Capítulo 3 (Parte 2)
Jesus Novamente
Um jovem guorella investiu contra ele, gritando alguma coisa.
Haruhiro girou para desviar por um triz—oh, caralho!
Haruhiro inclinou-se para trás no mesmo instante, e o golpe violento de outro guorella passou bem perto do seu nariz. Algo roçou sua perna direita, e ele caiu. Instintivamente, soltou um “Whoa!” enquanto rolava desesperadamente para fugir do guorella que tentava esmagá-lo, e bateu em alguma coisa.
A parede de uma construção? A prisão? Ele estava encurralado? Precisava reagir. Levantar-se. Ficar de pé e continuar dali. Talvez não conseguisse. Mesmo assim, tinha que tentar.
— Zahhhhh! — gritou Kuzaku.
Kuzaku.
Kuzaku, huh.
É o Kuzaku?
Kuzaku cravou sua grande katana no guorella macho que estava prestes a esmagar Haruhiro até a morte.
— Nuagh! — gritou Kuzaku. — Gahh! Dah! Rah! — Ele golpeou repetidamente. — Haru… — Até que o guorella caiu. — Hirohhhhhh!
— Sim! — Haruhiro ficou de pé.
Ainda não acabou, pensou Haruhiro. Eu ainda não morri, então não pode acabar. Mesmo se eu perder alguém, mesmo que eu fique triste, mesmo que doa e seja difícil… Ainda assim, se fosse para terminar, já teria terminado. Mas não pode terminar. O fim não vem tão fácil assim. Não podemos deixar que termine tão facilmente.
— Nghhhh! — Kuzaku brandiu sua grande katana. Ele provavelmente mirou em um guorella, mas errou, e aquele guorella o lançou para longe com um único golpe.
O guorella subiu em cima do caído Kuzaku.
— Gwah! — Kuzaku, desesperado, estocou sua katana para frente e, talvez por coincidência, perfurou o peito do guorella.
No entanto, não havia acabado. O guorella ainda estava vivo. Ele rugia, enfurecido.
— Gu, ho! Ga, hy! — Ele estendeu as duas mãos em direção a Kuzaku.
— Ngh! Gah! — Kuzaku tentou chutar o guorella para longe.
Haruhiro agarrou-se às costas do guorella, cravou seu estilete no olho direito da criatura, puxou de volta, e repetiu o movimento várias vezes. O corpo do guorella ficou mole.
Quando Haruhiro se afastou, Kuzaku chutou o corpo do guorella para longe.
— Grahhhh!
Haruhiro tentou puxar Kuzaku pelo braço, mas sentiu algo—algo indefinível. Quando olhou, viu que, a sete ou oito metros de distância, Yume estava caída de braços e pernas abertos.
— Yume!
Haruhiro soltou o braço de Kuzaku e tentou correr na direção de Yume. Um guorella surgiu pelo lado e bloqueou seu caminho.
Droga. Sai da minha frente. Não atrapalha. Preciso chegar até a Yume.
Mas Haruhiro não tinha força suficiente para enfrentar o guorella de frente, nem agilidade para escapar dele.
Dark voou com um vwooong, fazendo um guorella começar a convulsionar. No entanto, não era o guorella que Haruhiro enfrentava, mas outro, que Kuzaku tentava atacar.
O guorella avançou contra Haruhiro, que conseguiu desviar no último momento possível. Mas ele estava preocupado com Yume.
Enquanto evitava os ataques do guorella de alguma forma, Haruhiro espiou Yume.
Não foi uma boa ideia. Se ele não se concentrasse no inimigo à sua frente, seria atingido.
— Kuzaku, ajuda a Yume! — gritou.
Dizer aquilo era fácil, mas e Kuzaku? Ele ainda tinha condições de lutar? O guorella continuava atacando, e Haruhiro não conseguia verificar.
Ele achava que tinha visto Yume se levantando. No entanto, não tinha certeza. Talvez fosse porque o ataque do guorella era tão intenso que ele estava sempre um movimento atrás.
