Capítulo 3

O que é bravura? (Parte 3)

O lobo negro gigante carregando Onsa surgiu da névoa negra.

Ele estava avançando.

Era muito assustador, mas ela não tinha um pingo de medo.

— Pode vir! — gritou Yume.

Ela não tinha intenção de recuar. Não desviaria para a esquerda ou para a direita para evitá-lo. Quando o lobo negro gigante avançou contra ela, Yume pulou nele.

Raging Tiger.

Usando um salto mortal para lançar um ataque poderoso contra o inimigo. De todas as técnicas de facão que conhecia, essa era a favorita de Yume.

O lobo negro gigante não se intimidou e continuou avançando—e foi aí que algo engraçado aconteceu. Quando ela girou no ar, por algum motivo acabou sentada no pescoço do lobo negro gigante.

— Roh…? — disse Onsa, surpreso.

Bem ali, literalmente na frente do nariz dela, estava Onsa. Nem a própria Yume havia imaginado que isso aconteceria. Foi uma surpresa. Onsa também estava chocado.

Quando um goblin fica com essa cara de espanto, até que é meio fofinho, né? Ela pensou.

— Bom, até é, mas…!

Eles eram inimigos. Yume apertou as pernas ao redor do pescoço do lobo negro gigante e tentou cravar Wan-chan em Onsa. Porém, obviamente, Onsa não ia deixar isso acontecer.

Onsa segurou o braço direito de Yume com a mão direita, enquanto puxava firme o pelo do lobo negro com a esquerda. O lobo negro gigante virou o corpo, tentando derrubar Yume. Ela apertou mais as pernas e, achando que isso não seria suficiente, agarrou o braço direito de Onsa com a mão esquerda.

— Yume! — Ela ouviu o grito de Shihoru. Não podia responder que estava bem.

Onsa gritava algo na língua dos goblins. Ele tentou pegar alguma arma com a mão esquerda. Mas Yume não ia deixar isso acontecer.

— Miauwww!

Yume agarrou Onsa com toda a força que tinha. Diferente dos orcs, a maioria dos goblins era menor do que os humanos, e esse era o caso de Onsa também. Numa competição de força, ela não perderia.

— Se Yume cair, você vai junto! — gritou ela.

— &%+#*%?!

Ela não fazia ideia do que ele estava dizendo, mas Onsa parecia realmente em pânico. O lobo negro gigante torcia o corpo e saltava enquanto subia correndo a encosta.

— %*#+@!

— Você pode falar o quanto quiser, mas Yume não vai soltar!

— *+$@%&&?!

— Yume não tá entendendo o que você tá dizendo!

— %&#**!

— É, o mesmo pra você!

— ******!

— Yume é uma caçadora de goblins legítima, sabia?

— $$#&&&&%?!

Onsa estava tentando fazer alguma coisa. O que ele planejava? O corpo de Onsa se ergueu. Nesse momento, Yume entendeu.

— Yume não vai soltar de você!

Ela estava agarrada a Onsa, que, por sua vez, estava pendurado no lobo negro gigante. Onsa tentava desesperadamente jogá-la para longe, mas agora parecia ter desistido disso. Foi então que ele soltou o lobo em movimento, levando Yume com ele.

Eles iam cair.

Ou melhor, ser arremessados.

Yume não soltaria Onsa. Se ela o soltasse, ele provavelmente se prepararia para a aterrissagem, levantaria e imediatamente montaria no lobo gigante novamente.

Se Yume não se separasse dele, o que Onsa faria? Ele tentaria aterrissar por cima dela. Yume queria fazer o oposto: esmagar Onsa no chão.

Quem acabaria por cima?

Mas, antes que isso acontecesse, havia uma árvore.

Sim, uma árvore.

Yume e Onsa colidiram no ar com uma árvore.

Foi o lado esquerdo de sua cabeça, seu ombro esquerdo, seu quadril esquerdo, sua coxa esquerda ou algo assim. Yume bateu com força na árvore.

Por um momento, quase soltou Onsa, mas por um breve instante o rosto detestável de Ranta passou por sua mente, e ela pensou: De jeito nenhum que Yume vai deixar isso acontecer. Ranta idiota.

Ela e Onsa rolaram juntos. Estavam descendo a encosta.

Pararam.

Nesse momento, Onsa abriu a boca bem na frente dos olhos de Yume. Ele tentava mordê-la. Tentava morder seu rosto. Isso a assustou, e ela chutou Onsa para longe sem pensar duas vezes.

