Capítulo 1

Um dia, Sakuta Azusagawa recebeu uma nova aluna na escola preparatória onde trabalhava. Ele havia assistido às aulas até o quarto período e, em seguida, pegou o trem de volta para a Estação Fujisawa. Quando chegou à escola, já passava das seis, e o sol já havia se posto. O frio intenso do inverno estava começando a se manifestar, os dias estavam ficando mais curtos e as noites chegavam mais cedo.

Ele guardou suas coisas em um armário para funcionários e vestiu um jaleco branco, o símbolo de um professor. Saiu da sala de armários carregando apenas os materiais que planejava usar na aula, mas logo foi chamado pelo diretor.

“Azusagawa, que bom que você está aqui.”

“Boa noite.”

Assim como no restaurante onde ele também trabalhava, usavam essa saudação mesmo à noite.

“Sim, boa noite. Tenho uma aluna para você assumir a partir de hoje, tudo bem?”

“Hoje? Isso é repentino.”

“Preferência dela. Você conhece a Sara Himeji?”

Ele conhecia. Ela já havia assistido a uma de suas aulas antes.

“O que acha, Azusagawa?”

Ele não tinha um bom motivo para recusar. Era pago por aluno, então estava esperando conseguir mais estudantes.

Sara ainda estava no primeiro ano. Não havia necessidade de se apressar na preparação para os exames de admissão à faculdade. Em certo sentido, ela era o tipo ideal de aluna para Sakuta.

“Tudo bem.”

“Ótimo, ótimo.”

Enquanto terminavam a conversa, uma voz de garota chamou das cabines de estudo.

“Ei, professor!”

Sakuta reconheceu o uniforme de Minegahara imediatamente. Ela o usava como uma aluna exemplar, a própria garota sobre a qual acabavam de falar, Sara Himeji. Ela estava estudando enquanto esperava por ele.

A maneira como ela correu em direção a Sakuta lembrava-lhe um gato amigável.

“Mal posso esperar para aprender, Azusagawa-sensei!”  disse ela, curvando-se educadamente, com as mãos alinhadas ao lado do corpo.

Talvez por estar na presença do diretor, ela até o chamou de forma correta.

“Prazer em tê-la aqui, Himeji.”

Era bom receber uma nova aluna sem ter que começar do zero. E como a escola dela era sua antiga escola, ele tinha uma boa noção do que estava sendo abordado nas aulas e até do que provavelmente apareceria nos exames intermediários e finais. Ele próprio havia sido aluno lá apenas um ano antes.

“Faça como sempre faz, Azusagawa.”

“Pode deixar.”

Com isso, o diretor voltou à sua mesa, murmurando:

“Agora só preciso enviar a papelada contábil e revisar as inscrições, ah, tanto para fazer!”

Sara desviou o olhar das costas do diretor e se virou para Sakuta.

“Obrigada por me aceitar!”  disse ela, curvando-se novamente assim que seus olhares se cruzaram.

“Não há de quê. Graças a você, meu salário vai aumentar.”

“Garanta que minhas notas também aumentem.”  disse ela, fazendo uma expressão emburrada.

Essa garota era esperta o suficiente para responder às suas piadas bobas. Mas vê-la ali era um lembrete poderoso do sonho que ele teve alguns dias antes. Um sonho muito vívido, que não parecia um sonho de jeito nenhum. Um sonho no qual Sara se tornava sua aluna em 1º de dezembro.

E  hoje era 1º de dezembro.

A ligação do diretor, a maneira como ele mencionou uma nova aluna, e o momento em que a cabeça de Sara surgiu da cabine de estudo, até as palavras que eles acabaram de trocar, tudo correspondia exatamente ao sonho.

Era como assistir a uma gravação desses exatos momentos. Era um pouco como quando ele e Tomoe Koga ficaram presos em um loop durante o segundo ano do ensino médio. Só que muito mais curto.

Por essa razão, a verdadeira causa desses sonhos lhe escapava, deixando-o mais confuso do que surpreso. Era uma sensação estranha, como se ele tivesse sido deixado para trás, um sentimento que ele não conseguia se livrar.

O mundo parecia instável sob seus pés, e ele não conseguia se acalmar.

Se a versão do sonho parecia tão real, como ele poderia saber que não estava sonhando agora? Isso parecia igualmente provável. Havia quase nenhuma diferença discernível entre o sonho e a realidade.

“Professor?”  Sara o chamou, inclinando a cabeça.

“Hm?”

“Se não tem nada a dizer, não deveria apenas ficar encarando.”

Ela colocou as mãos sobre o rosto, se escondendo dele.

“Ah, desculpe.”

Ele não estava realmente olhando para ela, mas seu olhar estava direcionado na direção dela. Ele se virou para a entrada da escola, assim que Kento Yamada entrou com uma saudação nada entusiasmada, dizendo:

“E aí.” Juri Yoshiwa estava logo atrás dele.

“Olá.”

Sakuta estava ensinando matemática para esses alunos. Como Sara, ambos eram estudantes de Minegahara. Kento estava até na mesma classe que ela.

“Oh, que timing perfeito, vocês chegaram juntos. Acontece que…”

Antes que ele pudesse contar sobre Sara…

“Nos encontramos no elevador.” corrigiu Juri, de forma um pouco forçada.

Dizer “certo” aqui parecia estranho, então Sakuta apenas assentiu de forma desajeitada.

“Himeji vai se juntar à minha turma hoje. Achei que vocês deviam saber.”

“Ei, Yamada. E Yoshiwa!”

“Oh? Sério?”  Kento ficou visivelmente abalado com a notícia, mas não de forma negativa. Ele tinha uma queda por Sara, então isso era totalmente positivo para ele, só o pegou de surpresa e o deixou incapaz de disfarçar sua reação.

“Yamada, o que isso quer dizer?”  perguntou Sara, lançando-lhe um olhar inquisidor.

“Ah, o que você quer dizer?”  ele respondeu evasivamente.

“Sério bom? Ou sério ruim?”  ela insistiu.

“Nenhum dos dois!”  Ele virou as costas para ela, inquieto.

Sara colocou as mãos na boca, sufocando uma risada.

Juri passou por eles como se isso não fosse da sua conta. Ela foi direto para a cabine onde as aulas eram realizadas.

“Sakuta-sensei, comece a aula!” disse Kento, com o rosto vermelho.

“Já está na hora!”

“Nunca te vi tão motivado, Yamada.”

Kento ignorou o comentário de Sakuta enquanto corria atrás de Juri.

Tão transparente. E a reação dele também fazia parte do sonho de Sakuta. O mesmo vale para a resposta impassível de Juri.

Isso levantou ainda mais perguntas.

Se isso fosse apenas um caso isolado de esquisitice que Sakuta experimentou sozinho, ele eventualmente teria rido da situação. Mas ele sabia muito bem que não era esse o caso. Histórias semelhantes estavam aparecendo por toda a internet, marcadas com a hashtag #sonhando. A cidade estava agitada com histórias de sonhos que se tornaram realidade.

