Capítulo 3 (Parte 2)
Mantendo a Proximidade
Haruhiro, pelo menos, precisava estar preparado. Os guorellas viriam. Sem dúvida, eles viriam. Era uma certeza.
— Setora — ele chamou.
— O quê?
— Você nos salvou.
— Não se preocupe com isso. Foi para meu próprio benefício também. Além disso, por mais que eu tenha sentimentos mistos sobre o resto, eu não vou deixar você morrer.
Sempre que ela dizia algo assim, Haruhiro não sabia como responder, e seu cérebro travava.
— É… Bem… Isso é, hum… É… Eu também não quero morrer…
— Eu adoraria começar logo a fazer um bebê com você.
— …Ah… É… Ér… P-pega leve comigo…
— No entanto, embora eu acredite saber como isso é feito, será que será tão simples? Nós dois somos iniciantes, então acho que podemos ter dificuldades.
— Ohhh… — Kuzaku disse, como se tivesse se lembrado de algo.
— V-você tem experiência nisso? — perguntou Shihoru.
— Não, não mesmo — respondeu Kuzaku. — Ah. Mas eu não sei ao certo, né? Sobre o que aconteceu antes de eu vir para Grimgar. Huh? Mas, pensando bem, isso vale para todos nós, certo? Então, isso significa que Haruhiro também não pode ter certeza sobre ele mesmo.
— Tenho certeza. — Haruhiro respondeu. — Não, eu nunca fiz isso, ou algo parecido.
— Você é alto, afinal — comentou Shihoru. — Aposto que você era popular, Kuzaku-kun.
— Não, não, Shihoru-san — Kuzaku apressou-se a responder. — Minha altura vai além de ser grande, sabe? É o tipo de coisa que, na verdade, afasta as pessoas.
— Agora que você falou nisso — começou Yume —, quando Yume tá conversando com o Kuzakkun, ela tá sempre olhando pra cima, então o pescoço dela sempre doíííí meio que um pouquinho, sabe?
— É, eu entendo, Yume-san — respondeu Kuzaku. — É assim mesmo. Eu não sei bem ao certo, mas sinto que sempre me diziam isso. Acho que sou uns dez centímetros mais alto do que deveria ser. Mas, bem, quanto mais alto, melhor quando se é um paladino, então talvez esteja tudo bem…?
— Kuzakkun! — Ouviu-se um som que provavelmente era Yume dando um tapa nas costas dele. — Você é um verdadeiro, brilhante padalin! Você é tão incrível!
— V-você acha? É paladino, tá bom? Quero dizer, eu caí no rio e quase me afoguei…
— Por causa da armadura pesada — Shihoru apressou-se a tranquilizá-lo.
— Tá vendo? Eu não planejei isso. Sou meio burro com essas coisas. Será que não tenho cabeça pra isso? Provavelmente não.
— Hmph. — Setora resmungou.
Mary continuava em silêncio. Será que ela não estava se sentindo bem? Haviam feito ela usar muita magia de cura, então talvez estivesse cansada. Haruhiro queria falar com ela, mas isso poderia desagradar Setora, então ele não podia. Mas por que mostrar preocupação com Mary deixaria Setora irritada?
Oh, agora entendi.
Provavelmente Setora suspeitava que Haruhiro estava pensando muito em Mary. Que, talvez, ele tivesse um interesse por ela. Então era isso.
Bem, ela estava certa sobre isso.
Claro, era algo unilateral, sem chance de se desenvolver, apenas uma afeição que ele não podia colocar em prática. O próprio Haruhiro sabia bem disso. Eles eram companheiros, afinal. Nada mais, nada menos. Mary havia dito isso claramente.
Além disso, Mary e Haruhiro não combinavam. O que Mary achava dele? Ele se sentia estúpido só de pensar nisso. Nada, certo? Era por isso que eles eram companheiros, não era?
Parecia que ela o respeitava como líder, e ele era grato por isso. Ela também fazia muito para cuidar dele, o que o deixava ainda mais grato. Ele realmente tinha muito pelo que agradecer.
