Capítulo 1 (Parte 2)

Os corações secretos das presas.

Haruhiro também não ficou parado o tempo todo. Guardou a faca com guarda-mão, analisou a situação do combate, apagou sua presença com Stealth e subiu em uma árvore. Não conseguiu chegar diretamente acima do redback e de Enba. Mas aquilo bastaria. Se pulasse na direção das duas horas, poderia alcançar.

Ele se lançou. A ponta de seu estilete era afiada. Normalmente mal cortava qualquer coisa, mas, com força suficiente e no ângulo certo, podia até perfurar uma armadura de placas sólida.

O redback pareceu notar Haruhiro. Tentou olhar acima de sua cabeça. Foi nesse momento que ele atacou.

Haruhiro cravou seu estilete no topo da cabeça da criatura, um pouco à esquerda do centro. Não pensou no pouso, mas acabou se agarrando ao corpo dela.

— Ngggggggggggnnnnnnnnngggggg! — O redback soltou um grito incoerente enquanto se debatia. Balançava os braços, acertando Haruhiro. Os impactos eram incríveis, mas ele não soltaria. Nem pensar.

Ele tinha sentido. O estilete de Haruhiro não apenas atravessou a pele dura do redback, mas também seu crânio. Talvez até tivesse atingido o cérebro. Segurando o cabo do estilete com ambas as mãos, ele colocou toda sua força.

— Gu-aaaaaaaahhhh!

O redback, ou estava sentindo mais dor do que podia suportar, ou tentava derrubar Haruhiro, porque começou a rolar.

— Haru-kun! — gritou Yume.

— Haru! — Essa voz não era de Mary, era de Shuro Setora. Ele não tinha tempo de olhar, mas conseguia ouvir as vozes de seus companheiros.

Ainda não. Ele ainda conseguia aguentar.

Haruhiro apertou as pernas com força ao redor do corpo do redback. Não importava quanto os chifres peludos da criatura o espetassem, ou onde acertasse sua cabeça, ombros, costas ou quadris, ele continuou girando o estilete na cabeça da criatura. Ele ia parar aquela coisa. Ou pelo menos desacelerá-la. Se pudesse fazer isso, seria suficiente. E queria que aquilo acabasse o mais rápido possível.

Se não conseguisse, estariam em sérios apuros.

 

***

 

Vale dos Mil, delimitado ao leste pelas Montanhas Kuaron, ao norte pelas Montanhas Whiterock, a oeste pelo Deserto de Nehi, e ao sul pelos Planaltos de Nargia e pelas Montanhas Rinstorm, tinha 250 quilômetros de norte a sul e 450 quilômetros de leste a oeste.

Havia vários rios principais e suas incontáveis ramificações. Esses rios se cruzavam nessa região, criando uma complexa série de vales e colinas que obstruíam o caminho dos viajantes.

No centro, havia uma área onde a névoa persistia durante todo o ano, cobrindo cerca de 100 quilômetros em todas as direções. A visibilidade era extremamente baixa, como se a própria natureza proibisse os humanos de entrar.

De acordo com uma teoria, há muito tempo, quando os deuses travaram uma batalha tão feroz que a lua azul ficou vermelha, o terreno teria sido dilacerado. Dizem que a névoa foi trazida pela maldição de um deus derrotado, que restou apenas como uma cabeça decepada.

Para encontrar a rota mais curta até Altana, bastava seguir diretamente para o sul. Depois de cruzarem os Planaltos de Nargia ou as Montanhas Rinstorm, passarem pelo antigo domínio do Reino de Arabakia, atravessarem as Planícies Bordo, que ficavam entre as Montanhas Kurogane e Dioze, e os Pântanos Cinzentos, chegariam às Planícies dos Ventos Rápidos. A partir dali, seria bem mais fácil.

Se fossem mais 300 e poucos quilômetros ao sul-sudoeste, chegariam a Altana. Pelo menos, era assim que parecia no mapa que Shuro Setora disse ter visto.

Mas havia um problema.

Ou melhor, vários.

Primeiro, era um caminho muito longo. Longo demais.

Se vamos ter que nos preparar para uma jornada de 700 a 800 quilômetros na rota mais curta, reclamar não vai adiantar muito. A distância é o que é. Teremos que aceitar.