Se ele perdesse o equilíbrio agora, provavelmente seria atingido. Um único golpe seria fatal. Ele não podia perder tempo com aquele guorella, mas havia outros.
Muitos. Tantos.
— Delm, hel, en, giz, balk, zel, arve!
Alguém estava entoando um feitiço. Não era Shihoru. A voz era diferente. Além disso, fazia muito tempo que Shihoru não usava outra magia além do Dark. Mas Haruhiro conhecia aquele feitiço. Não, ele provavelmente já tinha ouvido algo semelhante.
Boom! Uma onda de choque incrível, seguida por uma explosão e calor, veio diretamente em sua direção, subindo também de baixo para cima.
Haruhiro não foi lançado para longe, mas sua cabeça foi jogada para trás, e ele quase caiu. Ele viu vários guorellas sendo arremessados para o ar.
Era uma explosão.
Uma explosão de grande escala. Ele percebeu imediatamente que era obra de magia. E tinha uma boa ideia de quem havia feito. Se não era Shihoru, só podia ser uma pessoa.
Jessie.
Haruhiro tinha quase… não, total certeza de que tinha sido ele.
— Droga! — gritou Haruhiro enquanto cravava seu estilete no guorella que se contorcia no chão, segurando a cabeça.
Porra, cara! se você podia usar esse tipo de magia, por que não usou desde o começo? Devia ter usado logo! Antes que o dano se espalhasse! Se tivesse feito isso…!
Enquanto finalizava os guorellas desorientados que haviam sido lançados por Blast—ou talvez por uma versão mais avançada do feitiço—Haruhiro não sabia se estava gritando ou apenas soltando palavras incoerentes.
Por todos os lados, ele via figuras de verde lançando garrafas contra os guorellas. Eram os rangers treinados por Jessie para defender Jessie Land. Originalmente, havia vinte e quatro rangers, mas houveram baixas durante o ataque dos guorellas. Mesmo assim, mais de dez ainda estavam vivos.
Os rangers não estavam apenas atirando garrafas. Alguns deles estavam com arcos prontos para disparar.
As flechas que estavam sendo disparadas não eram comuns. As pontas estavam em chamas. Eram flechas incendiárias.
As flechas incendiárias voaram. Sem um arco longo de alta potência ou uma besta, provavelmente seria impossível perfurar a pele parecida com uma carapaça dos guorellas. No entanto, aquelas flechas não precisavam disso.
Vários guorellas começaram a pegar fogo. Provavelmente, aquelas garrafas estavam cheias de algum tipo de líquido. Parecia ser óleo inflamável ou algo do tipo. O líquido havia sido incendiado pelas pontas das flechas em chamas.
Não era exatamente uma grande labareda. Mesmo assim, os guorellas gritavam e se contorciam enquanto eram consumidos pelas chamas. O fogo se espalhava de um guorella para outro, ou para o chão onde o líquido havia sido derramado, e continuava a se alastrar.
Haruhiro abaixou o corpo, puxando a gola da capa para cobrir a boca. A fumaça era intensa, e o fogo começava a alcançar as construções também.
As construções dessa aldeia, localizadas mais ou menos no centro de Jessie Land, eram em sua maioria feitas de madeira, com telhados de palha. Uma vez que o fogo começasse, elas queimariam quase completamente antes que houvesse tempo de apagá-lo.
Era difícil imaginar que os rangers tivessem feito aquilo por vontade própria. Eles estavam apenas seguindo as ordens de Jessie. Jessie pretendia incendiar a aldeia, guorellas e tudo.
Talvez ainda houvesse aldeões tremendo de medo em suas casas, incapazes de escapar, mas a grande maioria já havia sido morta pelos guorellas ou fugido. Se as casas queimassem, poderiam ser reconstruídas. Pensando assim, talvez não fosse uma má decisão—ou seria?
Certamente, se existisse outra forma de exterminar aquele bando de guorellas tão feroz e astuto, Haruhiro não conseguia pensar nela. Jessie talvez tivesse sido forçado a tomar essa decisão difícil por falta de alternativas, mas ainda assim era algo difícil de aceitar.
