Capítulo 6- Coração das Sombras
— Nossa… Isso c-cheira a mofo… — reclamou Alta Elfa Arqueira. O ninho combinava os odores de uma antiga ruína com o fedor podre de um típico habitat goblin.
— B-Bem, é uma construção antiga… Aqui, vou acender uma fogueira — disse Sacerdotisa. — Hup! — Ela grunhiu de um jeito fofo ao acertar uma pederneira e acendeu uma tocha.
Eles estavam bem no meio da ala de prevenção de incêndio que os elfos colocaram na estrutura, então a luz era limitada e fraca. Ainda assim, era o suficiente para todo o grupo ver. Sacerdotisa varreu os olhos nos rostos de seus companheiros e então soltou um suspiro de alívio.
A passagem do outro lado do portão era intensamente claustrofóbica. Não era tão pequena a ponto de forçá-los a rastejar, mas também não iriam se espalhar para estabelecer uma linha de batalha. Poderia ser do tamanho certo para goblins, mas não para todos os outros…
— Ugh, eu não gosto disso! — disse Alta Elfa Arqueira. — Uma armadilha de espinhos pode nos eliminar de uma só vez.
— Prefiro me preocupar com minha capacidade de continuar em frente — acrescentou Lagarto Sacerdote.
— Sim, é provável que o anão fique preso!
Anão Xamã pareceu indignado, mas sabiamente não expressou sua objeção.
— Vamos — disse Matador de Goblins secamente e o grupo se formou e começou a andar.
Alta Elfa Arqueira foi na frente, Matador de Goblins logo atrás dela, seguido por Lagarto Sacerdote: estavam tecnicamente na primeira fila. Atrás deles estavam Sacerdotisa, nervosamente segurando seu cajado e Anão Xamã, no final da formação.
A passagem estreita ia cada vez mais fundo, curvando-se suavemente para a esquerda e para a direita ao longo do caminho. O eco estrondoso que ouviram devia ser da água represada.
Odeio túneis estreitos como este, pensou Sacerdotisa. Se os goblins viessem da frente, eles não poderiam fugir. Se viessem por trás, o grupo ficaria igualmente preso.
O ar fétido. A sensação pegajosa de pavor. Um odor que ela conhecia muito bem de algum lugar, algum dia. Sacerdotisa rapidamente olhou em volta, tomada pela sensação de que se não prestasse muita atenção, perderia a noção de onde estava.
— Pelo menos não precisamos nos preocupar com nossos passos — disse Alta Elfa Arqueira levemente. Talvez essa observação fosse parte do motivo pelo qual Sacerdotisa soltou um suspiro de alívio. O ar no túnel de repente pareceu ficar mais leve.
— E não parece que precisamos nos preocupar com eles rompendo a parede atrás de nós — comentou Anão Xamã.
— Se não houver portas escondidas — disse Matador de Goblins.
— E se eles não encontrarem os cadáveres do lado de fora — acrescentou Lagarto Sacerdote prestativamente.
— Vamos continuar — disse Sacerdotisa com a voz trêmula, engolindo em seco. — Cuidadosamente.
— Sim. Especialmente considerando que… Como se chama…?
— Mokele-Mbembe. — Alta Elfa Arqueira interrompeu enquanto media seu próximo passo. — Certo?
— Sim, isso — continuou Matador de Goblins, balançando a cabeça. — Algo conseguiu colocar uma sela naquilo. Não podemos baixar a guarda.
Lagarto Sacerdote agarrou sua garrespada com mais força, olhando ao redor.
— Você acha que foi um dos diabinhos?
— Alguém confiaria um dragão aos goblins, além de um goblin?
Anão Xamã passou a mão suavemente ao longo da parede da passagem.
— Eu conheci filisteus, mas os goblins estabeleceram um novo nível — disse ele com um aceno resignado de cabeça. — Veja isso. Haviam esses desenhos bem aqui, e eles…
As ilustrações podiam ter retratado a história das ruínas ou talvez tivessem sido um aviso aos intrusos. O que quer que os desenhos tenham sido, agora estavam pintados e rachados pelas palhaçadas dos goblins. Isso sugeria que a desfiguração não foi um ato deliberado de blasfêmia por parte dos goblins. Se realmente fossem servos do Caos tentando profanar as marcas da Ordem, teriam feito um trabalho mais completo.
Em vez disso, a cena foi destruída aqui, pintada ali, quebrada em outro lugar e deixada em paz em outro…
— Como crianças que se cansam de um brinquedo — murmurou Sacerdotisa, gelada. E, bem, ela deveria estar: estava claro que este ato de destruição do trabalho de outra pessoa tinha sido feito por pura diversão. Ela sabia muito bem como era aquele impulso quando se voltava para os seres vivos.
- …
Pode ter sido o medo ou a ansiedade que fez sua mão direita trêmula se enrijecer sobre o seu cajado, enquanto a esquerda ajustava seu aperto na tocha. Ela repetiu o nome da Mãe Terra em voz baixa.
Talvez tenha sido por isso que ela foi a primeira a notá-la quando apareceu soprando na brisa através das ruínas, misturada com o som da água.
— Uma voz…? — disse ela de repente, parando.
— O que há de errado? — perguntou Matador de Goblins quando percebeu. Esse fato por si só deu certo alívio para Sacerdotisa. Era um lembrete de que ele estava cuidando dela. Que todos eles estavam.
Ela percebeu que estava inconscientemente comparando o grupo a eles e olhou para baixo, envergonhada.
— Eu só… uma voz…
— Você ouviu uma voz?
— Lá de cima, eu acho…
Matador de Goblins respondeu às palavras incertas dela com um grunhido.
— Hmm. O que você acha?
— Bem, espere um segundo. Eu estive totalmente focada neste andar… — Alta Elfa Arqueira olhou para cima, suas orelhas então eretas, esforçando-se para captar qualquer som.
Fwip, fwip. Eles vibraram suavemente.
— Sim, eu também ouvi… A voz de uma pessoa. Não sei dizer se é homem ou mulher.
— Então, há algo vivo aqui além dos goblins — disse Anão Xamã, franzindo a testa de surpresa. — Suponho que devamos ficar felizes, mas vai aumentar nossos problemas para resgatá-los.
— Não há garantia de que seja um prisioneiro — acrescentou Lagarto Sacerdote, revirando os olhos e tocando a ponta do nariz com a língua.
— Mas se houver um cativo aqui embaixo… — Sacerdotisa ergueu a tocha o mais alto que pôde, como se estivesse usando para afastar o medo e a indecisão. — Então nós… temos que ajudar…!
— Sim — respondeu Matador de Goblins sem um momento de hesitação. Ele verificou duas vezes o escudo na mão esquerda, depois girou o pulso direito uma vez e ajustou o aperto na espada. — Isso não muda o que devemos fazer. Vamos lá.
Pouco depois, o grupo chegou a uma escada em espiral que se estendia do fundo ao topo das ruínas. Inúmeros túneis como teias de aranha afastavam-se dela em todas as direções.
