Capítulo 1

Saudade de casa por pouco tempo

Tradutor: João Mhx

Nick, um soldado do Exército da Fronteira, estava de guarda na torre de vigia do portão norte de Altana desde as dez horas da noite anterior. Ele estava no que se chama de turno da noite, que durava até o primeiro sino tocar às seis horas da manhã do dia seguinte.

A torre de vigia do portão norte não tinha telhado. Com vinte e sete anos de idade, Nick tinha altura e peso medianos, mas as paredes moderadamente altas da torre de vigia chegavam apenas até seu peito. Ele olhava para elas, com os olhos monitorando cautelosamente a área fora da barreira que protegia Altana. Ele estava quase totalmente exposto ao vento. Era um vento frio que o deixava sentindo um frio terrível. Além disso, com o amanhecer se aproximando, uma névoa espessa pairava sobre a área.

“Não tive sorte nenhuma”, murmurou Nick, esfregando o rosto com as mãos enluvadas. Ele estava ao lado da fogueira de vigia para se aquecer, mas seu nariz estava escorrendo muito há algum tempo.

“Por que tem que estar tão frio? E a neblina também torna impossível enxergar…”

“Pare de reclamar”, disse seu colega de trabalho Chad, um homem da mesma idade que ele, com uma risada. “Logo vai amanhecer, e estaremos dispensados logo em seguida. Você pode aguentar um pouco mais, não pode?”

Nick lançou um olhar de lado ressentido para o amigo do qual ele parecia nunca conseguir se livrar.

“Ei, Chad.”

“Sim?” Chad tomou um longo gole de sua garrafa de água de couro.

“O que foi, Nick?”

“Eu estava pensando em algo.”

“Sim?” Chad respondeu com um generoso encolher de ombros.

“Sobre o quê? Diga logo, cara.”

“Sobre aquela garrafa de água”, disse Nick, pegando-a assim que as palavras saíram de sua boca.

“Ah! Ei, seu idiota!” Chad tentou apressadamente pegá-la de volta.

“Oh, cale a boca. Quem você está chamando de idiota, seu idiota?” Nick rebateu, bloqueando as mãos de Chad com um braço enquanto cheirava o conteúdo de sua garrafa. O cheiro era fraco, mas ele sentiu algo.

“Eu sabia. Bebida.”

“Não, não é…”, disse Chad em pânico, antes de adotar um tom mais persuasivo.

“Não seja bobo, Nick, amigo, você entendeu tudo errado. Não é bebida. De jeito nenhum. É claro que não é. Quero dizer, se fosse, eu ficaria bêbado, certo? Não é? Se eu estivesse bebendo a noite toda enquanto estava de guarda, acabaria totalmente bêbado. Eu pareço bêbado para você? Não pareço, não é?”

“Saberei com certeza quando eu mesmo tomar um gole.”

“Ah, não sei se é isso. Talvez você não devesse? Quero dizer, eu coloquei meus lábios na garrafa e tudo mais. Não que isso me incomode se você quiser ir em frente com isso. Mas você é do tipo que dá muita importância a essas coisas, não é?”

Nick não deixou que isso o impedisse de tomar um gole.

“A-sim… Essa é uma merda bem diluída. Não tem muito, mas está lá. Com certeza. Isso tem álcool. Sem dúvida.”

“Tudo bem”, disse Chad, colocando uma mão no ombro de Nick.

“Sim, sim, sim, você me pegou. Foi isso que aconteceu.”

“Ah? Está tentando partir para a ofensiva agora?”

“Apenas me escute. Eu admito, Nick. Como você disse, misturei um pouco de álcool na minha água. Mas só um pouco.

Tão pouco que mal dá para perceber que ele está lá. A quantidade perfeita, na verdade. Se isso não afetar meu trabalho, qual é o problema, estou certo?”

“Você acha mesmo que o Comandante Jin Mogis deixaria isso passar?”

“Não estou falando com o comandante, estou falando com você. Então, deixe-me inverter a pergunta. Está frio, certo? E estamos em serviço noturno. À noite. É por isso que se chama serviço noturno. É difícil, não é? Claro que é. Sim, vou misturar um pouco de álcool em minha água. É o mínimo que posso fazer. Seria mais louco se não o fizesse. Está me entendendo? Nick, amigo, você é que está um pouco louco aqui. O que estou fazendo é totalmente sensato.”

“Mas que diabos? Agora tenho um cara louco me dizendo que sou louco? O que é isso? Chad, amigo, para o que você acha que servem o bom senso e os regulamentos?”

“Estou lhe dizendo, está tudo bem.” Chad pegou a garrafa de Nick e deu um gole antes de piscar para ele.