Ikumi Akagi estava ativamente usando a hashtag para salvar pessoas, o que tornava impossível descartar esses incidentes como mera superstição. Sakuta havia visto um post com a hashtag #sonhando se tornar realidade, ele viu com seus próprios olhos. Depois que isso aconteceu, ele não teve escolha a não ser acreditar.

Diariamente, havia centenas de postagens com essa hashtag. Todas descreviam sonhos da noite anterior. Todos estavam ansiosos, se perguntando se esses sonhos se tornariam realidade. Mais postagens surgiam a cada dia. Muitas pessoas eram céticas ou zombavam da ideia, e havia muitas discussões acaloradas sobre o quão seriamente esses posts deveriam ser levados. Seria um presságio? Ou algo já estava dando errado?

Agora que isso o envolvia diretamente, Sakuta não podia simplesmente fingir indiferença. E o pior de tudo, ele tinha uma suspeita de quem poderia ter causado tudo isso: Touko Kirishima.

Muitos a conheciam como uma cantora popular na internet, que publicava seu trabalho em sites de compartilhamento de vídeos. Para Sakuta, ela era uma misteriosa Mamãe Noel de minissaia que só ele podia ver. Ele teria que conseguir algumas respostas dela na próxima vez que se encontrassem. E ele tinha um bom motivo para isso: ele precisava encontrá-la.

‘Encontre Touko Kirishima. Mai está em perigo.’

Essa era a mensagem de um Sakuta melhor, de outro mundo potencial. Assim que ele viu isso, ele não podia simplesmente ignorar. Ele precisava descobrir o que isso significava, custe o que custar. Ainda assim, se preocupar com isso agora não o levaria mais perto de Touko. No trabalho, tudo o que ele podia fazer era ensinar matemática para aquelas crianças.

Sara ainda estava por perto, na área dos funcionários, então ele disse:

“Está na hora. Vamos começar.’

“Certo! Mal posso esperar para aprender, professor!”

No Colégio Minegahara, os exames finais começavam no dia seguinte. E o exame de matemática seria no primeiro dia, o que caía muito bem para Sakuta. Ele estava planejando garantir que todos soubessem como lidar com trigonometria.

Após os oitenta minutos de aula, Sakuta desejou boa sorte aos seus alunos para o exame e os dispensou.

“Sakuta-sensei, não me lembre disso!”  Kento disse, franzindo a testa para ele.

Juri apenas acenou com a cabeça, isso poderia significar tanto um “sim” quanto um “não”  e desapareceu pelas portas. Parecia que ainda levaria um tempo até que ele conquistasse a confiança ou o respeito deles.

“Não se preocupe, vou me sair bem.”  disse Sara, o que foi gentil da parte dela.

Ele havia pedido para ela ficar mais um pouco para discutir a programação das aulas e os planos de ensino.

“Provavelmente, na próxima aula, passaremos a maior parte do tempo revisando o que vocês erraram no teste, mas… o que você espera depois disso, Himeji?”

Ela era uma garota inteligente e entendeu imediatamente o que ele não havia dito. O que ele estava ensinando no momento não era suficiente para ela. O plano de aulas de Sakuta foi projetado para ajudar a reforçar os fundamentos de Kento e Juri, mas Sara já dominava todos eles. Não faria muito sentido para ela assistir às mesmas aulas.

Ela pensou por um minuto, depois olhou diretamente para ele.

“Posso decidir depois que os exames terminarem?”

“Claro.”

“Não quero soar convencida e depois tirar trinta na prova final.”  disse ela, tentando conter um sorriso.

“É melhor não fazer piada sobre isso na frente do Yamada.”

Kento havia tirado exatamente trinta nas provas intermediárias. E Sara tinha visto aquela folha de respostas, havia grandes chances de que ela estivesse se referindo diretamente àquela nota.

“Não conte a ele que eu estava implicando. Isso é… um segredo entre nós dois, professor.”

Seu sorriso transbordou. Ela parecia bastante satisfeita por ele ter entendido a piada.

“Então, na próxima vez, você manterá o mesmo dia que eles?”

“Para a revisão do exame? Claro.”

“Você pode não ter suas folhas de respostas de volta, mas traga uma cópia da prova.”

“Entendido. Podemos falar sobre o futuro novamente, então.”

“Uhum. Cuide-se no caminho de casa.”

Sara colocou a mochila nos ombros, mas não se moveu em direção à porta. Ela estava olhando para ele como se quisesse que ele dissesse algo mais.

“Você não vai me desejar sorte no exame?”

“Eu sei que você vai tirar uma boa nota.”

“Que jeito de aumentar a pressão!”

As palavras dela faziam parecer que estava chateada, mas seu sorriso radiante sugeria o contrário. Ela saiu pela porta com um ar confiante.

Depois que ela se foi, Sakuta preencheu o relatório sobre a aula do dia. Como havia um aluno a mais listado, ele tinha mais o que escrever.

Depois de finalizar a papelada necessária, ele procurou por Rio Futaba, que também trabalhava ali meio período. Se a aula dela tivesse terminado, ele imaginou que poderiam sair juntos, aproveitando a oportunidade para conversar sobre os sonhos que estavam se tornando realidade.

Ele encontrou Rio facilmente; ela estava na área comum, perto da sala dos professores, respondendo às perguntas de um garoto bastante alto, Toranosuke Kasai, que estudava física com ela. Ela tinha um dedo em um livro didático aberto e estava rabiscando em um caderno com a outra mão. Cada vez que Rio perguntava “Acompanhando?”, ele respondia “Sim” tão suavemente que era difícil acreditar que aquela voz saía de um corpo tão grande. Ela terminou de resolver um problema e passou para o próximo.

Parecia que isso ia demorar.

Não era como se o assunto dos sonhos tivesse que ser discutido hoje. Ele poderia esperar. A ameaça a Mai era muito mais urgente, e ele já havia consultado Rio sobre isso no mesmo dia em que recebeu a mensagem.

Ele pegou o celular de Mai emprestado para ligar para Rio e pediu que ela o encontrasse na estação de Fujisawa assim que as aulas dela terminassem. Eles discutiram a situação no restaurante familiar onde Sakuta também trabalhava.

“Tudo o que posso dizer agora é que há duas categorias principais de ameaça.” disse Rio, retornando do balcão de bebidas com um café.

“E quais são?”

“Touko Kirishima em si é um perigo para Sakurajima.”

“Ou?”

“Alguém que obteve a Síndrome da Adolescência através de Touko Kirishima colocará Sakurajima em perigo.”

“Sim, uma dessas duas opções.”

O aviso foi tão breve que tudo o que eles puderam deduzir foram essas descobertas nebulosas. Não havia indicação do que aconteceria, qual era a ameaça ou mesmo que tipo de perigo estavam enfrentando. Tudo o que sabiam era que estava, de alguma forma, conectado a Touko Kirishima.