A voz ecoante podia ser ouvida lá embaixo – muito, muito abaixo, como se soasse das profundezas do inferno.
— Cheira a ninho de goblin, certo…
O grupo decidiu descer as escadas, seguindo a liderança dos sentidos de Alta Elfa Arqueira.
A escada abraçou a parede de pedra, serpenteando para as profundezas. Os degraus eram estreitos e não havia corrimão. Cada um deles colocou a mão na parede e procedeu devagar, muito devagar.
— Parecido com um formigueiro, não é? — disse Lagarto Sacerdote, observando os muitos túneis que conduziam para o interior da fortaleza.
— Hmmm, eles fazem torres muito boas, não? — respondeu Anão Xamã.
Os diques e as fortificações à beira do rio resistiam a batalhas há pelo menos uma eternidade. Logo estariam tentando derrubar tudo com apenas cinco aventureiros. Não se poderia culpá-los por se sentirem um pouco tensos.
— Eep! — Sacerdotisa fechou os olhos com força e se encostou na parede quando uma rajada repentina passou pelo átrio. A força do vento era ruim o suficiente, mas trouxe um fedor forte que sugeria coisas malignas à frente.
— T-Talvez devêssemos amarrar uma corda de salvamento a nós mesmos, então…
— Não — disse Matador de Goblins, rejeitando bruscamente a ideia de Sacerdotisa. — Estamos em fila única. Não sabemos se os goblins podem vir pela frente ou por trás.
— Sim, pode ser perigoso restringir ainda mais nossos próprios movimentos. — Lagarto Sacerdote, que estava na retaguarda da formação, revirou os olhos e bateu com a cauda no chão. — Mas não tema; se você cair, segure-se na minha cauda e continue.
— Eu realmente prefiro não cair, mas… Certo, farei o meu melhor. — Sacerdotisa acenou com a cabeça, certificando-se de que estava segurando seu cajado e a tocha com força para não deixá-los cair.
Naquele momento, as orelhas de Alta Elfa Arqueira se contraíram.
— Goblins?
— O que mais poderia ser? — Todo o grupo parou atrás dela e preparou suas armas. — Nós temos alguma luz. Eles vão nos notar quando chegarmos perto.
— Não podemos deixá-los escapar vivos.
— Matador de Goblins, senhor, o que devemos fazer?
— Quer haja um cativo lá embaixo ou não, devemos chegar ao fim desta escada — disse Matador de Goblins sombriamente. — E, então, devemos voltar para cima.
— Você sabe o que dizem sobre labirintos — interveio Anão Xamã, adotando um tom cantante. — É fácil entrar, mas sair nunca é divertido.
— Hm — resmungou Lagarto Sacerdote, acenando com a cabeça.
— Não seremos capazes de evitar o combate — disse Sacerdotisa —, e se formos descobertos…
O que aconteceria então?
O sangue foi drenado de suas bochechas e de repente ela sentiu que seus pés estavam instáveis.
Roupas rasgando. O grito do lutador. Vozes altas. A visão terrível da elfa capturada. As mulheres em espetos.
Todas essas memórias passaram por sua mente, acelerando sua respiração. Ela sentiu seus dentes batendo.
Ela lutou para mantê-los quietos e firmar a respiração. Ela forçou as pernas, que ameaçavam ceder, a permanecerem de pé.
— Vou tentar pedir Silêncio de novo…
Ela usaria outro de seus preciosos milagres. Matador de Goblins fez alguns cálculos mentais rápidos.
— Se tudo correr bem, poderemos descansar quando chegarmos ao fundo — disse Anão Xamã enquanto enfiava a mão na bolsa de catalisadores, olhando vigilante para as escadas aparentemente intermináveis. — Este lugar deve ser grande demais para patrulhar todos os lugares ao mesmo tempo, até mesmo para goblins.
— Com quantos você diria que estamos lidando, milorde Matador de Goblins, com base no que eles roubaram?
— Eles têm até lobos — respondeu Matador de Goblins. — Não há dúvida de que estão operando em grande escala.
— Ainda assim, certamente não o suficiente para manter toda esta fortificação.
— Provavelmente.
— Bem, isso resolve tudo. — Alta Elfa Arqueira sorriu brilhantemente, estendendo a mão para dar um tapinha no ombro de Sacerdotisa. — Sua vez!
— Certo! — Sacerdotisa assentiu e mordeu o lábio. Ela sabia o que aconteceria se não fizessem isso. Ela balançou a cabeça vigorosamente, enviando as memórias voando como o cabelo ao redor de sua cabeça. Então respirou fundo.
Ela colocou as duas mãos em seu cajado, conectando sua alma à Mãe Terra que vivia lá no alto.
— E o cadáver? — perguntou Lagarto Sacerdote.
— Largue-o aí — respondeu Matador de Goblins imediatamente, implacável. — Não haveria nada de incomum em um goblin caindo dessas escadas.
— Aqui vou eu! — Sacerdotisa segurou seu cajado, relaxando no calor da tocha enquanto oferecia as palavras de sua prece. — Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, conceda-nos paz para aceitar todas as coisas.
Então todo o som cessou.
O goblin emergindo do corredor ficou com os olhos arregalados para o grupo de aventureiros que se aproximou apenas com a luz de uma tocha.
A flecha de Alta Elfa Arqueira perfurou sua garganta antes que ele pudesse chamar seus companheiros. Ele girou os braços como se estivesse nadando no ar enquanto tombava para a frente; Matador de Goblins deu-lhe um chute sólido.
O goblin caiu, desaparecendo na escuridão infinita e profunda.
Enquanto continuavam descendo as escadas, Alta Elfa Arqueira girou as orelhas. Era difícil ter certeza do que ela estava ouvindo. Ela manteve os olhos abertos, tentando localizar quaisquer goblins que pudessem estar seguindo em sua direção.
Lá.
Ela rapidamente ergueu três dedos em uma mão antes de puxar uma flecha de sua aljava, puxar o arco para trás e atirar.
A flecha voou silenciosamente, atingindo o sentinela com a lança bem no olho e alojando-se em seu capacete. Ele girou e caiu da escada.
Seu companheiro de guarda apontou e riu, então inclinou a cabeça surpreso com o fato de sua voz não ter feito nenhum som. Alta Elfa Arqueira passou correndo por ele, enquanto logo atrás dela, Matador de Goblins quebrou o crânio da criatura como se estivesse rachando madeira.
A cabeça se abriu e cérebros vazaram. Matador de Goblins enviou o segundo goblin caindo no abismo e então continuou em frente.
O terceiro goblin, embora espantado com esses acontecimentos repentinos, ainda assim firmou a lança em sua mão.
Ele se deparou com um anão e uma garota humana. Levou apenas um instante para se concentrar na garota, mas encontrou seu caminho bloqueado pela palma da mão do anão. Antes que soubesse o que estava acontecendo, havia um punhado de poeira em seus olhos e, um instante depois, o rabo de Lagarto Sacerdote saiu de debaixo dele.
Tudo o que restou foi a queda.
