Capítulo 208
Pedra Filosofal (1)
Yeon-woo não sabia quanto tempo havia se passado antes de se separar dos braços de Edora. Ele tinha ficado intoxicado com a situação, mas assim que recobrou os sentidos, as coisas ficaram extremamente estranhas. Ele nem conseguia mais olhá-la nos olhos.
Edora riu. Para ela, Yeon-woo estava agindo de forma adorável. Ela só tinha visto o lado rude dele até agora e era refrescante vê-lo se comportando desse jeito. Sem mencionar que ela estava se divertindo vendo suas expressões ao invés de só seus olhos. “Então você também sente vergonha.”
“Que tipo de pessoa você achava que eu era?”
“Vou deixar isso para a sua imaginação.” Edora provocou um pouco Yeon-woo e entregou a máscara. Ele a aceitou um pouco rígido.
Ele ainda tinha vários pensamentos se passando pela sua cabeça. Não eram tão extremos assim, mas ele ainda não sabia o que dizer ou como responder. No entanto, como se ela estivesse dizendo para ele não se preocupar, Edora agarrou a mão de Yeon-woo, encarando-o com seus olhos de gemas brilhantes. “Phante não viu o seu rosto.”
Yeon-woo olhou para ela com uma expressão questionadora.
“Quando ele te viu no chão, ele disse que não achava que era hora de ver o seu rosto ainda. Não era o que você queria, então ele disse que esperaria até quando você resolvesse mostrar por conta própria. Eu estava pensando a mesma coisa, mas… eu queria ver que tipo de fardo você está carregando. Estou errada por querer fazer parte?” Edora calou-se depois disso, como se estivesse deixando o resto para Yeon-woo decidir.
Yeon-woo percebeu que tinha chegado a hora de decidir se devia ou não contar a ela sobre seus segredos. Ele sabia que esse momento seria inevitável e também havia decidido que se não pudesse contar, teria que se separar deles. No entanto, ele não esperava que esse momento chegasse tão cedo. Ele estava sem palavras.
Finalmente ele decidiu – não estaria tudo bem se confiasse nesses caras? Ele poderia se afastar deles a qualquer momento se as consequências se tornassem muito perigosas. Ele organizou seus pensamentos e lentamente colocou sua máscara. “Algum dia eu vou te contar tudo.”
“Tudo bem.” Edora assentiu e sorriu. Seu sorriso estava mais brilhante do que nunca.
***
Yeon-woo foi com Edora até a sala do outro lado do corredor onde Phante, Sesha, Galliard e Brahm estavam. Ela não sabia por que, mas também tinha um visitante. Creak. Ela abriu a porta com cuidado. Galliard inclinou a cabeça quando viu Yeon-woo, surpreso pelo fato dele ter colocado a máscara novamente. Mas ele podia adivinhar qual era o motivo.
“Finalmente está aqui.”
“Sim.”
“Brahm estava te esperando.”
Yeon-woo acenou com a cabeça e foi até a cama. Phante olhou para Yeon-woo com uma expressão complicada e se moveu para o lado. Sesha, que estava sentada na cama, correu na direção de Yeon-woo. “Tio!”
Galliard já tinha explicado tudo a ela, já que ela estava chamando-o de “tio” ao invés de “pai”? Mas antes que Yeon-woo pudesse expressar sua felicidade por ter se encontrado com sua sobrinha agora que tudo tinha sido revelado, Sesha começou a soluçar.
Brahm estava na cama, morrendo lentamente. Sua pele estava seca e sua respiração estava fraca. Era inacreditável ver que um grande deus, que era um dos indivíduos mais poderosos da Torre, estava morrendo desse jeito. Foi somente graças à ajuda de Yvlke que ele conseguiu continuar vivo até agora.
Pela primeira vez, Yeon-woo viu um sorriso amargo no rosto de Yvlke. Ele ajeitou seu monóculo e olhou para Yeon-woo. “Provavelmente vocês têm muito sobre o que conversar. Já que sou um estranho, vou sair por um momento. Jogador ###, Hermes te deixou uma mensagem, então por favor me procure mais tarde.” Yeon-woo assentiu e Yvlke abriu um portal para se esconder das vistas deles.
Yeon-woo lentamente se aproximou da cama. As pálpebras de Brahm tremeram, ele mal conseguia abrir seus olhos. Seu olhar desfocado se dirigiu a Yeon-woo.
“É você?”
