Capítulo 1 (Parte 3)
Os corações secretos das presas.
O nyaa cinzento chamado Kiichi era praticamente o único que aparecia com frequência diante de Haruhiro e dos outros, e eles nunca sabiam se os demais estavam por perto ou não.
De vez em quando, um nyaa soltava um grito, e Setora acenava com a cabeça. Quando isso acontecia, Haruhiro pensava: Oh, então eles realmente estão aqui.
Mesmo que ela não os alimentasse, os nyaas caçavam e coletavam comida por conta própria, continuando a servir sua mestra. Eles tinham sido treinados para serem mais leais do que cães, mas ainda mantinham um forte senso de independência, além de serem adoráveis.
A caminho do Monte das Katanas, os nyaas haviam reunido comida para eles. Não era exagero dizer que os nyaas eram a linha de vida da party. Sem eles, provavelmente teriam morrido de fome.
Agora, esses nyaas estavam em perigo. Naturalmente, isso significava que Haruhiro e os outros também não estavam seguros.
Quando Setora estalou a língua, uma resposta aguda de um nyaa veio da névoa.
Tch, tch, tch!
Com essa breve troca, Setora pareceu entender algo.
— Vamos nos mexer, Haru. Rápido. Vou ordenar que os nyaas se dispersem e fujam. Por enquanto, não poderemos contar com o apoio deles. Agora!
— Certo. — Haruhiro assentiu, e Setora soltou um som sibilante e agudo.
Shh, shh, shh!
Ela provavelmente deu uma ordem aos nyaas. Parecia que algo inesperado tinha acontecido. Pelo jeito que Setora agia, ele entendeu que era algo razoavelmente sério.
Mas, ao refletir sobre isso depois, Haruhiro percebeu que havia sido ingênuo.
Haruhiro e os outros deixaram imediatamente o Monte das Katanas e seguiram para o leste.
Agindo rápido, conseguiram minimizar as perdas, então pensaram que dariam um jeito de continuar.
Ou pelo menos foi o que ele pensou na hora.
Que tolo.
***
Finalmente, parou de se mexer.
É claro que parou. Provavelmente nem estava mais respirando. Muito provavelmente, estava morto.
Haruhiro estava agarrado às costas do redback caído. Seu estilete ainda estava cravado até o cabo no crânio da criatura.
Era incrivelmente pesado. Metade… não, dois terços do corpo de Haruhiro estavam presos sob ela. Além disso, os chifres peludos da criatura o estavam perfurando, causando uma dor intensa que tornava a situação insuportável.
Falando em dor, ele sentia o corpo todo latejar, a ponto de suspeitar que havia menos partes que não doíam do que as que doíam. Ele tinha realmente levado uma surra. Tinha sido jogado contra o chão e contra árvores também. Estava sangrando. Talvez tivesse quebrado um ou dois ossos.
— Aguenta… — murmurou.
Estou impressionado por ainda estar vivo.
Ele quase sentiu uma onda de alívio, mas…
Não, não, não, espera, espera, espera, ainda não, ainda não, ele se alertou.
O redback. Será que essa coisa estava realmente morta? Com a mão ainda segurando o cabo do estilete, ele sentiu o pescoço da criatura. Estava tentando encontrar um pulso, mas não sabia direito como fazer isso. Na verdade, não fazia ideia. Para começar, era possível verificar o pulso de um guorella da mesma forma que o de um humano? Ele tinha aquela pele escamosa também. Parecia que talvez não fosse possível. O corpo todo da criatura estava relaxado, com certeza. E era absurdamente pesado. Viva ou morta, ela pesava muito mais que um humano, então o peso não era um indicador confiável.
Oh, claro. É óbvio que parecia pesada.
Está pesada. Não consigo respirar. Isso dói. Ah, não…
— Haru! — Mary gritou. — Pessoal, ajudem ele!
Sua salvadora chegou. Com um grunhido, Kuzaku levantou o redback, e nesse espaço que se abriu, Yume puxou Haruhiro debaixo da criatura.
— Miau! — exclamou Yume.
Mary estava agachada ao lado dele, com uma expressão incrédula no rosto. Parecia prestes a dizer algo como “Por favor!” ou “De novo?!”
Ela estava brava, talvez? Ele queria se defender. Não tinha feito nada muito imprudente. Achou que conseguiria resolver. Havia uma necessidade de acabar com aquilo rapidamente, também.