O túnel em forma de saca-rolhas continuava indefinidamente. Podia-se sentir tontura ao contemplar sua escala.
Todos os sons haviam desaparecido e a única coisa que podiam ver era a luz que carregavam. Cheiravam apenas a água borbulhante e seu próprio suor.
Sacerdotisa vacilou, atacada por um feitiço de tontura. Mesmo enquanto registrava o que estava acontecendo, ela encontrou seu corpo instável envolto na cauda de apoio de Lagarto Sacerdote.
Ela deu um olhar apressado para trás. O homem-lagarto revirou os olhos e tocou o nariz com a língua. Ele parecia estar dizendo: não se preocupe com isso.
Sacerdotisa balançou a cabeça, então olhou para frente novamente com a tocha e seu cajado bem na mão e começou a seguir diligentemente as costas à sua frente. Anão Xamã gentilmente diminuiu a velocidade para ela. Matador de Goblins e Alta Elfa Arqueira permaneceram tão vigilantes como sempre.
Tenho que continuar orando…!
Ela soltou algumas exalações agudas enquanto afastava todos os pensamentos irrelevantes de sua mente e continuava oferecendo sua súplica à Mãe Terra.
Estava parada atrás de seus companheiros, orando. Começou a duvidar sobre isso ser realmente útil.
Mas a dúvida leva à morte em momentos como este. E ela não permitiria que isso superasse sua prece aos deuses.
Todos estão aqui e eu estou com todos. Eles me protegem e eu os protejo.
Ela voltou a respirar fundo.
Mesmo nessas profundezas sombrias, tinha amigos ao seu lado, e sua alma estava em contato com a Mãe Terra que habitava no céu.
Certamente não havia nada a temer.
Bob, bob. Cinco ou seis cadáveres de goblins flutuavam na superfície da água.
No fundo do vasto vão havia um canal de água. Foi o milagre do Silêncio ou a distância absoluta que impediu os aventureiros de ouvir qualquer som quando os goblins chegaram à superfície?
Represada e depois armazenada, o que restou da água do rio continuou a fluir rio abaixo.
— Talvez os diabinhos pensem em envenenar a água — sussurrou Lagarto Sacerdote quando o som voltou ao mundo. Considerando que haviam represado rio acima, esse seria o próximo passo natural. Rio abaixo ficava não apenas a aldeia dos elfos, mas também a cidade da água.
— Goblins sendo goblins, seu líder pode estar planejando algo — concordou Anão Xamã.
— De que adianta pensar no que os goblins pensam o tempo todo? — disse Alta Elfa Arqueira, franzindo a testa em frustração. Ela deu ao capacete de Matador de Goblins algumas boas batidas. — Vocês vão acabar como ele.
— Eu tenho uma suspeita de que você poderia pensar um pouco melhor sobre si mesma — disse Anão Xamã. — Isso é sobre sua casa, afinal — acrescentou ele suavemente, provocando um irado “Como é?!” da elfa. Eles conseguiram manter a voz baixa o suficiente para que Lagarto Sacerdote não se sentisse obrigado a intervir.
Matador de Goblins, completamente impassível, puxou um odre de sua bolsa de itens e o abriu. Ele tomou vários goles através de seu visor, em seguida, ofereceu à Sacerdotisa, onde estava agachada nas proximidades. Ela o pegou vagamente, seu rosto pálido enquanto desesperadamente tentava se recompor.
— Beba.
— Uh, c-certo, obrigada…
— Não — disse Matador de Goblins, balançando a cabeça. — Você nos ajudou.
Sacerdotisa segurou o odre com as duas mãos, levando-o aos lábios com apenas um toque de embaraço. Ela tinha o sorriso mais leve e tímido em seu rosto. Agora não estava tão tensa, e isso não era uma coisa ruim.
Eles haviam superado um obstáculo. Uma coisa de cada vez.
Ela bebeu ruidosamente, dois goles, três. Então soltou um suspiro satisfeito e colocou a rolha de volta no odre.
— Muito obrigada — disse, devolvendo-o; ele o pegou em silêncio e o devolveu à bolsa.
Matador de Goblins usou sua machadinha para puxar um dos cadáveres balançando para mais perto, tirando a espada de seu cinto. Ele colocou a lâmina em sua própria bainha, colocou a machadinha no cinto do goblin e o chutou para longe novamente.
— A voz parou — murmurou.
As orelhas de Alta Elfa Arqueira balançaram.
— Sim. — Ela acenou com a cabeça. — Eu não tinha certeza, de uma forma ou de outra, no caminho para baixo, mas agora sinto que não ouço mais.
— Chegamos tarde demais.
Alta Elfa Arqueira, entendendo o que ele queria dizer, franziu a testa. Ela verificou rapidamente o estado da corda do arco, amarrou-a novamente e certificou-se de que tinha algumas flechas ao se levantar.
— Isso não é desculpa para demorar, é?
— De fato, mesmo assim — concordou Lagarto Sacerdote, dando um floreio a sua garrespada. — Viemos aqui para a batalha e nosso inimigo vacila diante de nós. Não temos razão para não abusar da nossa vantagem.
Ele estendeu uma mão acidentada e escamosa para Sacerdotisa.
— Estou bem — disse ela com um breve sorriso, em seguida, levantou-se, apoiando-se em seu cajado. — Oh, a tocha…
— Hm — murmurou Matador de Goblins, por fim virando sua cabeça lentamente de um lado para o outro. — Eu vou deixar você lidar com isso.
Sacerdotisa secretamente soltou um suspiro ao vê-lo mais uma vez caminhando com ousadia na frente da fila. Mas, logo em seguida, registrando que ela havia sido deixada no comando de sua luz, acenou resolutamente com a cabeça.
— Segure isso por um momento, por favor — disse ela, passando a tocha para Anão Xamã. Em seguida, tirou uma lamparina de sua bagagem e transferiu a chama para ela.
— Olha só, você está bem preparada!
— Uma lamparina é obrigatória em uma aventura — respondeu ela, estufando o peito com apenas uma pitada de orgulho.
O Kit de Ferramentas do Aventureiro era um pacote que nem sempre era tão útil quanto parecia, mas desta vez estava provando seu valor. Ela fechou a veneziana para evitar deixar sair mais luz do que o necessário, em seguida, jogou a tocha no rio com um pequeno “Yah!”. Houve um chiado e um pouco de fumaça branca, e então a tocha não existia mais.
— Certo, vamos lá…
O resto do grupo acenou com a cabeça e então seguiram atrás de Matador de Goblins, tomando o cuidado de fazer o mínimo de barulho possível.
Felizmente, o som do rio ajudou a cobri-los.
Matador de Goblins falou suavemente com Alta Elfa Arqueira na escuridão.
— Como está na frente?
— Estão lá. — Ela baixou os quadris como uma lebre prestes a correr, mas continuou avançando rapidamente. — Parece haver algum tipo de… grande pedra de moinho ou argamassa? Junto com cinco… talvez seis deles, se divertindo.
— Sem feitiços — disse Matador de Goblins, mudando sua espada para sua mão direita. — Nós cuidaremos deles.