“Sim.”
“Posso ver seu rosto?”
Yeon-woo assentiu e moveu sua mão para a máscara. Enquanto isso, Phante, Edora e Galliard saíam da sala. Click. Brahm encarou o rosto de Yeon-woo por um momento: sobrancelhas pretas, olhos puxados, queixo pontudo. Era um rosto bonito para um homem.
“É o mesmo rosto, mas passa uma impressão completamente diferente.”
“Já ouvi isso bastante.”
“Normalmente gêmeos são parecidos.”
“Mas ainda assim crescemos diferentes um do outro.”
“Já que os dois têm personalidades opostas, aposto que vocês brigavam bastante.”
“Não é normal irmãos crescerem brigando um com o outro?”
“Haha. Acho que sim.”
Brahm parecia muito mais gentil. Era porque estava prestes a morrer? Sua expressão estava mais suave, combinava com ele. Talvez sua expressão fria fosse só uma fachada, como a máscara de Yeon-woo. De repente, Brahm deu um sorriso amargo. “Você sabia que eu não gostava desse rosto?”
Os olhos de Yeon-woo se arregalaram com as palavras inesperadas.
“É um rosto que trouxe muito sofrimento para a minha filha.”
Yeon-woo também deu um sorriso amargo. “Ele foi um cuzão.”
“Sim, ele foi um cuzão. E um dos piores.”
Ananta gostava do seu irmão, desde a primeira vez que tinham se encontrado. Ela revelou seus sentimentos a ele, mas ele a rejeitou porque já tinha uma namorada na época. Quando Yeon-woo parou para pensar nisso, Jeong-woo realmente tinha sido um idiota. Ananta só tinha conseguido descobrir que ele tinha uma filha porque sempre estava observando-o. Ela arriscou tudo para salvar a criança, Sesha.
Era normal Brahm não gostar de Jeong-woo por fazer Ananta passar por tudo isso. Até mesmo depois da morte de Jeong-woo, Ananta continuou lutando para proteger Sesha. “Eu não vivi uma vida que me fizesse me sentir orgulhoso de dizer que eu era um pai. Nunca fui um pai gentil. Mas mesmo assim, não gostei de como ele a deixou magoada por tanto tempo.” Os olhos de Brahm não estavam mais focados em Yeon-woo, mas sim na pessoa que tinha o mesmo rosto que ele. “Mas ao mesmo tempo, eu me sinto grato. No fim, foi ele quem fez eu me aproximar da minha filha.”
Yeon-woo lembrou-se de uma seção no diário que explicava que seu irmão havia procurado Ananta por causa de Brahm. ‘Já que Brahm não queria ensiná-lo, ele descobriu o que Brahm mais queria, que era Ananta. Então ele tentou convencê-la a ir ver Brahm. Se não me engano, ela deu um tapa nele.
Seu irmão foi persistente ao persuadir Ananta. No começo, ele só queria aprender alquimia com Brahm, mas depois, foi porque ele genuinamente esperava que a relação de Anata e Brahm melhorasse. Já que estava longe da família também, ele simpatizava com eles.
“Foi ele quem me deu essa criança, então no fim, mesmo que eu não goste dele, eu sou grato.” Brahm acariciou a cabeça de Sesha. Lágrimas caíram dos olhos dela. “Como posso deixar essa criança para trás?”
A voz de Brahm estava cheia de arrependimento por não ter conseguido capturar um demônio. A doença de Sesha pioraria e grupos como Elohim e a Terra do Sangue continuariam a persegui-la. Sua filha estava em algum lugar travando uma batalha. Havia muitas coisas que ele estava deixando sem serem resolvidas. Ele era um idiota que nunca conseguiu fazer algo certo desde o dia que Ananta nasceu. Era o deus da criação, um indivíduo superior, mas o que isso importava? Ele nem podia ajudar a pessoa mais preciosa para ele. Brahm afagou a cabeça de Sesha.
“Brahm, não vá.” Sesha agarrou a mão de Brahm e balançou a cabeça. Sua cauda baixa expressava tristeza.
Yeon-woo virou para Brahm para fazer uma pergunta. “Você quer viver?” Ele sabia que havia uma solução. Brahm olhou para Yeon-woo, seus olhos estavam calmos. “Você está falando da sua habilidade.” Como era de se esperar, ele sabia de Shanon e Hanryeong em sua sombra.
“Isso mesmo.”
