encarando seu corpo esguio de cima a baixo. — Sempre há a chance de que dividir e conquistar seja a ideia central. Acha que pode lidar com isso?
— Quanto a mim, tenho fé nela — disse Lagarto Sacerdote com um aceno pensativo e um rolar de olhos. Ele piscou para Sacerdotisa. — Devemos atacar o coração do inimigo, mas de forma alguma devemos abandonar nossos jovens aventureiros para isso. Acho que é uma boa estratégia.
— Perfeito para um teste de promoção, diria — gargalhou Anão Xamã, acariciando sua longa barba branca. — Concorda, Corta-Barba? Algum dia temos que deixar que saiam do ninho, eh?
Matador de Goblins, senhor…
Sacerdotisa olhou para o homem de armadura suja e decadente.
Agora que pensou nisso, ela percebeu que seria sua primeira vez indo em uma aventura sem ele, desde aquela primeira em que estivera.
Conseguiria fazer isso? Sozinha?
Sacerdotisa de forma alguma estaria sozinha, mas teria que confiar em sua própria força.
Poderia lutar contra os goblins?
Todos gentilmente disseram que acreditavam nela e que seria capaz de fazer isso. Mesmo Alta Elfa Arqueira, que não estava lá, com certeza teria concordado.
Isso a deixou muito feliz; o que mais poderia desejar além disso?
Ainda assim…
Se essa pessoa disser que não devo ou não posso…
Então teria que aceitar em silêncio. Seria o melhor para todos, ela tinha certeza.
Mas o que ele disse não era o que a garota temia.
— Consegue fazer isso?
— Eu…
Sua pergunta foi tão sucinta, tão simples. Assim como sempre.
Ainda assim…
Isso a fez querer, ainda mais, corresponder às expectativas implícitas.
Tinha que fazer isso.
Sacerdotisa engoliu as palavras faladas pela metade, mordeu o lábio e então respondeu quase em um grito:
— Eu consigo…!
Matador de Goblins olhou atentamente para ela. O que quer que estivesse em seus olhos estava escondido por trás de seu capacete; ela não conseguia distinguir a sua expressão, ainda assim…
— É mesmo? — Ele balançou a cabeça lentamente, em seguida, deu seu veredito. — Então está decidido.
— Hraah!!
— GROBR?!
Nos limites estreitos da caverna, a ponta da lança de mithril perfurou a garganta do goblin. A arma longa em forma de pólo nas mãos de Lanceiro chicoteou junto com os sons da magia, flores da morte desabrochando ao seu redor.
Um golpe, uma morte. Quatro estocadas, quatro mortes.
Os goblins ergueram frágeis tábuas de madeira no lugar de escudos, mas de pouco serviram.
Apenas um amador imaginaria que a lança não poderia ser usada em um espaço apertado como este; Lanceiro, na verdade, fazia parecer que era capaz de qualquer coisa.
Varre, golpeia, bloqueia e empala. Esfaqueia, apunhala, recua e volta a apunhalar.
A enxurrada de ataques desferidos era furiosa o suficiente para controlar o que estava acontecendo na frente de todos.
A lança polida atacava com a velocidade de um redemoinho, pintando as paredes ao redor com cérebro e sangue de goblins.
O suave declive do solo não serviu de nada para perturbar o equilíbrio desses lutadores experientes.
— Nem pense em ficar atrás de mim!
— Pra dentro! Vejo sei… não, três!
Enquanto Lanceiro fazia uma pose impressionante, mantendo os monstros afastados, Alta Elfa Arqueira deslizava ao lado dele e disparava uma saraivada de flechas. Três flechas voaram tão rápido quanto magia, encontrando os olhos de três criaturas separadas que espreitavam mais adentro no buraco.
— GORRB?!
— GROB! GROORB!!
Não havia seis, mas três restantes. Um cálculo simples. Se não tivesse confiança de que poderia acertar, então não deveria disparar.
— Um…!
Foi então que Matador de Goblins fez sua entrada.
No momento em que avançou, a espada já estava voando, acertando a garganta de um goblin.
— GRRRO?!
O monstro arranhou a garganta como se estivesse se afogando, mas Matador de Goblins o ignorou, pegando uma adaga do cadáver de um dos goblins com uma flecha no olho. Ele então a usou para cortar a garganta de outro monstro que não havia superado o choque de ver quatro de seus companheiros assassinados em um instante.
O sangue jorrou da criatura com um som de assobio; Matador de Goblins o afastou de lado com seu escudo e arremessou a adaga.
O arremesso podia ter sido um pouco forte; errou o alvo e se alojou no ombro de um goblin.
— GORB!!
— Com esse, três.
Matador de Goblins, imperturbável, pegou um machado de mão do goblin que estava se afogando em um mar de sangue. Ele então enterrou no crânio do goblin final, e o encontro aleatório acabou.
Um grupo de aventureiros experientes precisou de um único turno para matar dez goblins.
Lanceiro ergueu sua arma – não estava nem respirando com dificuldade – e olhou para Matador de Goblins, exasperado.
— Ei, você — disse ele. — Você tem que parar de atirar todas as suas armas. Isso é um desperdício!
— São consumíveis.
— Olhe ao redor. Você sabe que eles vendem aquelas facas de arremesso mágicas que voltam para você depois de as jogar, certo?
— Goblins também podem usá-las — disse Matador de Goblins. — E se fossem roubadas?
— Não temos tempo para isso! — exclamou Alta Elfa Arqueira. — Vão me ajudar a recolher as minhas flechas?