Obrigado. Obrigado. Obrigado…
Não, isso não é o suficiente.
Ele estava claramente distraído. Isso não era bom. Ele era o líder, afinal.
Primeiro, os guorellas ainda podiam estar atrás deles. Ele precisava manter-se alerta. E, segundo, havia a possibilidade de encontrarem outra criatura tão aterrorizante quanto os guorellas.
O destino final dessa jornada era Altana. Mas Altana estava longe demais. O mar. Sim, o mar. Ele queria alcançar o mar.
Se conseguissem chegar à cidade livre de Vele, Vele e Altana tinham relações comerciais. Se havia frotas mercantes indo e vindo, devia haver uma rota segura. Eles iriam para Vele e, de lá, seguiriam pelo mar. Para isso, precisavam avançar passo a passo.
Por enquanto, ele estava bem. A adrenalina o mantinha animado, e seu corpo ainda se movia. Mas, se achasse que podia continuar assim indefinidamente, estava enganado. Se não descansasse, em algum momento, e não demoraria muito, ele desabaria.
Eles também precisavam de comida. Kiichi conseguia fornecer o suficiente para Setora, mas Haruhiro e os outros estavam por conta própria. Havia uma montanha de tarefas a serem feitas.
Deveriam encontrar um lugar para descansar e procurar algo para comer? A maioria das feras perigosas era noturna, e era difícil avaliar a situação ao redor no escuro. Se fossem descansar, seria melhor esperar pelo amanhecer? Conseguiriam aguentar até lá?
A luz tênue fazia com que vissem coisas na escuridão que não existiam.
Havia algo lá longe.
Ali.
E ali também.
Ack! Alguém gritou. Não, era o som de um pássaro noturno. Só podia ser isso.
O som de algo se aproximando por trás era apenas o vento soprando pelas folhas?
É um milagre ainda estarmos vivos.
Quando pensava nisso, Haruhiro sentia que já deveriam ter morrido várias vezes. Mas agora não era hora de olhar para o passado. Ele precisava se concentrar apenas no que estava à frente.
Não, isso também não era bom. Precisava prestar atenção no que estava atrás, nos lados, acima e até abaixo.
Por que precisavam fazer tanto para sobreviver?
A vida valia tanto assim?
Ele estava exausto. Tudo parecia tão pesado. Se fosse para morrer, que morresse. Qual era o problema?
Será que eu realmente quero voltar para Altana? Não é nem minha terra natal. O que deveria estar lá para mim?
Ele não queria pensar nisso, e, pelo menos por enquanto, não deveria. Mas não conseguia evitar.
Enquanto refletia, respirou fundo e estreitou os olhos. Aguçou os ouvidos. Levantou os pés. Tentou seguir em frente.
Ele estava se movendo. Mas para onde?
Ei, Manato, Moguzo, me digam. Estar vivo é tão bom assim? Como estão as coisas onde vocês estão? Será que viver era melhor, no fim das contas?
Talvez vocês nem estejam em lugar nenhum. É por isso que tentamos viver? Porque, ao morrer, não há nada? Porque temos medo de deixar ir?
Mas, ainda assim. Se não houver nada, não saberemos disso, então não haverá arrependimentos. Não será assustador. Não sentiremos nada. Nesse caso, está tudo bem, certo?
Não é triste, solitário ou angustiante. De certa forma, é pacífico, dá para dizer. Honestamente, quando estamos vivos, o tempo é mais difícil do que não.
Às vezes, eu quero ser libertado disso. Claro, há momentos de felicidade e diversão. Mas a felicidade e a sorte duram apenas instantes. Quando passam, mesmo que eu me lembre, é só algo como: “Ah, é, aquilo aconteceu, né?”. A dor da perda, eu lembro com muito mais clareza.
Se vocês dois ainda estivessem vivos, como as coisas seriam? Quando penso nisso, até hoje, sinto um aperto no peito.
Se me perguntassem se eu quero sobreviver a qualquer custo, seria difícil dar uma resposta imediata. Eu realmente não sei.