— Mas… — Lagarto Sacerdote lambeu o nariz com a língua. — Como você pretende atacar?
— Silêncio de novo? — ofereceu Alta Elfa Arqueira, acrescentando a si mesma que estaria bem com isso enquanto ela disparava uma flecha.
Matador de Goblins olhou para Sacerdotisa, cujo rosto estava sem sangue e balançou a cabeça.
— Faremos outra coisa.
— Estou bem…!
— Não quero usar a mesma tática duas vezes seguidas — disse ele, enfiando a mão na bolsa. — Temos alguma cola?
— Certo, aqui. Um monte, espere um segundo — disse Anão Xamã, cavando em sua própria bolsa de catalisadores. Por fim, acenou com a cabeça e puxou várias garrafas pequenas e lacradas.
— Bom — disse imediatamente Matador de Goblins. — Todo mundo, entreguem suas meias.
Sacerdotisa pressionou a mão na coxa, de repente com o rosto vermelho; Alta Elfa Arqueira parecia apenas confusa.
— O que você quer com isso? — perguntou.
— Vou usá-las.
Lagarto Sacerdote assentiu sombriamente.
— Você quer as minhas também?
— Se tiver alguma.
O goblin havia terminado seu trabalho e estava animado. Ele não costumava ficar bêbado, mas tinha a sensação de que era assim que parecia estar.
O álcool roubado raramente chegava até ele – as garrafas sempre tinham sido bebidas até secar muito antes de chegarem tão longe. Ele tinha algumas dúvidas sobre como os garotos lá em cima estariam repartindo as mercadorias de maneira justa, mas isso eram os goblins. Eles nunca pensavam em seus outros camaradas que apareceriam depois deles, então cada um pegaria um pouco mais para si, e antes que percebessem, acabava tudo.
Mas este magnânimo goblin subterrâneo iria perdoá-los.
Não porque sabia que teria feito a mesma coisa se estivesse em um dos andares superiores – nada tão razoável. Ele estava contente em ficar furioso com os bastardos impensados lá em cima, independentemente do fato de que teria se comportado exatamente como eles.
Não, a razão pela qual se sentia tão tolerante era porque trabalhar no andar de baixo tinha seus próprios benefícios.
Com um gesto casual, o goblin ajustou a decoração pendurada em uma corrente em seu pescoço. Então se sentou pesadamente em um círculo de seus companheiros e estendeu a mão para a comida no centro.
Ele tirou um dedo do braço podre e o jogou na boca. Mastigou e respirou fundo.
Trabalhar aqui é o pior, disse, tentando soar bem mesmo enquanto reclamava.
Houve um coro de concordância dos outros, então alguém arrancou uma perna da refeição.
Outra pessoa, incapaz de deixar isso passar, fez barulho e tentou tomar a perna, até que ela finalmente se partiu em duas, e o ofendido ficou com um pouco para si.
Enquanto mastigavam a carne, os goblins reclamavam que os chefões não entendiam.
Um deles arrancou um adorável globo ocular âmbar da refeição e comentou: Eles com certeza não entendem, então engoliu.
As reclamações dos goblins ficavam cada vez mais altas, mas é claro, o trabalho que foram solicitados a fazer não era tão exigente. Era simplesmente a maneira dos goblins se convencerem de que as coisas eram mais fáceis para os outros do que para eles.
Depois de uma refeição preguiçosa, os goblins se levantaram. Eles concordaram coletivamente que uma rhea não era uma refeição tão boa quanto um elfo, e um elfo não era tão saboroso quanto um humano.
Agora seus estômagos estavam bem e cheios, e parecia-lhes que não havia mais nada a fazer a não ser tirar uma soneca até que mais trabalho precisasse ser feito.
O goblin soltou um grande bocejo, quando…
— …?
Bem nesse momento.
O que era aquilo rolando até seus pés? Uma tocha apagada?
Que diabos? O goblin olhou estupidamente para ela.
— ?!
Um segundo depois, algo pesado e úmido o atingiu no rosto. Ele tentou gritar, mas outra coisa o acertou, desta vez na boca.
Ele estendeu a mão para retirar, mas sua mão agarrou-se àquilo e ele não conseguiu se livrar.
— GROBB!!
— GRB! GBBOROB!!
Quando ele caiu no chão, os outros goblins apontaram e riram dele. O ridicularizando da mesma forma que os goblins que caíram da escada naquele dia.
— GBOROB?!
Desta vez, as coisas bateram nos goblins que estavam rindo. Mais dois deles estavam arranhando seus rostos, contorcendo-se de dor. Três no total.
Os outros dois finalmente perceberam que não era hora para diversão e sacaram suas espadas roubadas.
Um deles colocou algo que parecia um apito de alarme nos lábios…
— Um.
E prontamente encontrou sua garganta perfurada por uma adaga que apareceu voando da escuridão. O sangue jorrou da ferida com um som não muito diferente de um assobio.
— GOBBRB?!
Cortando o som apareceu um aventureiro em armadura suja, avançando para eles rio abaixo. Em sua mão direita estava uma espada. À sua esquerda, um escudo. Os olhos do goblin estavam arregalados. Aventureiro! Ódio! Era ele!
— GBRO! GGBORROB!!
Ele se esqueceu de qualquer pensamento de chamar seus camaradas ou ajudá-los, em vez disso, partiu para a luta. Sua espada era uma coisa bem afiada que roubou recentemente de um aventureiro. Não era uma faca enferrujada.
— Hmph.
Matador de Goblins, entretanto, facilmente defendeu o golpe com seu escudo. Na verdade, até rebateu. Ele pegou o golpe excessivamente ansioso do monstro, que se alojou em seu escudo; em seguira recuou e deu uma rasteira.
— GOBBR?!
O goblin perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente, em seguida, voltou a se levantar com dificuldade.
Imediatamente depois disso, ouviu um baque. E então o goblin parou de respirar, sem nunca saber por quê.
Ele nunca teria imaginado que era porque uma flecha de ponta-broto se alojou na parte de trás de sua cabeça.
Ele caiu para frente, seus olhos sem vida não percebendo mais o que estava acontecendo com seus companheiros.
— GOBB… GRB?!
— GROBBR?!
Os outros goblins, tendo finalmente arrancado os glóbulos pegajosos de seus rostos e bocas, mal conseguiam falar.
Um instante depois, a garrespada de Lagarto Sacerdote separou o torso das pernas e Matador de Goblins perfurou a garganta.
Despachar cinco goblins tomou apenas dez ou vinte segundos. Uma experiência e tanto.
— Três… E quatro e cinco. — Matador de Goblins contou os cadáveres e voltou para a escuridão. — Foi um sucesso impressionante.
— Tenho praticado. — Sacerdotisa saiu da escuridão, segurando seu cajado. Uma expressão tímida surgiu em seu rosto com o simples elogio de Matador de Goblins. Sim, a criatura foi distraída pela tocha, mas ela o acertou de forma justa, o resultado de seu próprio trabalho duro.