Mas não era só a distância. Outro problema era que o antigo domínio de Arabakia, do outro lado dos Planaltos de Nargia, estava dividido entre aqueles que detinham o poder na época da Aliança dos Reis do No-Life King. Havia muitas fortalezas e grandes cidades na região.

O Vale dos Mil podia ser território inimigo para humanos, mas ainda assim não era nada comparado a outros locais. Os orcs daquele lugar, em particular, capturavam humanos à vista e os matavam sem hesitar ou fazer perguntas.

Para Haruhiro e sua party, que não conheciam o terreno, seria praticamente suicídio atravessar a área tateando às cegas, tentando entender o caminho. Havia a opção de evitar os terrenos planos e seguir pelas montanhas, onde os orcs não viviam, mas eles não poderiam seguir pelas montanhas até o sul, e, é claro, atravessar montanhas também trazia seus próprios riscos.

A rota mais curta precisava ser descartada de imediato. Se estavam com pressa, teriam que fazer um desvio. Mesmo que fosse um percurso mais longo, escolheriam o mais seguro possível.

As Montanhas Whiterock, ao norte, não eram apenas uma cordilheira massiva. Com seus picos cobertos de neve prateada que jamais derretia, abrigavam a capital do antigo Reino de Ishmal.

Esse reino, junto com as fortalezas e cidades espalhadas ao redor, compunha o chamado Undead DC; o principal reduto dos mortos-vivos.

Aparentemente, Soma e sua party estavam tramando uma invasão ao Undead DC em algum momento, mas isso significava que, se Haruhiro e sua party tentassem se aproximar da área, não sairiam impunes. Além disso, era o caminho errado, então o norte estava fora de questão.

O Deserto de Nehi tinha sido originalmente território do Reino de Nananka. A primeira vista, parecia haver apenas pedras e areia até onde os olhos alcançavam, mas, na realidade, havia oásis espalhados aqui e ali. A maioria dos oásis possuía uma cidade habitada por orcs ou outras raças alinhadas ao No-Life King. Também havia histórias sobre uma tribo humana, os Zafah, que viveriam no deserto há séculos e talvez ainda existissem.

Para Haruhiro e os outros, que não conheciam o deserto, seria insano tentar atravessá-lo. Portanto, o oeste também estava fora. Restava apenas o leste.

No início, Haruhiro chegou a considerar ir para o nordeste, contornando as Montanhas Kuaron. No entanto, aquele caminho aparentemente levava ao antigo território do Reino de Ishmal, infestado de mortos-vivos. Além disso, os wyverns viviam no norte das Montanhas Kuaron.

Os wyverns aparentemente não se alimentavam de mortos-vivos, mas Haruhiro e sua party seriam um banquete tentador para eles. Ele tinha ouvido dizer que, no passado, no Reino de Ishmal, existiam técnicas para tornar os wyverns inofensivos e domesticá-los.

Mas, segundo Setora, esse conhecimento se perdeu com a queda de Ishmal. De qualquer forma, eles tinham acabado de passar por um sufoco lutando contra uma dessas criaturas. Não havia a menor chance de quererem se aproximar do território onde elas habitavam.

Então, discutiram entre si: “E agora, o que faremos?” Foi quando Kuro, dos Typhoon Rocks, apareceu e arrastou Tsuga, o sacerdote de cabelo raspado.

— Ei, Bonzo Tsuga, vamos embora!

— Oh, claro, — Disse Tsuga. — Até mais, pessoal.

A separação entre eles foi tão abrupta que ficaram tão atordoados que se esqueceram de pedir conselhos a Kuro, que parecia mais familiarizado com a geografia. Isso foi um erro.

Agora, não tinham ideia de onde os Rocks haviam ido ou o que estavam fazendo. Se fosse possível, Haruhiro teria preferido seguir com eles. Afinal, também eram membros dos Day Breakers. A atitude dos Rocks parecia fria e distante.

Mesmo assim, considerando os problemas que poderiam surgir, talvez tê-los por perto não fosse tão vantajoso.

Com uma prece para que a névoa dissipasse, Haruhiro e os outros partiram rumo ao leste. Não demorou muito para que fossem perseguidos por membros da Forgan de Jumbo. Sem saber o que fazer, fugiram de um lado para o outro.