No entanto, eu não quero que nossos companheiros morram. Quero que eles vivam. Isso, eu sinto do fundo do coração. Sendo assim, eu não posso morrer tão facilmente.
Nossos companheiros devem sentir o mesmo. Eu me lembro de quando perdemos vocês dois, de como foi perder um companheiro.
Não quero fazer todos passarem por isso.
No fim, não estou vivendo apenas por mim. Se esta vida fosse só minha, já teria me libertado há muito tempo. É bem difícil, afinal de contas. Estou tendo uma vida incrivelmente difícil. Se estivesse sozinho, faria isso.
Mas, porque não estou sozinho, consigo viver. Penso: “Vou continuar vivendo. Não quero morrer ainda. Quero seguir em frente.”
Todos são como pequenas e insignificantes luzes brilhando em uma escuridão insondável e infinitamente vasta. Essas luzes insignificantes encontram umas às outras e se juntam. Elas brilham umas para as outras, se aquecem, até que, eventualmente, o fim chega, e tudo termina.
Esse momento pode estar distante. Pode ser daqui a um ano. Pode ser amanhã. Pode ser até hoje. Mas, seja o tempo que resta longo ou curto, as luzes se atraem e cintilam.
Elas simplesmente se abraçam e brilham.
Estava um pouco mais claro agora. Os pássaros cantavam suavemente.
A temperatura não deveria estar muito baixa, mas, como seu casaco ainda não tinha secado direito, sua pele sentia um leve frio.
Havia uma fina névoa no ar, lembrando-lhe do Vale dos Mil. Ele nunca queria entrar naquela região nebulosa novamente. Era incrível como as pessoas da aldeia oculta conseguiam suportar viver lá.
Estava se sentindo zonzo. Uh, oh. Precisava se recompor. Mas seria difícil.
Seu corpo estava tão pesado que não conseguia evitar. Estava enjoado. Porém, se tentasse vomitar, provavelmente não conseguiria. Nada sairia.
Se aquele idiota estivesse aqui, ele provavelmente se sentaria e começaria a fazer um escândalo, sem dúvida.
— Ugh, não consigo mais andar. Isso é uma piada. Você acha que posso aguentar isso? Eu não posso!
— Se ainda tem forças para gritar tão alto, ainda consegue andar, certo? — Haruhiro diria.
— Dá um tempo, Parupirorin. Tenho apetite separado para gritar!
— Isso não é algo que você come, sabe.
— Cala a boca, Porupiropin! Me dá comida, então!
— Como isso faz sentido? Não há nenhuma conexão entre as coisas que você está dizendo.
— Estão conectadas para mim, na minha cabeça. Amarradas bem firme com uma corda resistente!
Tiveram muitas discussões assim, que nem sequer mereciam ser chamadas de estúpidas. Ele não podia ficar quieto? Só deixava os dois mais cansados. Era por isso que ele odiava aquele cara. Mas, hm, isso era estranho. Quando pensava nele, por algum motivo, seu rosto relaxava.
Estou… sorrindo…?
Os galhos das árvores à frente balançaram de maneira estranha. Havia algo se movendo de galho em galho? Haruhiro parou de andar e puxou seu estilete.
Ele poderia reagir. Quando necessário, conseguia se mover surpreendentemente rápido.
Estava prestes a dar ordens aos seus companheiros, quando Setora olhou para cima e disse: — É Kiichi.
Olhando novamente, havia um nyaa cinza pousado em um galho à frente, à direita. Kiichi deu um miado curto e olhou para o leste.
— Heh heh. — Com uma risada satisfeita, Setora pressionou levemente o pescoço de Enba. Enba começou a andar.
Parecia que continuariam seguindo em frente. Kiichi saltou, e Haruhiro rapidamente perdeu-o de vista.
Haruhiro embainhou o estilete e seguiu Enba e Setora.
— Quão inteligentes são os nyaas?
— Há muito tempo, houve uma espiã onmitsu chamada Nonae — respondeu ela. — Ela se casou com um nyaa chamado Onaki, e eles permaneceram juntos por toda a vida.