…Desculpa. Haruhiro pediu desculpas em pensamento. Por enquanto, ficaria quieto.
Mary fez o sinal do hexagrama sobre a testa.
— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você! Sacrament!
Shihoru se agarrava ao seu cajado, olhando ao redor com inquietação. Setora estava fazendo Enba executar alguma tarefa para ela, e parecia irritada.
A luz os envolveu. Era ofuscante. Haruhiro fechou os olhos.
***
Pouco depois de seguirem para o leste, saindo do Monte das Katanas, descobriram que foram os guorellas que mataram o nyaa de Setora.
— Que péssima sorte — disse Setora, com um tom de desagrado. — De todas as coisas, tivemos que ser alvos de um bando de guorellas. Eles podem ser incrivelmente persistentes. Não vão desistir de nós tão fácil.
Setora fez todos os outros nyaas fugirem, mas manteve Kiichi por perto. Ela dizia que Kiichi era o mais esperto, leal, cuidadoso e capaz de todos os seus nyaas. Ele também era respeitado pelos outros.
Assim que as coisas se acalmassem, ela mandaria Kiichi procurar pelos outros nyaas. Mas logo chegaram à conclusão de que as coisas dificilmente se acalmariam.
No dia seguinte à saída do Monte das Katanas, viram um guorella pela primeira vez, à distância. Era pequeno, e não conseguiam ver chifres peludos nele, o que aparentemente significava que era uma fêmea. Ela estava olhando na direção deles. Em outras palavras, tinham sido encontrados.
A fêmea começou a fazer sons explosivos: “Po, po, po, po, po, po, po.” Mesmo sem conhecer a ecologia dos guorellas, não era difícil adivinhar que aquilo era um alerta, ou um relatório, ou algum tipo de sinal.
Se um certo pedaço de lixo estivesse por perto, talvez tivesse sugerido interceptar e atacar. No entanto, aquele sujeito não era mais seu companheiro, e, segundo Setora, bandos de guorellas normalmente consistiam em cerca de vinte membros.
Havia apenas um dos assustadores redbacks por bando, mas as fêmeas ainda eram muito mais fortes que um humano, e os jovens machos eram travessos e agressivos.
Sempre que os habitantes da aldeia oculta eram forçados a expulsar um bando de guorellas, uma equipe composta por dezenas de samurais de elite, necromantes e espiões onmitsu era enviada para a tarefa.
Haruhiro e a party fugiram às pressas. Continuaram caminhando mesmo depois que anoiteceu e, pouco antes do amanhecer, quando acharam que era seguro parar e descansar, foram emboscados por um grupo de jovens guorellas machos.
Conseguiram matar um, mas os outros fugiram. Mesmo assim, era seguro assumir que ainda havia guorellas de olho neles. Isso significava que, mesmo que lutassem, não conseguiriam vencer. Suas opções eram correr ou se esconder.
Haruhiro não queria lembrar como tinham sido os dias que se seguiram.
Era doloroso demais.
***
Haruhiro abriu os olhos. Mary estava olhando para ele. Não, talvez não fosse bem olhando—sua expressão era assustadora.
Ele pensou: Provavelmente vou levar outra bronca.
Parecia que Mary ia dizer algo, e Haruhiro se preparou para isso.
— Se terminou, saia do caminho. — Setora empurrou Mary para o lado.
— Ah! — Mary quase caiu.
Como Setora podia fazer isso? Dessa vez, ele tinha motivo para reclamar. Mesmo que não tivesse sido com ele, aquilo o deixou irritado. Mary devia estar ainda mais furiosa.
Apesar disso, Mary abaixou o olhar, respirou fundo e, por alguma razão, disse: — Me desculpe — para Setora.
— Contanto que entenda. — Setora se agachou bem na frente de Haruhiro. Com um ar de superioridade.
Sim, era típico dela. Setora sempre tinha essa atitude arrogante. Agia como se ele lhe devesse algo, falava de forma cortante e não tinha quase nenhuma compaixão ou consideração pelos outros.
Haruhiro estava prestes a dar uma resposta atravessada, mas Setora estendeu as mãos e segurou a parte de trás da cabeça dele.
— Você está bem?
— …Sim. Hm… Quer dizer, a Mary me curou. Estou sem ferimentos.
— Mesmo que seus ferimentos tenham desaparecido, isso não significa que você voltou ao que era antes deles. — Setora inclinou levemente a cabeça para o lado.