“Eu? Viver?” Brahm fechou os olhos, então lentamente os abriu de novo. “Posso realmente viver de novo?” Sua voz tremeu. “Eu cometi um pecado. Eu era só um incômodo para o mundo. Posso mesmo… viver?”
“Sim, você pode.” A voz de Yeon-woo era firme. “Viva por Sesha. Viva por Ananta. E eu também estou te pedindo. Se você viver…” Yeon-woo pausou. “Vai ter alguém com quem vai poder rir daquele cara idiota com você.”
Brahm arregalou os olhos. Ele não conseguia responder.
“Além disso, você não tem que curar a doença da Sesha e se encontrar com a sua filha?”
“Existe um jeito?”
Yeon-woo assentiu. “Eu tenho uma ideia. Podemos salvar Sesha e Ananta, mas preciso da sua ajuda.”
Brahm suspirou levemente. “Você é igual a ele. Irritante.”
“É isso que acontece com irmãos.”
“Mas eu já… fui chamado de deus. Haha. Agora ficarei preso a alguém.” Se alguém que conhecesse o orgulho de Brahm ouvisse sobre isso, ficaria chocado. “Mas provavelmente… não vai ser tão ruim assim.” Com isso, Brahm fechou seus olhos em silêncio. Sua respiração parou. E sua vida chegou ao fim.
Yeon-woo conseguiu ver a alma de Brahm deixando seu corpo com os Olhos Dracônicos. “Tio!” Sesha puxou a manga de Yeon-woo. Ele passou sua mão em sua cabeça para tranquilizá-la e estendeu a mão esquerda em direção ao corpo de Brahm.
[Espada Vampírica de Bathory]
Clack, clack. Seus dentes se enterraram no corpo de Brahm e começaram a absorver sua energia. Brahm não tinha tanto poder sobrando, mas já que era a alma de um antigo deus, uma grande quantidade de energia entrou no corpo de Yeon-woo.
[Você obteve Fatores Divinos.]
[Você obteve Fatores Divinos.]
……
Eram informações sobre os Fatores Divinos. Poderiam ser usados para despertar ainda mais seu Corpo de Dragão Demoníaco, mas Yeon-woo somente reuniu os Fatores Divinos e os combinou com energia. Já que ele nem conseguia usar seu Corpo de Dragão Demoníaco direito, seria só mais um fardo para carregar. Além disso, ele queria salvar o avô de Sesha usando quaisquer meios que fossem necessários.
De repente, o Desespero do Rei Obscuro emitiu um som. Yeon-woo estendeu sua mão direita. Em sua palma estava uma enorme alma branca, uma alma divina. As Almas Familiares e os Espíritos Familiares nem podiam se comparar ao seu poder.
Yeon-woo queria saber se ela seria capaz de se tornar um Lich ou um Cavaleiro da Morte já que era maior do que ele esperava. Um deus ainda era um deus. Ele estava prestes a fazer uma tentativa quando Sesha disse, “Espera, tio! Aqui, aqui!”
Ela tocou no bracelete em seu braço e abriu um subespaço. Sesha mexeu dentro dele por um momento e puxou algo. Era uma pequena garrafa de vidro. Yeon-woo arregalou os olhos quando viu o que era.
[Espírito de Homúnculo Líquido]
[Categoria: Elixir]
[Rank: ??? (Incapaz de ser determinado, incompleto)]
[Descrição: Material para um ser vivo artificial que Brahm fez com seu conhecimento de alquimia e magia. No entanto, ele não conseguiu descobrir como criar uma alma, então está incompleto.]
Brahm tinha orgulho de dois tesouros. O primeiro era o Livro de Mercúrio, que continha todo o seu conhecimento de alquimia. O outro era o Espírito de Homúnculo Líquido, que era o resultado de todo o seu conhecimento.
“Ele disse que usaria isso se não conseguisse curar a minha doença. Você também pode salvar o Brahm com isso!” Sesha agarrou a garrafa ainda mais forte, seus olhos brilhando. Ela tinha certeza de que seu tio faria a mesma coisa por ela. Yeon-woo não conseguiu segurar um sorriso, cheio de desejo de agradar sua sobrinha. ‘Vai ser ruim se isso não funcionar.’
Ainda assim, ele aceitou a garrafa e colocou a alma de Brahm dentro. A garrafa brilhou e enquanto olhava para ela, percebeu que, assim como Brahm, ele também era apaixonado por Sesha.