— Casou…
— É apenas uma lenda, é claro. Dizem que um nyaa branco chamado Senju viveu por mais de cem anos e começou a falar a língua humana. Porém, Senju aparentemente nasceu com duas caudas, então pode ter sido uma mutação ou algo especial.
— Kiichi parece bem esperto, no entanto.
— Se não receberem um papel, os nyaas não farão mais do que comer e dormir, porque não precisam fazer nada além disso. Eles conhecem a satisfação e não têm desejos. No entanto, se lhes for ensinado algo que devem fazer, eles farão sem medo. Suponho que depende de como você define “inteligente”, mas, na minha visão, os nyaas são mais sábios que nós, humanos.
— É por isso que você ama os nyaas? — perguntou Haruhiro.
— Não.
— Então por quê?
— Porque eles são fofos.
Mary sussurrou atrás deles: — …Eu entendo isso.
De cima dos ombros de Enba, Setora olhou para trás em sua direção. Sua expressão estava neutra.
— Acho que podemos nos dar bem, sacerdotisa. Mary, não é?
— Mesmo que não nos demos bem, não vejo motivo para não concordarmos em uma ou duas coisas.
— Nós não nos damos bem? Por quê? Porque amamos a mesma coisa?
— A-A mesma coisa? …N-Nyaas? Bem, nyaas são… Sim, eu os amo. Amo desde a primeira vez que vi um. O-O que tem isso? Algum problema?
Haruhiro parou de prestar atenção na troca entre Setora e Mary depois disso.
Havia uma área aberta mais à frente. Era manhã. O sol estava nascendo. Haruhiro apressou o passo.
— Myuoh! — Yume soltou um som estranho.
Haruhiro e Yume rapidamente alcançaram e ultrapassaram Enba.
A área não era aberta. Havia uma encosta íngreme descendo logo à frente. Graças a isso, eles tinham uma boa visão do local.
O céu estava setenta a oitenta por cento coberto por nuvens. Mesmo assim, o lado leste estava limpo, e o sol espreitava por cima do cume da montanha.
Agora, a área entre a montanha onde Haruhiro e os outros estavam e a montanha ao leste era plana. Um rio fluía para o sul, árvores surgiam aqui e ali, e uma planície verdejante se espalhava diante deles.
Não, ele percebeu.
Aquilo não era uma planície.
— São campos de cultivo — murmurou.
Havia construções que pareciam feitas de madeira espalhadas. Diversos caminhos cruzavam os campos. Parecia haver cercas também. No final dos caminhos, havia algo pequeno demais para ser chamado de cidade, mas ainda assim contava com algumas dezenas de construções agrupadas.
— Caramba… — disse Yume, ao lado de Haruhiro, com os olhos arregalados.
Haruhiro respirou fundo. Estava um pouco abalado.
Calma, disse a si mesmo. Tentou manter suas emoções sob controle. Ele queria estabilizá-las. Para Haruhiro, isso já era quase um hábito.
— Quem mora ali? — Ele perguntou.
— Não faço ideia — Setora deu de ombros.
Ela desceu dos ombros de Enba e se aconchegou ao lado de Haruhiro. Quando encostou o rosto em seu ombro, ele quase saiu correndo involuntariamente, mas isso seria ruim.
…Seria ruim?
Sim, seria, né? No fim das contas, seria algo ruim a se fazer.
— Mas não há dúvidas de que não são humanos.
— …É, faz sentido — Haruhiro suspirou.
Seriam orcs? Ou talvez mortos-vivos? Isso podia ser preconceito falando, mas parecia cheio demais de sinais de vida para ser uma aldeia de mortos-vivos.
Mary, Shihoru e Kuzaku chegaram correndo.
— Uma aldeia, hein… — Kuzaku disse calmamente, como se estivesse impressionado.
— …É, isso é uma aldeia — Shihoru assentiu.
Mary olhou discretamente na direção de Haruhiro. Era como se só estivesse verificando se ele estava ali, sem nenhuma outra intenção.
Haruhiro olhou de canto para Mary.
Ela mordeu levemente o canto do lábio, com um olhar que parecia conter algo dentro de si.