Lanceiro estava se ocupando com a irritação, e Matador de Goblins estava procurando por armas nos cadáveres.
Os três pareciam desocupados, mas não fizeram um único movimento desnecessário que fosse. Esquadrinharam a área incessantemente, verificaram suas armas e depois prepararam o que precisariam a seguir.
Matador de Goblins gemeu um pouco. Goblins não tratavam seus equipamentos da devida forma; tudo o que tinham estava em péssimo estado. Não havia qualquer boa arma.
— Pela graça — disse Lagarto Sacerdote com um aceno de cabeça sombrio ao ver a cena. — Que agradável sensação de segurança se obtém por ter dois lutadores de primeira linha consigo.
— Diz o lagarto que está sempre na frente.
— De… fato — murmurou Bruxa calmamente. — Um, guerreiro… para, cada um, de nós, não?
Deixaram os novatos no campo de treinamento, sob os cuidados de Guerreiro de Armadura Pesada, e dirigiram-se para o subsolo através de um dos buracos.
Ao contrário da divisão normal de cinco e dois, desta vez formavam um único grupo de seis pessoas. Isso também resultava em uma formação diferente da usual. Matador de Goblins e Lanceiro estavam na vanguarda, com Alta Elfa Arqueira atrás deles e os lançadores de feitiços mais atrás.
O que era mais importante? As flechas de Alta Elfa Arqueira ou os feitiços de Lagarto Sacerdote? A resposta era bastante óbvia.
— Peguei elas — disse Matador de Goblins, entregando as flechas.
Alta Elfa Arqueira olhou para todas e soltou um estalo com a língua.
— Ah, poxa… estão faltando as pontas! — Ela as jogou de volta em sua aljava de flechas ponta-broto com raiva. Mas já não havia nada a ser feito. — E você, Orcbolg? Encontrou alguma arma boa?
— Pedintes não podem escolher.
— Afinal, por que deixou a garota ir sem mim?
— Está chateada?
— Na verdade, não — disse Alta Elfa Arqueira, desviando o olhar. — Mas você não está preocupado com ela?
— Se minha preocupação a ajudasse a conseguir o que quer, então me preocuparia.
Shh…
Mas assim que Alta Elfa Arqueira soltou um suspiro, suas orelhas se ergueram, contorcendo-se.
— Estão vindo.
— Direção e número? — perguntou Matador de Goblins na mesma hora, puxando uma pequena bolsa de couro de sua bolsa de itens enquanto o fazia.
Era sua carteira: as moedas lá dentro tilintaram. Ela tinha um bordado de flor e parecia bastante antiga. Matador de Goblins apertou a boca da carteira com força; isso fez um barulho agudo.
— Sei lá. Os sons estão ecoando por toda parte…!
— Bem, então não temos tempo para discutir isso em grupo! — disse Lanceiro, sacudindo a arma para limpar a gordura. — Não importa o que aconteça, não podemos deixar que saiam.
— Não sobraram muitas opções. Quer que eu cuide disso?
Como aventureiros experientes, reagiram rapidamente à situação. Mesmo enquanto Anão Xamã falava, estava alcançando sua bolsa de catalisadores, preparando seu feitiço. Bruxa calmamente levantou seu cajado e começou a se concentrar para entoar sua magia. Lagarto Sacerdote juntou as mãos.
— Gracioso, matar goblins envolve o pior tanto do problemático quanto do inesperado, não é? — disse ele.
— Você está, bem certo — disse Bruxa com uma risada lânguida, e então seus lábios voluptuosos passaram a sussurrar palavras de verdadeiro poder. — Sagitta… sinus… offero. Dê uma curva para as flechas!
O feitiço de um feiticeiro eram palavras que reescreviam a lógica do mundo.
Enquanto um fluxo invisível protegia o grupo, Alta Elfa Arqueira e Lanceiro gritaram:
— Estão vindo! De ambos os lados!
— Para trás!
Chuva de pedras e terra chegaram de ambos os lados dos aventureiros.
Quase no mesmo instante, todos eles pularam para trás.
— GRORB!! GROOROOBB!!
— GROOBRR!
Era isso que a palavra horda realmente significava?
O aventureiro comum pode esperar não ver dez ou vinte goblins em toda a sua vida, mas mais goblins do que isso, muito mais, estavam agora caindo sobre eles. Os goblins uivavam como animais e era fácil adivinhar o que seus gritos significavam.
Matem eles. Roubem deles. Vinguem-se. Vingança para nossos irmãos. Morram, aventureiros, morram!
Eles matariam os homens de imediato. Das mulheres seria tomado até o último vestígio de dignidade, e então as colocariam em estacas.
Pegariam o cajado de uma mulher, amarrariam as pernas dela e a usariam para fazer jovens goblins até que estivesse esgotada demais para ser útil. A carne de elfo, sabiam, era macia e durava muito tempo. Poderiam cortar seus braços e pernas aos poucos e festejar com isso.
As mulheres chorariam; implorariam por perdão; mas os goblins as ignorariam.
Matem-os, assim como nos matariam!
— Beba profundamente, cante alto, deixe os espíritos guiá-lo! Cante alto, dê um passo rápido e, quando dormir, eles o verão; que uma jarra de vinho de fogo esteja em seus sonhos para cumprimentá-lo!
Sem dúvidas, vários dos diabinhos tiveram suas vidas encerradas sem nunca acordar daquele sonho. Apanhados pela bruma do vinho que Anão Xamã cuspiu, viram-se sob a influência do feitiço Estupor.
