Capítulo 3 (Parte 1)
Mantendo a Proximidade
— Haru-kun! — gritou Yume. — O Kuzakkun tá aqui!
— Hã?! Onde?!
— Aqui! Por aqui! Por aqui, Haru-kun!
A voz de Yume vinha de onde o rio corria. Haruhiro avançou afastando-se bastante da margem, aproveitando a força da correnteza para meio que nadar rio abaixo.
Ele não foi a um ponto onde seus pés não pudessem tocar o chão. Se fosse arrastado pela correnteza, estaria encrencado. Não era um nadador particularmente bom, então poderia acabar se afogando.
Estava escuro como breu, mas, com o reflexo da lua e das estrelas na água, ele conseguia distinguir mais ou menos os contornos das coisas. No entanto, não dava para ver até a margem.
— Shihoru?! Mary?!
— Sim, estou ouvindo! — a voz de Mary respondeu.
— Estou indo até você também! — gritou Shihoru. — Você está bem, Haruhiro-kun?! Tome cuidado!
— Obrigado, Shihoru! — Haruhiro respondeu enquanto se apressava rio abaixo.
Ainda assim, ele se perguntou: será que havia criaturas perigosas vivendo nesse rio? Isso de repente começou a incomodá-lo, mas não era o momento para pensar nisso.
Ele viu. Havia uma pessoa nas águas rasas arrastando algo grande. Provavelmente era Yume, e ela estava arrastando Kuzaku. Ele estaria inconsciente?
— Yume, vou ajudar! Estou indo! — gritou Haruhiro.
— Miau!
Haruhiro foi em direção às águas rasas. No caminho, pisou em uma pedra grande no fundo do rio, perdeu o equilíbrio e acabou engolindo um pouco de água, mas, de alguma forma, conseguiu chegar até Yume.
Yume segurava Kuzaku pelo braço direito, gemendo enquanto o puxava.
Haruhiro pegou o braço esquerdo dele.
— Kuzaku, você ainda está vivo, não está?! Só está inconsciente, certo?! Kuzaku! Kuzaku!
Enquanto chamavam pelo companheiro, Haruhiro e Yume o arrastaram até a margem do rio. Mary e Shihoru gritavam algo enquanto corriam na direção deles.
Kuzaku ainda estava com o elmo. A primeira coisa que Haruhiro fez foi removê-lo.
— Kuzaku! Kuzaku! Kuzaku! — ele gritava enquanto tirava o escudo e a grande katana amarrados nas costas dele. Yume ajudou também.
Haruhiro procurou a boca de Kuzaku. Sua mandíbula estava mole.
— Kuzakkun, ele tá respirando, Haru-kun?!
— Não tá!
Haruhiro colocou os dedos no pulso de Kuzaku. Nada de pulsação.
Isso não pode ser real, ele pensou. Calma, ainda é cedo pra dizer.
— A armadura dele! Tá no caminho! Me ajuda a tirar!
— T-Tá bom!
Enquanto tiravam a armadura, Mary e Shihoru chegaram. Ele sentiu que uma delas perguntou: — Como ele tá?!
Haruhiro não respondeu. Deitou Kuzaku de costas, pressionando o peito dele com a palma da mão. Fez isso de novo, e de novo, em um ritmo rápido.
— Faça isso umas trinta vezes! — Mary orientou, então ele parou. Colocou a mão direita na testa de Kuzaku e usou a esquerda para erguer o queixo dele.
Como era mesmo? Certo. Garantir as vias aéreas. Isso deve estar certo. Agora, apertar o nariz e—
— Sopre no nariz dele duas vezes! — gritou Mary. — Depois comprima o peito de novo!
Seguindo as instruções de Mary, Haruhiro cobriu a boca de Kuzaku com a sua. Soprou o mais forte que pôde. Quando soltou os dedos do nariz de Kuzaku, parecia que ele tinha soltado um ar. Mas provavelmente era só o ar que ele tinha soprado saindo. Repetiu o mesmo procedimento e, depois, comprimiu o peito. Trinta vezes.
— Se você cansar, Yume assume!
— Ainda tô bem!
Respiração artificial. Compressões no peito. Respiração artificial. Compressões no peito.
Kuzaku. Volte. Volte pra gente. Kuzaku. Você é forte. No começo, achei você meio inútil, mas você pensou no que precisava fazer e cresceu. Você superou isso. Se não fosse forte, não conseguiria. Kuzaku. Você é forte. Não vai morrer por causa de um pequeno afogamento. Acorde, Kuzaku. Volte. Kuzaku.
— Kuzaku…!
Blugh! Kuzaku tossiu alguma coisa. Parecia água.
Bom. Bom, bom, bom!
— Virem ele de lado! — gritou Mary, virando a cabeça de Kuzaku para a direita. — Com licença, Haru!
— Certo! Estou contando com você, Mary!
— Deixe comigo! — Mary fez o sinal do hexagrama e pressionou a mão no peito de Kuzaku. — Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você! Sacrament!
Haruhiro sentou-se, estreitando os olhos enquanto observava a luz transbordante se espalhar.
— Kuzakkun! — Yume pulava alegremente de um lado para o outro.
Shihoru colocou as mãos nos ombros de Haruhiro. Estava tremendo. Parecia querer dizer algo, mas não conseguia encontrar palavras. Haruhiro repousou sua mão direita sobre a esquerda dela.
