Capítulo 5 (Parte 2)

Incapaz de Voltar

— …Detalhes — Haruhiro disse, pressionando a garganta.

Minha voz… está rouca. Mas é isso. Era isso que eu queria dizer. Por que não consegui dizer antes?

— Por favor, nos dê detalhes. Em termos concretos… se ela voltar, como ela vai ficar? O que acontece, e como… Basicamente, quero saber tudo. Para poder tomar uma decisão. Quero dizer, sem realmente entender… eu não posso decidir isso. Porque… não é sobre mim. Não sei como dizer, mas sem poder obter o consentimento dela… seria revivê-la sem permissão. Preciso pensar bem nisso. Preciso de material para refletir. Sem isso, embora não seja impossível…

— Eu me recuso a explicar.

— Hã?

— Já falei mais ou menos tudo o que posso. Existem coisas que eu não posso contar diretamente para vocês, sabe? — Jessie deu de ombros. — Vocês não são idiotas, então entendem, certo? Isso não é normal. É senso comum que as pessoas não podem voltar à vida, e isso é um fato. Coisas assim quase nunca acontecem. É uma ocorrência especial, com condições únicas. Mas não é um milagre. Como nos truques de mágica, por mais misteriosos que pareçam, sempre há uma explicação por trás. Eu não posso revelar o truque. Tenho um motivo para isso. E também não posso contar qual é esse motivo. O que vão fazer? Aceitar minha oferta e trazê-la de volta à vida? Ou vão enterrá-la? Decidam logo. Não me importa qual será.

Haruhiro ergueu os olhos para o céu.

Havia um buraco. Ele conseguia ver o céu. Se o céu estava claro e azul ou escuro com nuvens densas, que diferença fazia?

Isso não valia só para o céu. Pelo menos por agora, ele provavelmente não se importava com nada. Por agora. Era só agora? Amanhã, depois de amanhã, e além disso—com o passar do tempo, isso mudaria?

É, essas coisas acontecem, huh. Isso também aconteceu. Ela estava viva, não é? Passamos um tempo juntos, né.

Será que ele conseguiria olhar para trás e se lembrar disso dessa forma?

— Por favor, — Haruhiro manteve os olhos fixos no céu visível pelo buraco no teto. — Se você realmente pode fazer isso, quero que traga a Mary de volta.

Isso é um pesadelo ou um golpe? Ele ainda não conseguia afastar essas dúvidas. No momento seguinte, eu vou acordar, Mary e eu estaremos sozinhos, e Mary estará morta. Não há mais ninguém por perto. Não há nada que eu possa fazer. Mary está simplesmente morta.

Ou então Jessie diria, com um sorriso sem graça: “Foi mal. Era tudo mentira. Meu erro. Só estava te pregando uma peça. Você sabe que não dá para trazer os mortos de volta, certo?”

Não era nenhuma das duas coisas.

— Muito bem, vamos ao trabalho.

O que fariam? O que estava prestes a começar?

Estranhamente, não foi apenas Haruhiro, Yume, Kuzaku ou Setora, que ainda estava perto da porta, que não disse nada. Nem mesmo Shihoru perguntou algo a Jessie.

Ninguém abriu a boca, mas quando Jessie disse “Podem sair da frente? Vocês estão no caminho”, Yume e Shihoru se afastaram sem dizer uma palavra, assim como Kuzaku e Haruhiro.

Jessie puxou uma faca e a pressionou contra o próprio pulso. Então disse: — Se Yanni ou os outros aparecerem, não deixem entrar, sob nenhuma circunstância. Isso vai levar horas. Não vou dizer para não olharem, mas não precisam assistir tudo. Alguns de vocês, fiquem lá fora de guarda.

Primeiro Kuzaku, depois Yume, saíram com passos trôpegos. Yume estava atordoada, e Kuzaku tinha lágrimas nos olhos.

Shihoru ficou. Haruhiro também.

Jessie ajoelhou-se ao lado de Mary e murmurou: — É aqui, certo? — Ele cortou o próprio pulso esquerdo. Não demonstrou hesitação alguma. Parecia ter cortado bem fundo, porque o sangue não apenas escorria, mas jorrava. Jessie disse: — Oops. — E rapidamente pressionou o corte contra o ombro de Mary.

Havia um ferimento horrível ali. Era onde ela havia sido mordida pelo guorella, e aquele ferimento talvez fosse a causa direta de sua morte. Era evidente que Jessie tentava encostar o corte recém-feito em seu pulso no ferimento de Mary. Que bem isso faria? Haruhiro não fazia ideia. Era uma cena terrível, mas ele não tentou impedi-lo.

Jessie descartou a faca, segurando seu pulso esquerdo com a mão direita. Parecia estar tentando mantê-lo no lugar. Ele respirou fundo. Fez uma careta.