Tropeçando em sua vanguarda agora inconsciente, os goblins começaram a tombar como dominós. Vários foram pisoteados até a morte enquanto outros goblins tentavam forçar a passagem.
Soaram gritos e gemidos agonizantes. Foi um pandemônio.
— Tolos. — Sem hesitar, Matador de Goblins girou sua carteira, atacando o monstro mais próximo. A velocidade e força centrífuga das moedas na pequena bolsa de couro eram mais do que o bastante para partir o crânio de um goblin.
E, assim, o dinheiro que todos os aldeões economizaram tão diligentemente, só para pagar um aventureiro para acabar com seus problemas com goblins, foi usado para matar um goblin. O melhor da justiça poética.
— GRB?!
— GRORB?!
Um monstro teve seu globo ocular estourado feito uma bolha, sendo perfurado até o cérebro, que foi então esmagado por um golpe na têmpora.
Parar um ou dois goblins era bastante fácil.
Matador de Goblins chutou o primeiro para o lado, agarrando a espada no quadril da criatura ainda no mesmo movimento.
— Hrgh…!
Outro goblin se aproveitou desse momento de desatenção para pular nele com uma adaga envenenada. Matador de Goblins conteve a criatura com seu escudo, fazendo-a voar.
Mais flechas voaram, mas quando foram desviadas por um poder invisível, as ignorou. Isso não era da sua conta.
— Estou enviando alguns em sua direção!
— Ah, não me dê ainda mais trabalho!
Apesar das reclamações, Lanceiro estava exibindo uma técnica excelente. Com um único golpe, apunhalava várias criaturas à sua frente e, quando voltava a puxá-la, empurrava a coronha para trás. Isso batia no crânio do goblin que havia sido empurrado para o lado pelo escudo, esmagando sua cabeça e matando-o.
— Não vamos deixar nem mesmo um goblin passar por nós!
— Essa foi a minha intenção desde o começo.
Os dois guerreiros ficaram de costas um para o outro, com goblins surgindo sobre eles como uma maré escura.
Quando se tratava de grandiosidade e força, Lanceiro obviamente era superior a Matador de Goblins. Ele debulhava goblins como se fosse trigo com cada golpe da sua lança.
Matador de Goblins, naturalmente, restringiu-se a garantir que Lanceiro não fosse pego por trás. Ele acabou com qualquer alvo que Lanceiro deixou passar, lidou com aqueles que estavam à sua frente e passou para o outro aqueles que não conseguiu finalizar pessoalmente.
Eles mal pensaram em defesa, deixando Defletir Projétil para repelir as pedras que eram atiradas.
Simplesmente se concentraram no uso de suas armas.
Mas, é claro, mesmo para Matador de Goblins, as coisas nunca seriam tão simples.
— Xamã!
O grito de Alta Elfa Arqueira cortou por todos. Na retaguarda da formação de goblins estava um monstro com um cajado, proferindo um feitiço.
A luz em seu cajado erguido ampliou-se e voou.
Era o mais básico de todos os feitiços ofensivos, Flecha Mágica.
Podia não ser muito poderoso, mas, acertando, em alguns casos, ainda seria suficiente para virar a maré da batalha. Além do mais, por ser mágico, Defletir Projétil não forneceria proteção contra aquilo.
Surpreendentemente inteligente, para um goblin. Mas Lanceiro gritou de forma ansiosa:
— Toma essa!
— Magna… remora… restinguitur! Um fim para magia!
Bruxa sorriu com indulgência e recitou um feitiço quase cantado. Era o contrafeitiço que resistiria às palavras de verdadeiro poder de goblin xamã.
No momento em que encontraram as palavras de Bruxa, a maioria das flechas desapareceu, apenas algumas poucas delas alcançaram Lanceiro e Matador de Goblins.
— Poderia, incomodá-lo, para não, me dar mais… trabalho?
— Esse é o seu trabalho!
Gracejos por gracejos. Lanceiro se jogou na horda de goblins e, mesmo enquanto o sangue escorria de um ferimento em sua bochecha, parecia nada incomodado.
— Eles querem flechas? Então darei flechas — grunhiu Alta Elfa Arqueira, deixando seu arco de seda de aranha cuidar do resto.
Um dos disparos saiu voando pela poeira e pelo ar denso, alojando-se, conforme pretendido, no pescoço do xamã.
— Aqui!
— Alguma lesão? — Quem perguntou foi Lagarto Sacerdote, que estava ficando evidentemente entediado na retaguarda; batia o rabo, impaciente, contra o chão. Sem Sacerdotisa ali, ele era o único clérigo do grupo, o único capaz de curar com milagres. Ele parecia bastante aborrecido por ter que permanecer onde estava, cuidadosamente conservando seus feitiços.
— Sem problemas — respondeu brevemente Matador de Goblins, verificando-se. Havia lugares onde sua pobre armadura de couro e cota de malha foram perfuradas; sangue escorria aqui e ali, sentia até dor.
Em outras palavras, ainda vivo.
Ele continuou brandindo sua espada contra os goblins à frente enquanto tateava sua bolsa de itens, contando com os nós para guiá-lo. Então puxou uma poção e a tomou, em seguida, jogou o frasco vazio com a mão esquerda.
— GROORB!!
— Morra.
O goblin tropeçou para trás graças ao golpe inesperado; Matador de Goblins cortou sua garganta sem qualquer piedade. O sangue espumou no pescoço da criatura; Matador de Goblins a chutou e puxou sua espada, livrando-se do sangue.