Isso a deixou frustrada. Não era para ela ser corajosa?

Onsa se levantou, fugindo quase rastejando. Yume ficou de pé. Ficou tonta e cambaleou. Era por causa da colisão com a árvore? Teria machucado algum lugar sério?

— Espera aí! Nada de fugir! — gritou ela.

Yume tropeçava enquanto o perseguia, mas Onsa, que fugia, também estava instável. Ambos estavam cambaleando, então estavam em pé de igualdade.

Seu corpo doía inteiro.

Onde será que Wan-chan foi parar? Yume se perguntou. Teria deixado cair?

Ela puxou uma faca. Star Piercer. Tentou arremessá-la, mas, por algum motivo, a faca caiu aos seus pés.

— Não…

Não estava dando certo.

Ela precisava continuar a persegui-lo.

Precisava pegá-lo.

Onsa tentou olhar para trás. Ele tropeçou. Ao invés de se levantar, continuou rastejando.

Yume finalmente sorriu. Onsa estava mais machucado que ela. Ela poderia alcançá-lo.

Onde é isso? Ela se perguntou de repente. Não importava. Ela tinha preocupações maiores.

Onsa rastejou encosta acima. Embora precisasse ocasionalmente apoiar uma das mãos no chão, Yume estava conseguindo andar.

De repente, ela perdeu Onsa de vista. Seria por causa da névoa? A névoa realmente estava espessa. A chuva ainda caía também.

Yume ficou aflita e correu para alcançar Onsa. Oh, entendi, ela pensou. A subida havia terminado. A partir dali, o terreno era plano. Foi por isso que ela o perdeu de vista. Onde estava Onsa…?

Ali.

À esquerda.

Onsa estava rastejando.

Yume tentou se aproximar de Onsa, mas de repente teve uma realização.

Como ela iria matar Onsa? E de que adiantaria matá-lo? Isso mudaria alguma coisa?

Auuuwww… um dos lobos negros uivou. Não, provavelmente era o lobo negro gigante. Vinha de baixo. Estava subindo a encosta correndo.

Onsa se virou para o lobo negro gigante e assobiou. Ele estava chamando o animal. Pretendia montá-lo e fugir. Como se Yume fosse deixar isso acontecer.

Ela continuou avançando. Sua visão oscilava de forma estranha.

Estava cansada? Não deveria estar. Provavelmente esse não era o problema.

Onsa não se movia de onde estava. Provavelmente estava esperando o lobo negro gigante. Graças a isso, Yume conseguiu se aproximar. Ela agarrou Onsa—ou melhor, caiu sobre ele.

O lobo negro gigante avançou. Tentando mordê-la. Yume se agarrou a Onsa e rolou, de alguma forma conseguindo evitar as presas do lobo.

Onsa gritou algo e estendeu a mão. Estaria dizendo algo como: Venha, salve-me! Ou algo assim?

O lobo negro gigante tentou atacá-la de novo. Yume gritou: — Wauh! — uivando para o lobo negro gigante. Isso o assustou.

Onsa tentou escapar. Ela não o deixaria.

— …Yume já disse pra você!

— $#+&%%…!

Ela nunca o deixaria escapar.

Os dois rolaram juntos.

Ela não havia percebido.

Parecia que o lado oposto, o qual Yume e Onsa não haviam subido, era mais íngreme, como um penhasco.

Agora estavam na beirada do penhasco. Não, pior, Yume e Onsa estavam pendurados nele.

— Whah… Vamos cair…

Com um latido estranho, o lobo negro gigante inclinou-se para fora da borda do penhasco. Onsa agarrou o pelo macio de sua nuca. Instintivamente, Yume fez o mesmo.

O lobo negro gigante tentou fincar as patas traseiras no chão.

Não vai dar, né? pensou Yume.

As patas do lobo negro gigante escorregaram pela beirada.

Ele iria cair. Nesse ritmo, cairia.

Se isso acontecesse, Onsa cairia também. E Yume, claro.

— Shihoruuuu…! — ela gritou.

Haru-kun.

Kuzakkun.

Mary-chan.

Que todos fiquem bem, ela pensou. Por favor.

Se vocês não ficarem—

E você? parecia ouvir alguém lhe perguntar.

…O quê?

Cala a boca, seu idiota.

Ranta.

Você é só o Ranta idiota.

Depois de trair Yume e todo mundo. Talvez nunca mais nos vejamos!

