Capítulo 7 (Parte 3)
Guia.
— Kuzaku — chamou Haruhiro.
— Oi.
— Setora.
— Sim.
— Shihoru.
— …Certo.
— Mary.
— Aqui.
— Yume.
— Miau.
— Certo — disse Haruhiro, aliviado.
Estou cansado?
Não adianta fingir. Estou cansado. É melhor estar ciente disso. Mas consigo continuar.
Quanto tempo mais temos que caminhar? Até amanhecer? Será que aguento até lá?
Preciso calcular, prever, planejar. É difícil fazer previsões precisas. Mesmo assim, agir sem nenhum planejamento é o pior que posso fazer.
— Estamos indo para o leste, mais ou menos…? — perguntou Haruhiro.
— Indo para o nordeste. Talvez um pouco mais para o leste do que para o norte, né? — respondeu Yume.
De qualquer forma, eventualmente acabaremos entrando nas montanhas. Seria melhor descansar pelo menos uma vez antes disso. As chances são boas de que não haja vooloos por aqui. Vamos descansar. Devo dizer isso agora, antecipadamente? Seria ruim perdermos o foco, então talvez seja melhor esperar até o momento certo.
UnaAAAAAAAAAAAAooOOOO!
Um grito repentino, que parecia vir de Kiichi, ecoou. Setora saiu correndo.
Parecia que algo inesperado tinha acontecido.
Haruhiro, por reflexo, gritou: — Setora, espere! — tentando detê-la.
Setora não parou. Ela já estava fora de vista. Não podia deixá-la assim.
— Não se precipitem! Preparem-se e avancem! — Haruhiro sacou seu estilete, passou por Kuzaku e correu atrás de Setora. Logo percebeu que havia algo à frente. Ele não exatamente viu, mas sentiu. A princípio, parecia que o chão se erguia, como se fosse uma pequena colina.
Gyaa! Gyaa! Gyaaaaaaa!
Kiichi estava uivando. Era um som assustador, como o que gatos fazem quando estão brigando.
A colina se moveu—ou, pelo menos, parecia ter se movido.
— Kiichi, volte! — gritou Setora.
— Haruhiro?! O que é isso? — Kuzaku se aproximou dele.
Haruhiro havia parado em algum momento.
— Não sei, mas…
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Um som grave e profundo, como um tremor vindo da terra, se aproximava. Ele não fazia ideia do que era, mas havia uma certeza. Mesmo sem lógica nenhuma, sabia de uma coisa com absoluta convicção: aquilo era perigoso.
— Uau! Ohhhh! — Yume, com seus bons olhos, talvez pudesse ver algo que Haruhiro não conseguia.
— Magi…! — foi tudo o que Shihoru conseguiu dizer. Ela queria falar algo sobre magia?
— Isso é…
O silêncio de Mary parecia ter um peso maior. Por que Haruhiro sentia isso?
— Eu não sei o que é exatamente — murmurou Kuzaku. — Mas não tem como existir algo assim no mundo de onde vim. Sério, Grimgar é tão-
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Estava chegando. O que era? Haruhiro não sabia. Como poderia lidar com isso se nem sabia o que era? Não tinha como saber. Mas precisava fazer alguma coisa. Era horrível. Por mais que não sentisse o mesmo que Kuzaku, estava cansado das surpresas de Grimgar. Cansado ou não, Haruhiro e os outros estavam vivos. Eles estavam vivendo ali. Em Grimgar.
A imagem de Mary, de olhos fechados, imóvel, passou por sua mente. Isso foi o suficiente para partir seu coração em pedaços. Ele nunca queria passar por aquilo de novo.
— Recuem! — Haruhiro começou a se mover para trás enquanto levantava a voz. — Não se separem!
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
O que era aquilo? Algo estava vindo. Isso era claro. Mas o quê? Se ao menos tivesse uma pista…
— Dark…! — Shihoru convocou o elemental Dark.