— Você ainda tem feitiços? — perguntou, firmando sua respiração.
— Sim, ainda… bem — respondeu Bruxa com um sorriso.
— Nós, também — disse Anão Xamã.
— Devo produzir um Guerreiro Dragodente?
— Não — disse Matador de Goblins para a pergunta de seu amigo, balançando a cabeça pensativamente. Ele resmungou baixinho, olhando para o teto do túnel que os goblins cavaram.
— Orcbolg — disse Alta Elfa Arqueira em tom resignado. — Você está pensando em algo desagradável de novo, não está?
— Sim — disse Matador de Goblins com um aceno de cabeça. — Desagradável para os goblins.
Os aventureiros no prédio semiconstruído começaram a relaxar enquanto os sons da batalha ficavam mais distantes.
— Acha que foram por lá…?
— Parece que sim.
Talvez acabemos sendo resgatados. Mãe, Pai, talvez sobrevivamos.
Enquanto se olhavam e sussurravam, cada palavra era de medo ou reclamação.
Isso não vai ajudar.
Guerreiro de Armadura Pesada suspirou para si mesmo enquanto ficava na porta, olhando para o lado de fora. Ele estava perdendo o ânimo, e odiava isso.
Não que não simpatizasse com os novatos.
Qualquer um, quando falhava, quando se deparava com algo difícil ou doloroso, podia se sentir intimidado. Poderia bater os pés de frustração.
Essas crianças, acima de tudo, não queriam morrer pelas mãos de goblins. Ninguém queria.
Mas o que era um aventureiro que nunca se aventurou? Por mais desastrado que pudesse ser, um verdadeiro aventureiros nunca desistiria, não até o momento em que morria.
Mesmo que os próximos dados lançados pelos deuses resultassem em crítico.
Nessa hora…
Fwump.
Houve um som de passos pesados, capazes de fazer o chão tremer um pouco.
Os iniciantes tremeram, engoliram nervosos; calaram as bocas e pararam de falar.
Uma sombra escura.
Passou sem jeito segurando um porrete enorme na mão.
Guerreiro de Armadura Pesada não teve que sondar as profundezas de seu conhecimento sobre monstros para saber o que aquilo era.
— Temos um visitante grande e feio. Um hob.
Um hob.
Um hobgoblin.
Uma forma superior de goblin que aparecia intermitentemente. Não tinham inteligência e não eram lutadores particularmente elegantes, mas tinham uma força sem igual. Em muitos ninhos, serviam como chefes ou, às vezes, brutamontes contratados.
— Ei, crianças. Querem ver algo legal? — Guerreiro de Armadura Pesada cuspiu na palma da mão, lubrificou o cabo de sua espada larga e agarrou a arma com força. — Não sei o que os outros caras ensinaram, mas eu só tenho uma lição.
Então casualmente se atirou porta afora.
— HHOOOORRB!!
Um, dois, três passos. Ele avançou direto para o goblin gigante.
Era só um goblin. Um goblin e nada mais.
Não era nada se comparado com o goblin campeão com o qual havia lutado antes.
Ainda assim, um golpe direto daqueles músculos provavelmente não seria engraçado. Poderia, dependendo, ser até fatal.
— Não importa o problema que estiver enfrentando, se tiver informações suficientes a respeito…
Quem acreditaria que uma arma tão grande poderia ser balançada em um círculo?
Ele se aproximou.
Deixou o impulso de seu corpo levá-lo. Se fosse forte o suficiente, não seria impossível.
Seu corpo começou a se curvar.
A espada de aço de duas mãos valia muito mais do que qualquer outro equipamento. O preço a colocava em um nível diferente. E Guerreiro de Armadura Pesada…
— Então, garotos e garotas, vocês podem matar qualquer coisa… até mesmo um deus! — Passou a balançar.
Goblins só pensam em travessuras.
Os contos de fadas dizem muito, mas a chance de ver em primeira mão não é rara.
— GROB! GROORB!!
— GORROOR!!
Como isso aconteceu?
Sua mente funcionou rápido como sua armadura de couro, ainda nova o suficiente para estar rígida, triturada e rachada. Deveria ter uma espada na mão, mas deve ter deixado cair em algum lugar enquanto corria. Cada vez que dava um passo, a bainha batia em sua perna, lembrando-o de que sua cabeça estava tão vazia quanto sua bainha.
A escuridão da noite parecia estar inteiramente preenchida com o cacarejo dos goblins.
As sombras das árvores à luz das luas gêmeas agigantavam-se assustadoramente, e uma horda de olhos queimava como estrelas na escuridão.
Era algo que a maioria dos presentes só viu em pesadelos. Os iniciantes talvez, iniciantes que sequer teriam a chance de terminar o treinamento, nunca tivessem sequer sonhado com isso.
Nenhum deles.
A maioria, quando se imaginava em crise, também imaginava se livrar dela com frieza. No fundo de uma caverna, cercado por goblins? Pensariam em uma forma inteligente de mudar o ritmo das coisas.
Mas nunca imaginaram que poderiam acabar cercados por goblins em uma estrada, à noite, perfeitamente aberta.
— M-Maldição…!
— Por aqui, rápido! — gritou alguém, e foram direto para a floresta.
Pensaram que isso lhes daria uma vantagem em relação a ficarem cercados em campo aberto.