Em meio à fuga, chegaram a um grande rio, mas não conseguiram atravessá-lo. Para despistar os perseguidores, esconderam-se em uma caverna no fundo de um vale. Lá, foram atacados por feras desconhecidas e contraíram doenças misteriosas.

A verdade é que muita coisa aconteceu.

No fim, parecia um milagre não terem cruzado espadas com os perseguidores em momento algum. Kuzaku e Yume haviam perdido suas armas, então foi uma sorte conseguirem evitar combates. Se não estivessem no Vale dos Mil, com sua névoa densa e terreno complicado, isso não teria sido possível.

Por outro lado, o terreno dificultava tanto que até Setora se perdia às vezes, e eles não conseguiam seguir na direção desejada. Mesmo com apenas cinco quilômetros em linha reta para o destino, eram obrigados a caminhar o dobro ou o triplo da distância. Isso acontecia o tempo todo.

Ainda assim, mesmo que tivessem escolhido um destino claro, não havia garantia de que conseguiriam chegar até lá. Haviam decidido ir para o leste, mas talvez não fosse possível. O Vale dos Mil era uma terra selvagem e indomada.

A party se separou de Tsuga e Kuro no dia 15 de junho. No início de julho, chegaram a um lugar aparentemente chamado de Monte das Katanas. Segundo Setora, ficava quase ao sul da aldeia oculta, a menos de cinquenta quilômetros de distância.

Isso significava que, após dezesseis dias, haviam percorrido menos de cinquenta quilômetros. Para piorar, pretendiam ir para o leste, mas terminaram no sul…

No entanto, não haviam parado ali por acaso. O Monte das Katanas era um antigo campo de batalha, com uma enorme quantidade de corpos e equipamentos espalhados por um planalto de cerca de trinta quilômetros quadrados. Eram guerreiros que morreram antes da maldição do No-Life King começar a afetar a região, então seus corpos não se moviam.

Seja os cadáveres, seja o equipamento, quase tudo estava em estado avançado de deterioração.

Os habitantes da aldeia oculta evitavam o lugar, mas Haruhiro e sua party acharam que poderiam encontrar armas ainda utilizáveis ali. Além disso, o Monte das Katanas parecia ser um ponto de onde seria relativamente mais fácil seguir para o leste, oeste ou sul.

Era um lugar assustador de se olhar. Havia uma quantidade absurda de ossos entrelaçados por toda parte. Espadas, lanças e outras armas fincadas no chão pareciam marcar os túmulos dos guerreiros. A névoa ficou menos densa, e uma brisa úmida soprou.

Algo se mexeu ali? Haruhiro pensou, apertando os olhos para ver melhor. Mas era apenas um crânio pendurado em uma lança.

Era impossível caminhar sem pisar nos ossos.

Havia de tudo: katanas, espadas de dois gumes, lanças, machados, escudos e armaduras. No entanto, quase tudo estava enferrujado ou em péssimo estado, e muitos itens se desfaziam ao simples toque.

Não estava claro se era pela qualidade, pura coincidência ou algum outro fator, mas, em raríssimas ocasiões, havia equipamentos que, apesar de estarem sujos, não tinham se degradado. Se as katanas, que eram muito mais numerosas, fossem usadas como referência, isso ocorria em uma a cada cem… não, em uma a cada poucas centenas.

Explorando o Monte das Katanas, Haruhiro e a party encontraram uma grande e robusta katana, uma katana grossa e um pouco curta, e um grande escudo pesado. Ou melhor, eles as desenterraram da montanha de ossos.

Naturalmente, seria necessário afiá-las e repará-las. Isso deu um certo trabalho, mas colocar Kuzaku e Yume de volta em condições de lutar era algo importante.

Eles nunca esperaram que perderiam algo em troca. Nem mesmo Setora parecia ter previsto isso, então não havia o que fazer.

Ao longe, ouviu-se um grito agudo: “Gyahh!”

Era um nyaa. Eles souberam imediatamente.

Setora tinha criado centenas de nyaas na aldeia. Desses, ela havia enviado cerca de oitenta para o confronto com a Forgan, sacrificando pouco mais de dez ali, com outros dez ou mais desistindo durante a fuga após a batalha. Ainda assim, havia mais de cinquenta nyaas espalhados pela área, atuando como os olhos e ouvidos de Setora.

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