— Haruhiro — chamou.

— …Ah… — Haruhiro tentou responder, mas sua voz mal saiu.

— Pode me ajudar com isso?

— …Com o quê?

— Estou segurando, mas quero fixar melhor. É minha primeira vez fazendo isso, então não sei bem o processo. Acho que vai dar certo, porém. Sabe como é, todo cuidado é pouco, né?

Foi Shihoru quem fez o que ele pediu. Ela encontrou um pedaço grande de tecido entre seus pertences e, com o corpo inteiro tremendo e respirações curtas e dificultadas, enrolou o tecido ao redor do pulso esquerdo de Jessie e do pescoço de Mary.

Haruhiro não fez nada. Ele não conseguiu fazer nada. Apenas assistiu.

Shihoru voltou, limpando as mãos na bainha de sua túnica.

— …Desculpa — Haruhiro murmurou em voz baixa.

Shihoru envolveu ambos os braços ao redor do braço direito de Haruhiro e virou a cabeça para o lado. Ainda tremia. Devia ser difícil para ela até mesmo ficar de pé. Shihoru precisava de apoio.

Mesmo eu consigo fazer pelo menos isso, então preciso fazer, e devo fazer, Haruhiro pensou.

— Haruhiro-kun, se você não tivesse dito aquilo… — ela disse suavemente.

Eu estava errado.

Não era isso.

— …Eu teria dito. — completou ela. — “Revive a Mary”… Eu teria dito… então não carregue isso sozinho. Porque a Yume e o Kuzaku-kun… Tenho certeza de que eles teriam feito o mesmo.

— Sim — Haruhiro assentiu.

Shihoru não queria que ele a apoiasse. Ela estava tentando apoiar Haruhiro.

A pessoa que estava prestes a desmoronar naquele momento… era ele.

— Eu…

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Shihoru segurou sua mão com força.

Ele havia jurado que, pelo menos, não se arrependeria. Não sabia o que Mary pensaria, e poderia causar sofrimento a ela. Mesmo assim, Haruhiro não podia deixar que isso o enchesse de arrependimento. Se essa decisão fosse errada, e ele tivesse cometido um erro, Haruhiro assumiria a responsabilidade. Não poderia reclamar se Mary guardasse rancor. Que guardasse. Mas ele não tinha outra escolha.

Qualquer outra opção seria impossível para ele. Não importava quantas vezes retornasse àquela cena, Haruhiro, no fim, sempre pediria a Jessie para fazê-lo. Talvez nem tivesse hesitado.

Se Mary pudesse voltar à vida, é claro que ele desejaria isso. Então, ele não se arrependeria.

Haruhiro apertou a mão de Shihoru em resposta. Seu coração já não batia descontrolado. Também não tinha mais dificuldade para respirar.

Do lado de fora, havia muito barulho por algum motivo.

Croac. Croac. Croac. Croac. Croac. Croac. Croac. Croac.

Era o som de pássaros? Ele olhou para o buraco no teto. Havia vários pontos negros voando de um lado para o outro no céu. Pareciam realmente pássaros.

Jessie, que estava ajoelhado com o joelho direito no chão e o esquerdo levantado, agora estava com os dois joelhos no chão. Seus ombros subiam e desciam levemente. Ele também começou a tossir.

Haruhiro tentou escutar, mas a voz de Jessie era tão baixa que ele não conseguiu entender. No entanto, parecia que ele estava falando com alguém, e não consigo mesmo.

Com quem, exatamente? Mary? Mas Jessie não olhava para o rosto de Mary. Seus olhos estavam fixos no chão.

— Droga…! — Kuzaku gritou lá fora.

Quando Haruhiro olhou, os pássaros tinham descido. Os maiores eram águias, e os menores, aparentemente, corvos. Os pássaros se amontoavam nos corpos que antes eram dos aldeões de Jessie Land e dos guorellas.

Kuzaku balançava sua grande katana, tentando espantar os pássaros, mas eram muitos. Yume ocasionalmente balançava sua katana, mas apenas para afastar os pássaros que chegavam perto dela.

Haruhiro não via Setora e Kiichi. Será que tinham ido para algum lugar?

— Shihoru — chamou Haruhiro.

— …Hm? O quê?

— Por que você não se senta?

— Eu… estou bem.

— Entendi.

— E você, Haruhiro-kun? Está bem?

Ele quase respondeu “não sei”, mas engoliu as palavras.

— Estou bem. Eu também.

— …Certo.

— Sim.

Jessie não estava apenas com os joelhos no chão agora; seu cotovelo direito também tocava o solo.

Aquele homem não parece nada bem, Haruhiro pensou, mas não conseguiu entrar no clima para dizer algo a ele.