Jessie havia sugerido que Haruhiro usasse a prisão.
Haruhiro entendeu o motivo no mesmo instante e fez como Jessie havia dito. Se fossem cercados pelos guorellas em um lugar aberto, não teriam a menor chance. Se se trancassem na construção mais resistente possível e derrotassem apenas os guorellas que entrassem, poderiam resistir por um tempo.
No entanto, no final das contas, Haruhiro teve que admitir que isso havia sido um erro grave, doloroso e, no fim, fatal para eles.
E para Jessie, o que aquilo significava?
— …Isca. Fomos isca.
Quando Jessie havia dito para usarem a prisão, aquilo não havia sido um conselho. Muito provavelmente, aquele homem tinha a intenção de usar Haruhiro e sua party.
Colocando-os como isca para atrair os guorellas e ganhar tempo, Jessie usou esse intervalo para preparar tudo.
Haruhiro e os outros foram iscas lançadas diante dos guorellas.
Você mesmo plantou as sementes disso, não foi? Ele pensou ter ouvido uma voz dizer e sentiu que as lágrimas poderiam começar a cair.
Haruhiro e sua party haviam trazido os guorellas até ali. Graças a eles, um grande número de moradores de Jessie Land havia morrido. Se fossem usados como parte do esforço para derrotar os guorellas, era esperado. Ele não estava em posição de reclamar com Jessie sobre isso. Será que achava que tinha o direito de criticar Jessie? Não havia como ter.
Mas… Ainda assim…
— Mary.
Ele chamou seu nome. Não queria. Não queria dizer seu nome. Haruhiro estava com medo.
Tinha a sensação de que, assim que aquilo que estava vago e borrado no momento se tornasse claro, ganharia uma forma indiscutível, erguer-se-ia diante dele e bloquearia seu caminho. Se possível, queria que aquilo permanecesse vago. Para sempre. Até o fim dos tempos, se fosse possível.
Se pudesse fazer com que aquilo não tivesse acontecido, ele faria. Se sua ausência permanecesse vaga e borrada, ele poderia continuar flutuando na ilusão de que talvez houvesse alguma maneira de reverter aquilo. Por exemplo, talvez tudo isso fosse apenas um sonho. Ele acordaria e ficaria aliviado, pensando: Ah, era só um sonho. Em algum lugar de seu coração, acreditava que isso não era completamente impossível.
Provavelmente teria vários desses sonhos depois. Sonhos onde ela ainda estava com eles. Nesses sonhos, ele pensaria: Veja, foi um engano, ela está aqui, por que pensei que nunca a veria de novo?, com um sorriso amargo. Então, ele acordaria. O pior despertar possível viria.
Haruhiro já tinha passado por esse tipo de experiência antes, então conseguia imaginar com clareza como se sentiria naquele momento.
Mas, ainda assim, Haruhiro tentou pensar. Se eu posso sonhar com ela, não é tão estranho que eu tenha sonhos onde ela não está. Então, já que essa sensação de que ela se foi é tão vaga e nebulosa, isso pode ser apenas um sonho. Quero dizer, não há como ela realmente ter partido.
É mentira que Mary morreu.
Ele tinha sido usado por Jessie, e Mary havia morrido como resultado.
Embora, para começar, se eles não tivessem trazido os guorellas para cá, isso nunca teria acontecido.
Haruhiro cometeu tantos erros.
Por causa disso, Mary estava morta.
Ela morreu bem na frente dos olhos de Haruhiro.
Ela foi morta.
Não.
Eu praticamente a matei, não foi?
No mínimo, eu deixei Mary morrer.
Fui eu.
É minha culpa.
Desculpe, Mary.
Você sorriu para mim no final, mas eu não faço ideia do motivo pelo qual você sorriu.
Foi minha culpa, não foi? Eu deixei você morrer.
Mesmo sendo minha preciosa companheira.
Mesmo eu gostando de você, Mary.
Eu te amava.
Eu não consegui proteger Mary. Pior ainda, se Mary não tivesse interceptado o guorella entrando na prisão naquele momento, eu poderia ter sido o único a morrer. Teria sido eu, com certeza. Mary me salvou.
