Capítulo 1 – Perdido na névoa. (Parte 1)

Tradução: Papupiro

O caminho era escuro e tortuoso. Às vezes, ele se estreitava tanto que parecia que haviam chegado a um beco sem saída, e a luz da lanterna iluminava apenas um metro à frente. O toque nas paredes de pedra, que ele ocasionalmente tocava, era áspero e duro, assim como a sensação do chão sob seus pés.

Quanto mais avançavam, mais a chama da esperança parecia se apagar, e parecia que até o menor suspiro poderia extingui-la. Mesmo que seguissem em frente com cautela, passo a passo, haveria algum retorno no final?

Essa tinha sido a escolha certa? Ou era um grande erro?

Quando entraram ali, fazia calor, mas agora estava frio há algum tempo. O ar era seco, mas, por alguma razão, ainda cheirava a um pântano.

— Ei, Parupiro… — Ranta começou.

— O que foi, Rantaronosuke?

— Escuta, amigo, não ouse adicionar essas bobagens ao meu nome glorioso. Eu vou te matar.

— Se parar de mexer com meu nome, eu penso no caso.

— Eu tenho direitos, Parupirorin, e é bom você não pisar neles — disse Ranta, ferozmente. — Espera, pera aí, isso realmente está certo…?

— Está — Haruhiro respondeu imediatamente, então mordeu o lábio inferior.

Ele poderia afirmar isso com certeza? Estava confiante? Não. Não havia como ele saber. Ele não sabia se aquilo estava certo ou não. Como poderia?

Essa passagem conectava Darunggar a Grimgar. Ele tinha alguma evidência disso? Sim. A declaração do Sr. Unjo. O Sr. Unjo havia se perdido em um lugar nebuloso na fronteira entre os antigos reinos de Nananka e Ishmal, e depois alcançou Darunggar ao passar por uma caverna que encontrou lá. Ele era um ex-soldado voluntário, com muito mais experiência do que Haruhiro e sua party. Era difícil imaginar que alguém assim mentiria para eles. Ele era confiável.

Ainda assim, mesmo que ele não estivesse mentindo, poderia estar se lembrando errado. E, mesmo que o Sr. Unjo tivesse dito a verdade, que prova eles tinham de que aquela passagem era a caverna em questão?

Aquilo era mesmo uma passagem? Se não fosse… Como poderiam decidir que não era?

Se o caminho à frente estivesse bloqueado, Haruhiro teria que admitir que aquilo era um erro.

É isso, pensou ele. Não temos escolha a não ser ir até onde isso nos levar.

Mas será que isso era verdade?

E se fossem até o final, e desse em um beco sem saída? Talvez fosse melhor desistir em algum momento e voltar enquanto ainda pudessem. Mas onde? Em que ponto? Em que momento?

Isso começou a incomodá-lo, então Haruhiro olhou para cima. Ele ergueu a lanterna. Não havia teto visível. Era quase como se estivessem em uma fenda profunda e escura.

É diferente, pensou ele.

Aquele lugar não era como o caminho no Buraco das Maravilhas de Grimgar, que conectava ao Reino do Crepúsculo, nem como o que haviam passado a caminho de Darunggar.

Para começar, não havia gremlins. Lala havia falado sobre eles.

Os gremlins tinham a capacidade de atravessar de um mundo para outro, ou o poder de encontrar os lugares onde os mundos se conectavam e escapar por eles.

Não havia gremlins naquele caminho.

Isso não significava que aquele era o lugar errado?

Podia ser.

Ou talvez não.

Ele não sabia.

Quanto tempo havia passado desde que entraram ali? Sua noção de tempo não estava apenas embaçada; ela praticamente havia desaparecido. Os dias que passaram em Darunggar pareciam uma memória distante, e quando se tratava de Grimgar, ele tinha que se perguntar se realmente haviam estado lá.

Será que Grimgar sequer existia? Não estaria apenas imaginando que existia? Não havia como voltar para um lugar que ele nem tinha certeza se era real.

Avançar, voltar, era tudo a mesma coisa. Nunca sairiam dali. Não tinham escolha a não ser vagar até que suas últimas forças se esgotassem.

Como isso estava bem? Não estava. Haruhiro havia mentido. Ele os enganou. Seus companheiros. E a si mesmo.

Sentia o arrependimento, o ódio por si mesmo, o peso da responsabilidade, a sensação de impotência e o desespero, um após o outro, todos pesando sobre ele ao mesmo tempo. Eles o sufocavam. Faziam-no tropeçar. Como poderia seguir em frente carregando aquele fardo? Não estava prestes a parar?

Mesmo que todos estivessem lá, ele se sentia sozinho. A luz iluminava o caminho à sua frente, mas ele não via nada. Era como se estivesse em plena escuridão, abandonado e deixado para trás.

