Capítulo 3 (Parte 1)

Jesus Novamente

— Eu consigo continuar. — Kuzaku estava murmurando isso para si mesmo há algum tempo. — Eu consigo continuar. Eu consigo. Eu consigo continuar. Ainda consigo.

Enquanto repetia essas palavras, ele enfiou sua grande katana na boca de um guorella. Quando a ponta da espada atravessou a parte de trás da cabeça da criatura, Kuzaku a empurrou. Empurrou com força, derrubando-a. Em vez de puxar a katana para fora, ele girou o punho e deslizou a lâmina para o lado.

A grande katana saiu pela bochecha direita do guorella. Enquanto continuava murmurando, “Eu consigo continuar,” Kuzaku pisou na criatura caída e golpeou outro guorella que estava próximo.

— Eu consigo continuar. Ainda consigo. Eu consigo continuar. Eu consigo continuar, eu ainda consigo, ainda…

Ele estava ofegante fazia tempo. Kuzaku não se movia rápido. Na verdade, parecia estar indo lentamente.

Urgh… Sua cabeça inclinou-se para trás enquanto ele preparava mais um golpe com a grande katana.

Ngh…! Ele desceu a lâmina.

Não poderia ter sido um golpe mais amplo. Como um golpe assim poderia acertar? Como poderia romper tão facilmente a pele dura como uma carapaça que cobria os guorellas?

Ele arfava dolorosamente, sem dúvida tomado pela agonia, mas, entre aqueles suspiros ofegantes, ele sussurrava: — Eu consigo continuar. Eu consigo. Ainda consigo. Eu consigo. Eu consigo continuar. Eu consigo. Ainda…

Kuzaku não parava. Sua grande katana parecia ter vontade própria, buscando inimigos, como se puxasse Kuzaku junto com ela.

Ele estava tão exausto que não conseguia se conter ou se firmar. Parecia mais que a katana o balançava do que ele a manuseava.

Não, isso não era verdade. Não era isso.

Normalmente, paladinos eram cautelosos ao atacar. Em termos extremos, eles não usavam o corpo todo ao golpear, apenas os braços.

Se avançassem ao máximo, usando o corpo todo no ataque, o impacto seria maior, mas isso inevitavelmente abriria brechas e comprometeria a defesa. Por isso, os paladinos protegiam-se com seus escudos e atacavam com cortes e estocadas rápidas, cobrindo seus companheiros. Se a oportunidade perfeita não surgisse, eles não desferiam um golpe de força total. Essa era a forma sólida de combate de um paladino.

Mas esse não era o Kuzaku naquele momento.

Ele não só estava usando os braços, como também colocava o corpo inteiro em cada golpe, sem exceção, de forma desesperada, ignorando completamente sua própria segurança.

— Eu ainda… guh… consigo continuar…!

Kuzaku cortou outro guorella na diagonal. Era surpreendente, para dizer o mínimo. Sua grande katana traçou uma linha reta do ombro esquerdo até o quadril direito do guorella, dividindo-o ao meio.

Aquela criatura havia hesitado e tentado recuar um instante antes de ser atingida. Kuzaku a acertou com perfeição, partindo-a.

— Eu consigo… continuar… gah! Ainda! Eu consigo… hah! Eu consigo continuar…!

Os guorellas não estavam fugindo aterrorizados de Kuzaku, mas hesitavam em se aproximar. Ele estava dominando-os sozinho.

Mas aquilo não duraria. Não poderia durar.

— Oohrahh…! — Kuzaku arqueou para trás, levantando a grande katana com ambas as mãos.

E então ele parou.

Ele já havia ultrapassado seus limites há muito tempo. Lutou além do que era humanamente possível, alcançando um ponto que ninguém mais poderia atingir. Agora, suas pernas estavam vacilando. Não havia nada além disso. Apenas a queda. E se ele caísse, não sobreviveria.

 

※   ※   ※

 

Haruhiro já havia se preparado mentalmente para o dia em que as coisas terminariam assim. Mas como estava seu corpo? Honestamente, ele não sabia. Com toda a força que conseguia reunir, Haruhiro correu.