Yume prendeu a respiração e disparou uma flecha. Acertou? Ou não?
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Mary disse algo em um tom de dor. Era provavelmente “Sekaishu[1]…” ou algo assim.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Era um nome? Mas por que Mary saberia esse nome? Isso não importava agora.
Haruhiro saltou para trás. Teve a sensação de que algo tocou a ponta dos seus pés. Não, ele não apenas sentiu. Algo definitivamente o tocou.
— Está vindo de baixo! — gritou Haruhiro, alertando os outros.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Droga, não consigo ver. NNNNNNNNNNNNNN O que é isso? NNNNNNNNNNNNNN Mas está chegando mais perto, consigo sentir. NNNNNNNNNNNNNNNNN Sinto isso de forma intensa. NNNNNNNNNNNNNNNNN Não é algo… e, ao mesmo tempo, é.
Ele sentiu algo roçar na ponta dos seus pés novamente. Em vez de recuar, Haruhiro pisou firme. Não era rígido. Também não era macio. Ele conseguiu pisar, mas seu pé afundou profundamente, e parecia que seria puxado.
No final, Haruhiro arrancou o pé e pulou para trás. Aquilo foi perigoso? Se tivesse deixado o pé ali, quem sabe o que teria acontecido.
Mesmo assim, era algo. Não importava quão estranho fosse, ele podia tocá-lo. Tinha uma forma física.
Aquilo tocou a ponta dos seus pés mais uma vez. Haruhiro chutou.
— Não tenham medo! É só—só algum monstro esquisito…!
— Ahahaha! — Kuzaku riu. — Ó Luz, ó Lumiaris, conceda a luz de proteção à minha lâmina!
Ele desenhou o sinal do hexagrama com a ponta de sua grande katana, que começou a brilhar. Quando Kuzaku brandiu a espada, alguns pedaços pretos voaram. Pareciam enormes lagartas.
— São só lagartas! — Haruhiro disse, corrigindo-se em relação ao que havia pensado antes. Mas disse isso mais para si mesmo.
Eram lagartas. Apenas lagartas. Eram lagartas, e por isso eram nojentas. Talvez fossem venenosas, então ele precisava tomar cuidado, mas não havia motivo para ter tanto medo.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…
Esse
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN… O que era isso? Era irritante, mas, mesmo que ele tentasse entender, não chegaria a lugar nenhum, então era melhor não se preocupar com isso. Haruhiro chutava as lagartas que se aproximavam dele. Recuava aos poucos, chutava, chutava e chutava aquelas lagartas, que lhe davam uma sensação terrível ao fazer isso.
Kuzaku não recuava muito.
— Oooorahhhhh! — Ele brandia sua grande katana em um movimento amplo para afastar as lagartas.
Parecia que Yume também estava usando sua katana.
Será que Mary estava balançando seu cajado? O que Setora e Kiichi estavam fazendo? Ele não conseguia verificar.
— Vai, Dark! — gritou Shihoru. Ela aparentemente havia enviado Dark.
[1] 世界腫 (Sekaishu) – Tumor mundial ou inchaço do mundo
Era questionável se o elemental fazia algum efeito.
De qualquer forma, esse NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN era irritante. Era como se, no fundo de seus ouvidos, dentro de sua cabeça, uma esfera de metal vibrasse. NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. Era um som único, um estrondo baixo.
Logo depois de chutar as lagartas pela enésima vez, Haruhiro percebeu que estava com sangue escorrendo do nariz.
NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. O que poderia ser isso? Atrás de seus olhos parecia quente, até dolorido. NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN.