Isso não já é o suficiente? pensou em desespero. Hora de parar. Não é justo. Por que só eu estou passando por isso?

Ranta, ele reclama quando quer, então é fácil pra ele. Se você não gosta, faça você mesmo, cara. Assuma a responsabilidade. Carregue esse fardo pesado. Não é como se eu quisesse. Se eu não precisasse, não faria. Não estou brincando. Já tive o bastante. Não importa quem, eu só quero que alguém assuma.

— Tá tudo bem pra você? — uma voz disse.

Haruhiro ouviu a voz, então se virou. Seus olhos encontraram os de Mary.

— O que houve? — ela perguntou.

— Agora há pouco… — ele começou a perguntar, mas parou.

Ninguém havia dito nada. Tudo estava em sua cabeça. Ele tinha ouvido uma voz onde não havia nenhuma. Claro. Não havia como ter ouvido aquela voz.

Afinal… era a voz de Manato.

Manato se foi. Ele não estava em lugar algum agora, exceto nas memórias de Haruhiro e dos outros.

Mas e se Manato o perguntasse?

Tá tudo bem pra você?

Se Manato o confrontasse com essa pergunta, como Haruhiro responderia? Se Manato pudesse perguntar, talvez Haruhiro quisesse pedir ajuda a ele.

Por favor. Eu estou implorando, volte.

Manato provavelmente lhe daria um sorriso levemente incomodado, então diria: “Mesmo que eu quisesse assumir para você, eu não posso. Você sabe disso, Haruhiro.”

Uma voz fantasmagórica falou novamente.

— Eu não sou muito de falar, mas…

Isso era estranho.

Muito estranho.

Ele podia até ouvir a voz de Moguzo.

— Se você realmente não quer… se está sendo difícil para você… acho que pode desistir, — disse Moguzo. — Se conversar com eles, todos vão entender. Mas…

— Haruhiro, tá tudo bem pra você? — Manato perguntou novamente.

— Se você está cansado… — Ao ouvir a voz de Shihoru, Haruhiro pensou que talvez ainda estivesse são. Seus pés ainda se moviam.

— Não, não estou cansado. — Haruhiro balançou a cabeça levemente, mas então pensou, E os outros?

Parecia que ele ainda estava raciocinando.

Tá tudo bem pra mim? se perguntou. Eu não sei. Talvez não. O que os outros pensam?

Bem, mesmo que eu de repente dissesse: “Eu cansei de ser o líder. Alguém mais faça isso,” eles não saberiam o que fazer. Seria como, “Vai lá, só faz.”

Bem, eu ainda vou continuar. Eu sei que ninguém mais quer. Então, por enquanto, eu vou fazer isso. Não importa o que aconteça, não venham chorando pra mim, tá bom?

Se as coisas dessem muito errado, o restante também teria culpa por fazer um cara como ele ser o líder por tanto tempo. Não seria só culpa do líder. Haruhiro não estava sozinho. Mesmo que ele cometesse erros como líder, ainda seria culpa de todos.

— É assim que você se sente de verdade? — perguntou Moguzo.

É isso mesmo, Moguzo, pensou Haruhiro. Tenho certeza de que não sou melhor do que isso.

Haruhiro não tinha determinação. Mesmo com o tempo que havia passado desde que Manato partira, ele tinha tido mais do que tempo suficiente para se acostumar a ser o líder, mas nem sequer estava ciente de quão despreparado era. Ele ia com o fluxo, pressionado pela necessidade, e de alguma forma conseguiu lidar com todas as tarefas que surgiram até então. Era só isso.

Manato era diferente. Ele só pôde estar com eles por um curto período, mas parecia que, se eles seguissem Manato, poderiam chegar a algum lugar. Parecia que Manato os levaria a um lugar melhor. Parecia que Manato os guiaria.

— Nós nos tornamos uma boa party, — Manato havia dito uma vez.

Pensando nisso agora, Manato tinha enxergado algo na época. Algum tipo de caminho que deveriam seguir. Manato tinha uma visão para o futuro. Ele estava à frente, olhando mais longe do que qualquer outra pessoa, com os olhos voltados para cima.

Haruhiro não via nada. Ele nem sequer tentava olhar. Não conseguia pensar no que estava por vir. Como seriam as coisas amanhã… não, ainda hoje? O que ia acontecer?

Essa era uma pergunta que Haruhiro não sabia responder. Não, não só Haruhiro; ninguém sabia.

Ele não queria se permitir ter esperanças.

Ele não queria ter esperança.

Ele não queria se decepcionar.

Ele não queria se machucar.

Seus objetivos eram sempre baixos. Ele apenas desejava as coisas que achava que podia conseguir. Se não desse certo, paciência. Ele poderia simplesmente abandonar a responsabilidade no último momento. Que outra escolha ele tinha? Ele não era feito para isso.