“Por mais que eu pense nisso, a hipótese da ameaça direta não parece muito provável.”

Isso seria simplesmente um crime. Ele não conseguia pensar em um possível motivo. Nenhuma das interações deles sugeria que houvesse algum ressentimento profundo. E, como ela era invisível, não faltaram oportunidades. O fato de nada ter acontecido a Mai até agora provava que ele estava certo.

“Eu concordo que a última opção é a mais provável.” Mas isso não eliminava completamente a primeira opção. Rio tomou um gole de café, deixando essa conclusão não dita.

No máximo, Touko havia demonstrado uma leve irritação com a chegada de Mai, mas isso poderia ser apenas uma reação por ter sua conversa interrompida. Mesmo que houvesse algo mais, não parecia ser forte o suficiente para justificar cometer um crime.

“O que você acha que eu devo fazer, Futaba?” ele perguntou, assim que ela colocou a xícara sobre a mesa.

Sakuta sentia que lhe faltavam informações suficientes para tomar uma ação decisiva.

“Se você quer cortar o problema pela raiz, então cure a Síndrome da Adolescência de Touko Kirishima.”

Somente Sakuta conseguia vê-la. Assim como apenas ele havia sido capaz de ver Mai.

“Essa é a sua área,” disse Rio com um sorriso nos lábios, sugerindo que se lembrava de como ele havia resolvido o problema de Mai.

O momento em que ele convidou Mai para sair. Ele correu para o campo durante um teste e gritou ‘Eu te amo!’ para que toda a escola ouvisse.

“Se ao menos isso resolvesse tudo.”

Infelizmente, Mai e Touko eram muito diferentes. Não apenas no relacionamento que ele tinha com cada uma, mas também no motivo e na maneira como as coisas aconteceram.

Eles sabiam o suficiente sobre por que Mai estava desaparecendo para que Rio pudesse formular uma hipótese viável, mas ainda sabiam muito pouco sobre Touko.

Por que ninguém mais conseguia vê-la? As semelhanças com os sintomas de Mai apenas enfatizavam as diferenças. Touko havia simplesmente desaparecido do espectro visível. Enquanto Mai havia desaparecido das memórias das pessoas, todos ainda sabiam quem Touko era. Eles estavam ouvindo as músicas que ela carregava e comentando sobre o quanto gostavam dela e de sua música.

“Futaba, você acha que ela está realmente causando essa última onda da Síndrome da Adolescência?”

Touko descreveu isso como dar ‘presentes’. Como quando Uzuki Hirokawa de repente aprendeu a ‘ler o ambiente’.

Ou quando Ikumi Akagi trocou de lugar com outro eu potencial. Quanto aos alunos sonhando com o futuro… ela também chamava esses de presentes.

Aparentemente, esses eram os presentes que todos queriam.

“Ela mesma disse isso.” E foi por isso que Rio estava sugerindo que curar a Síndrome da Adolescência dela resolveria todo o resto.

“Por outro lado, tudo o que temos é a palavra dela.”

E nenhuma prova concreta. Ele e Rio poderiam ficar sentados especulando por horas e não chegariam a lugar nenhum. O caminho à frente já estava fechado.

“Eu acho que você tem razão.” Estar no fim da linha o levou a uma conclusão. Preparou-o para aceitar a tarefa.

“Eu vou ter que curar Touko Kirishima.” Rio concordou com um olhar significativo.

“Pode ser um pequeno consolo, mas fique de olho na hashtag ‘sonhando’. Talvez algum post lhe dê uma pista.”

“Olho por olho, dente por dente, e Síndrome da Adolescência por Síndrome da Adolescência.”

Quando ele chegou em casa, colocou em prática o conselho de Rio. Pegou emprestado o laptop da sua irmã Kaede, e examinou todos os posts com a hashtag #sonhando em busca de algo sobre Mai Sakurajima. Ele não encontrou nenhuma história que parecesse estar conectada a algum perigo evidente.

Desde então, ele começou a procurar rotineiramente pela hashtag.

Enquanto Sakuta mantivesse um bom ritmo, a caminhada para casa levava cerca de dez minutos. Depois da aula, ele chegou ao apartamento logo após as nove.

“Cheguei!”

Ele tirou os sapatos e entrou. A gata deles, Nasuno, saiu da sala de estar. Um momento depois, a porta do banheiro se abriu.

“Oh, Sakuta. Bem-vindo de volta.”

Era sua irmã, Kaede, de pijama. Ela foi para a cozinha, ainda secando o cabelo. Ele ouviu a porta do freezer se abrir, então ela devia estar com vontade de um sorvete.

Ele foi para o banheiro lavar as mãos e fazer gargarejo. Depois, foi para a sala de estar, permitindo-se sentir um pouco de esperança.

Seus olhos se fixaram na secretária eletrônica. Ele estava esperando uma ligação de retorno. Desesperado por ela. Mas a luz vermelha estava estável. Ela estaria piscando se alguém tivesse deixado uma mensagem. Ele verificou o registro de chamadas, mas ninguém havia ligado.

“Acho que vou tentar novamente.”

Ele digitou o número mais recente em sua mente. O que a Santa de minissaia lhe havia dado. Um momento depois, ouviu o telefone chamando. Isso provava que o número estava em uso. Se ela estava falando a verdade, esse deveria ser o celular de Touko Kirishima.

Após o sétimo toque, a ligação foi enviada para a caixa postal. Era a mesma mensagem padrão que ele havia ouvido várias vezes nos últimos dias. Ele não tinha ligado apenas uma ou duas vezes. Deixou uma mensagem de voz no dia anterior também.

Não havia sinal de que ela o ligaria de volta, mas Sakuta não se deixou desanimar. Mais uma vez, ele falou no receptor.

“Este é o número de Touko Kirishima? Aqui é Sakuta Azusagawa, ligando para saber mais sobre o Papai Noel. Espero que me ligue de volta.”

Com isso, ele desligou. Por trás dele, Kaede zombou. “O que foi isso, um trote?”

Ele se virou e a viu olhando para ele com grande suspeita, um picolé de laranja na boca.

“Não foi trote. Apenas uma ligação normal.”

“Você está completamente louco!”

“Kaede, você está começando a soar como uma colegial.”

“A culpa é sua por sempre ser esquisito.”

“É?”

“O fato de você nem perceber o quanto você é ruim significa que você já está louco.”

A conversa entre irmãos foi subitamente interrompida. O telefone estava tocando. Não o celular de Kaede, mas o telefone fixo. Um número de onze dígitos apareceu no visor. Era um número que ele ainda não reconhecia de imediato, mas sabia de quem era. Ele pegou o receptor.

“Azusagawa falando.” Ele começou com a saudação mais comum.

“……” Nenhuma resposta veio. Mas ele podia ouvir alguém na outra linha.

“Kirishima, certo?” O número na tela provou isso.

“Você é mais esperto do que parece,” disse Touko, de algum modo conseguindo fazer com que não soasse como um elogio.

