Capítulo 1 (Parte 1)

Os corações secretos das presas.

Já conseguimos despistá-los. Haruhiro continuava pensando.

Será que estava sendo ingênuo?

Respirando silenciosamente apenas pelo nariz, ele fez uma leve careta.

Seu corpo não estava em más condições. Não sentia dor em lugar nenhum, e se sentia bem relaxado. Estava com fome, mas não faminto. O problema era psicológico.

Correr por aí daquele jeito era exaustivo. Ainda assim, ele finalmente tinha conseguido despistar o perseguidor. Mas, no momento em que sentiu aquele alívio…

U-ho, u-ho, u-ho, u-ho, u-ho…

Ouviu a voz. Parecia que ainda estava sendo perseguido. Aquilo ia além de mera persistência. Seu perseguidor tinha uma tenacidade inacreditável.

Devia estar a uns cinquenta metros. Não, mais perto que isso. Ele queria espiar por trás da árvore contra a qual estava encostado e ver com seus próprios olhos.

Mas não vou, certo?

O faro daquela coisa aparentemente era mais aguçado que o de um humano, mas não chegava ao nível de um urso. Não tinha a audição de um cão ou gato, e a visão provavelmente não era muito melhor que a de um humano. Mesmo assim, aquelas criaturas conseguiam detectar presenças que os humanos não percebiam. Talvez não fosse que fossem tão superiores, mas sim que os humanos eram simplesmente limitados.

Eles são superiores a nós.

Com isso em mente, Haruhiro teria que agir com cuidado, muita cautela e uma boa dose de prudência.

Movendo apenas os olhos e a cabeça, ele observou ao redor.

Verde.

Verde.

Verde.

Verde, verde, verde, verde, verde, verde, verde.

Havia outras cores por ali, mas as folhas verdes, a grama, as vinhas ou o musgo estavam por toda parte, então parecia que o lugar inteiro tinha sido pintado de verde.

Aquele era o sudoeste das Montanhas Kuaron. Os wyverns viviam no norte, então ele assumia que aquela área era relativamente segura. Não via wyverns voando pelo céu, então provavelmente estava certo. A encosta da montanha era densamente florestada. A inclinação era íngreme em alguns lugares e mais suave em outros, com galhos cobrindo boa parte, bloqueando a luz do sol e deixando o ambiente sombrio em alguns pontos. Havia pouca iluminação chegando ao chão, o que facilitava bastante.

Quando pensava nisso, as áreas ao redor de Altana e do Buraco das Maravilhas podiam ficar incrivelmente quentes ou frias às vezes, mas nunca permaneciam assim por muito tempo. Por conta disso, ele nunca tinha pensado muito sobre as estações. Além do mais, como estavam em Darunggar há mais de duzentos dias, Grimgar estava atualmente no meio de julho, aparentemente, mesmo que não parecesse para ele.

Era verão. Mesmo em silêncio, podia sentir o suor brotando na pele. Ele estava na sombra, então não era tão ruim quanto poderia ser. Ainda assim, estava bem úmido.

— U-ho, u-ho, u-ho, u-ho, u-ho…

Seu perseguidor estava gritando de novo. Aquele chamado característico, feito vibrando o peito e a garganta, estaria passando informações para o restante do grupo? Ou estaria avaliando a reação de Haruhiro, seu alvo? Seja como for, os gritos estavam vindo de mais perto desta vez. A coisa estava se aproximando.

Onde estava o resto deles? Será que estavam bem ao lado dele? Seus próprios companheiros estavam a uns vinte e cinco metros dali, escondidos entre buracos no chão e arbustos.

Ele provavelmente estava com uma expressão de olhos sonolentos agora. Não estava cansado, claro. Nem um pouco.

Deveria voltar para junto de seus companheiros? Ele tinha alguma confiança em seu Sneaking, mas e se fosse detectado pelo perseguidor? Queria correr o menor risco possível, mas, se aquela coisa continuasse se aproximando, acabaria sendo encontrado de qualquer jeito. Não conseguiria lidar com aquilo sozinho, então, de uma forma ou de outra, teria que contar com a ajuda de seus aliados.

Hesitou por um ou dois segundos. Assim que decidiu e começou a usar o Sneaking, começou a ouvir passos e o som de algo colidindo violentamente com as árvores e as empurrando para o lado.

— Ho, ho, ho, ho, ho! — seu perseguidor bradou.

Estava correndo. Corria em direção a ele. Será que tinha sido encontrado? Não era hora de se preocupar em agir com cautela ou usar Sneaking.

Corre. Corre. Corre, corre, corre!

Mas esta era uma floresta densa nas montanhas. O chão estava cheio de raízes de árvores, pedras salientes e musgo que cobria tudo isso, tornando fácil escorregar.

Os perseguidores se moviam de quatro, com as mãos no chão. Esse tipo de movimentação, apoiando-se nos nós dos dedos, permitia que mantivessem o equilíbrio, mesmo em terrenos ruins. Se estivessem em terreno plano, talvez a vantagem fosse menor, mas ali, ela era esmagadora.