— Está tudo bem para você? — Manato perguntou mais uma vez.

Não.

Não. Não era isso.

Manato não estava dizendo nada para ele. Não podia.

Manato não ia mostrar para ele para onde ir. Moguzo não se levantaria na frente e brandiria sua espada por eles. Aqueles dois não iriam encorajar Haruhiro. Eles não poderiam lhe dar coragem. Porque nenhum dos dois estava ali.

Porque eles estavam mortos.

Haruhiro parou, e o resto da party fez o mesmo. Ele respirou fundo. O cheiro aqui era um pouco diferente, embora fosse difícil explicar como. O ar estava úmido.

— Há obstáculos por aí que são intransponíveis — Haruhiro disse em voz alta. — Essa é a vida. Tenho certeza de que há coisas sobre as quais você simplesmente não pode fazer nada. Não posso simplesmente dizer que tenho certeza de que vai dar certo de algum jeito.

Obviamente, Haruhiro não poderia ser como Manato. Mesmo assim, ele queria ver coisas novas com todos. Queria puxar todos como Manato havia feito. Não porque não tivesse escolha, mas porque era o que ele queria fazer. Haruhiro encontraria seu próprio jeito de fazer isso acontecer. Para isso, ele teria que enfrentar as coisas uma de cada vez.

Primeiro, não importava o que acontecesse, ele não poderia fugir. Ele não abandonaria seu papel, sua posição. Isso era algo que ele agora resolvia nunca fazer.

— Mas ainda assim, — Haruhiro disse — podemos superar essa. Quero dizer, já passamos por muita coisa diferente. Isso nem é difícil comparado a algumas das coisas pelas quais já passamos. Se estivermos juntos, não estou nem um pouco preocupado.

— Olha só, grandes palavras. Como se você fosse alguém importante — Ranta deu uma risada debochada. — Bom, quando as coisas ficarem difíceis, você tem a mim. Eu posso resolver qualquer coisa, cara.

— Se tem algo com o que estamos preocupados… — Shihoru murmurou.

— O que foi isso?! Você e esses peitões!

— Sua luxúria está aparecendo demais — Haruhiro suspirou.

— Quieto, Pyarupyororon! Escuta, cara! Deixa eu te dizer, eu estou à beira de explodir, entendeu?!

— Informação demais, Ranta-kun… — Kuzaku murmurou.

— Cala boca! Beleza, Kuzacky, Parupiro, e vocês dois?! Se qualquer homem saudável vivesse com mulheres como nós vivemos, seria natural que ele estivesse tão à beira de explodir que quase não aguentasse! Se não fosse assim, teria algo de errado com ele como homem, vocês sabem disso, né?!

— É assim mesmo? — Mary olhou para Haruhiro e Kuzaku, lançando uma pergunta realmente difícil de responder.

— Bom… — Haruhiro trocou olhares com Kuzaku.

Kuzaku balançou a cabeça, mas não estava claro o que o gesto significava.

Haruhiro olhou para baixo e inclinou a cabeça para o lado. — …Não muito, não para mim. Isso é diferente para cada um, quero dizer, isso é verdade para qualquer coisa, mas cada um lida de uma maneira diferente, pode-se dizer…

— Hrm… — Yume cruzou os braços e inflou uma das bochechas. — Ei, ei, ele tava dizendo que estava à beira de explodir, mas o que exatamente tá acumulando de qualquer jeito?

— Er, isso…

— Ah, e se ele tem algo acumulando, e tá prestes a estourar, sabe, Yume tava pensando que talvez ele devesse só liberar isso.

— Yume… — Shihoru puxou a manga de Yume com um olhar quase de pena no rosto.

O jeito que Yume disse “Hã?” como se não estivesse só fingindo ser ingênua era extremamente preocupante.

Mary tinha os olhos baixos, como se estivesse pensando em algo, talvez. Ela estava sem saber o que fazer?

Kuzaku estava olhando para cima por algum motivo. Aparentemente, queria fingir que isso não tinha nada a ver com ele. Que injusto.

— Heheheheh… — Ranta riu de maneira esquisita. — …Heheheh. Gwahahahaha! É isso mesmo, Yume. Você entendeu. Se eu estou à beira de explodir, eu deveria simplesmente liberar! Essa é a única resposta verdadeira!

— A-hã — Yume disse. — Foi por isso que Yume falou isso.

— Mas! Se eu for liberar, o problema é que eu não posso simplesmente tirar e resolver — declarou Ranta.

— Hein? Não pode?

— É. Meio que não. Então, vou precisar que você me aguente um pouco. Afinal, foi você quem sugeriu. Me deixa brincar com uns peitos. Me deixa brincar com os seus peitos. Enquanto eu brinco com os seus peitos, eu vou—

Dark — chamou Shihoru.