É graças à Mary que eu ainda estou vivo.
Eu deixei Mary morrer, e aqui estou eu, com a ousadia de continuar vivendo.
— Hy, aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhh! — Um grito incrível ecoou.
Era óbvio que vinha dele.
O redback sorridente.
Estava a menos de dez metros de Haruhiro, gritando para o céu. Não estava sorrindo. Provavelmente, estava furioso.
Haruhiro conseguia entender seus sentimentos. Ele estava na mesma situação, afinal. Aquilo ia além de mera irritação ou raiva.
Embora houvesse muitos alvos para sua fúria, a maior parte da raiva do redback sorridente provavelmente era dirigida a si mesmo. Ele—assim como Haruhiro—tinha caído numa armadilha. Mais do que a pessoa que os enganou, eles não conseguiam perdoar a si mesmos por terem caído.
— Weruu, ruu, ruuuu, ruu, ruu, weruuuuuuu!
Mas aquele não era um guorella comum. O redback sorridente estava gritando para o céu vazio um momento antes, então, de repente, pulou e começou a emitir um som estranho. Aquele som, Haruhiro se lembrava, era o sinal de retirada.
Como se eu fosse deixar você escapar!
Haruhiro correu. Não conseguia correr rápido. O máximo que podia fazer era algo mais parecido com uma caminhada rápida, mas ele ainda assim não parava.
Eu sei. Eu te conheço. Mesmo que você recue agora, com certeza vai voltar.
Enquanto estivesse vivo, ele perseguiria Haruhiro e seus companheiros de forma obstinada. Só estava fazendo o que poderia ser chamado de retirada estratégica para poder continuar depois.
O que eu posso fazer para acabar com isso?
— Weruu, ruu, ruuuu, ruu, ruu, weruuuuuuu!
Enquanto chamava seus companheiros, o redback sorridente tentava fugir.
Ele lançou um olhar na direção de Haruhiro.
Ele notou Haruhiro.
Ainda faltavam cinco metros para Haruhiro alcançá-lo.
— Peguem aquele! — gritou Haruhiro enquanto corria.
Kuzaku, Jessie, os rangers, não importava quem. Aquele. Eles precisavam fazer algo com aquele desgraçado. Ele precisava morrer ali. Não podiam deixá-lo escapar. Ou seria tudo em vão.
A morte dela, de Mary, seria em vão.
Ter ou não ter significado não mudaria nada. Esse era o resultado, e os fatos não mudariam. Mas isso não era triste demais? Não deveria, pelo menos, ter servido para algo?
Mary tinha morrido, e por causa disso Haruhiro sobreviveu, e ele ia conseguir derrubar aquele Guorella.
Nunca, em toda a eternidade, uma história como essa traria qualquer conforto para ele, e essa ferida provavelmente nunca iria cicatrizar. Porque Mary, a única que curava suas feridas, estava morta. Nada poderia preencher esse vazio. Por isso, no fim, era sem sentido. Não importava o que Haruhiro fizesse ali, era impossível dar significado à morte de Mary.
Chega, ganhar ou perder, eu não me importo mais. Por enquanto, ou eu vou matar você, ou você vai me matar. Um ou outro.
Ele ia acabar com isso.
Era hora de resolver as coisas.
Mas o redback sorridente era rápido.
Ou Haruhiro era lento?
De qualquer forma, a distância entre eles dobrou em questão de instantes.
— Oorahhhhh! — Um dos rangers arremessou uma garrafa no rosto do guorella.
Pele cor de creme. Olhos vermelhos. Era aquela ranger. Yanni, ou algo assim.
A garrafa se estilhaçou, espalhando óleo por todo o lado, e o redback sorridente ficou encharcado. Mesmo assim, ignorando tudo, continuou correndo com sua peculiar caminhada apoiada nos punhos.
Outro ranger disparou duas ou três flechas incendiárias, mas nenhuma acertou o alvo.