Droga, percebeu. Isso foi por pouco. Eu não achava que ele fosse morrer, mas… acho que vou acabar chorando.
Haruhiro, Yume, Enba e Kiichi tiveram sorte de sair praticamente ilesos ao saltar daquele penhasco íngreme, mas Mary, Shihoru e Setora sofreram fraturas, contusões severas e outros ferimentos graves.
Ainda bem que Mary fazia parte da party. Todos conseguiram chegar à margem e receber tratamento com magia de luz. Exceto Kuzaku.
Ele deve ter se afogado ou se ferido ao bater em algo depois de cair na água, porque não conseguiu nadar até a margem. Setora, Enba e Kiichi haviam ido verificar se os guorellas não estavam atrás deles, enquanto Yume e Haruhiro procuravam pelo rio, e Mary e Shihoru, pela margem. Se o encontrassem mais tarde, quem sabe o que teria acontecido.
Depois que Yume o arrastou para a margem, Kuzaku estava em parada cardiorrespiratória, com a traqueia e os pulmões cheios de água. Não estava morto ainda, mas, se o curassem com Sacrament nesse estado, ele só voltaria a sofrer em agonia. Por isso, realizaram RCP e aguardaram até que ele expelisse a água para então usar a magia de luz.
Não foi uma decisão completamente lógica. Haruhiro tinha perdido a cabeça, mas, de alguma forma, por pouco, conseguiu fazer a escolha certa.
Conseguimos não deixá-lo morrer. A visão de Haruhiro logo ficou turva com as lágrimas. Não dá. Não consigo mais segurar. Bem, qual o problema?
Ele não estava mais tentando conter as lágrimas, então elas fluíam livremente. Talvez, quando quisesse chorar, o melhor fosse deixar sair assim. Além disso, como estava escuro, não precisava se preocupar com sua cara lamentável de choro sendo vista.
— Haruhiro-kun… — Shihoru encostou o rosto na cabeça de Haruhiro.
Shihoru não estava chorando. Coisas pequenas não a faziam chorar mais. Ela devia estar tentando apoiar Haruhiro.
Haruhiro enxugou as lágrimas com a mão direita e então disse: — Obrigado — em um tom baixo.
Shihoru balançou a cabeça.
— Oh! Huh?! — Kuzaku sentou-se de repente, arrancando exclamações de surpresa de Mary e Yume.
— Ei! — gritou Setora. — Encontraram aquele vara-pau?!
Com o som da voz dela, Shihoru afastou-se rapidamente de Haruhiro.
Do outro lado do leito do rio, a margem oposta tinha uma encosta menos íngreme, coberta por árvores densas. Setora e Enba vinham daquela direção.
— Sim, conseguimos — respondeu Haruhiro, esfregando o rosto com as duas mãos enquanto se levantava. — E do lado de vocês?
Heh!
Hoh, hoh!
Hah, hah, hah!
Hoh, hoh, hoh, hoh!
Antes que Setora pudesse responder, os guorellas começaram a gritar. Mas pareciam estar bem longe. Provavelmente ainda estavam no topo do penhasco de onde Haruhiro e o resto da party haviam saltado.
— Por enquanto, parece que não vieram para este lado — disse Setora, gesticulando com o queixo na direção da margem oposta. — Duvido muito que consigam descer aquele penhasco. Se derem a volta, podem atravessar o rio, mas, mesmo que façam isso, levarão tempo.
— Acho que está na hora de irmos — disse Haruhiro.
— De fato — concordou Setora. — Se aquele vara-pau não morreu, partiremos imediatamente.
— …Escuta. Você fica chamando ele de ‘vara-pau’, mas ele tem um nome. É Kuzaku.
— Só lembro de nomes que têm significado para mim. Se insistir, farei um esforço para lembrar o dele, mas quero uma recompensa em troca.
— Recompensa?
— Certamente pode pensar em algo. Um carinho amoroso ou talvez um beijo. Nunca experimentei, mas dizem que são coisas boas, não?
— Eu… eu não saberia dizer. Bem, seja como for, esqueça isso por enquanto. Sinto um pouco de pena do Kuzaku, mas pode continuar chamando ele de “vara-pau”.
— Entediante — disse Setora.
Foi um alívio ela não estar forçando Haruhiro a fazer aquilo.
Eles ajudaram Kuzaku a se recompor e espremeram o máximo de água possível de suas roupas encharcadas. Não havia tempo para deixá-las secar completamente.
Haruhiro e o resto da party seguiram em frente. Sua guia, como sempre, era Setora, que estava sentada nos ombros de Enba. Ocasionalmente, ouviam os miados de Kiichi. Setora havia enviado Kiichi à frente e agora decidia para onde ir com base nos relatórios do animal.
Em algum momento, os sons dos guorellas desapareceram completamente. A party deveria estar exausta, mas parecia que as coisas estavam mais fáceis agora do que antes de pularem do penhasco. Isso provavelmente se devia à ausência de perseguidores.
Não, ainda era cedo para ter certeza. Os guorellas eram realmente persistentes. Eles atravessariam o rio, mesmo que precisassem fazer um desvio. Era melhor assumir isso. Se imaginassem o pior cenário possível, não ficariam chocados, deprimidos ou desesperados quando as coisas dessem errado.