Capítulo 5 (Parte 2)
Eu Coço Suas Costas, Você Coça as Minhas.
Por mais feliz que estivesse e por mais importante que Haruhiro fosse para ela, isso era apenas como um companheiro de equipe, e não havia outro significado por trás disso. Mesmo que seus sentimentos escapassem sem querer, e mesmo que fosse só isso—ela sentia que não era certo.
Havia o risco de ser mal interpretada, afinal.
Se estivesse na posição de Setora, ela também não gostaria.
Mary não entendia muito bem os relacionamentos entre homens e mulheres, mas provavelmente era assim que funcionava.
Ela abriu os olhos e respirou fundo.
Levantando-se, virou-se para Jessie.
Sua expressão não era apenas tranquila; podia até ser chamada de suave, mas os olhos azuis de Jessie, como sempre, pareciam duas poças de água parada, impossíveis de ler.
Mary curvou-se, inclinando o tronco.
— Obrigada.
— De nada — Jessie riu. — Espera, soa meio estranho eu dizer isso.
— …Ufa. — Kuzaku caiu de joelhos, como se desabasse.
Yume miou como um gato, depois esfregou os olhos com as mãos amarradas. Ela estava começando a chorar.
Quando os olhos de Shihoru encontraram os de Mary, ela sorriu um pouco e acenou com a cabeça. Mary teve vontade de abraçá-la.
Desde quando Shihoru havia se tornado tão confiável? Shihoru estava apoiando Haruhiro. Era Mary quem precisava ajudar Shihoru.
Setora olhava para Haruhiro, mas sua mente parecia distante. Será que o grande alívio a havia feito perder o foco?
De repente, ocorreu a Mary que ela não odiava Setora.
Setora parecia um pouco distorcida, mas era aberta sobre seus sentimentos. Parecia preferir agir por conta própria, sem restrições dos outros, mas nunca abandonava seu golem. Ela amava os nyaas e se aconchegava às pessoas de quem gostava. Diferente dela mesma, Mary achava que Setora tinha um certo charme e era adorável.
Mary gostava de pessoas como Setora. Apesar disso, vinha resistindo a ela.
Era porque Setora estava tentando monopolizar Haruhiro.
Haruhiro era o líder de todos, e poderia-se dizer… Sim, Haruhiro pertencia a todos. Pode parecer estranho dizer isso, como se ele fosse um objeto, mas causaria problemas ao restante se alguém tentasse monopolizá-lo. Além disso, Setora nem sequer era membro da party.
Dito isso, Setora havia arriscado a vida ao lado deles. Eles eram algo como companheiros de guerra agora.
Vai ficar tudo bem agora, ela queria dizer para Setora. Seu amado não vai morrer por algo assim. Eu não vou deixar.
Enba estava bem atrás de Setora, e o nyaa cinza estava empoleirado em seus ombros.
Por ora, todos estavam bem. Não havia como saber o que viria depois, mas eles superariam, acontecesse o que acontecesse. Acreditar nisso e seguir em frente era a única coisa que podiam fazer no momento.
— Agora, então. — Jessie olhou ao redor para Mary e os outros antes de dar instruções ao grupo de mantos verdes. Suas palavras estavam em uma língua diferente da que Mary e os outros falavam. Parecia um pouco com o idioma dos orcs, mas provavelmente não era a mesma coisa.
O grupo dos mantos verdes afastou Mary, depois virou Haruhiro de lado.
— Sobre aquelas perguntas — Shihoru disse, dando um passo à frente. — Eu responderei.
Jessie sacou sua espada, apontou a lâmina para a garganta de Haruhiro e voltou seus olhos azuis para Shihoru.
— Quem são vocês?
— Exatamente o que parecem. Soldados voluntários de Altana.
— Vejo uma necromante da aldeia oculta também. Além disso, trouxeram um nyaa com vocês.
— Ela… é uma amante de nyaas.
— Pelo que sei, treinadores de nyaas geralmente comandam vários nyaas.
Shihoru olhou para Setora. Setora ainda parecia distante, sem sequer ouvir a conversa.
— No momento, só temos este — disse Shihoru. — Algumas coisas aconteceram, e nos separamos.
— Algumas coisas, né. Entendo. — Jessie deu de ombros. — Parece que vocês estavam fugindo de algo. Se foram orcs ou mortos-vivos, podemos ter um pequeno problema.
Shihoru franziu as sobrancelhas, mordendo levemente o lábio inferior. Ela estava pensando. Mary achou aquilo suspeito.
Estavam nas montanhas da Cordilheira Kuaron, ao nordeste dos Planaltos de Nargia. Mary não sabia ao certo, mas aquele território provavelmente fazia parte do antigo domínio do Reino de Arabakia ou do Reino de Ishmal. De qualquer forma, aquele era território inimigo para os humanos, domínio de orcs, mortos-vivos e semelhantes. Por que seria ruim se a party estivesse sendo perseguida por orcs ou mortos-vivos?
Jessie não parecia ser um orc ou um morto-vivo, mas ele também não estava do lado da party. Ele devia estar aliado ao outro lado, certo?
Mary vinha encarando a situação de forma simples assim, mas estaria errada?