Ele tinha uma ideia do que ela queria dizer. Ela havia mostrado aquele número para ele por apenas três segundos, e estava zombando dele por conseguir memorizá-lo.

“Ouço isso com frequência.”

“E bastante ardiloso.”

Provavelmente era um aviso para ele parar de fingir que não sabia. Ou talvez se referisse ao fato de que ele fingiu não ter aprendido o número dela. Possivelmente, as duas coisas.

“E, ainda assim, incrivelmente estúpido.”

Sua reputação parecia estar em queda livre. Mas também não havia começado alta. Só parecia que sim porque ela o chamou de esperto. O que ela quis dizer com isso era bem menos lisonjeiro.

“Se você liga para alguém e essa pessoa não atende, a maioria das pessoas percebe que está sendo ignorada.”

“Eu achei justo continuar tentando até você bloquear o número.” Ele tinha um bom motivo para não deixar isso pra lá. ‘Encontre Touko Kirishima. Mai está em perigo.’

O outro Sakuta havia lhe dito isso.

“Tenho algumas perguntas, Kirishima.”

“Como se tornar o Papai Noel? Esse é um segredo.”

“Podemos nos encontrar de novo?”

Ele definitivamente não esperava conseguir muita coisa de uma única ligação. Havia muita coisa que ele não sabia. Disseram-lhe para encontrar Touko, e ele a tinha na linha, ele também a encontrou pessoalmente. Em tese, ele já a havia encontrado.

Mas isso não o aproximava de descobrir por que ‘Mai está em perigo’.

Como Rio disse, no momento eles só tinham duas teorias viáveis: Touko machucando Mai ou a ameaça vindo de alguém que havia recebido um presente da Síndrome da Adolescência da noel de minissaia. Uma coisa ou outra. Mas mesmo isso era apenas conjectura.

Por essa razão, ele queria encontrá-la pessoalmente, avaliar suas respostas com seus próprios olhos.

“Já é dezembro,” ela disse.

Seus olhos se voltaram para o calendário. “Parece que sim.”

Só restava um mês no ano.

“Esta é uma época movimentada para o Papai Noel.”

“Você pode arranjar um tempinho para mim?”

“Que tal amanhã?”

“Hum, na verdade, amanhã não é…”

Hoje era 1º de dezembro. O que significava que o dia seguinte seria 2 de dezembro, um dia especial que só acontece uma vez por ano.

“Ligue de novo depois das aulas. Se eu estiver a fim, posso encontrar você.”

Touko não estava ouvindo ele gaguejar.

“Não pode ser outro dia?”

Ele estava se agarrando a qualquer esperança.

“Você tem outros planos?” ela perguntou, parecendo irritada.

“É o aniversário da minha namorada.”

Mai havia conseguido um raro dia de folga e disse: ‘Tenho um lugar que quero te levar, Sakuta. Não faça planos depois da aula.’ Ele estava ansioso por esse encontro de aniversário desde então.

“Ah,” disse Touko, aparentemente convencida. Talvez isso significasse que ela concordaria em mudar os planos. Mas essa esperança logo foi destruída.

“Então eu definitivamente não vou me encontrar com você em outro dia.” Havia um tom de zombaria na voz dela.

E ela desligou imediatamente. Ele nem teve chance de tentar impedi-la. Ele tentou ligar de volta.

“……” Surpreendentemente, ela não atendeu. Tudo o que ele conseguiu foi a caixa postal.

“Aqui é Azusagawa, ligando para discutir sobre amanhã, ligarei novamente.” Com isso, ele desligou.

“Sakuta, essas ligações de trote estão indo longe demais,” disse Kaede, jogando o palito de picolé no lixo.

“Estou ligando para garantir que as coisas não saiam do controle.”

Agora, como ele deveria contar isso para Mai? Ela provavelmente entenderia se ele contasse a verdade. Ela estava familiarizada com as circunstâncias. Mas ele não achava que ela iria gostar.

“Acho melhor eu ir para a cama cedo.”

O dia seguinte iria exigir muito dele. Ele precisaria de energia para aguentar a bronca.

 

“Tudo bem. Vamos simplesmente cancelar os planos de hoje.” A resposta de Mai veio no dia seguinte, enquanto Sakuta estava sentado no banco do passageiro do carro dela.

Eles estavam parados em um semáforo durante uma breve pausa no tráfego, apenas os dois a bordo. Estavam a caminho das aulas do segundo período. Nodoka tinha uma aula no primeiro período, então, pela primeira vez, não estava por perto.

“Faremos esse encontro em outra ocasião.” A mão de Mai deixou o volante e ela afastou uma mecha de cabelo do rosto.

“Ah, não…”

“Foi você quem mudou os planos, então não sei por que está chateado.”

“Eu estava realmente ansioso por isso.”

“Essa é a minha fala.” O semáforo ficou verde, e em vez de pisar forte no freio, ela acelerou um pouco. O carro disparou para frente.

“Eu estava esperando que você ficasse desapontada.”

“Estou. Muito desapontada.” Ela lançou um olhar de lado, cheio de ressentimento. No momento em que ele disse ‘olá’, percebeu que a maquiagem dela estava ainda mais impecável do que de costume.

“Todos os meus preparativos foram em vão.” Mesmo as roupas dela claramente haviam sido escolhidas com o encontro de aniversário em mente.

Ela estava usando calças largas cinza com um vinco central que acentuava lindamente sua silhueta. A parte da cintura estava ajustada como um saco de cordão, realçando ainda mais a figura de Mai. E a blusa branca que ela usava era simples, mas elegante.

Em suma, o visual dela hoje era menos ‘fofo’ e mais ‘elegante e sofisticado’ . Um casaco preto para usar ao sair estava no banco de trás.

“Sempre fico feliz em passar tempo com minha deslumbrante Mai.”

“Feliz não é a palavra que eu usaria.” Uma resposta poderosa. Talvez fosse melhor parar de cutucar essa ferida.

“É o que é,” ela admitiu.

Havia um bom motivo para tudo isso. Ela estava sendo alvo de algo. Essa era a única razão pela qual ela concordou em cancelar o encontro de aniversário tão prontamente.

Por que ela disse “Tudo bem” sem demonstrar raiva.

Parte dele estava aliviado, mas qualquer sensação de alívio era superada pelas próprias frustrações. Após o aviso que haviam recebido, Mai devia estar ansiosa. Se o Sakuta do outro mundo enviou um aviso, não se tratava de tropeçar em uma pedra ou esbarrar numa porta. Nada tão trivial se encaixava na situação. Era seguro assumir que uma ameaça muito maior estava se aproximando dela.

Os dois já haviam vivido o pior cenário, aquele dia na neve. Ouvir que Mai estava em perigo trouxe de volta aquelas memórias desagradáveis. Pode não ter sido este corpo que viveu aquilo, mas tudo o que aconteceu na véspera de Natal estava gravado na mente dele. O horror que sentiu ao ver a neve ficando vermelha ainda estava fresco na sua memória. Não que ele planejasse esquecer; essa era uma dor que nunca deveria ser esquecida e que sempre permaneceria no coração de Sakuta.