Ela pegou a meia preparada que o goblin havia arrancado de seu rosto e jogado de lado.
— Eca… Acho que não posso mais usar isso… — disse, desapontada. Havia sangue, baba e muco por toda parte. Ela poderia lavá-la três vezes e ainda assim não querer usá-la novamente.
— Colocar pedras em nossas meias, cobri-las com cola e depois jogá-las nos goblins? — Alta Elfa Arqueira, que também forneceu suas meias para a causa, estava recuperando sua flecha de um dos cadáveres — Eu juro, você tem a imaginação de um menino travesso.
— Mas funcionou — disse Matador de Goblins brevemente, virando-se para o corpo meio comido.
Era uma massa de sangue coagulado que era impossível até mesmo dizer de que sexo era, até que ele pegou uma etiqueta de cor azul no meio daquilo. Era um homem.
— Gostaria de saber se ele tinha uma família — disse Anão Xamã, olhando para ele e pegando o pedaço de safira manchado de sangue. — Ou um grupo… Duvido que estivesse sozinho.
— Provavelmente — disse Matador de Goblins, virando a cabeça e lançando o olhar sobre as ferramentas que os goblins usaram para seu “trabalho”.
Alta Elfa Arqueira cutucou um deles com um olhar de o que é isso, antes que percebesse o que estava vendo e saltar para trás.
— Eek?!
Era uma pedra de moinho – ou, mais precisamente, uma prensa. Girar uma alça redonda fez com que o dispositivo se movesse, aplicando pressão em tudo o que estava dentro dele. Era o tipo de coisa que se usava para obter azeite de azeitonas ou suco de uvas. Então, o que os goblins estavam pressionando com isso?
A resposta ficou imediatamente aparente.
— Ergh… Ah…! — Sacerdotisa soltou breves sons ofegantes e quase deixou cair o seu cajado.
Nas fendas da máquina podiam-se ver mãos e pés delgados, ainda se contorcendo com os últimos vestígios de vida. Eles pertenciam a uma jovem cujos olhos vidrados estavam olhando para o céu, a língua pendurada para fora da boca.
Isso deixou terrivelmente claro o que os goblins estavam tentando pressionar e como. Como forma de tortura, era grosseiro. Como meio de execução, estava além do sádico.
Não.
Sacerdotisa rapidamente entendeu o que tudo isso significava.
A pilha de armaduras femininas surradas no canto.
A espada curta polida que Matador de Goblins coletou do goblin.
A etiqueta de nível safira que estava pendurada no pescoço de um dos cadáveres.
Os músculos do braço que agora estavam moles.
Tudo isso mostrava que a jovem havia sido uma aventureira.
E levou a uma conclusão inevitável: os goblins estavam fazendo isso por pura diversão.
— …
Foi uma cena nauseante, mas embora pálida, Sacerdotisa engoliu o líquido amargo de volta.
Talvez – infelizmente – tivesse se acostumado a esse tipo de coisa. Talvez fosse apenas algo com o que tinha que se acostumar. Ela não sabia.
Enquanto se agachava, rezando para a Mãe Terra, um líquido espesso e pegajoso caiu no chão, manchando suas botas brancas.
A substância vermelho-escura que os goblins estavam espremendo com seu dispositivo gotejou para a sarjeta ao longo do chão e, de lá, para o rio.
— Hmm — disse Lagarto Sacerdote, revirando os olhos. — Se estão colocando isso no rio, não pode ser algum tipo de veneno?
— Pode muito bem ser. — Matador de Goblins se agachou e pegou uma pequena amostra da coisa pegajosa, esfregando-a entre os dedos. Embora tenha sido apenas uma pequena gota no enorme rio, provavelmente era o suficiente para ser fatal para um indivíduo. — É como se estivessem pensando “vocês todos têm bebido, vivido e se banhado com água cheia de sangue e excrementos de seus companheiros.”
— Hrr-ghh… — Alta Elfa Arqueira vomitou na mesma hora. Sacerdotisa foi rápida em oferecer-lhe o odre, mas ela respondeu apenas um: — Não, obrigada.
— Suponho, então, que devemos considerar isso uma forma de maldição — disse Lagarto Sacerdote.
— Então você também acha? — suspirou Matador de Goblins. — Aquela… coisa…
— Mokele-Mbembe, quer dizer?
— Isso — concordou Matador de Goblins. — Isso deve significar que aquele que o capturou era algum tipo de lançador de feitiços.
— E um goblin… — Sacerdotisa estremeceu.
Uma caverna escura. Mulheres desmaiadas. E um goblin xamã tagarelando em seu trono.
Tudo isso combinado com memórias queimadas em sua mente. Ela agarrou seu cajado com mais força.
— Xamã…?
— Quem quer que seja, não é nada além de desprezível — murmurou Anão Xamã, com respeito a Matador de Goblins e de Lagarto Sacerdote. — Estou surpreso que vocês dois estejam tão calmos…
— Manter um cativo vivo para nosso prazer não é o costume de meu povo, mas matar é a nossa vocação. — Lagarto Sacerdote balançou a cabeça lentamente de um lado para o outro, quase contemplativamente. — Abrir as entranhas de um guerreiro superlativo e comer seu coração é considerado um costume adequado.
— Acho que vai demorar alguns dias até que eu queira carne de novo — gemeu Anão Xamã.
— E isso é um anão — disse Alta Elfa Arqueira com uma risada corajosa.
Matador de Goblins olhou para Anão Xamã e acenou com a cabeça. Então caminhou até Sacerdotisa com seu típico passo ousado e olhou para ela.
— Matador de Goblins, senhor, uh…
— Nós vamos parar aqui — disse ele lentamente. — Quando ela for enterrada, vamos descansar.
Finalmente decidiram dar ao cadáver esmagado da aventureira um enterro no mar.
Envolveram o corpo em um pano para esconder suas feridas e o colocaram à deriva no canal que levava ao rio.
— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, por favor, por sua mão reverenciada, guie a alma de quem deixou este mundo.
A oração de Sacerdotisa levou a alma da mulher ao céu, e a invocação de Lagarto Sacerdote garantiu que ela pudesse voltar ao ciclo da vida.
Eles não esperavam que nenhuma patrulha aparecesse na parte inferior da torre (os goblins sendo preguiçosos), então o grupo encontrou o local mais limpo que pôde, estendeu alguns cobertores e foi dormir.
Dormir… Teriam sorte se tivessem algumas horas, no máximo. Isso poderia não restaurar muito de sua força. O que era importante, porém, era que seus lançadores de feitiços recuperariam a energia espiritual que haviam gasto.
— … — Matador de Goblins encostou-se na parede da sala de tortura, abraçando a espada que havia pegado. Ele não queria acender uma fogueira, em parte por causa das proteções élficas neste lugar, mas principalmente porque não queria que a fumaça alertasse ninguém sobre a presença deles. Em vez disso, o grupo descansou o que pôde ao redor da lamparina, as venezianas fechadas para manter a luz no mínimo.