Eles o alcançariam em instantes. Se desse as costas, estaria morto. O que fazer, então?

Virar-se e enfrentá-los. Chamar os companheiros. Resistir aos ataques do perseguidor. Ganhar tempo até que os companheiros chegassem. Era a única opção.

Quando parou, ouviu um som alto e agudo: — Funyaaaaaaow!

— Kiichi?! — gritou Haruhiro.

Um nyaa. Aquilo era a voz de um nyaa. Ele se virou.

Seu perseguidor parecia surpreso também, porque olhava para cima e para a esquerda.

Haruhiro não pensou: Esta é a chance perfeita! Ainda assim, o foco do inimigo não estava mais nele. No momento em que percebeu isso, seu corpo se moveu sozinho. Sacando o estilete e a faca com guarda-mão, ele avançou contra o perseguidor.

A criatura tinha cerca de dois metros de altura. Não estava ereta, então sua cabeça ficava a cerca de um metro e meio do chão. Mesmo assim, era enorme. Um símio. Tinha o porte de um grande macaco, mas a superfície do corpo era coberta por uma pele semelhante a um exoesqueleto de coloração marrom-escura, quase negra. Era como se estivesse usando uma armadura.

Os machos tinham cabelos espessos, parecidos com uma juba, que cresciam da parte de trás da cabeça até as costas, ficando vermelhos quando amadureciam. Esses machos, chamados de redbacks, formavam um bando com várias fêmeas e seus filhotes, vivendo em conjunto e caçando.

Guorellas. Era assim que eram chamados.

As fêmeas eram menores que os machos, mas seu perseguidor era um redback macho. Seus braços, pescoço, ombros, peito, estômago, cintura e pernas eram assustadoramente fortes. Até à primeira vista, parecia ter uma enorme quantidade de músculos. Na verdade, até mesmo uma fêmea pequena seria capaz de despedaçar uma pessoa. Os redbacks eram insanos. Tão insanos que, se Haruhiro lutasse de forma justa, não teria a menor chance de vencer.

É claro que ele estava com medo. Mas isso não era verdade para a maioria dos inimigos? Em outras palavras, as coisas não eram tão diferentes do habitual.

— Eu vou enfrentá-lo! — gritou, incentivando-se e chamando os companheiros. Então, avançou contra o redback.

O redback virou-se para ele e bradou: — Du-hoohhh!

Os braços. Ele estava balançando o braço direito. Se Haruhiro fosse atingido por um golpe daqueles, cairia com um único ataque.

Ele parou antes de entrar no alcance, como havia planejado. A mão direita da criatura passou bem diante de seus olhos. Sem tempo para descansar, o braço esquerdo também veio. Um golpe lateral. Estava esticando o braço. Se fosse atingido, seria o fim. Era por isso que precisava manter a calma.

Observe com atenção, disse a si mesmo. Desvie. Não recue. Direita. Avance e vá para a direita. Jogue-se nessa direção.

Passando raspando pelo braço esquerdo da criatura, ele foi para o lado esquerdo dela. Rolando, tentou posicionar-se atrás. Ela não deixaria. Saltou no lugar, girando rapidamente.

Sem perder o ritmo, Haruhiro mudou de direção. Quando rolou para trás, o redback foi um pouco lento.

Haruhiro atacou. Ou fingiu que ia atacar, e o redback se enrijeceu.

Mas logo percebeu que era uma finta. Que era uma ameaça sem substância. A presa não era algo a ser temido.

Percebendo isso, mostrou os dentes caninos e investiu com seriedade.

A essa altura, não havia espaço para ameaças e truques. Estava se aproximando. A uma velocidade incrível.

Haruhiro recuou. Talvez não conseguisse desviar da próxima. Mas, mesmo que fosse pouco, ele tinha conseguido ganhar tempo. Esse era o objetivo desde o começo.

— Dark, vai! — Ele ouviu a voz de uma companheira.

Imediatamente abaixou a postura. Algo passou por cima de sua cabeça. Então, uma figura humanoide, ou melhor, em forma de estrela, Dark, o elemental, colidiu com o redback.

— Ah! Fuh! — A criatura estremeceu por inteiro, e sua cabeça foi jogada para trás. Parecia que cairia, mas conseguiu se manter de pé.

Ainda assim, havia sofrido danos. Agora era a hora.

Haruhiro virou-se. Não para fugir. Precisava ganhar distância.

— Haruhiro! — um homem alto gritou. Ele usava um elmo em forma de cabeça de falcão, carregava um escudo metálico e brandia uma grande katana com uma das mãos. Enquanto avançava, gritou: — Ohhhhhhhh!

Um homem grande, cujo corpo inteiro estava coberto por tecido escarlate e índigo, além de couro, veio logo atrás. Era um homem? Bem, provavelmente tinha sido em vida, mas não era mais humano. Era um golem de carne.

— Kuzaku, Enba, conto com vocês! — gritou Haruhiro.

— Sim, senhor! — respondeu Kuzaku com entusiasmo, enquanto Enba permaneceu em silêncio.

Os dois passaram por ele.

Quando Haruhiro se virou, viu Kuzaku balançando sua grande katana, e Enba usando seu longo e espesso braço esquerdo contra o redback.

