Capítulo 10: Para o Futuro

Tradutor: João Mhx

As criaturas negras virão e engolirão o mundo.

Fique esperando nas profundezas mais ocultas até que as criaturas negras partam.

Um novo amanhecer nos espera após a calamidade trazida pelos seres da escuridão.

Essa era a profecia de um futuro terrível, prevista pelo primeiro sábio ugoth, Togorogo, o melhor exemplar da raça goblin, um vidente insuperável até hoje.

O dever do mogado, o rei dos goblins, não era apenas proteger sua raça, permitir sua prosperidade e repassar sua autoridade para a próxima geração. Eles também tinham que se preparar para a calamidade que Togorogo previu em suas visões.

Togorogo serviu ao décimo antecessor do atual mogado. Aquele mogado deu ouvidos ao seu aviso e começou a escavar Ohdongo, o Vale Mais Profundo. Seria o local para onde evacuariam quando a calamidade chegasse. Com o tempo, Togorogo morreu. O quinto antecessor do mogado finalmente terminou de cavar Ohdongo, alojando os ugoths lá com todos os tesouros de sua raça em preparação para aquele dia.

Devemos evitar uma situação em que tudo o que resta de nossa raça depois que a calamidade passa é o pouco que conseguimos esconder no Vale Mais Profundo. Esse foi o pensamento do quinto antecessor do mogado. Nem todos nós sobreviveremos à calamidade. Será necessário tomar decisões sobre quem deve sobreviver.

Mogado Gwagajin estava na parte mais profunda de Ohdongo, sem sequer conseguir dormir. Os tesouros de seu povo estavam expostos aqui, com os assentos dos ugoths em volta de seu próprio trono e um desenho colorido representando a profecia de Togorogo esculpido na parede.

O quinto antecessor do mogado, que havia ampliado o poço vertical de Ohdongo para acrescentar um poço horizontal com oito salas, chamou essa sala, a mais profunda de todas, de Sala da Profecia. Não havia como chegar a ela sem passar pelas portas de ferro na base do poço vertical e atravessar todas as outras salas.

Em uma ocasião, o mogado que veio antes de Gwagajin enlouqueceu, acreditando que a calamidade estava sobre eles, e se fechou na Sala da Profecia. Quando, algum tempo depois, saiu sozinho, começou a delirar dizendo que a sala da profecia estava amaldiçoada. Não era. Embora a porta estivesse fechada, a Sala da Profecia estava completamente selada, de modo que o rei simplesmente estava lutando para respirar.

“Há veneno no ar que nós, goblins, exalamos, e ficar em um lugar cheio desse veneno fará com que você se afogue como se estivesse debaixo d’água.”

Aquele rei tolo não acreditou em seus ugoths quando eles lhe apresentaram esse fato, mas Gwagajin era diferente. Quando subiu ao trono, ele imediatamente seguiu o conselho deles e instalou passagens laterais entre os oito cômodos, bem como tanques de ar. Eles aprenderam que o fogo também produzia o veneno, então iniciaram um programa de cruzamento para produzir os vermes voadores que emitiam luz, que se tornaram sua principal fonte de iluminação.

Agora havia inúmeros vermes de luz voando pela Sala da Profecia, compartilhando seu brilho com Gwagajin, suas cinco esposas que estavam encolhidas no canto, os dezesseis jovens príncipes e os ugoths.

Gwagajin nunca havia pensado que o dia em que esses preparativos seriam necessários chegaria durante seu reinado. Mas não havia definido uma data para a chegada das criaturas negras. Poderia ter sido em sua época. Poderia ser no tempo do próximo rei, ou daqui cinco reis. Talvez até dez.

 

Se for esse o caso, então, em vez de se preparar para o dia da profecia, não seria melhor expandir-se corajosamente para o mundo exterior?

 

Se expandissem além de Damuro, enfrentariam problemas que precisariam ser resolvidos primeiro. De fato, nada além de problemas.

Por um lado, como regra geral, nossa vida é muito curta.

Mesmo aqueles de linhagem real, como Gwagajin, estavam se saindo bem se vivessem mais de trinta e cem dias. A maioria dos goblins estaria fraco demais para se manter de pé quando atingisse dez centenas de dias. Os ugoths tinham uma vida tão longa que alguns conseguiam passar dos 40 centésimos de dias, mas somente porque esses goblins altamente inteligentes eram escolhidos, mantidos sem treino, bem alimentados e cuidadosamente protegidos. A variedade maior de goblin, os hobs – nascidos em raras ocasiões – podem viver tanto quanto a realeza, mas aprendem lentamente e são incrivelmente estúpidos.