Lagarto Sacerdote sentou-se na postura de lótus, com as mãos transformadas em mudras e os olhos fechados, como se estivesse meditando. Anão Xamã havia tomado alguns bons goles de vinho e depois tombou, apoiou a cabeça nas mãos e logo estava roncando vigorosamente.
Então havia Sacerdotisa, seu pequeno corpo coberto por um cobertor amontoado em um canto. Mesmo à distância, seu rosto parecia pálido e sem sangue.
— Por que você não está dormindo…? — perguntou uma voz repentina.
— Estou descansando — respondeu Matador de Goblins casualmente.
Era Alta Elfa Arqueira, de volta de seu turno de guarda, parada na frente dele e parecendo irritada.
Matador de Goblins ergueu seu capacete lentamente, olhando para ela.
— Com um olho aberto.
— Ei, não consigo ver quantos olhos você tem aí — respondeu ela, aborrecida. Ela colocou as mãos nos quadris e bufou, as orelhas compridas tremendo, então se sentou pesadamente ao lado dele. Foi um movimento tão natural; não olhou para Matador de Goblins para qualquer tipo de permissão.
— Ela não parecia muito feliz, hein? — Alta Elfa Arqueira afrouxou a corda de seu arco e começou a amarrá-la diligentemente.
— Imagino — disse Matador de Goblins ao lado dela. — Se considerarmos apenas nossas ações, somos exatamente como os goblins.
Ele estava se referindo estritamente a ter dado os corpos de seus companheiros ao rio.
Eles haviam chegado tarde demais – fosse por minutos, horas ou dias. Caso contrário, talvez um ou dois dos aventureiros capturados ainda estivessem vivos.
Nunca, em nenhum momento, isso poderia ter acontecido como o que aconteceu naquele templo, com aquelas freiras.
— Eles morreram e nós os jogamos no rio. É a mesma coisa — concluiu Matador de Goblins secamente.
Alta Elfa Arqueira mordeu o lábio por um momento, sem conseguir falar, então balançou a cabeça em desacordo
— Não é a mesma coisa…
Matador de Goblins soltou um grunhido baixo e aborrecido.
— Não somos como os goblins. E se você disser que somos de novo, vou ficar brava. — Ela olhou para ele com os olhos semicerrados. — Posso até te chutar — murmurou, e parecia séria.
Matador de Goblins se lembrou da vez, em alguma ruína em algum lugar, quando ela lhe deu um chute sério. Fazia cerca de um ano. Ele até sentiu uma certa nostalgia por isso.
Mas quanto tempo isso era para um elfo?
— Entendo. — Matador de Goblins assentiu. Então soltou um suspiro profundo. — Você está certa…
— É melhor você acreditar que estou.
Com isso, os dois pararam de falar. O gorgolejar idílico de água corrente parecia fora do lugar. Mas de vez em quando, vinha o cacarejo dos goblins do andar de cima, lembrando-os de onde realmente estavam.
As orelhas de Alta Elfa Arqueira vibraram. Matador de Goblins olhou para ela, mas ela balançou a cabeça como se quisesse dizer que não era nada.
— Entendo. — Matador de Goblins respirou, então caiu em silêncio mais uma vez.
— Hmm? — disse Alta Elfa Arqueira, inclinando a cabeça, mas seu capacete mal se moveu enquanto ele falava apenas duas palavras em resposta.
— Sinto muito.
Alta Elfa Arqueira começou a piscar.
Orcbolg… se desculpou?
Era uma ocorrência incomum. Para esconder o sorriso repentino que ameaçava tomar conta de seu rosto, ela franziu a testa e perguntou bruscamente:
— Pelo quê?
— No final, eu trouxe goblins novamente…
Idiota. Alta Elfa Arqueira soltou uma risadinha. Como a água correndo, parecia um som muito doce para este lugar.
— O quê? É isso que estava te incomodando?
Não houve resposta.
Eles só se conheciam há um ano e mudaram, mas era muito tempo para conhecer alguém.
Acertei em cheio.
Alta Elfa Arqueira riu com um som semelhante ao de um sino tocando, então colocou seu grande arco gentilmente no chão ao lado dela. Ela abraçou os joelhos contra o peito e, em seguida, descansou a cabeça no ombro de Matador de Goblins.
— Você me conhece… não sou uma grande fã de goblincídio.
Isso simplesmente fazia sentido.
Antes de ela conhecer Orcbolg, mesmo quando era apenas uma Porcelana, nunca tinha saído em uma missão de caça aos goblins. Mas o número desses trabalhos que havia assumido aumentou dramaticamente desde que começou a trabalhar com ele.
Ela não tinha nenhum problema em explorar cavernas. E lutar contra monstros era muito bom. Resgatar cativos também era ótimo.
Mas isso é diferente.
Enfrentar goblins com Orcbolg de alguma forma não era o mesmo que outras aventuras. Não havia sensação de realização. Alta Elfa Arqueira mal conseguia chamar isso de aventuras.
Mas, ainda assim.
— Minha casa está em jogo.
Era perfeitamente óbvio, mas ela expressou o pensamento de qualquer maneira.
Ela sentiu mais do que viu a mudança no capacete de Matador de Goblins.
Alta Elfa Arqueira fechou os olhos por um momento. O cheiro de óleo e sangue. Era realmente um fedor terrível.
— Eu odiaria que minha irmã se casasse com goblins vagando por perto.
— Entendo…
— Normalmente, eu seria a única a reclamar… Ei, digo, não que eu esteja realmente chateada ou algo assim.
— Não — disse Matador de Goblins, balançando a cabeça. — Isso não me incomoda.
— Não? — Alta Elfa Arqueira inclinou a cabeça com surpresa. Suas orelhas vibraram.
— Não — repetiu Matador de Goblins brevemente. — Porque não sei o que fazer para ter uma aventura.
— Huh — murmurou Alta Elfa Arqueira, e Matador de Goblins murmurou de volta:
— É verdade.
— Então tá — começou Alta Elfa Arqueira, soando quase como se estivesse cantando. — Que tal dizermos que estamos empatados? — Ela ergueu um dedo indicador e o moveu em um círculo no ar.
— Eu acho… — Matador de Goblins estava prestes a responder, mas então hesitou. Ele nunca encontrou as palavras que queria e, finalmente, sua resposta foi tão desapaixonada como sempre: — Isso é bom.
— Excelente! — Alta Elfa Arqueira pôs-se de pé em um salto. Ela soltou um grande bocejo, como um gato, esticando suavemente seu corpo flexível. Ela soltou um longo suspiro e perguntou: — Então, o que faremos a seguir?
Matador de Goblins respondeu imediatamente:
— Montaremos uma armadilha e então subiremos.
— Uma armadilha? — Os olhos dela brilharam e suas orelhas balançaram.
— Você vai entender muito em breve — Matador de Goblins fez parecer que seria incrivelmente incômodo. Alta Elfa Arqueira apenas bufou. Então tá bom.
— Mas… agora vamos voltar?
— Estamos lidando com goblins que se instalaram neste prédio. Tenho uma boa ideia do que devem estar pensando.
— …?