E o mesmo provavelmente era verdade para Mai. Então por que ela não mostrava nenhum sinal disso?

“Seja grato por ter uma namorada compreensiva.”

“Se isso significa passar menos tempo com você, não quero ser grato.”

“Eu deveria ir com você?”

“Isso não vai dar certo.” Ele disse isso com um tom um pouco forte demais.

Sakuta não achava que Touko Kirishima pessoalmente quisesse fazer mal a Mai. Ele não achava, mas ainda havia um espinho no seu coração que o deixava em alerta, e isso se refletiu na sua voz. Ele deixou escapar.

E quando percebeu seu erro, já era tarde demais.

Mai vinha se esforçando para agir como sempre, e uma única palavra dele quebrou aquele clima. Em um instante, o ambiente ficou tão tenso que era quase palpável.

Sakuta não via uma maneira de salvar a situação rapidamente. Ele lamentou tudo e desviou os olhos para o espelho retrovisor.

Então Mai riu.

“Não se preocupe,” ela disse.

“Eu estou.”

“Eu sei que você está preocupado.” Os olhos de Mai passaram rapidamente pelas cores natalinas da vitrine de uma loja de conveniência.

“Está quase chegando o Natal,” ela disse.

Ele realmente não conseguia esconder nada dela. Em qualquer outra época do ano, Sakuta provavelmente conseguiria se manter firme. Mas desde que suas memórias voltaram, a chegada da época natalina o deixava desorientado. A cidade inteira se enfeitava de vermelho e verde, luzes por toda parte, e isso lhe causava uma sensação indescritível de perda e pânico.

“Vou passar o máximo de tempo com você este mês.”

“Agora mesmo, quero estar com você desde o bom dia até o boa noite.”

Ele nem queria sair de casa. Ficar em casa estaria bom para ele. Até que o significado daquela frase ‘Mai está em perigo’ se esclarecesse, ele não queria perder Mai de novo. Não suportaria que isso acontecesse duas vezes. Mas trancá-la em casa não era nada realista. Ela tinha faculdade e trabalho. Se uma atriz famosa desaparecesse de repente, isso significaria apenas más notícias. Seria um tipo totalmente diferente de perigo.

“Oh? Só agora?”

“Mesmo quando agora acabar.”

“Se você consegue brincar, está bem.”

“Você não está ansiosa, Mai?”

“Eu tenho você, então estou bem.” Isso fez o coração dele acelerar, e ela disse isso de forma tão óbvia.

“Uh, Mai.”

“Mm?”

“Podemos parar na próxima loja?”

“Por quê?”

“Para que eu possa te abraçar.” Os cintos de segurança tornavam isso difícil enquanto dirigiam.

“De jeito nenhum.”

“Ah, não…”

Mai estava rindo alegremente. Só estar com ela já fazia muito para acalmar seus nervos. A ansiedade não desaparecia completamente, mas ele também não podia deixar isso transparecer. Não queria despejar tudo isso em Mai. Hoje, ele teria que encontrar Touko e conseguir algumas respostas.

“Então, para onde você queria me levar, Mai?”

“Você vai descobrir quando chegarmos lá.”

“Locais potenciais para o casamento?”

“Não.”

“Encontro com sua mãe?”

“Você já fez isso.” Mai resmungou, com os olhos fixos na placa acima da estrada.

O carro passou por baixo da placa azul e branca de orientação. Como se uma ideia tivesse acabado de surgir em sua mente, Mai mudou de assunto.

“Sakuta, qual é sua aula na segunda hora?”

“Currículo básico.”

“Você está bem com a frequência?”

“Eu não sou você.”

“Eu também estou indo bem nisso.”

O Intercâmbio de Sekiya estava se aproximando rapidamente. Tecnicamente, não era um intercâmbio, mas sim uma interseção com várias estradas que parecia um intercâmbio.

À medida que se aproximavam, Mai ligou a seta e virou à esquerda. Para chegar à faculdade, ela teria que seguir em frente, para o Loop 4. Não era a primeira vez que ela os levava até lá, então Sakuta estava começando a aprender o caminho.

“Mai?” Sua pergunta era óbvia.

“……”

Mai não respondeu. Ela apenas continuou dirigindo por uma estrada completamente nova. Eventualmente, a estrada se conectou à Rota Nacional 1. Eles seguiram por ela até o Intercâmbio de Totsuka e depois entraram na rodovia expressa.

As placas de orientação começaram a mencionar lugares em direção a Yokohama propriamente dita. Sakuta e Mai frequentavam a faculdade em Kanazawa-hakkei, que tecnicamente fazia parte de Yokohama, mas em uma direção muito diferente dos lugares ao redor da estação de Yokohama mencionados pelas placas. Eles estavam a uns bons vinte minutos de distância de trem.

“Estamos matando aula?”

Quando Mai conseguia ir às aulas, ela sempre ia, por mais breve que fosse o tempo. Essa era possivelmente a primeira vez que ele a via faltar intencionalmente.

“É meu aniversário, então vou fazer o que eu quiser.”

Mai parecia estar se divertindo bastante enquanto ajustava a maneira como segurava o volante. Seria uma meia hora completa antes de Sakuta descobrir o motivo.

Mai entrou no estacionamento subterrâneo abaixo da Landmark Tower, o edifício icônico do distrito de Minato Mirai em Yokohama.

A essa altura, Sakuta já estava sentindo que algo estava errado. Agora ele estava em perigo.

“Mai, por que estamos aqui?”

“Siga-me, e você descobrirá.”

Eles deixaram o carro e pegaram um elevador. Mai apertou o botão para o terceiro andar.

O sino sinalizou a chegada, e as portas se abriram. Um vasto shopping se estendia diante deles.

O espaço amplo dava uma sensação relaxante. Até mesmo as pessoas andando por ali pareciam mais tranquilas.

“Aqui”, disse Mai, parando em frente a uma loja especialmente sofisticada.

O nome estava escrito em inglês, mas Sakuta o reconheceu mesmo assim.

Era uma joalheria mundialmente famosa, conhecida por sua icônica cor azul. Até tinha sido usada no título de um filme antigo.

Sakuta sentiu seu queixo cair.

“Um presente adorável do meu namorado seria a maneira perfeita de comemorar meus vinte anos. Concorda?”

“…Concordo.” Ela tinha razão, e ele não tinha escolha.

“Só que…” Mas ele já estava recuando, seus mecanismos de defesa entrando em ação.

“Só o quê?” Mai perguntou, com seu sorriso mais doce. Ela inclinou ligeiramente a cabeça enquanto olhava nos olhos dele.

Não era justo. Nada justo, mas cortava completamente qualquer possibilidade de fuga.