— Guweh! — Kuzaku de repente vomitou algo, quase caindo de joelhos enquanto sua espada reluzia ao cortar mais lagartas. NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. Havia lágrimas. Não, não eram lágrimas. NNNNNNNNNNNNNNNNNN. Sangue. Havia sangue saindo, de seus olhos. NNNNNNNNNNNNNNNN. Haruhiro tossiu. NNNNNNNNNNNN. Ele estava tonto. NNNNNNNNNNNNN. Ele foi agarrado. NNNNNNNNNN. Sua perna direita. NNNNNNNN. Pelas lagartas. NNNNNNN. Haruhiro caiu sentado. NNNNNN. Isso NNNNNN era ruim. NNNNN. Ele sentia um frio terrível. NNNNN. Como se tivesse perdido NNNNNNN sua perna direita. NNNNNNN. O que era NNNNNN um Sekaishu? NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN. Não, isso não era bom, não era bom, não era bom. NNNNN. Ele chutou as lagartas com a perna esquerda, chutou e as afastou de sua perna direita, então rastejou para longe e fugiu. Ele precisava escapar. Aquilo ia engoli-lo.
— Dark! — chamou Shihoru.
Dark soltou um som bizarro, como um vwoooooong, enquanto encolhia e voava. Haruhiro pôde ver o arco por onde ele estava indo. Dark ia se chocar contra o corpo principal das lagartas, ou a massa primária delas, aquela coisa que parecia uma pequena colina feita de lagartas.
Mas tudo o que aconteceu foi o som NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN ficar ainda mais forte, sem nenhum outro efeito.
— Ohhhhhhhhhhh! — Kuzaku estava se saindo bem lutando sozinho, brandindo sua grande katana para todos os lados, a cinco ou seis metros de Haruhiro, mas estava sendo gradualmente engolido pelas lagartas.
— Não! Não podemos continuar assim! — Mary praticamente gritou. — Corram! Com tudo o que têm! Mantenham distância disso! Eu vou…!
O que Mary ia fazer? Por que Mary? Jogando fora suas dúvidas, Haruhiro virou-se para correr.
Kuzaku. Kuzaku não fazia nenhuma tentativa de se mover. Ele não tinha ouvido a voz de Mary?
Para Mary, Yume, Setora, qualquer um, ele gritou: — Cuidem da Shihoru!
Protejam-na! Estou contando com vocês! pensou Haruhiro enquanto corria em direção a Kuzaku. Ele pisava e passava por cima das lagartas, afastando-as, abrindo caminho.
— Kuzaku! Saia daí, Kuzaku! — gritou ele.
Kuzaku virou-se para ele.
— Ah! Foi mal!
— Rápido!
— Tá!
Haruhiro corria enquanto as lagartas, um grande número delas—não, talvez fosse melhor dizer um grande volume delas—avançavam de todas as direções.
Kuzaku corria com todas as forças também. Se as lagartas se enrolassem ao redor dele, aquela parte de seu corpo ficaria gelada.
O som NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN ficava cada vez mais forte.
De algum jeito, Haruhiro conseguiu afastar as lagartas, sacudi-las e correr por sua vida. As lagartas não avançavam particularmente rápido. Isso era sua única salvação.
Por isso, embora ele não achasse por um momento sequer que pudesse lidar com aquela situação, sentia que talvez conseguisse despistá-los.
Alguém, provavelmente Yume, segurou sua mão. Shihoru devia estar ao lado deles. Setora provavelmente estava segurando Kiichi. Além disso, Mary.
Mary.
Mary estava…
— Delm, hel, en, saras, trem, rig, arve!
— Oof?!
— Doh?!
O “oof” provavelmente veio de Haruhiro, e o “doh” de Kuzaku. Haruhiro e Kuzaku tombaram para frente quase ao mesmo tempo, atingidos por uma intensa rajada de vento quente vinda de trás.
Era absurdamente quente. Mais do que vento quente, talvez fosse mais apropriado chamá-lo de uma onda de choque. Haruhiro conseguiu rolar para frente por pouco, mas, ao olhar para trás antes de se levantar propriamente, sentiu seu rosto queimar.
— Augh!
Não, talvez não o tivesse queimado, mas o calor era tão intenso que parecia que ele tinha se chamuscado. Era algo muito maior para ser chamado de pilar de fogo. Era uma parede, ou melhor, um penhasco de chamas erguendo-se diante deles.