— Não eram orcs e também não eram mortos-vivos — respondeu Shihoru. Não era a verdade completa, mas também não era mentira. O último grupo que havia perseguido Mary e os outros certamente não era formado por orcs ou mortos-vivos. — Estávamos fugindo de bestas.
— Vocês são soldados voluntários, não são? — Jessie ergueu a sobrancelha esquerda. — Se fosse só um de vocês, eu entenderia, mas vocês têm um grupo inteiro. Se fossem apenas bestas, poderiam afastá-las. Que patético.
— Era um bando de guorellas — disse Setora quase num sussurro. — Matamos vários, mas eles não recuavam.
— Ohh. — Os olhos de Jessie se arregalaram levemente. — Que azar miserável. Se estiverem dizendo a verdade, claro.
— É um fato — respondeu Shihoru, em um tom surpreendentemente firme para ela. — Nós finalmente conseguimos despistá-los, mal segurando nossas vidas, e encontramos essa aldeia. Mas não sabíamos que tipo de pessoas viviam aqui, então Haruhiro saiu sozinho para explorar o lugar.
— Para roubar ou saquear comida, era isso? — perguntou Jessie.
— Se houvesse algo que pudéssemos oferecer em troca, preferiríamos negociar — disse Shihoru. — Mas… não sabíamos se vocês eram pessoas com quem poderíamos negociar, e precisávamos descobrir isso por conta própria.
— Suponho que seja uma explicação razoável. — Jessie recuou a espada.
De repente, Mary sentiu que podia respirar mais aliviada, como se até então tivesse estado completamente sem ar.
Se pudesse, ela trocaria de lugar com Haruhiro. De jeito nenhum poderiam se dar ao luxo de perdê-lo. Não importa o custo, ela tinha que protegê-lo. Não queria que ele se machucasse mais.
Conhecendo Haruhiro, ele sempre tentava ser atencioso com uma coisa ou outra, assumindo tudo para si mesmo e sem descansar direito. Mary queria alimentá-lo com boa comida e deixá-lo descansar bem.
— Algo! — Incapaz de aguentar mais, Mary gritou. Imediatamente pensou: O que estou fazendo? E se arrependeu profundamente, sentindo uma intensa vergonha.
Seu rosto estava quente. Tão quente que doía. Ela queria cavar um buraco sem fundo sob os pés e pular nele.
Claro, ela não podia fazer isso.
Obviamente.
— Algo! — Mary acrescentou, agora em um tom mais normal. — Não tem algo que eu possa fazer? Eu faço qualquer coisa.
— Uau! — Jessie gritou, levantando uma das mãos com uma expressão surpresa. — Isso não é algo que uma garota deveria dizer.
— Eu… eu não quis dizer nesse sentido…
— Não, se você vai dizer que faz qualquer coisa, essas coisas meio que estão incluídas, não acha?
— S-Se você exigir…
— M-Mary, não! Você não pode! — disse Shihoru, em pânico.
— E-Eu também faço qualquer coisa, tá?! — gritou Kuzaku, com a voz aguda. — N-Não tem problema, sério! Eu faço qualquer coisa, mesmo! Não é grande coisa pra mim, tá?!
— Yume também faz qualquer coisa! — exclamou Yume. — Tipo, ela pode imitar o Deus Branco Elhit!
— Oh? — Jessie acariciou o queixo. — Quero ver. Mostre-me seu Elhit.
— Pode deixar! — Yume curvou as costas como um lobo e uivou. — Auuuu! Auuuu! Au, au, au. Auuuuuuuuuuuu!
— Hmph. Então é assim que Elhit é?
— É sim! Yume vê Elhit nos sonhos dela às vezes, e Elhit uiva assim! Auuuu! Elhit-chan é super fofo, sabia? Bem fofinho e gentil!
— Oh — disse Jessie. — Certo, então. Você é uma caçadora, afinal. Eu também era.
— Funya?! Então conhece o mestre de Yume, talvez?! Ah, pera, o nome dele era Itsukushima.
— Sim, eu o conheço. Então você é pupila de Itsukushima, huh?
— Isso mesmo! Faz muito tempo que Yume não vê seu mestre, sabia? Seria bom vê-lo…
— Espero que consiga. — Jessie sorriu amplamente, mas, embora não parecesse falso, havia algo vazio naquele sorriso.
Era importante não esquecer que esse homem deveria ter recebido um golpe fatal do Backstab de Haruhiro, mas estava perfeitamente bem. Ele parecia humano e era aparentemente um ex-soldado voluntário. Disse ser um caçador como Yume. Mesmo assim, estava claro que ele não era um humano normal.
— Como já disse antes, não é como se eu tivesse um desejo ardente de matar vocês — disse Jessie. — Eu faço isso se precisar, e não vai me tirar o sono, mas… é. Como as coisas vão daqui em diante depende de vocês.
— O que isso significa? — perguntou Shihoru, se preparando.
— É simples. — Jessie embainhou a espada. Se eles tomassem esse ato como um sinal de reconciliação, provavelmente estariam redondamente enganados. — É dar e receber. Vocês entendem?
O que Mary e os outros poderiam oferecer a Jessie?
Ao mesmo tempo, Mary pensava nisso.
O que ela poderia fazer para retribuir tudo o que Haruhiro havia feito por eles até agora?