“Pode valer como presente de Natal também?” Isso era o máximo que ele podia ceder.

“Minha mãe costumava dizer isso quando eu era pequena, e eu sempre odiei.”

Mas, apesar de suas palavras, Mai estava sorrindo. Os lábios de Sakuta estavam virados na direção oposta, mas ela seguiu em frente e entrou na loja.

Ele só podia se comprometer.

“Ainda bem que eu trouxe dinheiro para esse encontro…”

Agradecido por sua previsão de sacar seu salário no dia anterior, Sakuta a seguiu.

Seu primeiro passo na loja seria memorável. No instante em que cruzou a soleira, sentiu como se até o ar tivesse mudado. Até o cheiro era diferente. Ele estava quase convencido de que o chão sob seus pés não era o mesmo.

O interior gracioso tinha um número modesto de vitrines. O espaço era bastante amplo, então poderiam ter exibido muito mais, mas escolheram não fazê-lo.

Era um uso luxuoso do espaço. Não havia como evitar a atenção dos funcionários ou se esconder nas prateleiras aqui. Ou desaparecer na multidão de clientes, havia apenas mais um casal na loja. Havia mais funcionários do que clientes.

Assim, no momento em que entraram, uma moça graciosamente composta os cumprimentou. Ela devia ter uns vinte e poucos anos e se aproximou deles com um sorriso. A compostura profissional durou pouco.

“O que os traz aqui…?!”

Ela parou, surpresa. Conseguiu evitar um grito, mas seus lábios deixaram claro que foi por pouco. Todo o seu corpo congelou por um breve segundo.

A causa era óbvia. A Mai Sakurajima estava diante dela.

Ela logo recuperou o sorriso. “Perdão”, disse ela.

“Gostariam de usar uma mesa nos fundos?”

Ela estava se inclinando, falando suavemente para que o outro casal não ouvisse.

“Desculpe a visita sem aviso. Seria apreciado.” Mai tinha assumido sua postura de figura pública.

Sakuta estava se sentindo cada vez mais deslocado ali. Nada naquela loja o deixava à vontade.

“Não queremos incomodá-los”, disse Mai, segurando o cotovelo de Sakuta.

“Por aqui”, disse a funcionária, conduzindo-os a um espaço que era menos uma mesa e mais uma sala privada. Havia uma mesa lá, então tecnicamente ela não estava errada.

Em vez de cadeiras, havia um sofá de costas eretas. Ele e Mai se sentaram juntos.

A funcionária se apresentou e explicou sua função na loja. Sakuta certamente teve a impressão de que, se tinham chegado até ali, sair de mãos vazias não era mais uma opção.

“O que você está procurando?” a funcionária perguntou, olhando para Mai.

Mai olhou para Sakuta, então aquele sorriso profissional se virou para ele.

“Hoje é o aniversário da Mai”, ele disse.

“O vigésimo.”

“Bem, feliz aniversário.” Mai reconheceu isso com um aceno de cabeça.

“E eu queria comprar um presente para ela.”

A funcionária estava assentindo entusiasticamente, o que o fez se contorcer.

“Vocês têm algo que possa ser comprado com o salário de meio período de um estudante universitário?”

Não havia razão para rodeios, então ele colocou a informação vital logo de cara. Ele havia dado uma olhada nas vitrines lá fora, e as etiquetas de preço eram verdadeiramente chocantes.

“Temos muitas peças lindas para escolher. Que tal eu selecionar algumas para você ver?”

“Por favor.”

“Já volto.” Ela fez uma reverência e se retirou.

Só quando a porta se fechou, Sakuta permitiu-se recostar no assento.

“Haaah…” Um suspiro escapou dele. Antes que tivesse a chance de respirar novamente, houve uma batida, e outra funcionária entrou. Dois segundos depois de ter se recostado, Sakuta estava novamente sentado ereto.

“Aqui está,” disse ela, colocando xícaras de chá fumegantes diante deles. O líquido dentro era de uma cor clara, semelhante a tijolos novos. Mesmo dali, o cheiro era agradável.

“Obrigada,” disse Mai.

“Aproveitem,” disse a funcionária, fazendo uma reverência antes de sair.

A primeira funcionária entrou enquanto a segunda saía. Ela voltou segurando duas bandejas.

“Obrigada por esperarem,” disse ela.

Não havia passado tempo suficiente para que isso pudesse ser chamado de espera. Na verdade, Sakuta teria preferido que ela demorasse um pouco mais, dando-lhe um momento para se acalmar.

Ela habilmente afastou as xícaras de chá para os lados da mesa e colocou a primeira bandeja entre eles. Havia três colares dispostos em estojos de feltro cinza. Um tinha um pingente em forma de coração. Outro passava por um anel. E o terceiro apresentava um motivo de trevo de quatro folhas.

“Oh,” disse Mai, pegando um. Ela escolheu o colar com o trevo de quatro folhas.

“Você usou isso em um filme no ano passado,” disse a funcionária.

“Muitos clientes vieram aqui depois de verem isso, na esperança de possuir a mesma peça.”

Ela colocou a outra bandeja na mesa. Esta continha três anéis.

Um parecia composto de folhas entrelaçadas, outro tinha dois anéis cruzados, e o último combinava com o coração do primeiro colar.

Todos eles brilhavam em um belo tom de prata.

“Experimente o que quiser.”

Mai foi direto para o anel em forma de coração. Ele se encaixou perfeitamente em seu dedo anelar direito. Um olhar para ele, e seus olhos suavizaram. Um sorriso surgiu em seu rosto.

“E então?” ela perguntou, mostrando o dedo a Sakuta, claramente satisfeita.

O anel em forma de coração inegavelmente ficava incrível no dedo longo e esguio de Mai. Ele se ajustava tão perfeitamente que parecia que sempre estivera ali.

“Fica incrível,” ele disse. Não havia outra resposta possível.

“Com certeza fica,” disse a funcionária, pegando o gancho. Ela começou a contar mais detalhes sobre o anel para Mai, mas Sakuta não ouviu nada disso. Seus olhos estavam fixos na discreta etiqueta de preço.

Para seu alívio, era significativamente mais razoável do que ele havia imaginado. Como solicitado, ela havia trazido algo que ele poderia pagar com seu salário.

“O que você acha?”

Mai passou o olhar da funcionária para Sakuta. O presente era dele, então, obviamente, a escolha também era sua, e ele estava pressionado a tomar uma decisão.

“Eu definitivamente gosto do motivo de coração,” ele disse. “Ambos os tipos.”

Havia um colar e um anel, e eles combinavam. A funcionária reorganizou as peças para que os dois itens estivessem na mesma bandeja. Todo o resto estava na outra.

O anel à direita. O colar à esquerda. Uma escolha binária, disposta visualmente. Tudo o que ele precisava fazer era escolher.

Ele olhou novamente para o anel. Ele brilhava. Então, verificou o colar. Estava reluzente.

A etiqueta de preço do anel era notavelmente mais alta.