É claro que precisamos nos tornar mais sábios, mas se a maioria de nós espera viver apenas dez vezes mais dias, eles não poderão aprender muito, e o que aprenderem será perdido quando morrerem.

Gwagajin reconheceu que eles eram inferiores aos humanos e orcs. Quando se tornou mogado, ele chegou à conclusão de que o maior motivo para isso era a curta duração de suas vidas.

Gwagajin sentou-se silenciosamente em seu trono na Sala da Profecia. Os ugoths que o cercavam também ficaram de boca fechada. Suas esposas e os príncipes sussurravam uns para os outros ocasionalmente, mas, na maioria das vezes, ficavam calados. Isso porque era importante que eles expirassem o mínimo possível de veneno enquanto esperavam na Sala da Profecia que a calamidade passasse por eles.

Quando receberam a notícia de que as criaturas negras haviam entrado em Damuro, Gwagajin hesitou em evacuar para Ohdongo. Será que ele, o mogado, deveria estar fugindo para a Sala da Profecia enquanto seu povo estava em pânico porque a calamidade que eles temiam há muito tempo estava acontecendo agora? Contra os avisos de seus ugoths, Gwagajin havia tentado deter a invasão das criaturas negras.

Tudo havia sido em vão. Ele tinha que admitir isso agora.

Não havia mais como saber a hora, mas Gwagajin havia resistido em Ahsvasin, o Céu Mais Alto, por seis dias e seis noites. Entretanto, quando as criaturas negras estavam finalmente prestes a chegar a Ohdongo, ele foi forçado a tomar uma decisão.

Gwagajin desceu correndo as escadas que corriam ao longo das paredes do Vale Profundo com sua comitiva. Antes mesmo de chegarem ao fundo, as criaturas negras já estavam começando a descer pelas paredes. Ele nunca esqueceria a visão das criaturas negras chovendo sobre eles. Ele gritou, sem vergonha ou preocupação com as aparências.

Ele havia enviado suas esposas e os príncipes para Ohdongo dias antes, e os ugoths mais importantes estavam reunidos na Sala da Profecia.

Gwagajin se lembrou do momento em que as portas da Sala da Profecia foram fechadas com força. Ele estava sentado em seu trono, cercado de ugoths e tesouros, dolorosamente ciente de que, mesmo com todas as suas esposas e príncipes ao seu redor, ele não era mais um rei.

Gwagajin se arrependeu disso desde então.

Talvez ele nunca devesse ter se mudado de Ahsvasin. Se apenas a morte o aguardava, então o Céu Mais Alto era onde um rei deveria encontrá-la.

Desde que se tornara mogado – não, mesmo antes disso -, os ugoths eram os únicos com quem ele conseguia ter uma conversa decente. Quando Gwagajin falava com eles sobre sua crença de que eles também deveriam se tornar uma raça de vida longa, eles ofereciam refutações mornas. Alguns até o advertiram de que a classe privilegiada jamais aceitaria isso e que ele poderia enfrentar uma rebelião de seus companheiros da realeza.

Mas o que a realeza já havia feito? Viveram mais do que os outros e passaram esse tempo em busca de seus próprios prazeres? Os membros da realeza se reproduziam uns com os outros, enquanto desprezavam os membros de vida mais curta de sua raça como se estivessem abaixo deles, mergulhando em lutas pelo poder, comida gourmet e indulgência sexual. Eles faziam com que os de vida mais curta se matassem uns aos outros, sem ver o canibalismo que praticavam como algo errado. Eles não eram os piores de sua própria espécie?

E Gwagajin veio da mesma linhagem real.

“É o canibalismo”, murmurou Gwagajin para si mesmo.

Todos os ugoths baixaram a cabeça. Alguns deles tinham os olhos voltados para cima, ainda olhando para o mogado.

As portas da Sala da Profecia estavam rangendo sob uma grande pressão do lado de fora. Já fazia algum tempo que elas estavam rangendo. Primeiro, os ugoths e, depois, suas esposas e príncipes fizeram barulho, mas agora ninguém ligava para isso. Talvez tivessem se acostumado com o terror.