Havia, talvez, quinze deles no início. Estavam vagando pela estrada depois do treinamento, voltando para a cidade.
Haveria mais treinamento no dia seguinte, mas queriam em breve partir em aventuras. Era esse o tópico de suas conversas.
Mas, e daí?
Um grito surgiu da retaguarda do grupo. Viraram-se para ver uma garota abrigada em uma massa escura.
— Nããão! Não, para, pa… ahh! Gghh… Hrrgh…?!
Ainda podiam ouvi-la gritando enquanto sua vida se esvaia, sua voz rouca enquanto chorava e clamava por sua mãe.
Quando ele mergulhou e de alguma forma conseguiu arrastá-la para longe, já estava acabado. Ela foi coberta de cortes profundos através do tecido rasgado, osso atravessando sua carne perfurada. Claro que já não estava viva. Como poderia estar?
Depois disso, foi tudo caos…
— Goblins!
Algumas pessoas gritaram e correram, tentando fugir; outras tentaram enfrentar os monstros, mas um sumiu, outro acabou sendo separado do resto…
Por fim, restaram apenas cinco ou seis deles.
— Pensei que os goblins ficavam só em cavernas…!
— Bem, eles agora estão aqui, então pare de reclamar! — O guerreiro que corria ao lado tirou o capacete, já que estava quente demais. — Só temos que voltar para…
Ele jamais conseguiu terminar.
Uma pedra bateu em sua cabeça, esmagando seu crânio.
— O-O qu…?!
Acima de nós?!
Outro aventureiro desesperadamente limpou os restos de cérebro que respingaram em sua testa, depois, olhou para as árvores, e viu: os olhos ardentes e brilhantes dos goblins.
— Nunca ouvi falar que eles podiam subir em árvores!! — Ele podia se considerar sortudo por não ter se mijado ali mesmo.
Ainda tinha apenas quinze anos. O garoto mais forte da sua aldeia. Só isso já foi o suficiente para convencê-lo a deixar seu lar para trás.
Ele sabia como brandir uma espada. Exploração básica, como armar um acampamento, e assim por diante. Ele achava que isso o deixava “por cima”. Era tarde demais para perceber o quão errado estava.
Os cinco aventureiros sobreviventes se reuniram, tentando evitar que seus joelhos tremessem.
Seguravam as armas com as mãos trêmulas, tentavam entoar feitiços em línguas desconhecidas, tentavam orar com um medo avassalador.
A gargalhada uivante dos goblins voltou a soar.
— GOORORB!!
— GROORB! GRORB!!
Eles apontaram para os aventureiros aterrorizados, aproximando-se e tagarelando ruidosamente.
Se os aventureiros pudessem entender a língua dos goblins, o medo que sentiam só teria aumentado.
Dois pontos por um braço. Três pontos por uma perna. Dez por cabeça. E um torso, cinco.
Nenhum bônus para homens, mas dez pontos extras por cada mulher.
A maneira mais terrível de decidir a quem visar.
E tudo isso apesar do fato de que as fundas e lanças de arremesso tornavam impossível dizer quem matou o quê, e eles sem dúvidas acabariam apenas discutindo sobre quem ficou com quantos pontos.
Os goblins achavam que esse era um jogo maravilhoso o qual inventaram. Eles ergueram suas armas alegremente.
Era este o fim?
Os dentes dos aventureiros batiam enquanto observavam o avanço dos goblins.
Espadas enferrujadas foram erguidas, as pontas de lanças, as pedras brutas, nenhum indício de misericórdia…
— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, conceda tua luz sagrada para nós que estamos perdidos na escuridão!
Foi então que um milagre aconteceu.
Uma luz, quase solar, explodiu atacando os goblins com seu poder.
— GROOROROB?!
— GORRRB?!
Os goblins berraram e cambalearam para trás; então entre eles apareceu uma silhueta, e depois outra.
— Toma… essa!!
— Yaaaaahhh!!
Lutadora Rhea empunhava uma lâmina de uma mão, enquanto Guerreiro Novato balançava sua clava para um lado e para o outro.
Sua força era deselegante, mas eficaz. Pow, pow, pow.
Foi como um redemoinho caindo sobre os goblins.
— GORB?!
— GOROORB?!
Podia não exatamente fatiar os goblins em duas partes, mas se cortasse a criatura do ombro ao torso, quebrando os ossos e rasgando a carne ao longo do caminho, o inimigo morreria.
Golpes críticos não eram necessários contra goblins.
— E-Ergh, realmente ainda não me acostumei com essa sensação! — gemeu Lutadora Rhea enquanto puxava sua espada de um dos monstros.
— Eles ainda estão vindo! — gritou Guerreiro Novato de volta, chutando o cadáver de um goblin para o lado.
Estava imitando Matador de Goblins. Se ele estivesse lutando esta luta, jogaria a espada e roubaria outra arma.
Lanceiro, então, agiria de forma mais decisiva, mirando nos pontos vitais e apunhalando-os rapidamente antes de passar para o próximo alvo.
E Guerreiro de Armadura Pesada? Ele varreria todos os goblins com um enorme golpe de sua espada larga.
Mas acho que não posso fazer nada disso, então…!
Pensar nas alturas que ainda não alcançou serviu de encorajamento para o espírito de luta de Guerreiro Novato.
— Certo, seus monstros, vamos lá…!
— Ah, pelo…! Se você perder outra arma, nenhum subsídio até comprarmos outra! — gritou Clériga Aprendiz para Guerreiro Novato, então correu para os aventureiros, segurando a bainha de suas vestes para que pudesse fazer isso. — Algum ferido? Digam! Venha aqui, eu trato! Milagres apenas para os gravemente feridos!