Ela está meio perto. Muito perto. O rosto dela está a menos de quinze centímetros. Doze, treze talvez. Isso não é perto demais?
Se ele desviasse o olhar, não dava para saber o que ela poderia fazer. Mas olhar diretamente para ela a essa distância era… constrangedor.
De qualquer forma, os olhos dela eram muito grandes. Os olhos de Setora. Era um pouco tarde para notar, mas eram tão grandes que pareciam que iam saltar para fora. Ela também tinha olheiras. Seria por cansaço? Parecia que essas olheiras já estavam lá desde o início.
Huh? Ela se parece com alguém.
Quem seria?
— Haru. — Seus lábios atrevidos se moveram, pronunciando o nome dele.
Ele não tinha perguntado diretamente, mas Setora provavelmente tinha a mesma idade que Haruhiro, talvez um pouco mais nova. Porém, desde que se conheceram, ela agia como se fosse mais velha.
Setora era assim com todos. Sua postura autoritária parecia estar enraizada nela.
— …O-O quê?
— Você é meu amante.
Mary tossiu.
Haruhiro quase olhou na direção dela, mas isso poderia irritar Setora, então se conteve. Não, espera! Ele não era amante dela; apenas estava fingindo até que Setora se cansasse disso.
Ele devia isso a Setora. Ela tinha ajudado. Haviam concordado que Haruhiro deixaria que ela removesse seu olho esquerdo e o levasse. Ele tinha aceitado isso. Também não tinha escolha além de fingir ser seu amante.
Se Setora perguntasse: “Você é meu amante, não é?” Haruhiro não teria outra opção a não ser responder: “Sim, exatamente.” No entanto, se fosse para responder se ele realmente era seu amante, a resposta seria um não categórico.
Era só uma atuação, como uma brincadeira de criança. Será que Setora entendia isso? Com certeza, sim.
Você vai agir como se fosse meu amante.
Foi isso que ela exigiu de Haruhiro. Eles tinham acabado de se conhecer, então seria totalmente inacreditável, mas, se ela tivesse sentido algo mais do que curiosidade em relação a Haruhiro, algo semelhante a sentimentos românticos, então as palavras: “seja meu amante” teriam sido suficientes.
Ou seja, aquilo era só uma forma dela brincar com ele.
— Haru — disse Setora. — Estou preocupada com você.
Mesmo ela dizendo isso com a maior seriedade, Haruhiro teve dificuldade em responder.
— …O-Obrigado…? — conseguiu dizer, com muito esforço.
Setora riu e bagunçou o cabelo dele com as duas mãos.
— Você é realmente um homem estranho, sabia? Mas é isso que eu gosto em você.
— E-Eu… Entendi.
— Sim. Eu não suportaria se você morresse.
Naquele momento, ele teve uma vontade enorme de provocá-la. Ah, qual é, do que você está falando, Setora-san? Quase disse isso. Mas, se dissesse, provavelmente levaria um tapa. Então, não disse. Nem podia.
— …É, eu também não quero morrer, sabe?
— Você confia nos seus companheiros e age com alguma chance de vitória — disse Setora. — É isso que você quer dizer, não é?
— Bem, é…
— Mas, aos meus olhos, pareceu apenas uma aposta perigosa. Você não valoriza a si mesmo o suficiente. Por isso consegue se colocar em risco tão facilmente. Essa é a sua força, mas também sua fraqueza. Você entende isso?
Ele entendia muito bem, na verdade. Shihoru e Mary já haviam apontado isso também. Mas nunca imaginou que Setora, de todas as pessoas, diria algo assim.
Honestamente, era inesperado. Inesperado que ela fosse tão gentil e pensasse no que era melhor para ele.
— Se você morresse… — Setora olhou para Mary, Shihoru, Yume e Kuzaku. — O que aconteceria com essa equipe? Eles podem ser úteis até certo ponto e bons em algumas coisas, mas, no fundo, são bem pouco confiáveis. Não conseguem se virar sem você.
— Bem… — murmurou Kuzaku. — Ela meio que tem razão. Sério.
— Se o Haru-kun não estivesse aqui, hein… — Yume murmurou.
— Não quero nem imaginar isso… — concordou Shihoru.
Mary permaneceu em silêncio, mas o que será que ela pensava?
Setora ergueu uma sobrancelha, claramente exasperada.