Mary voltaria à vida no lugar de Jessie.

O que isso significava exatamente? Haruhiro quase voltou a questionar, mas balançou a cabeça.

Não vamos fazer isso. Mesmo que eu pense sobre isso, nada vai mudar. Além disso, já é tarde demais. Não, ele ainda não terminou, então talvez não seja tarde demais para agir. Ainda assim, não tenho intenção de parar Jessie agora. Aconteça o que acontecer, Mary voltará à vida. Vou poder vê-la novamente. Isso não é o suficiente? Talvez não seja bom, mas está bem.

Corvos pousaram no buraco no teto e começaram a grasnar. Estava barulhento, e ele queria espantá-los, mas o buraco estava alto demais para que ele alcançasse saltando e balançando seu estilete. Deveria pedir para Shihoru usar Dark? Não havia necessidade de ir tão longe. Por enquanto, os corvos não mostravam sinais de entrarem pelo buraco, então ele poderia deixá-los em paz.

Jessie finalmente colocou a testa no chão. Haruhiro não conseguia mais ouvir sua voz. Suas costas se moviam devagar, levemente. Ele aparentemente ainda estava vivo.

Mas era bizarro. Mesmo depois de ter sido atingido por um Backstab, Jessie estava bem. Ele não havia tratado o ferimento, mas a ferida havia cicatrizado sozinha.

Naquela vez, o estilete de Haruhiro havia perfurado o rim de Jessie. Era um ferimento fatal e havia cicatrizado, mas agora o homem estava nesse estado deplorável por causa de um simples corte no braço?

Era estranho.

Croac, croac, croac. Croac, croac, croac. Croac, croac, croac, croac.

Os corvos estavam grasnando. Havia muito mais deles do que antes. Não apenas quatro ou cinco. Eram facilmente mais de dez.

— Ficou menor…? — disse Shihoru.

Haruhiro sentiu um calafrio.

Seria um truque dos seus olhos? Ele estava imaginando coisas?

Jessie nunca tinha sido musculoso, e também não era excepcionalmente alto. Mesmo assim, o tamanho de seu corpo… Era porque ele estava agachado? Era difícil imaginar que fosse só isso. Ele estava claramente menor. Jessie tinha diminuído. Parecia que havia menos dele, por assim dizer.

Haruhiro apertou os olhos. Não adianta, pensou. Não consigo ver direito daqui.

Shihoru soltou o braço dele.

Haruhiro moveu-se para um ponto onde pudesse ver o perfil do rosto de Jessie. Ele usou o Sneaking naturalmente, sem pensar.

As bochechas e os olhos de Jessie estavam profundamente encovados, e ele parecia extremamente magro. Talvez “dessecado” fosse a palavra mais adequada. Não era só o rosto. Seu corpo inteiro tinha perdido volume. O torso colapsado, as pernas dobradas, tudo estava desconfortavelmente fino. Os braços de Jessie nunca tinham sido tão magros antes. Agora pareciam galhos.

Croac, croac, croac.

Croac, croac, croac.

Croac, croac, croac, croac, croac.

Os corvos grasnavam incessantemente.

Jessie encolhia cada vez mais.

O que era aquilo?

Por que ele não tinha achado estranho antes?

Jessie havia cortado o pulso. Mesmo que o ferimento se fechasse, ele perderia uma grande quantidade de sangue em pouco tempo. Mesmo pressionando a abertura do corte contra o ferimento de Mary e amarrando com um pedaço de tecido como aquele, não faria grande diferença. O tecido ficaria ensopado de sangue rapidamente, e uma poça de sangue se formaria. No entanto, isso não aconteceu.

Jessie continuava encolhendo. Como se ele fosse apenas um saco cheio de sangue. Como se a pele externa tivesse formado a figura humana de Jessie, e o interior estivesse preenchido apenas por sangue. Como se, ao esvaziar o sangue, restasse apenas a pele. Mas isso era impossível, é claro. Sem ossos, músculos e órgãos, ele não poderia ter andado ou respirado.

— …Não pode ser. — Shihoru cobriu a boca.

Jessie estava praticamente plano a essa altura.

Que diabos era aquilo?

Croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac, croac.

Os corvos grasnavam estridentemente.

Haruhiro vomitou. Não havia como voltar atrás. Ele sabia disso.

Sério? Não, não era verdade. Se ele agisse agora, ainda poderia desfazer aquilo. Honestamente, ele achava que talvez fosse o melhor a se fazer. No entanto, se ele afastasse Jessie, que agora parecia um saco de couro, de Mary, essa possibilidade desapareceria completamente. Ele nunca mais poderia encontrar Mary novamente.

Ele estava disposto a aceitar isso?

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