Vários dos aventureiros quase se arrastaram até ela. Clériga Aprendiz não viu ninguém precisando de atendimento de emergência, tampouco parecia haver alguém envenenado.
Ainda assim, dificilmente seria o momento para algo como Graças aos deuses, chegamos a tempo!
Dez outros jovens aventureiros foram cruelmente assassinados na rua.
Clériga Aprendiz mordeu o lábio e pegou algumas bandagens em sua bolsa de itens. Ela não tinha a liberdade para lançar Cura Menor em todos.
— V-Vocês…
— Nós viemos… para ajudar!
Essa voz vibrante pertencia à sacerdotisa que ergueu o cajado do qual brilhava a Luz Sagrada. Seu rosto esguio brilhava de suor, e ela olhou para a horda de goblins; foi sua fé inabalável que manteve o milagre acontecendo.
— Todos juntos! — comandou ela. — Vamos voltar para o campo! Em um espaço confinado como este, estamos à mercê dos goblins!
— Mas… Mas se eles nos cercarem…
— Vou manter nossa segurança com Proteção… Apenas vá! — gritou Sacerdotisa, calmamente considerando como usar seus milagres.
Muito provavelmente teria que sobrepor dois milagres para evitar os ataques de goblins enquanto se retiravam. Ela ainda só podia usar três milagres por dia, então desperdiçar até mesmo um deles resultaria em uma falha crítica.
Nenhuma Cura Menor por hoje, hein?
Ela sentiu um pontada de angústia com esse pensamento, mas era a melhor forma de lutar. Se continuasse firme nessa crença, a misericordiosa Mãe Terra continuaria concedendo-lhe luz.
— …
Entre os aventureiros que surgiram ao socorro estava um garoto ruivo, sem dizer qualquer palavra.
O clamor da batalha. Os gritos dos dois lutadores de vanguarda. Os gritos dos goblins. As admoestações das duas clérigas. As respostas dos aventureiros.
O garoto absorveu isso tudo, sua boca firmemente fechada, segurando seu cajado com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
Por quê? Porque neste grupo de cinco pessoas, o maior poder de fogo era dele.
Não posso usar meu feitiço de qualquer jeito.
Ele não cometeria o mesmo erro da última vez.
Havia tantos goblins. Incluindo-o, havia apenas três aventureiros capazes de lutar, mas o inimigo era mais de uma dúzia.
Poderia acabar com todos usando uma única Bola de Fogo? Não, impossível. O inimigo estava espalhado demais para que pegasse vários deles com uma única explosão.
Mas usar seu feitiço para matar apenas um goblin não fazia sentido.
Porém, ele não tinha tempo para meditar a respeito disso. Havia goblins por toda parte, e ficar parado o tornava um alvo fácil.
Assim como aquela acólita que capturaram. O que aconteceria com essas garotas?
O que aconteceu com a sua irmã…?
De repente, Garoto Feiticeiro sentiu sua visão ficar quente como fogo, mas ele mesmo continuava completamente calmo.
Aquele aventureiro esquisito, Matador de Goblins, por mais que Garoto Feiticeiro odiasse admitir, estava sempre calmo. Se ele deixasse sua raiva ditar como usaria seu feitiço, desta vez realmente seria um homem inferior àquele aventureiro.
Não, não que Matador de Goblins diria algo. Mas ele nunca seria capaz de perdoar a si mesmo.
Então, o que eu faço?
Havia mais a se esperar de um feiticeiro do que lançar bolas de fogo e lançar raios trovejantes.
Então, o que havia para fazer?
Naquele momento, algo relampejou em seu cérebro.
— Todos, tapem os ouvidos!
— Quê?! Estamos… um pouco ocupados… lutando aqui…!
— Depressa!
— Aw, cara!
Guerreiro Novato e Lutadora Rhea não ficaram felizes com as instruções repentinas, mas não discutiram.
Não havia tempo a ser desperdiçado.
O garoto ruivo olhou para Sacerdotisa, que deu um solene aceno de cabeça para ele.
— Vou deixar isso com você!
Era exatamente como Matador de Goblins fizera durante a batalha após o festival, e também na montanha nevada.
O uso de feitiços, como tantas coisas, exigia tanto as ordens quanto a confiança do líder do grupo.
E o garoto em quem ela confiou, o garoto feiticeiro ruivo, balançou a cabeça e ergueu seu cajado.
— Vocês também! Façam o que ele mandou e tampem seus ouvidos! — gritou Clériga Aprendiz para os aventureiros sob seus cuidados.
Guerreiro Novato e Lutadora Rhea rapidamente lidaram com os goblins na frente deles, depois, correram para abrir uma distância.
Terei apenas uma chance.
Da boca do garoto saíram palavras de verdadeiro poder, seu feitiço lançado sobre o mundo.
— Crescunt! Crescunt! Crescunt!
Foram apenas três palavras. Um visível poder surgiu, flutuando no ar, derramando-se diante do garoto.
O que se seguiu foi um único som.
HRRR RRRRRRAAAA AAAAAAAAAAAAA AAH HHHH!!!!
O ar tremeu.
Era como matar todos os pássaros com uma única pedra. Cortando o nó Górdio.
Tal foi o golpe da espada larga de Guerreiro de Armadura Pesada, junto com o grito que soltou.