Até onde conseguiria ir?

Não era só Kuzaku. Todos—Haruhiro, Yume, Shihoru e Setora, que defendia Shihoru com um cajado que nem era dela—estavam dando o melhor de si. Ele tentou avançar, mas não conseguiu de imediato. Suas armas pareciam absurdamente pesadas, e sua visão estava estranhamente limitada. Sua mente também não funcionava direito. Provavelmente, era o mesmo para todos. Eles estavam usando cada gota de energia que tinham. Estavam realmente se esforçando ao máximo.

Haruhiro suspeitava que qualquer pensamento que tivesse nesse estado estaria errado. Ele acreditava que entendia a situação, mas talvez não fosse bem assim. Nada era certo. Talvez realmente não houvesse mais nada que pudesse fazer.

Ainda assim, Haruhiro correu. Ele não podia parar.

Os guorellas tentavam cercar Kuzaku. Haruhiro se lançou sobre ele. De alguma forma, ele conseguiu. Puxando Kuzaku com todas as forças, gritou: — Shihoru!

Dark, grite!

Shihoru invocou o elemental Dark. Dark emitiu um som oscilante e de outro mundo, algo como: shuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvuvu, enquanto voava.

Enquanto os guorellas hesitavam, Haruhiro precisava tirar Kuzaku dali. Mas para onde? Ele não sabia. Ainda assim, tinham que ir.

— Haru-kun! — Yume o ajudou.

Oh…

— Haru! — Setora também.

Mesmo com os três, ele era pesado. Kuzaku era um cara grande e, ao contrário dos outros, usava uma armadura pesada. Até o elmo cobria completamente sua cabeça. Era impressionante que ele pudesse lutar assim com todo esse equipamento.

Por fim, Haruhiro, Yume e Setora carregaram Kuzaku até próximo à porta da prisão.

— Espalhe-se! — Shihoru ordenou.

Da porta, Shihoru balançou seu cajado. Dark, que voava intimidando os guorellas com seus sons sobrenaturais, explodiu, se espalhando rapidamente.

Dark assumiu a forma de névoa. Dark Mist.

Para os guorellas, aquele som bizarro, seguido pela cegueira da névoa negra, era demais. Haruhiro não conseguia vê-los através da névoa, mas parecia que estavam correndo em confusão. Se pudessem, ele queria que continuassem assim.

Claro, isso era pedir o impossível. Shihoru não poderia manter o Dark Mist para sempre. Ou melhor, ela não aguentaria por muito tempo.

Kuzaku estava sentado no chão, com as costas contra a parede da prisão. Talvez fosse mais correto dizer que eles o haviam colocado ali. Sem o apoio de Haruhiro e os outros, Kuzaku certamente desabaria. Mesmo assim, ele segurava sua grande katana como se tivesse se fundido ao seu braço, sem fazer menção de largá-la.

— …Eu ainda consigo continuar. Ainda… ainda… consigo… — Kuzaku murmurava de dentro do elmo.

— Ainda consigo continuar. — Ele repetia as palavras que Haruhiro havia dito antes.

Está tudo bem, você já fez o suficiente, Haruhiro queria dizer.

Mas ele não conseguia.

Se dissesse isso, no exato momento em que o fizesse, Kuzaku se desligaria deles, e talvez nunca mais voltasse. Aquilo poderia cortar o fio que o mantinha junto à party.

Haruhiro estava com medo. Medo de chamá-lo. Medo de deixá-lo sozinho. Até mesmo naquele instante, Kuzaku poderia estar prestes a partir. Se fosse o caso, ele precisava trazê-lo de volta.

— Kuzakkun…! — Em momentos como esse, a determinação de Yume fazia toda a diferença.

Quando Yume chamou seu nome e sacudiu seu ombro, Kuzaku respirou fundo, assustado, e então tentou se levantar de surpresa.

Haruhiro ficou boquiaberto. Você está brincando comigo. Você consegue se levantar? Não, mais do que isso, consegue sequer se mover?