— O mais importante deles se baseará no nível mais alto ou no mais baixo.
— Ahh.
Agora fazia sentido. Alta Elfa Arqueira acenou com a cabeça, sorrindo. Os piores vilões gostavam dos lugares mais altos.
— O único problema é aquela… coisa.
— Mokele-Mbembe? — Alta Elfa Arqueira suspirou novamente. — Não acredito que você não tenha aprendido seu nome até agora.
— Quem quer que seja capaz de controlar aquela besta, é provavelmente um lançador de feitiços…
— Um lançador de feitiços… Hmm.
Alta Elfa Arqueira cruzou os braços, parecendo muito Alta Elfa Arqueira, mas rapidamente abandonou a contemplação. Pensar nisso agora não lhes renderia nenhuma resposta. Poderiam pensar sobre isso quando chegasse a hora.
De qualquer forma, pode ser um goblin xamã ou um goblin qualquer, eu ainda vou atirar nele.
— Não vamos descobrir quando chegarmos lá?
— Isso não vai servir — disse Matador de Goblins com um aceno decisivo de cabeça.
Alta Elfa Arqueira balançou a cabeça, como se dissesse: Você não tem jeito.
— Sim, vai. Mas você é nosso único especialista na vanguarda. No momento, o mais importante é você dormir um pouco, Orcbolg.
— Sim…
— Com os dois olhos fechados.
— Vou tentar…
— Vou te acordar em um momento.
— Obrigado.
— Sim, bem, caso contrário, não vou conseguir dormir.
— Tudo bem.
Alta Elfa Arqueira deu a ele um aceno reconfortante com a mão, em seguida, agarrou o arco entre os dedos. Ela saltou facilmente de um dorminhoco para o outro, para ver como eles estavam, então finalmente se sentou em um lugar só dela em um canto do cômodo.
Ao lado dela estava Sacerdotisa, enrolada em seu cobertor. Alta Elfa Arqueira deu-lhe um tapinha gentil. O cobertor se mexeu, depois balançou e ficou imóvel novamente.
Poderia puxar as cobertas o quanto quisesse, mas não conseguia esconder como se sentia com os sentidos de um elfo.
— Cara, por que os ancestrais não poderiam ter instalado um elevador?
Várias horas depois, após cuidar de alguns detalhes, o grupo começou a subir as escadas.
Alta Elfa Arqueira tinha bons motivos para reclamar. Tinham acabado de descer as escadas no dia anterior e agora estavam sendo forçados a subir novamente. A mudança de direção era um conforto frio.
— C-Cuidado para não falar muito alto…!
Alguém vai te ouvir. A preocupação de Sacerdotisa era igualmente natural, e sem nenhum lugar para onde correr, se algum goblin aparecesse, seriam forçados a lutar.
O grupo não mudou sua formação desde antes de parar para descansar (quando – ontem? Seu senso de tempo estava confuso), mas ainda…
— Bem — disse Anão Xamã —, é uma grande fortaleza. Pode haver um se procurarmos. — Ele estava respirando pesadamente. Parecia que seu pequeno corpo tornava a escalada mais difícil para ele do que para todos. Ele tirou a jarra de vinho do cinto e destampou-a, tomando alguns goles e enxugando algumas gotas da barba. — Mas depois de todo o trabalho que acabei de ter, realmente não faz sentido procurar um elevador.
— Além disso, pode exigir alguma chave para ativar. Uma com uma pulseira azul, por exemplo.
— Aarrgh…! — gemeu Alta Elfa Arqueira, batendo as orelhas com raiva. O comentário calmo de Lagarto Sacerdote somou três vozes contra ela. — Orcbolg, diga alguma coisa!
— Se encontrássemos um, nós o usaríamos, mas não temos tempo para procurar.
Não há ajuda aí. Alta Elfa Arqueira, abandonada, simplesmente pigarreou e continuou subindo as escadas.
Cada um deles estava totalmente vigilante. Até mesmo Sacerdotisa, observando seu cajado com inquietação, ficou de olho em seus arredores. Ela ficava lançando pequenos olhares para trás – sem dúvidas, um produto de suas piores memórias.
Eles podem vir por trás.
Eles podem quebrar a parede quando você menos esperar.
Havia alguma porta escondida? Não deixaram nenhuma passar, não é?
— Oops… — disse Alta Elfa Arqueira, e Sacerdotisa estremeceu.
— O que há de errado?
— Faltam alguns degraus.
— Oh… — Ela podia ver que Alta Elfa Arqueira estava certa. Bem à frente deles, a espiral de escadas foi interrompida por vários degraus quebrados.
Poderiam concebivelmente pular a lacuna, mas apenas se não pensassem por um segundo sobre o que aconteceria se caíssem. Podiam ouvir a água ecoando de muito, muito abaixo.
Se pudessem se segurar na próxima escada, isso seria uma coisa, mas se não, a queda certamente os mataria. Se tivessem sorte, isso aconteceria instantaneamente. Mas se não, poderiam simplesmente quebrar as pernas e ter que ficar ali, esperando para morrer. De qualquer forma, seria o fim de sua aventura.
Os goblins contornaram essa lacuna de alguma forma ou os testes precipitados continuaram?
— Não vejo nenhum guarda — murmurou Matador de Goblins. — Se ainda fosse meio-dia, eu entenderia, mas não gosto disso.
— Acho que o maior problema é o que fazer com essa escada — disse Alta Elfa Arqueira, franzindo a testa. Ela ergueu o polegar, tentando avaliar a distância. — Eu poderia pular essa lacuna, mas não acho que todos nós poderíamos. Como o anão, o anão ou o anão.
— Escute aqui…
Isso foi até onde a resposta do Anão Xamã foi, no entanto. Alta Elfa Arqueira cruzou os braços e soltou um som pensativo.
— Talvez pudéssemos amarrar uma corda de um lado a outro — disse —, poderíamos pegar o caminho mais longo, mas não temos tempo, não é?
— Isso é perfeito — disse Sacerdotisa, acenando com a cabeça. — Vou pegar um pouco! — Ela vasculhou sua bolsa, rapidamente encontrando um gancho. O Kit de Ferramentas do Aventureiro. Ela ficou muito satisfeita com o fato de o conjunto, que havia comprado “por precaução”, estar sendo útil. Além do mais, o maior conforto para ela era saber que estava se tornando útil para o grupo.
— Você acha que isso vai alcançar? — perguntou.
— Experimente — disse Matador de Goblins.
— Certo — respondeu Alta Elfa Arqueira, agarrando a corda e dando um salto. Sua agilidade poderia ser igualada apenas por um seleto número de homens-fera ou elfos negros.
Ela aterrissou do outro lado da lacuna com um movimento que lembrava um cervo saltando, murmurando:
— Uau. — Enquanto isso, cuidadosamente mantinha o equilíbrio. — Você só precisa que eu prenda isso, certo?
— Sim. — Matador de Goblins acenou com a cabeça e pegou a corda do seu lado. — Então, devemos amarrar isso em nossos cintos e pular…?