— Nurrrrraghhhhh! — gritou Kuzaku.

— Nu-hoooohhhhh! — rugiu o redback.

O redback balançou os dois braços, repelindo tanto a katana de Kuzaku quanto o braço esquerdo de Enba. Enba recuou, mas Kuzaku se manteve firme. O braço direito do redback, seguido pelo esquerdo, desferiu golpes em rápida sucessão contra Kuzaku. Ele moveu o escudo da direita para a esquerda, bloqueando cada um.

— Hah! Nuwah! Kwah!

Kuzaku estava defendendo tudo. Quando ele reforçava sua defesa assim, nada pequeno conseguia abalá-lo. Com mais de 1,90 metro de altura, mesmo com os quadris dobrados e a cintura abaixada, ele ainda parecia enorme.

Sem emitir som, Enba avançou pelo flanco do redback. Sem conseguir resistir, o redback deu um salto para trás, em diagonal.

— Hah! — Kuzaku avançou com a katana estendida e o escudo erguido.

Ele conectou um combo de Thrust com Punishment. O redback recuou. Enba parecia planejar dar a volta e atacar por trás.

Eles estavam pressionando o redback.

Não. Ainda era cedo para pensar nisso.

O redback estava encurralado contra uma árvore, ou parecia estar, mas então ele saltou. Para trás. Depois, impulsionando-se na árvore, avançou em direção a Kuzaku.

— Gah?! — Kuzaku mal conseguiu se defender do ataque surpresa do redback. No entanto, acabou sendo chutado, escudo e tudo, e foi derrubado.

Enba tentou intervir, mas o redback o afastou com um único golpe violento de seu braço. Kuzaku, percebendo que não conseguiria escapar, tentou proteger o torso com o escudo.

— Ha! — exclamou o guorella.

O guorella era tenaz e inteligente. Para evitar um ferimento fatal, Kuzaku optou por proteger a cabeça, o pescoço e o torso onde estava o coração. Não era uma escolha errada. Era a decisão certa, mas isso deixou a parte inferior de seu corpo desprotegida. O redback não perdeu a oportunidade e agarrou Kuzaku pela perna direita, jogando-o com toda sua força.

— Kuzaaaakuuuuuu! — Haruhiro gritou, sem se conter.

Kuzaku voou cerca de cinco metros antes de colidir com o tronco de uma árvore e cair no chão. Era impressionante que, mesmo depois disso, ele ainda segurava sua grande katana e o escudo.

Ele está bem, Haruhiro disse a si mesmo. Não sei se ele pode se levantar, mas enquanto estiver respirando, conseguiremos dar um jeito.

— Mary, cuide do Kuzaku!

— Certo!

— Yume! — Haruhiro gritou.

— Miau!

Nem precisava chamá-la, Haruhiro percebeu. A caçadora já estava abaixada, com suas longas tranças balançando enquanto se aproximava do redback.

Em suas mãos, ela segurava uma espada de lâmina única. Era uma katana, empunhada com as duas mãos. Yume a havia encontrado em um lugar chamado Monte das Katanas. As habilidades que conhecia eram feitas para uso com um facão, uma ferramenta originalmente projetada para partir lenha e cortar galhos. A katana não era uma arma de caçador. Contudo, as habilidades de Yume com a katana eram tão impressionantes que isso simplesmente não importava.

Primeiro, ela usou Brush Clearer, como se estivesse cortando plantas, e então conectou com Diagonal Cross. Essa combinação especial parecia ainda mais eficaz agora do que quando ela usava um facão ou a espada curva.

Quando o Redback saltou para o lado para desviar, Yume deu uma cambalhota para frente e desferiu um golpe com sua katana.

— Gah!

Raging Tiger.

Intimidado pela ofensiva ousada e determinada de Yume, o Redback recuou ainda mais. Foi aí que Enba avançou com uma voadora.

O Redback recebeu o golpe no lado esquerdo e cambaleou.

Mary estava ajudando Kuzaku a se levantar. Graças a Yume e Enba mantendo o Redback afastado, Mary pôde se concentrar no tratamento de Kuzaku sem preocupações.

— Hi-yah! — gritou Yume, enquanto Enba, em silêncio, continuava atacando o Redback.

Era o momento decisivo. Conseguiriam perfurar aquela pele semelhante a uma carapaça? O Redback se agachou, assumindo uma posição em que cobria a cabeça com os dois braços.

— Ungyah… — A katana de Yume ricocheteou.

Enba acertou outro chute voador, mas desta vez o Redback nem se mexeu. Imediatamente, ele contra-atacou. Batendo as mãos no chão, usou o impulso para investir contra Enba.

Enba não conseguiu desviar e foi derrubado. O Redback tentou montar sobre Enba, mas Yume soltou outro grito estranho e o bombardeou com ataques cortantes.

Isso não era bom. Sua pele semelhante a uma carapaça tinha desviado o ataque. O redback já não tinha mais medo da katana de Yume. Se continuasse assim, Enba estaria perdido.

Não vou deixar isso acontecer.

 

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