Sakuta respirou fundo em silêncio. Depois, mais uma vez.

Então, ele disse: “Vou ficar com este aqui,” e apontou para sua escolha.

“Por favor, volte sempre!” A funcionária acompanhou Sakuta e Mai até a saída da loja e se despediu com uma reverência.

Eles se afastaram, caminhando juntos em direção ao elevador. A mão de Mai estava na dele, e nela estava o anel de prata em forma de coração. Eles tinham o tamanho dela em estoque, então ela já saiu usando-o.

“Você ouviu a moça,” disse Mai, provocando-o.

“Acho que o próximo será nosso anel de noivado.”

“Suponho que posso esperar por isso.” Ele provavelmente teria que adicionar um zero ao preço.

“Oh, Mai…”

“Mm?”

“Feliz aniversário.”

“Sakuta…”

“Mm?”

“Você sempre diz isso tarde demais.”

“No próximo ano, quero dizer isso para você na hora exata em que a data mudar.”

“Isso vai depender da minha agenda de trabalho.” Mas Mai balançou levemente suas mãos entrelaçadas.

Depois do desvio, Sakuta e Mai chegaram à faculdade com apenas vinte minutos restantes no intervalo para o almoço.

A cafeteria começava a esvaziar, e os estudantes que já tinham terminado de comer estavam matando tempo antes da próxima aula. O campus estava como sempre. Sakuta pediu a sopa de soba, considerando que seria servida rapidamente e poderia ser consumida em pouco tempo por menos de 300 ienes. Ele havia acabado de gastar um bom dinheiro, então uma sopa quente aquecia tanto o bolso quanto o coração. Não que ele estivesse arrependido da viagem de compras de hoje.

No caminho para a faculdade, Mai olhava para o anel em seu dedo a cada semáforo vermelho, praticamente transbordando de alegria. Eles estavam namorando há dois anos e meio, e ele nunca a tinha visto assim. Por mais que ela tentasse, não havia como esconder a emoção em seu rosto. Talvez ele devesse ter dado o anel a ela antes, quase se arrependeu disso.

Sakuta se sentou em uma mesa vazia, e Mai ocupou o assento ao lado dele assim que sua sopa ficou pronta. Ela havia pedido uma versão um pouco mais sofisticada da sopa, com tempura. Mai pegou o tempura com os hashis e o colocou na tigela de Sakuta.

“Minha maneira de dizer obrigada.”

“Nesse caso, você terá que me alimentar.”

Mai ignorou a reclamação dele e começou a tomar seu soba. Eles não tinham muito tempo antes do terceiro período, então ele desistiu e atacou o tempura. Houve um crunch satisfatório. Ambos não falaram muito, concentrando-se em terminar as refeições a tempo. Sakuta esvaziou a última gota de sopa, deixando o cheiro do caldo de katsuo agradar suas narinas. Enquanto saboreava um leve toque de molho de soja, alguém chamou seu nome:

“Azusagawa.”

Ele levantou o olhar da tigela e viu Ikumi Akagi em pé, do outro lado da mesa. Seus olhos encontraram os de Mai, e ela acenou com a cabeça. Em seguida, voltou os olhos para Sakuta, com uma expressão pesarosa.

“Desculpe, ainda não recebi nada.”

Ela mostrou a palma da mão. Quatro dias atrás, foi ali que a mensagem do outro mundo potencial apareceu. Depois de ver isso, Sakuta pediu um favor a Ikumi. Seu pedido era que ela se comunicasse com o outro mundo e descobrisse o significado da mensagem.

Como Mai estava em perigo? Por que ele precisava encontrar Touko Kirishima? Com essas respostas, o problema estaria praticamente resolvido. Ele não sabia sobre o outro Sakuta, mas neste mundo,  ele já havia encontrado Touko Kirishima. Até tinha marcado de se encontrar com ela hoje. Mas ontem, anteontem e no dia anterior, não houve resposta às perguntas de Ikumi. Sendo do tipo séria e diligente, ela vinha até eles para reportar isso a cada dia, parecendo profundamente arrependida todas as vezes.

“Acho que as mensagens que escrevo não estão mais chegando até o outro eu. Desde que recebi aquela última mensagem, nossas sensações não se sincronizaram nem uma vez.”

“Bem, isso provavelmente é melhor para você, Akagi.”

Tudo isso significava que a Síndrome da Adolescência de Ikumi estava totalmente curada.

“Mas…,” disse ela, franzindo a testa. Ele sabia o que ela estava prestes a dizer, então a interrompeu.

“Não comece a se sentir responsável e a trocar de lugar novamente. Já tive o suficiente de coisas sendo culpa minha.”

“……Justo. Estarei atenta.”

Ela parecia menos tensa. Deve ter captado o tom de humor dele. Ele não tinha certeza se ela realmente entendeu que ele estava sendo em grande parte sério. Claro, seriedade era o nome do meio de Ikumi Akagi. Ela trouxe aquelas mensagens para eles, então se sentia responsável. Provavelmente mais do que Sakuta imaginava.

Essa era simplesmente a maneira como sua mente funcionava. Isso ficou dolorosamente claro outro dia. Ele precisava permanecer vigilante. As promessas e garantias de Ikumi eram pouco mais que palavras ao vento.

“Entrarei em contato se descobrir algo,” ela disse, depois se curvou para Mai novamente e saiu da mesa.

Saki Kamisato a esperava na entrada da cafeteria. Elas trocaram algumas palavras e foram para a aula. Ao que parecia, ainda eram amigas depois da troca de corpos. Isso provavelmente era uma boa notícia para Ikumi. Saki lançou um olhar irritado para Sakuta, então provavelmente não era tão boa notícia para ele.

O sinal de alerta tocou. Cinco minutos para as aulas começarem. Isso fez com que os que estavam conversando se levantassem.

Sakuta e Mai devolveram seus pratos e saíram.

“Você estará em casa esta noite, Mai?”

“Estarei na sua casa.”

“Você realmente gosta de mim.”

“Nodoka vai pegar um bolo, então pensamos em compartilhá-lo com a Kaede.”

Ela mostrou a Sakuta o histórico de mensagens em seu telefone. Ele não tinha permissão para ficar satisfeito com o cancelamento do encontro.

“Ela está perguntando se você quer alguma coisa.”

“Diga que claro que sim.”

“Ok, Sakuta. Tome cuidado.”

Eles haviam parado no patamar do segundo andar. A aula de Mai era ali, enquanto a de Sakuta era mais um lance de escada acima.

“Você tome ainda mais cuidado, Mai.”

“Se algo acontecer comigo, você vai chorar.”

“Eu absolutamente vou.”

Essa resposta pareceu agradá-la. Ela acenou com a mão que usava o anel e entrou na sala de aula.

“Mai está mais linda hoje,” Sakuta disse, e subiu as escadas, saboreando sua própria felicidade.

E para garantir que essa felicidade continuasse, depois das aulas, ele iria encontrar a mamãe Noel.