— Se eu não chegar ao outro lado, terei de usar um feitiço — disse Anão Xamã, olhando para o fosso com uma expressão perturbada. — Por mais que eu odeie ter que fazer isso, à luz de nossas necessidades estratégicas… E você, Escamoso?
— Ahh, enquanto houver apoios para as mãos e pés nas paredes, vou passar por isso. — Lagarto Sacerdote exibiu as garras afiadas em suas mãos e pés, girando os dedos deliberadamente. — Eu deveria me preocupar, mestre lançador de feitiços, com nossa lady Sacerdotisa pulando. Talvez fosse melhor se eu a carregasse.
— Um de cada vez, então — disse Matador de Goblins. — Você vai ficar bem?
— Ah, sim! — Sacerdotisa foi a primeira a pegar a corda oferecida. Com um grunhido, ela a amarrou com cuidado e firmeza em torno de seus quadris estreitos, em seguida, prendeu seu cajado entre a corda e a parte inferior das costas para não deixá-lo cair.
— C-Certo, por favor, não me deixe cair…!
— Hmm. Você é bastante leve. Aqui…
Lagarto Sacerdote, com Sacerdotisa agarrada às suas costas, cravou suas garras na parede de rocha e ergueu seu corpo.
— Eep?!
— Segure firme, agora. Ó Velociraptor, veja meus feitos!
O que aconteceu a seguir foi realmente algo para se ver. Trabalhando as garras de suas mãos e pés nas fendas entre as pedras, Lagarto Sacerdote começou a rastejar habilmente através da abertura.
Por mais impressionante que fosse, no entanto, ele não era rápido; se houvesse um arqueiro esperando em algum lugar da escada em espiral, ele seria um excelente alvo. Matador de Goblins e Alta Elfa Arqueira olharam profundamente na escuridão, mantendo os olhos abertos justamente para tal ameaça.
Quando chegaram do outro lado, um momento depois, Sacerdotisa deu ao Lagarto Sacerdote um aceno respeitoso.
— S-Sinto muito pelo problema. E obrigada…
— Não precisa me agradecer. Na verdade, acredito que você poderia fazer isso se tivesse um pouco mais de carne em seus ossos.
— E-Eu vou tentar… — disse ela, um pouco envergonhada. Lagarto Sacerdote sorriu em confirmação, então pegou a corda dela e fez a viagem de volta. Em seguida, chegou carregando Anão Xamã, depois que ficou satisfeito que todos conseguiram atravessar, Matador de Goblins saltou a lacuna. Com sua armadura completa e cota de malha, era sem dúvidas aquele carregando o maior peso entre todos, mas conseguiu com espaço de sobra.
Ainda assim, quando ele cambaleou ao pousar, Sacerdotisa foi rápida em colocar a mão em seu braço para firmá-lo.
— V-Você está bem?
— Sim — disse Matador de Goblins com um aceno de cabeça e acrescentou um momento depois: — Estou bem.
— Cara, eu gostaria de ter sido levada adiante. — Alta Elfa Arqueira saltou.
— Ha! Ha! Ha! Bem, talvez haja outra chance. — Lagarto Sacerdote gargalhou.
— Vou cobrar isso de você! — disse Alta Elfa Arqueira, mas então parou de repente. — Ei, olha, aí está! Há um elevador!
— Hmm — disse Matador de Goblins com considerável interesse enquanto se remexia para inspecionar o dispositivo.
Ele tinha um par de portas duplas que rolavam para trás nas paredes, com o que parecia ser um painel de controle ao lado delas. Exatamente o tipo de coisa, percebeu, que costumava ser encontrada em ruínas como esta.
— Os goblins têm usado isso? — perguntou-se em voz alta.
— Boa pergunta — disse Anão Xamã. — Não posso dizer com certeza…
— Parece estar funcionando bem. Mas… hmm, o que é isso? — Lagarto Sacerdote, sondando o painel de controle com um dedo em forma de garra, descobriu um teclado. Continha quadrados com números, aparentemente esperando para serem pressionados. — Portanto, não funciona com uma chave, mas com um código.
— Ah! — Sacerdotisa, vendo o bloco, bateu palmas e começou a vasculhar sua bagagem.
Ela apareceu com a chave que havia tirado do goblin na entrada do forte. Era uma placa de ouro com números entalhados e uma corda como um colar.
— Que tal agora? No início, pensei que talvez as chaves fossem numeradas individualmente, mas…
— Sim, goblins nunca fariam contabilidade assim — disse Alta Elfa Arqueira com um encolher de ombros e Matador de Goblins concordou. Portanto, não havia dúvidas.
— Tente.
— Sim senhor! — Segurando o chip dourado, Sacerdotisa digitou cuidadosamente os três dígitos no painel.
Sentiram o menor arrepio quando algo profundo e distante gemeu, então, finalmente, houve um guincho quando a máquina parou.
As portas do elevador se abriram silenciosamente.
— Parece que tive a ideia certa — disse Sacerdotisa, passando a mão em seu pequeno peito com um suspiro de alívio.
O interior do elevador era uma caixa de pedra, assim como o exterior. Não era óbvio se o elevador se movia mágica ou mecanicamente, mas…
— No mínimo, não há nada aqui tão simples que os goblins possam operar — falou Matador de Goblins, olhando ao redor e usando sua espada como uma vara para cutucar. — No entanto, os vi usar baldes em poços.
— Isso é o suficiente para me dar arrepios. — Para com isso. Alta Elfa Arqueira acenou com a mão. Ela não queria imaginar a possibilidade de o dispositivo ser solto enquanto estavam dentro dele, fazendo-os despencar para o fundo.
— Vamos — pediu Sacerdotisa, decisão presente em seu tom, segurando seu cajado. Isso apesar do toque de palidez em seu rosto, uma rigidez inconfundível em sua expressão e o mais leve tremor em suas mãos. — Temos que… parar os goblins…
Essa foi uma declaração que obteve uma resposta imediata de Matador de Goblins:
— Sim.
A expressão de Sacerdotisa suavizou ligeiramente.
Matador de Goblins olhou para seu grupo.
Alta Elfa Arqueira estava estufando seu peito modesto como se dissesse que é claro que ela estava pronta.
Anão Xamã estava procurando por seus catalisadores com indiferença.
Lagarto Sacerdote fez um estranho gesto com as palmas das mãos juntas e revirou os olhos.
Matador de Goblins examinou cada rosto, em seguida, verificou seu próprio escudo, armadura, capacete e espada.
Sem problemas.
Seu plano estava em vigor.
Só havia uma coisa a fazer.
— Vamos matar todos os goblins.
Todos os aventureiros acenaram com a cabeça uns para os outros e entraram no elevador.
— Estou presumindo que essa coisa vai subir — disse Alta Elfa Arqueira —, mas isso pode ficar feio bem rápido.
— Poderia — concordou Matador de Goblins.
As bordas dos lábios da elfa se ergueram e ela murmurou sarcasticamente:
— O inferno, é o inferno… Sim, claro.
Então as portas se fecharam em silêncio.