— Vejam só como são patéticos — disse ela, com um suspiro. — Estão completamente dependentes de você. Se você está pensando no que é melhor para eles, você é a única pessoa que não pode morrer. Se alguém deve ser sacrificado, você deveria ser o último da fila.
— Eu não consigo fazer isso — ele respondeu imediatamente, sem pensar. — Em vez de morrer e deixar que eles sejam aniquilados, o certo é continuar vivo e, como líder, garantir que ninguém morra. É isso que você está tentando me dizer. Eu sei disso na teoria, mas, quando me vejo naquela situação, provavelmente vou colocar a vida de todos os outros antes da minha.
— Mesmo que isso esteja errado?
— Eu quero tomar as decisões certas, tanto quanto possível. Mas só consigo viver como eu mesmo. Não posso me transformar em outra pessoa. Posso dizer aos meus companheiros: “Esse sou eu, mas ainda quero que confiem em mim, se puderem.” Mas fingir ser alguém que não sou para ganhar a confiança deles? Isso não parece injusto? Afinal, estamos confiando nossas vidas uns aos outros, que são mais importantes do que qualquer coisa. Não quero mentir para meus companheiros. Eu não consigo.
— Estou com inveja — disse Setora.
— Whuh?
— Quero roubá-lo para mim agora mesmo.
— O quê…?
Foi um ataque surpresa. Setora puxou Haruhiro de repente para perto dela.
Felizmente, ou infelizmente, foi na testa. Setora pressionou os lábios contra a testa de Haruhiro, emitindo um som característico de beijo. Seus lábios eram frios, mas macios.
Mary tossiu novamente.
Será que ela está resfriada? Haruhiro se perguntou. Espere, Setora-san! O que está fazendo? Todo mundo está olhando, sabia…
Haruhiro pode não estar em posição de recusar, mas, pelo menos, não queria que seus companheiros vissem aquilo. Dizer para ela fazer isso quando estivessem sozinhos parecia errado também. Poderia causar mal-entendidos, talvez? Era isso que o incomodava?
Em algum lugar, Kiichi, o nyaa, miou.
— Faremos o resto depois — Setora disse, empurrando Haruhiro gentilmente e se levantando.
O que ela queria dizer com “o resto”? Ele não queria saber, mas, se ela insistisse, ele não teria escolha a não ser aceitar… certo?
Haruhiro se levantou e olhou ao redor. Se os guorellas não os estivessem perseguindo, o que poderia ter acontecido?
Eles continuaram correndo, e os guorellas seguiram incansavelmente Haruhiro e a party. Após horas, talvez metade de um dia, sem sentirem a presença deles, quando finalmente Haruhiro achava que estava tudo bem, os guorellas os emboscavam ou gritavam para assustá-los.
Não eram apenas teimosos. As fêmeas eram comparativamente mais cautelosas e não atacavam com facilidade. Os que continuavam avançando contra eles eram os jovens machos, cheios de vigor. As fêmeas primeiro chamavam os outros, e eles só haviam visto o redback algumas vezes antes disso.
— …Miau? — Yume inclinou a cabeça para o lado.
— Por quê…? — sussurrou Shihoru.
— Huh? — Kuzaku, com o escudo preso nas costas e apenas sua grande katana em mãos, perguntou. — O que foi?
Mary levou um dedo aos lábios enquanto olhava para o redback morto.
— O redback…
— Ah! — Haruhiro arregalou os olhos. Era isso. O redback. — Esse cara não era o líder do bando?
— Ele deveria ser, mas… — Setora calou-se.
To, to, to, to, to, to, to, to to, to, to…
Esse som. Haruhiro já o ouvira várias vezes.
— Isso é… Uma batida de tambor?
Os guorellas batiam no peito com ambas as mãos, como se estivessem tocando tambores. Era um comportamento observado apenas nos machos. Acreditava-se que faziam isso para intimidar e, quando começava a batucada entre dois machos, uma luta estava prestes a acontecer. No entanto, os jovens machos do bando normalmente eram controlados pelo redback, por isso não faziam isso com frequência. Normalmente, só o redback batucava.
Era isso que Setora havia explicado antes. Mas o redback estava ali, morto.
— Ficar pensando nisso não vai nos levar a lugar algum. — Setora deu um tapa nas costas de Haruhiro, depois rapidamente pulou nos ombros de Enba. — Eu disse, eles podem ser bizarramente persistentes. Vamos, Enba.