— Delm, hel, en…
Ele reconheceu a voz de Jessie, mas onde aquele homem estava? Não conseguia vê-lo. Porém, Jessie estava conjurando magia. Magia Arve.
— Saras, trem, rig, arve!
No caminho que o redback sorridente seguia, uma grande coluna de fogo, que parecia capaz de queimar o céu, surgiu. A coluna de fogo não enfraqueceu, posicionando-se como um obstáculo no caminho do redback sorridente.
Firewall. Ou talvez uma versão mais avançada.
O que o redback sorridente faria?
Ele não parou.
Pretendia atravessar diretamente, mesmo estando coberto de óleo. Planejava romper a coluna de fogo sem desviar e escapar.
A coluna de fogo queimava com força, atingindo até algumas construções próximas. Se ele realmente atravessasse aquele fogo, onde sairia?
Haruhiro tentou prever para onde ele iria e tomou um caminho ao redor da coluna de fogo e das construções em chamas.
Ele encontrou.
Envolto em chamas, estava bem à frente, correndo como um borrão. Já quase fora da aldeia.
Agora estava fora.
— Espere…!
Mesmo que gritasse, aquilo jamais esperaria. Haruhiro correu. Tropeçou e quase caiu várias vezes, mas continuou se forçando a ir em frente.
Um vento úmido soprava.
Estava muito escuro.
Onde estavam os outros guorellas? Quantos tinham escapado?
Como se importasse.
Não—como não se importaria? Além disso, por que ele estava perseguindo aquele, afinal? Continuava correndo, mas era uma bola de fogo. Aquilo não era normal. Mesmo sendo um guorella, não sairia ileso disso. Pensando racionalmente, ele pararia de se mover em algum momento. Provavelmente, Jessie e seus rangers o rastreariam e o matariam. Haruhiro não precisava persegui-lo.
Antes disso, não havia outras coisas que ele deveria fazer? E seus companheiros? Eles estavam bem? Ele não deveria voltar e verificar isso primeiro? Por que estava fazendo isso?
Ele sabia. Estava fazendo algo sem sentido. Mesmo sabendo disso, não conseguia parar. Não queria parar.
Haruhiro saiu da aldeia também. O céu ressoava com estrondos, iluminado por relâmpagos.
O redback sorridente corria pelos campos. Os campos estavam densos com uma planta semelhante ao trigo, que produzia grãos. Enquanto avançava, incendiava aqueles grãos ou os chamuscava. Havia um rastro mais claro que pegadas mostrando para onde ele ia. Haruhiro só precisava segui-lo. Nos campos, mesmo que caísse, ele poderia se levantar novamente.
Quando Haruhiro deixou a aldeia, o redback sorridente estava a mais de dez metros, talvez vinte, à sua frente.
E agora? Dez metros? Não, mais perto. Cinco, talvez seis metros. Às vezes, ele sentia que, se estendesse a mão, poderia tocá-lo. A velocidade dele estava definitivamente diminuindo.
Haruhiro não havia olhado para trás nenhuma vez. Ele perseguia o redback sorridente sem desviar o olhar.
Jessie e seus companheiros estavam o seguindo? Não havia outros guorellas por perto? Ele não sabia. Não era que não se importasse com isso. Ele não queria saber. Ele sabia que agir assim era errado. Totalmente errado.
Mas ele queria terminar isso.
Ele iria alcançar aquela coisa, que ainda queimava aqui e ali, espalhando fumaça enquanto corria, e a eliminaria pessoalmente. Com isso, ele queria acabar com tudo.
Mary.
Mary certamente ficaria furiosa.
Se fosse Mary, ela o repreenderia. “Não diga isso”, ela diria. “Esqueça de mim. Você esteve comigo até agora, e isso foi o suficiente. Haru, continue avançando como estava antes.”
Era o tipo de coisa que Mary diria.
Você não entende nada, Mary, retrucou Haruhiro. Nada. Você não entende absolutamente nada.