Magia.
Isso tinha que ser magia Arve.
Mas não era magia de Shihoru. Shihoru só usava Dark atualmente. Além disso, ela não tinha aprendido nenhum feitiço de magia Arve.
— Ai, ai, ai, ai, ai! — Kuzaku gritou enquanto rastejava para frente com uma velocidade impressionante.
Haruhiro se levantou. Estava quente. Faíscas voavam daquele penhasco de chamas. Era mais do que apenas quente.
Haruhiro embainhou seu estilete, cobriu o rosto com as mãos e tropeçou em direção aos seus companheiros.
Shihoru estava encolhida, encarando o penhasco de chamas. Parecia um pouco perdida
Algumas palavras escaparam dos lábios de Shihoru.
— Blaze Cliff.
Esse devia ser o nome de um feitiço. Mas Shihoru não era quem havia usado aquela magia Arve.
Yume olhou para Mary, que estava ao lado dela. Imediatamente desviou o olhar.
— Eu… — Mary olhou para baixo, pressionando a mão esquerda contra a testa. — Eu… Sekaishu. Remoção. Só com isso. Eu não consigo. Então, eu… magia. Eu usei magia. Enquanto ainda posso. Eu-
Setora, que segurava Kiichi, abaixou-se e colocou o nyaa cinza no chão.
— Sacerdotisa, o que é Sekaishu?
— Sekai…shu — murmurou Mary. — Eu…
Não sei, continuou, mas sua voz foi se apagando até desaparecer.
Haruhiro ficou ali, perplexo. Não havia praticamente nada que pudesse fazer.
“Não sei.” Foi o que Mary disse.
Sekaishu. Mesmo depois de ter pronunciado claramente aquela palavra desconhecida, Mary usou magia. Usou Blaze Cliff. Magia Arve. Provavelmente, era a segunda vez que eles viam aquele feitiço sendo usado. A primeira tinha sido na aldeia, com Jessie.
Mary não sabia. Magia de Luz era uma coisa, mas uma sacerdotisa como Mary não podia usar magia Arve.
— Precisamos correr, enquanto ainda podemos. — Haruhiro fez de tudo para que sua voz não tremesse. Então, caminhando até Mary, estendeu sua mão direita para ela.
Tenho a determinação? ele se perguntou. Eu vou reconhecer tudo. Vou aceitar e encarar.
— Vamos, Mary.
Mary levantou o rosto. Ele não pretendia esperar que ela assentisse. Haruhiro pegou a mão de Mary.
Sim, claro. Tenho a determinação.
Haruhiro segurou a mão de Mary e começou a andar. Primeiro, precisavam se afastar do Blaze Cliff. Ele não sabia o que era Sekaishu, ou seja lá o que fosse, mas fugiriam daquele monstro absurdo. Depois, iriam para o leste.
Se fossem para o leste, chegariam ao mar.
Se alcançassem o mar, dariam um jeito.
Fim do volume…
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O título e sinopse do próximo volume são: Level 12 “Esse foi o início de uma lenda que gira em torno de uma certa Ilha e Dragão”.
O leste. O leste. Em direção ao leste――.
Acreditando ser o caminho mais rápido para Alterna, Haruhiro e seu grupo decidem seguir em direção ao mar. Mas primeiro eles devem contornar os vales montanhosos do território inimigo. Por mais difícil que a jornada pareça, eles também devem cuidar de Mary .
Superando uma série de acidentes, medo e angústia, eles finalmente encontram uma praia. E um navio encalhado. Seu encontro com o misterioso pirata Momohina leva Haruhiro e seus companheiros para as Ilhas Esmeralda.
Mas apenas quando a sorte os teriam, a terra dos piratas está sitiada por dragões!
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS AOS APOIADORES
Isabela, Mardson e Alex.
Até o próximo volume!