“Os reis e os ugoths não comem os seus próprios. Certo? São os de vida curta que comem uns aos outros. A realeza é descendente daqueles que pararam de praticar o canibalismo há muito tempo. Meus ugoths, pedi que pesquisassem as causas de morte de nosso povo. Para os que têm vida curta, primeiro eles começam a temer a noite. Depois, seus membros definham e eles começam a falar coisas sem sentido. Sua fala fica arrastada, eles andam com dificuldade, ficam acamados e param de respirar. Essa é a morte típica de uma pessoa de vida curta. Sim? Mas é raro que um membro da realeza ou um ugoth morra assim, não é? Até onde sei, houve apenas um caso. Meu tio, o antigo mogado, Bodojin. Bodojin tinha um comportamento excêntrico, xingando todos ao seu redor, agarrando-se ao trono e sujando-se enquanto espumava pela boca. Meus ugoths, vocês devem saber. Bodojin tinha o péssimo hábito de matar e comer os que tinham vida curta. Ele estava secretamente praticando canibalismo. Não deveríamos ter interrompido essa prática como a primeira coisa que fizemos?”

Gwagajin usava uma armadura do tesouro, com a coroa na cabeça e o cetro real na mão. Isso sem falar em todos os outros acessórios brilhantes que ele conseguia arranjar. Mas ele queria poder jogar todos eles fora. Não era isso que Gwagajin queria.

“Deveríamos ter proibido o canibalismo. Poderíamos ter encontrado uma solução para a crise de alimentos que resultaria disso. Eu sabia que deveríamos ter saído pelo mundo. Éramos muito tímidos. Sim, a profecia estava certa. Togorogo era um vidente genuíno. Mas não tivemos nenhum vidente desde então. Na época de Togorogo, até mesmo os ugoths praticavam o canibalismo. Se não tivessem feito isso, Togorogo poderia ter vivido ainda mais. Ele poderia ter visto mais do futuro e nos mostrado o caminho. Se os de vida curta podem viver tanto quanto os membros da realeza quando não comem uns aos outros, então poderíamos ter produzido muitos indivíduos inteligentes e poderosos a partir de suas fileiras. Teríamos sido mais fortes e sábios por isso, tenho certeza. Sem o canibalismo, nossas mulheres não precisariam temer que os filhos que geraram e criaram pudessem ser comidos. Elas não precisariam produzir e jogar fora tantas crias descartáveis. Poderíamos ter aprendido a valorizar cada um de nossa espécie. Não é suficiente para mim, Gwagajin real, pensar essas coisas por conta própria. Nossas vidas são muito curtas para cultivar plenamente essas ideias e passá-las adiante. Precisávamos acabar com o canibalismo. Por que não vi isso antes? Digam-me, meus ugoths. Eu, Gwagajin real, era um tolo? Tolo demais para perceber?”

Os ugoths reunidos baixaram a cabeça e choraram. Suas esposas e os príncipes mais velhos choraram. Os príncipes mais jovens estavam desanimados.

Os vermes da luz, que provavelmente tinham vivido por dezenas de centenas de dias, voaram rapidamente pela Sala da Profecia.

Agora não eram apenas as portas. O piso de ladrilhos da sala, a parede que exibia a visão de Togorogo da calamidade, os pilares e vigas robustos que sustentavam o teto – não, toda a Sala da Profecia estava tremendo.

“Não há amanhã para nós?”

Gwagajin não conseguiu conter um soluço.

“Onde foi que erramos? O que são as criaturas negras? O que está prestes a nos destruir? Meus ugoths, eu lhes peço, me digam. Eu, Gwagajin real, fui um tolo? Se a culpa é somente minha, então que Gwagajin pereça sozinho. Qual é a necessidade de destruir todos nós? Não nos elimine. Ó escuridão, ó calamidade, por favor, não nos mate a todos. Vamos parar com o canibalismo. Nosso povo pode se tornar mais sábio, mais forte! Uma vez, o No-Life King nos pegou pela mão, segurou-nos junto ao peito e nos disse para nos erguermos com ele – disse-nos que podíamos. Sim. Podemos nos defender. Não somos bárbaros. No mínimo, não estamos dispostos a suportar que outros nos chamem de selvagens e nos desprezem. Podemos seguir em frente. Se tivermos um futuro, podemos caminhar. Ó calamidade, não nos destrua. Dê-nos uma chance, por favor…”

A porta que havia sido fechada com força e barrada várias vezes estava se abrindo.

Gwagajin levantou-se do trono. A armadura, o colar, os brincos, os braceletes e outros tesouros que haviam sido armazenados na Sala da Profecia – e que Gwagajin agora usava – supostamente continham poderes especiais em seu interior. Alguns foram encontrados em vários lugares de Altana. Outros eram tesouros que haviam recebido do comércio com os humanos no passado. Muitos foram trazidos por aventureiros de lugares desconhecidos. Não seria esse o momento de usar seus poderes ocultos?

“Não podemos nos apagar!”

Oh, a porta estava se abrindo.

As criaturas entrariam correndo na Sala da Profecia.

Gwagajin ergueu seu cetro.

“Ó tesouros, dêem-me seu poder!”

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