“Totalmente bem, amigo. Não precisa se preocupar. Vamos lá. Pense nisso. Nosso Exército da Fronteira e aqueles soldados voluntários arrogantes acabaram de massacrar o inimigo em Monte da Tristeza, certo? Se você realmente usasse um pouco de bom senso, perceberia que não há nenhum inimigo por aqui. De jeito nenhum. Em tempos como esse, podemos nos dar ao luxo de afrouxar um pouco os regulamentos. É certo? Somos apenas humanos. Vamos com calma e tranquilidade, certo?”

“Mas, cara, há goblins em Damuro, não há?”

“Eles não virão nos atacar. Por que você acha que o comandante fez uma aliança com eles? Para domar aqueles macaquinhos bárbaros de merda, não?”

“E você confia neles? Eles não têm escrúpulos. Eles comeriam você sem pensar duas vezes; comeriam os da própria espécie também, enquanto fazem isso.”

“Sim, sim.” Chad começou a massagear os ombros de Nick.

“Esse é o problema. Que ideia, forjar uma aliança com criaturas como essas. É uma loucura, não é? Absolutamente insano, assim é o nosso comandante. Ouvi dizer que ele também está nos alimentando secretamente com carne de goblin.”

“Hã…? Como é?”

“É só um boato, mas…” Chad baixou o tom de voz.

“Um cara de plantão no refeitório olhou dentro de um dos barris na despensa e havia um goblin, todo fatiado em conserva e salmoura…”

Nick cobriu a boca, sentindo um súbito ataque de náusea.

“Você está falando sério…?”

“Como eu disse, cara, é só um boato”, disse Chad com uma risada, entregando a garrafa a Nick. Nick aceitou a garrafa, tomando apenas um gole da água que tinha um leve sabor de álcool.

“Mas… conhecendo o comandante, ele pode muito bem fazer isso. Quero dizer, é claro, temos pessoal recolhendo o gado que estava sendo mantido nos vilarejos mais distantes e procurando outras coisas que possamos comer. A questão é se isso é suficiente…”

“Dizem que o comandante tem um estoque de suprimentos escondido. E há rumores de que estamos recebendo remessas regulares do continente para nos reabastecer.”

“O continente, hein?” Nick devolveu a garrafa ao seu colega de guarda, cruzando os braços enquanto olhava para a distância. Um leve suspiro escapou de seus lábios.

“Gostaria de poder voltar”, disse ele.

“Mas mesmo que pudesse, já cortei os laços com meus pais e não tenho outra maneira de ganhar a vida. Não há nada que eu possa fazer a respeito…”

“Isso é no norte, Nick. O continente fica para o outro lado”, disse Chad com uma risada, sacudindo a garrafa para verificar o quanto ainda restava.

Nick fungou.

“Eu sei disso. Só estou sendo atencioso com meus deveres. Levar uma surra do nosso oficial superior por ter feito besteira é uma coisa, mas não quero ser executado pelo comandante.”

“Sim, você tem razão…” Chad olhou para fora da parede.

“Ele pode, de repente, começar a limpar as fileiras para impor disciplina. Eu não o deixaria de lado… Oh. A névoa…”

“Sim.” Nick olhou para a área ao redor de Altana enquanto a névoa se dissipava.

“Está se dissipando…”

Então, quando estava olhando quase diretamente para baixo, Nick parou.

Ele agarrou o braço de Chad.

“Ei.”

“Hmm?”

“Tem alguém lá. Na frente do portão”, disse Nick, semicerrando os olhos. Chad ficou na ponta dos pés e se inclinou sobre o muro da altura do peito.

“Ah, sim…?”

O chão ainda estava enevoado. Alguém estava parado em frente ao portão norte, e ele podia ver bem o suficiente para dizer que era humano, mas não conseguia distinguir seu rosto. Era um homem, no entanto. Barbudo. O cara parecia imundo. Nick fez uma careta.

“Um cachorro…?”

O homem não estava sozinho. Ele tinha uma criatura com ele, de quatro patas e parecida com um cachorro. Mas será que era mesmo um cachorro? Ele parecia muito bem constituído.

O homem barbudo olhou para cima. Provavelmente para Nick. Ele acenou com a mão. “Chad!” Nick gritou, e Chad pegou a besta que estava encostada na parede na altura do peito.

“O que vamos fazer, Nick? Devo atirar nele?!”

Chad parecia pronto para puxar o gatilho a qualquer momento. Seus ombros estavam pesados. Suas narinas se dilataram. Ao ver seu colega todo animado, a cabeça de Nick esfriou rapidamente.

“Espere um pouco. O cara parece humano.”

Chad respirou fundo.

“Parece mesmo.”

“Quem vai lá?!” Nick gritou para o homem barbudo.

“O que você está fazendo?!”

“Esperando o portão abrir”, respondeu o homem com uma voz terrivelmente calma.

“Sou Itsukushima. Eu fazia parte da guilda de caçadores de Altana. Não sei qual é a situação aqui, mas gostaria que você me levasse a alguém em posição de autoridade.”

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