Com um tremendo golpe, cortou cada centímetro do hobgoblin, sua clava, carne e sangue.
Sangue negro espirrou por toda parte; a criatura se dividiu bem no meio antes de desabar no chão.
Os surpresos iniciantes só puderam ficar olhando enquanto Guerreiro de Armadura Pesada sacudia sua espada e mais uma vez a colocava em suas costas.
— Oh ho.
Toda a área foi tomada por um uivo de estourar os tímpanos.
Foi o grito de alguém? De onde estava vindo?
Ele olhou para o céu, não que fosse encontrar as respostas por lá.
— Parece que alguém está se divertindo um pouco — disse Guerreiro de Armadura Pesada com um sorriso afiado.
Naquele momento, pedaços de terra caíram do teto, e a umidade pegajosa deles levou Matador de Goblins a tomar uma decisão.
— Para cima.
Ele alojou a lança na garganta de um goblin, depois, chutou o cadáver espumante para longe, deixando sua arma partir com ele. Ao mesmo tempo, agarrou a machadinha da cintura da criatura.
Matador de Goblins sabia que não chegava nem perto de Lanceiro quando tratava-se do uso de lanças.
— Abra um buraco acima de nós!
Quando o grito chegou à retaguarda, Anão Xamã já estava vasculhando sua bolsa de catalisadores.
— Outro? Bem, chegando!
— Um buraco? O que você quer com um buraco? — gritou Lanceiro enquanto trabalhava com sua arma para conter a maré de goblins invasores enfurecidos. Seu corpo estava coberto de pequenos cortes, evidência de que não era invencível. Mesmo com vários aventureiros experientes na vanguarda, os números acabariam vencendo. Dores menores ou fadigas menos impactantes, empilhadas umas sobre as outras, ainda resultavam em morte quando chegava o momento.
— Tenho um plano — disse brevemente Matador de Goblins e bateu a ponta afiada de seu escudo na testa de um goblin. Vendo que a criatura ainda se recusava a soltar o último suspiro, Matador de Goblins pegou a machadinha recém-roubada e fingiu que iria bater.
Houve um satisfatório splorch e restos de cérebro voaram para todas as paredes da caverna.
— Mas, primeiro, quero acuá-los para ainda mais adentro na caverna.
— Lançar Medo e Túnel ao mesmo tempo vai ser um pouco demais até para mim!
— Milorde Matador de Goblins, eles só precisam ser enviados mais para o fundo, certo?
Anão Xamã estava mexendo em sua bolsa de catalisadores enquanto tentava alcançar o teto, no qual estava inscrevendo um sigilo. Lagarto Sacerdote havia se movido para cobri-lo; agora expunha suas presas de forma assustadora.
O momento para deixar sua destreza espiritual, que havia conservado até o exato momento de se manifestar, havia chegado.
Lagarto Sacerdote juntou as palmas das mãos em um gesto estranho e respirou fundo, enchendo os pulmões de ar. Ele parecia um dragão se preparando para usar um sopro.
— Bao Long, honrado ancestral, governante do Cretáceo, tomo emprestado agora o seu terror!
No momento em que terminou de cantar, Rugido do Dragão explodiu pelo túnel. O barulho que Lagarto Sacerdote soltou de sua mandíbula sacudiu o ar.
Os goblins, ouvindo um grande e terrível dragão ali no túnel, sentiram sua coragem sumindo.
Eles nunca foram corajosos, para começar. Só eram violentos quando em uma posição superior ou quando se vingando.
E quando com medo, não tinham noção de como proceder com uma retirada ordenada.
— GORRRBB! GBROOB!!
— GROB! GGROB!!
Gritando e largando as armas em qualquer lugar, começaram a fugir. Bruxa lançou Luz para perseguir suas formas em fuga.
Lagarto Sacerdote bufou para o espetáculo patético.
— Logo estarão de volta — alertou ele. — Mesmo o poder de um dragão não dura para sempre.
— Não me importo — respondeu Matador de Goblins, mas mesmo assim manteve sua postura baixa e cautelosa enquanto olhava para longe.
Alta Elfa Arqueira, começando a parecer cansada, deu um tapinha em seu ombro.
— Orcbolg, está planejando usar outro pergaminho?
— Eu tinha apenas um.
— Isso não me faz me sentir melhor…
Matador de Goblins balançou a cabeça enquanto observava Anão Xamã ainda trabalhando em um padrão na terra.
— Há um lago acima de nós.
O grito do garoto, amplificado por magia, ecoou pelo ar e árvores da floresta.
Era só uma voz muito alta. Nada notável para algo supostamente produzido por palavras que poderiam alterar a própria lógica do mundo.
Seus professores na Academia nunca o deixariam chegar ao fim daquilo, mas agora não estava na Academia.
Podia faltar a ameaça física de Bola de Fogo, mas sua voz estrondosa era sem igual. Mais importante ainda, a área de efeito era muito maior que a de Bola de Fogo. Goblins que estavam mais próximos logo caíram inconscientes, enquanto outros congelaram de surpresa, e outros ainda esqueceram o que estavam fazendo e começaram a correr.
— GOOROB?!
— GROOB?! GRRO?!
O garoto agarrou seu cajado, mordendo o lábio com tanta força que sangue escorreu, e olhou fixamente para as costas dos goblins.
Ele queria matar todos eles.
Eram criaturas tão egoístas. Violentas e assassinas. Entretanto, correram. E ele estava deixando.
Isso não era o suficiente.