Parecia que ficar de pé era demais para ele, mas Kuzaku levantou a viseira com a mão esquerda e olhou ao redor.

— …Haruhiro. Todos… Hã? Onde está a Mary-san?

— Está lá atrás, descansando.

Quem tinha dito isso? Haruhiro pensou. Quem havia falado?

Logo percebeu que fora ele. Apesar das palavras terem saído de forma reflexiva, ele se surpreendeu consigo mesmo por conseguir ser tão direto.

Haruhiro sentia-se envergonhado, mas também pensava: Está tudo bem assim. O fato era que ela estava descansando. Não era uma mentira… ou ao menos ele tentava se convencer disso. Talvez fosse apenas o que queria acreditar.

Yume olhou para dentro da prisão pela porta. Então, com um rápido olhar para o cajado que Setora carregava, voltou-se para Haruhiro.

Haruhiro desviou o olhar.

— Entendi… — Kuzaku assentiu repetidamente.

— Foooooooo, fooooooooo, foooooooooo!

Eles ouviram uma voz vinda da névoa negra. Estava bem perto. Não, estava muito perto.

Estava vindo?

Era aquele?

Quando um guorella macho amadurecia, os chifres peludos que cobriam densamente desde a parte de trás de sua cabeça até as costas, como uma juba, ficavam vermelhos. Normalmente, um bando de guorellas girava em torno de um desses poderosos redbacks, junto com várias fêmeas que eram suas companheiras e seus filhotes. Contudo, o bando que perseguiu a party de Haruhiro até ali, e que agora atacava Jessie Land, era diferente. Havia vários redbacks e um número assustadoramente grande de membros.

Seria um redback excepcionalmente grande e poderoso liderando vários bandos? Essa era a hipótese de Haruhiro. De fato, havia um redback excepcionalmente grande nesse bando, mas Kuzaku o havia derrubado.

Mesmo com aquele enorme redback morto, os guorellas não haviam se desestabilizado e continuavam a causar estragos. Aquele grande guorella não era o líder desse bando excepcional.

Provavelmente, era esse.

Um dos redbacks atravessou a cortina de névoa negra e apareceu. Não foi coincidência que seus olhos encontraram os de Haruhiro. Estava olhando diretamente para ele. Como se o estivesse procurando e finalmente o tivesse encontrado.

À pele semelhante a uma carapaça que cobria seu rosto se enrugou. Sorriu?

Outro sorriso.

Não havia dúvidas. Era o redback sorridente. Esse era o líder do bando.

Haruhiro tentou gritar para alertar os outros.

— Todo mun—Whuh…

O redback deu meia-volta. Desapareceu na névoa negra, e Haruhiro não conseguia mais vê-lo. Ele ficou paralisado. O que tinha sido aquilo agora?

— Fooooooo, fooooooooooo, foooooooooooooo!

Aquela voz voltou a ecoar na névoa negra.

— Ho!

— Heh!

— Hoh! Hoh!

— Heh, heh, heh!

— Ho! Ho! Ho! Ho!

Os guorellas começaram a gritar, e aquilo reverberou ao redor.

Oh. Então é assim que é.

Sentindo-se envergonhado por sua lerdeza, Haruhiro percebeu. Ele tinha vindo confirmar a localização deles por si mesmo. Depois, ao invés de atacá-los pessoalmente, estava ordenando que seus companheiros guorellas fizessem o trabalho.

Então? Ele se perguntou. E agora?

Não há tempo a perder. Tenho que fazer algo. Qualquer coisa.

Mas o quê? Há algo que eu possa fazer? Não consigo ver nada.

— Ninguém morra! — gritou Haruhiro.

Essas palavras não eram uma ordem. Nem mesmo um encorajamento. Eram apenas o desejo de Haruhiro. Um com poucas chances de se tornar realidade.

— Dispersar! — Shihoru girou seu cajado. A névoa negra que estava espalhada se dissipou. Shihoru não perdeu tempo antes de invocar Dark novamente. — Se matarmos aquele redback…!