Quero dizer, você é super atenciosa com seus companheiros, é uma boa pessoa, a melhor curandeira que poderíamos ter e… e, sério, você é ridiculamente bonita, tem um lado fofo também, mas, de alguma forma, Mary, às vezes você age como se não fosse boa o suficiente… mesmo que isso não seja verdade. Nunca poderia ser verdade.
Eu queria segurar sua mão com força.
É presunçoso da minha parte dizer isso, mas eu queria dar mais confiança a você.
Você estava sorrindo mais do que no passado, mas eu queria te fazer sorrir ainda mais
Pra ser honesto, eu queria te abraçar com toda a minha força.
Queria pegar sua mão e continuar caminhando ao seu lado para sempre.
Mary.
Mary.
Mary.
Não consigo imaginar um futuro sem você.
Mesmo em Darunggar, havia um sol que nascia. Mas sem você, Grimgar estará em completa escuridão. Não conseguirei ver nada. Nem ouvir nada, tenho certeza.
Não conseguirei seguir em frente.
Se esse é o futuro que me espera, eu não quero ele.
Já tive o suficiente.
— Assim que eu te matar…! — Haruhiro reuniu o resto de sua força e se forçou a correr mais rápido. Foi então que aconteceu.
O redback sorridente caiu para frente.
Graças a isso, Haruhiro finalmente o alcançou.
Logo ele se levantaria, recuperaria as forças, Haruhiro tinha certeza. Fugiria ou revidaria. Mas quem se importava? Ele não. Não importava.
O redback sorridente havia caído de bruços, com o rosto virado para o lado. Haruhiro pulou em suas costas. As chamas em seu corpo tinham quase se apagado completamente. Estavam apenas fumegando. Nem estava tão quente assim. Mas havia algo estranho.
Ele não se movia. Nem um pouco.
— Ei… — murmurou Haruhiro.
O que isso significava? Haruhiro montou em suas costas, em uma posição em que podia cravar seu estilete nos olhos vulneráveis do redback a qualquer momento. Apesar disso, não sentia nada.
Ei? Ei? Ei? Ei? O que houve, hein? Você está esperando o momento certo para contra-atacar? É isso, né? Diz que é isso, vai.
Mas ainda assim, era estranho. Era muito diferente de antes. Como se fosse algo completamente diferente agora.
Algo diferente.
Sim, era, de fato, um tipo completamente diferente de coisa. Não havia nenhum sinal de que fosse uma criatura viva. Era apenas uma coisa agora.
Haruhiro ajustou o aperto no estilete.
Não havia força em sua mão. Não apenas em sua mão. Em todo o seu corpo. Como se houvesse um buraco em algum lugar, e sua vitalidade estivesse escapando por ele. Ele precisava encontrar esse buraco rapidamente e tampá-lo.
Ele sabia o que precisava fazer. Isso já estava decidido, então só restava fazer. Era algo simples. Não era difícil. Ele podia fazer. Não havia como não conseguir.
Agora, faça, disse a si mesmo. Faça. Depressa.
A chuva começou a cair.
Eram gotas grandes.
Rapidamente aumentaram de intensidade.
Havia trovões ensurdecedores. A chuva desabava como uma cachoeira.
Por causa disso, ele não ouviu os passos. Um homem com um manto verde se aproximou dele e disse algo. Seja lá o que ele disse, Haruhiro não entendeu. Por isso, ele nem assentiu, nem balançou a cabeça.
Aquele homem de cabelos loiros e olhos azuis, Jessie, ajoelhou-se, não exatamente ao lado de Haruhiro, mas ao lado do redback sorridente. Ele observou o rosto da criatura com seriedade, especialmente os olhos abertos e o nariz. Então, Jessie agarrou o maxilar da criatura e o sacudiu.
— Sim… Essa coisa está morta.
A essa altura, a chuva havia diminuído um pouco. O trovão tinha parado, também. O céu começava a clarear.
— O interior da boca está queimado e inchado — disse Jessie. — Pelo que parece, as queimaduras devem chegar até a garganta. Ele não conseguia respirar direito. Estou impressionado que tenha chegado tão longe. Deve ter ficado sem forças.
— …Mas que inferno? — murmurou Haruhiro.