Ranta era a última pessoa que ela queria ouvir dizer algo assim. Isso a irritou, e essa raiva deu-lhe força. Yume rangeu os dentes. Por enquanto, Onsa não importava; ela apenas se agarrou ao lobo negro gigante.

O lobo negro gigante girou uma vez, depois outra, e começou a deslizar pelo penhasco, arranhando-o com as patas dianteiras e traseiras. Eles não caíram; estavam escorregando. Parecia um penhasco íngreme, mas talvez não fosse tão íngreme assim. Talvez pudessem chegar ao fundo com segurança desse jeito—ou assim Yume começou a pensar, mas então o lobo negro gigante bateu em um obstáculo no penhasco e foram lançados ao ar.

Eles estavam caindo.

Girando e caindo.

Será que Yume vai morrer…?

Ela quase havia morrido uma vez em Darunggar. Tinha sido por pouco. Haviam cortado sua garganta, e havia sangue por todo lado. Tinha tanto sangue que ela nem conseguia respirar. Ah, isso pode ser ruim, Yume pode estar acabada, ela pensou. É assim que acontece, né? Acontece tão fácil…

Sua consciência desapareceu—mas então a magia de Mary funcionou, e ela conseguiu voltar.

Naquela vez, Haru-kun, ele estava chorando. Ele abraçou Yume bem forte.

Isso a deixou feliz, mas… Yume não sabia por quê, mas também ficou um pouco envergonhada.

…Oh, ela percebeu.

Foi porque todos estavam lá. Por isso, ela não tinha ficado com medo.

Ela não gostava de ficar sozinha. Não queria morrer sozinha assim.

Aquele lobo negro gigante também não queria morrer. Ele estava desesperado. Onsa, que estava agarrado ao grande lobo negro, assim como Yume, também estava.

O lobo negro gigante cravou novamente as patas dianteiras na encosta.

Continue tentando, lobo gigante—Lobinho, você consegue. Se não conseguir, todo mundo vai morrer.

A partir dali, sua memória ficou vaga. Ela tinha a impressão de que rolaram verticalmente, horizontalmente e na diagonal, batendo nas coisas. Sentiu como se fosse perder a pegada, mas então apertou ainda mais forte. Tudo parecia um borrão.

A chuva continuava a cair silenciosamente.

A névoa suspensa parecia gentil, de alguma forma.

Estava um pouco frio, então ela enterrou o rosto na pelagem do lobo negro gigante. Era quente, e ela sentiu o pulso dele. O lobo negro gigante estava respirando. Em algum momento que ela não lembrava, Yume tinha se aninhado na barriga do lobo negro gigante. Não dava para saber se ele tinha percebido ou não. Yume não sabia.

Mas, se ele percebeu, ele não deve ter gostado disso, pensou. Afinal, somos inimigos.

Ainda assim, Yume não se importava. Nem sequer via o lobo negro gigante como um inimigo agora.

Ele também está vivo. Talvez possamos deixar tudo isso para lá. Era assim que ela se sentia.

Como será que Onsa, que estava grudado nas costas do lobo negro gigante, se sentia?

Onsa se esforçou para se levantar e disse algo. Provavelmente, “Garo.”

O lobo negro gigante soltou um latido fraco. Talvez Garo fosse o nome do lobo negro gigante. Não era Lobinho, pelo visto. Bem, claro que não.

Garo.

— …Garon. — Yume acariciou Garo. Ela ainda não tinha forças para se levantar, mas podia mover a mão para acariciá-lo, pelo menos. — …Você tá bem, Garon?

O corpo de Garo tremeu inteiro. Talvez ele estivesse tentando afastar a mão de Yume porque não gostou. Ou talvez fosse a forma de Garo responder.

Onsa colocou a mão no pescoço de Garo enquanto olhava para Yume. Onsa também estava bastante debilitado. Apesar de ter se levantado, suas costas estavam curvadas, e seus ombros subiam e desciam pesadamente.

— Onsan, ei, o que você vai fazer…? — Yume sorriu. Não que tivesse tentado sorrir, simplesmente aconteceu. — Yume… ela não quer mais lutar com você ou com o Garo. Se você insistir em lutar, Yume vai lutar também, mas só porque tem que fazer isso… Mas, pra ser honesta, Yume não quer lutar.

Onsa desviou o olhar. Yume interpretou isso como um sinal de que ele não tinha intenção de lutar.

Pelo menos por enquanto.

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