Havia sua irmã mais velha em quem pensar. Os aventureiros que eles mataram. A acólita que ele e seu grupo resgataram.
Em seguida, havia a humilhação a que todos foram submetidos. A desesperança. A tristeza. A raiva. Todas as coisas que queimavam dentro dele.
Deixar todas essas coisas borbulharem, que prazer seria! Que maravilha!
Sim, mas…
— Vamos sair daqui!
Foi o grito de Sacerdotisa que fez o garoto voltar a si. Ela ergueu o cajado, ainda brilhando com Luz Sagrada, e o usou para apontar na direção em que deveriam seguir.
— Vão direto para fora da floresta, em direção à cidade!
— Pode deixar! — gritou Guerreiro Novato em retorno. Ele enterrou uma lâmina na garganta de um goblin inconsciente ao seu lado e começou a avançar. — Vamos lá. Nossa maior prioridade é voltar para casa! Sigam-me!
— Deixe-o liderar o caminho! Vou ficar de olho no grupo; você cuida da nossa retaguarda!
— Claro! — respondeu Lutadora Rhea para Clériga Aprendiz. Apesar de toda a luta, ela não parecia cansada. Isso era um traço de um rhea ou era só ela?
Lutadora Rhea passou pelo garoto enquanto se dirigia para a retaguarda.
— Bom trabalho. Aquilo foi mesmo incrível. — Ela só conseguiu sorrir enquanto passava, mas foi um sorriso sincero.
Um momento depois, o garoto acenou com a cabeça.
— Obrigado…
Enquanto o grupo cercava os aventureiros e começava a correr, o garoto olhou para trás, por cima do ombro.
O feitiço que usou não tinha intenção de matar, só de resultar em uma abertura para que escapassem.
Era verdade: seu objetivo neste caso não foi matar os goblins.
Foi ajudar os outros. Tirá-los de lá e voltar em segurança para a cidade.
Quão satisfatório seria se pudesse matar todos os goblins.
Mas, sim, porém.
Não sou Matador de Goblins.
O garoto saiu do campo de batalha e olhou para a frente, correndo com os demais.
Ele não voltou a olhar para trás.
Os goblins tinham surgido como uma maré e então foram arrastados por outra.
A água do lago que chegou pelo teto provocou um deslizamento de terra, derramando-se no túnel dos goblins.
Para o azar deles, o ninho estava em uma inclinação descendente. O grupo de aventureiros subiu um pouco a colina, isso era o suficiente para mantê-los em segurança, mas quanto aos goblins que fugiram de volta para o túnel…
— GORRRBB?!
— GBBOR?! GOBBG?!
Os goblins chegaram à superfície banhada pela água e voltaram a afundar, afogando-se na água lamacenta. Foi um espetáculo horrível.
— Acho que isso serve, já que funcionou — disse Lanceiro, acertando um goblin que estava se afogando com a coronha da lança e observando-o volta a afundar. — Mas assim não poderemos persegui-los. E se simplesmente voltarem a atacar quando a água descer?
— Quando Túnel acabar, lance algum tipo de feitiço de gelo. — Matador de Goblins deu sua próxima instrução a Bruxa, cuja expressão era ambígua. — O gelo irá se expandir assim que congelar, destruindo a passagem. Não poderão mais usá-la.
— Bom. Eu… entendi.
— Teremos que procurar o ninho pela superfície e destruí-lo.
Matador de Goblins já estava fazendo alguns cálculos mentais. Os goblins roubaram apenas ferramentas de construção, nenhuma comida. A missão anterior foi praticamente igual: apenas sequestraram prisioneiras para ajudar a passar o tempo.
Tudo isso indicava que o centro de suas operações não poderia estar muito longe.
O que os goblins pensaram quando viram o prédio em construção e os aventureiros se reunindo por lá? Ele não tinha como saber.
— Acho que vou deixar vocês cuidarem disso… Eu, cansei. — Lanceiro agarrou a arma, exausto, e sentou-se na lateral do túnel. — Da próxima vez que quiser um encontro duplo… espero que seja algo diferente de goblins.
— Entendo.
Refletindo, todos eles estavam há horas sem descansar. Estiveram todos lutando durante a noite. Estavam todos ansiosos para dormir feito pedras.
Alta Elfa Arqueira, fisicamente a mais fraca entre os seis aventureiros Prata, estava com as orelhas caídas.
— Estou tão cansada…
— Não trate as coisas assim — repreendeu-a Anão Xamã enquanto ela se apoiava contra a parede. — Ele só disse que ainda temos que localizar e destruir o ninho.
Alta Elfa Arqueira franziu os lábios.
— Sim, eu sei, mas…! — Ela não estava realmente chateada. Enxugou as bochechas sujas de lama e murmurou: — É por isso que odeio missões de goblins.
A maioria dos aventureiros provavelmente concordaria com ela.
A água borbulhava e expelia enquanto subia e descia. Era o som de goblins morrendo ou só da enchente correndo?
— Estou bastante impressionado por você saber que estávamos sob este lago — disse calmamente Lagarto Sacerdote enquanto observava as águas. — Milorde Matador de Goblins já esteve nesta área antes?
— Sim — disse Matador de Goblins sem qualquer paixão enquanto observava os monstros se afogando. — Muito… Muito tempo atrás.
Muitos goblins morreram naquele dia, assim como aventureiros.
Mas os aventureiros venceram.
Os campos de treinamento foram defendidos.
Mesmo assim, parecia haver tantos goblins no mundo quanto antes.