— …Certo! — Kuzaku tentou se levantar usando sua grande katana como apoio.

Quando parecia que não conseguiria, Yume o ajudou. — Miau!

— Você está me deixando impressionada… — disse Setora, sarcasticamente, enquanto preparava o cajado de Mary.

Aos seus pés estava Kiichi, que havia chegado ali em algum momento, com as costas arqueadas e os pelos eriçados. Era como se dissesse que estava pronto para lutar junto com sua mestra.

A névoa negra já havia desaparecido, e Haruhiro podia ver os guorellas claramente. Dois redback—não, três. Mais de dez machos jovens. Havia guorellas fêmeas atrás deles e também nos telhados das casas. Ele não via o redback sorridente.

Estou bastante calmo, refletiu Haruhiro.

— Gahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! — gritou Kuzaku, provavelmente tentando se animar, enquanto avançava.

Seus passos eram pesados e lentos. Com as duas mãos no cabo, ele arrastava sua grande katana atrás de si. A ponta deixava um rastro fino no chão.

De repente, a ponta voou para cima.

Sua grande katana desenhou um rastro como um relâmpago.

O braço direito do redback bem à sua frente caiu no chão, junto com sua cabeça.

Kuzaku quase tropeçou para frente depois disso. Ele conseguiu cravar os pés no chão a tempo, evitando a queda, e sua cabeça pendeu para baixo. Com os ombros caídos, soltou um suspiro profundo.

— Ufa…

Havia um jovem macho prestes a atacar Kuzaku. Haruhiro agarrou-o de frente. Mesmo sendo um macho jovem, que ainda não tinha ficado vermelho, sua juba de chifres peludos era dura e afiada, perfurando o corpo de Haruhiro.

Como se isso importasse. Haruhiro cravou seu estilete no olho esquerdo do jovem macho. Ele se contorceu. Haruhiro puxou o estilete e o enfiou de novo, repetidas vezes.

— Boooooooooooooooohhhhhhhhh! — o jovem macho gritou.

Ele tentou agarrar a cabeça de Haruhiro com a mão direita, enquanto a esquerda segurava seu lado esquerdo, tentando afastá-lo.

Tudo o que Haruhiro podia fazer era torcer o estilete. Ele o apunhalou várias vezes, tentando desferir um golpe fatal.

Morra, morra, morra. Por favor, morra logo.

A mão do jovem macho—não, seu corpo inteiro—ficou mole. Ele desabou no chão. Antes disso, Haruhiro conseguiu se afastar, mas não teve tempo para respirar.

— Haru! — gritou Setora.

Atrás dele, à esquerda. Outro guorella estava prestes a atacá-lo. Um redback, pelo visto.

— Vai! — gritou Shihoru.

Se Shihoru não tivesse enviado Dark no momento exato, Haruhiro talvez tivesse sido derrubado pelo redback e eliminado em instantes.

Dark atingiu o ombro esquerdo do redback. Ele estremeceu. Sangue escorreu dos olhos e do nariz da criatura. Ela cambaleou. Contudo, ainda não estava morta e poderia se recuperar.

Haruhiro correu até o redback e cravou seu estilete no olho direito, até o cabo.

Ainda não. Um golpe só não era suficiente. Ele precisava garantir que o mataria de vez. E era isso que faria.

— Gahhhh! — Kuzaku foi lançado para longe. Quando Haruhiro olhou, lá estava ele.

O redback sorridente.

Ele não estava ali antes. Mas agora estava de volta?

Parecia que Kuzaku tinha recebido um chute voador do redback sorridente.

Ele se virou para Haruhiro. Haruhiro achou que ele fosse sorrir, mas não. O redback bateu as mãos no chão. Então, dobrando as pernas, apoiou-se nos braços para balançar o corpo como um pêndulo e… lançou-se contra Haruhiro.

Haruhiro saltou desesperadamente para o lado.

Rolou e se levantou.

Tinha desviado? Se não tivesse, provavelmente estaria morto agora.

E o redback sorridente? Onde estava? Ele não podia se dar ao luxo de procurá-lo.

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