O elemental apareceu como se tivesse saído de uma porta para algum mundo invisível. Ele parecia fios negros enrolados na forma de um humano. O elemental Dark se acomodou no ombro de Shihoru.

— E-Ei — Ranta deu um passo para trás. — E-Espera. Tá? Calma aí, Shihoru.

— Não diga meu nome, seu nojento… Dark.

— Whoa, Whoa, whoa, eu-eu entendi, quero dizer, você está entendendo errado, i-i-i-i-i-isso foi uma piada, tá? Uma piadinha! Você devia entender isso pelo menos!

— Eu não entendo, e nem quero.

— Desculpa…! — Ranta se prostrou no chão com tanta força que bateu a cabeça. — Eu realmente sinto muito! Desculpa mesmo! Eu estava totalmente errado! Não vai acontecer de novo, eu juro! Acredite em mim! Por favor, estou implorando!

Ranta devia agradecer que a dogeza exagerada, mas barata, que ele estava fazendo, foi o suficiente para Shihoru deixar passar. Além disso, ele precisava refletir profundamente sobre seu comportamento.

Não vai acontecer? É. Provavelmente não.

De qualquer forma, eles provavelmente não tinham muito mais a percorrer.

O ar estava úmido. Também estava fluindo, embora de forma sutil, e na direção para onde estavam indo. Haruhiro não queria ser muito otimista, mas também não havia necessidade de ser muito pessimista. De qualquer maneira, logo teriam a resposta.

Vamos continuar, pensou ele. Vamos descobrir se continuarmos em frente.

— Névoa — sussurrou Mary.

— É — concordou Ranta, e depois houve um longo silêncio. — Eiiii?! Por que ninguém está dizendo nada?! Era pra vocês falarem algo como “É mesmo” ou “Você tem razão”! Era óbvio que vocês deveriam dizer algo assim! Vocês estão me ignorando?! Meus sentimentos também podem ser feridos, sabia?! Bem, não, nem tanto.

— “Nem tanto”, né — Haruhiro suspirou. Ele estava um pouco com inveja da resistência de Ranta.

Névoa.

Era verdade, havia uma névoa fina, ou uma bruma, ou algum tipo de neblina pairando no ar do caminho. O nome disso dependia da visibilidade, certo? Talvez fosse chamada de neblina só na primavera. De qualquer forma, incontáveis gotículas de água flutuavam no ar, deixando tudo esbranquiçado. Quanto mais avançavam, mais espessa ficava, embora de forma gradual.

O Sr. Unjo, o super senpai soldado voluntário, uma vez se perdeu em um lugar nebuloso na fronteira dos antigos reinos de Ishmal e Nananka. Quando passou por uma caverna que encontrou lá, disse que chegou à montanha de Darunggar, onde vivia o dragão de fogo.

A inclinação de repente ficou um pouco mais íngreme. No topo da ladeira havia um círculo branco brilhante.

É como a lua, pensou Haruhiro.

Não havia sol ou lua em Darunggar, e a lua de Grimgar era vermelha. Esta era uma lua esbranquiçada.

Onde ele tinha visto uma dessas? Não sabia, mas definitivamente se lembrava. A lua branca pendurada no céu totalmente negro. Isso tinha que ser… o mundo original deles, talvez?

— Aquela ali não é a saída? — disse Ranta, em um tom inesperadamente contido, até cauteloso.

— Vamos com calma — Haruhiro estava ciente de que seus olhos pareciam incrivelmente sonolentos. Não estava cansado, claro. Na verdade, todos os seus sentidos pareciam aguçados.

Eu quero chegar logo lá, pensou Haruhiro. Mas não posso me apressar. Não posso agir de forma impulsiva. Acalme-se, e siga em frente com tranquilidade.

Ele olhou para seus companheiros. Todos estavam tensos. Excitados, também. Será que eles estavam ficando rígidos demais? Bem, ele não poderia culpá-los por isso. Não desta vez. Afinal… talvez pudessem voltar para casa. Talvez já estivessem em casa.

Ele apagou a lanterna. Não precisavam mais da luz dela.

Branco. A névoa era tão densa. Mesmo assim, estava claro. Claro o suficiente para que seus olhos doessem.

Ele respirou fundo o vento frio e úmido. Era marcadamente diferente do ar de Darunggar. O gosto, o cheiro, tudo. Cada célula de seu corpo parecia revitalizada. Mesmo que normalmente não fosse o seu estilo, ele queria fazer uma pequena dancinha de felicidade. Mas não o faria. Agora não era o momento de comemorar.

A saída estava logo ali. Apenas mais três metros. Por causa da inclinação, seu passo atual era de cerca de quarenta centímetros. Em sete ou oito passos, ele chegaria à saída.

Ele respirou fundo no sexto passo e então parou.

Sete passos.

No oitavo, ele finalmente estava do lado de fora.

Deixe um comentário