A aula do currículo básico do quarto período terminou dez minutos antes do toque do sinal.

“É um pouco cedo, mas é isso por hoje,” disse o professor enquanto empilhava suas coisas e deixava a sala.

Nenhum aluno reclamou da liberação antecipada; todos já estavam conversando com os amigos.

“Pronto para cair na estrada?” perguntou Takumi Fukuyama.

Ele era um amigo de Sakuta da mesma turma. Takumi arrumou suas coisas e colocou a mochila nos ombros.

“Desculpe, tenho coisas para fazer.”

“Outro encontro? Que inveja! Divirta-se, então. Até mais!”

Após expressar uma série de emoções confusas, Takumi saiu apressado.

“O garoto precisa se controlar,” Sakuta murmurou. Então, alguém se aproximou.

“Azusagawa, hola.”

Esse cumprimento veio de Miori Mitou, aluna do curso de Negócios Internacionais. Como Sakuta era aluno de Estatística, suas únicas aulas em comum eram do currículo básico e do curso de língua estrangeira secundária, espanhol.

“Hoje está sozinha, Mitou?” Ela geralmente saía da aula com suas amigas.

“O grupo da Manami faltou junto.”

“Apenas as garotas?”

“E alguns garotos.”

“Do mixer em que você se perdeu no caminho?”

“Isso mesmo.”

Ela parecia levemente irritada, será que foi deixada de fora? Provavelmente.

“Bom para eles.”

“Irritante!”

Ela estreitou os olhos e atacou Sakuta, mesmo que seus outros amigos fossem os culpados. Por algum motivo, ele sempre achava esse lado dela encantador.

“Quero dizer, se você for, vai conquistar todos os corações dos garotos e deixar as outras garotas de mãos vazias.”

“Eu sou essa pessoa.” Aquilo parecia tanto uma brincadeira quanto uma amargura genuína.

No mínimo, Miori estava bem ciente de como as outras pessoas a viam.

“Oh, e eu vi a Mai,” ela disse, mudando de assunto e colocando ambas as mãos na mesa, inclinando-se.

“Isso acontece. Ela estuda aqui.”

“Tivemos inglês básico juntas no terceiro período. E a mão dela estava toda brilhante.” Ela estava exagerando para provocá-lo.

“Foi um presente de aniversário seu?”

“A Mai não te contou?”

“Ela estava irradiando tanta felicidade que nem me atrevi a perguntar. Anéis são realmente legais!”

Miori virou o olhar para o teto, em êxtase. Isso surpreendeu Sakuta. Ele achava difícil imaginá-la dando qualquer valor especial a joias. E essa impressão se revelou bastante precisa. Sua próxima fala revelou o verdadeiro motivo por trás de tudo aquilo.

“Eu queria dar um presente para a Mai.”

“Você é mais do tipo que as pessoas dão presentes.”

“Mas não tenho ninguém prometido, então nem gostaria de receber presentes.”

Sakuta achou isso razoável, mais ou menos. Ela estava verificando se ele havia entendido, e provavelmente ele entendeu. O ato de dar e receber presentes envolvia sentimentos de ambas as partes, e só era prazeroso para todos quando esses sentimentos estavam alinhados. Não havia significado inerente no anel em si.

E Miori atualmente não tinha ninguém de quem desejasse receber um presente.

“Oh, e meu aniversário….”

“Frases como essa são o motivo pelo qual você é tão popular.”

Ele a interrompeu para apontar o que estava causando seus problemas. Era a coisa certa a fazer como potencial amigo.

“Só falo assim com você, Azusagawa.”

“E frases como essa são o motivo pelo qual você é tão popular.” Era como se ela não tivesse ouvido uma palavra do que ele disse.

“Então, como devo falar com os garotos?” ela perguntou, irritada. Quase parecia que ela estava colocando a culpa nele.

“‘Que tempo agradável estamos tendo’?”

“O que tem de divertido nisso?” Ser chata era o ponto, mas Miori parecia não entender.

Nesse momento, o sinal tocou, indicando o fim do quarto período.

“Tenho aula no quinto, melhor correr. Chao!”

Miori acenou e saiu da sala, bolsa de mão em uma das mãos.

Sakuta não a observou sair. Ele apenas se levantou e colocou a mochila.

Uma vez que o sinal tocou, não havia tempo a perder.

Sakuta havia prometido ligar para Touko após a aula.

Deixando Miori de lado, não havia muitos estudantes com aulas no quinto período, então, assim que o quarto período terminou, o clima no campus mudou para ‘depois da aula’.

Os estudantes se dirigiam para práticas esportivas ou clubes, ou corriam para seus trabalhos.

Sakuta saiu do prédio e encontrou uma multidão seguindo o caminho arborizado em direção ao portão principal. Ele se afastou desse fluxo de pessoas perto da torre do relógio para usar os telefones públicos ali.

Sakuta nunca havia visto ninguém mais usar aqueles telefones. Eles poderiam muito bem existir exclusivamente para ele.

Ele levantou o receptor e inseriu uma moeda. Colocou uma pilha de moedas de dez ienes no topo, apenas por precaução, e digitou onze dígitos.

A chamada foi atendida assim que começou a tocar.

Naquela velocidade, provavelmente ela estava usando o telefone quando ele começou a tocar.

“Azusagawa falando. Acho que temos um compromisso.”

“Estou no portão da frente.” Ela desligou sem dizer mais nada.

Depois de recolher as moedas não usadas, ele deixou os telefones para trás. Ele seguiu o caminho até o portão principal. Pouco tempo depois, viu seu destino através da multidão. Mas não encontrou uma Santa Claus de minissaia.

Mesmo após passar pelos portões, ele não conseguiu localizar a roupa vermelha de Touko.

“Devo apenas esperar?” Mas, ao telefone, ela havia dito que já estava lá.

Sem saber o que fazer com a ausência dela, Sakuta se afastou para o lado. E encontrou alguém já ali. Como ele, aquela pessoa estava esperando alguém?

Ela usava shorts curtos, meias-calças pretas e botas. Por cima, vestia um suéter felpudo com um longo casaco.

Sakuta não queria se aproximar desconfortavelmente, então parou a cerca de cinco passos de distância e esperou que Touko aparecesse.

Mas, por algum motivo, a garota o chamou.

“Isso é uma piada? Ou apenas despeito?” Ele só percebeu quando reconheceu a voz dela.

“Desculpe por te fazer esperar, Kirishima,” disse ele, como se nada tivesse acontecido.

“Acontece que até o Papai Noel usa roupas casuais.”

Sakuta simplesmente presumiu que se encontraria com uma Santa Claus de minissaia, então falhou em reconhecê-la, mesmo estando à vista. Até a maquiagem dela era um contraste dramático com seu estilo de Santa. Os olhos enfatizados deram lugar a um visual mais natural.

“Se você é tão denso assim, deve ser uma decepção constante para sua namorada.”

“De vez em quando, ela me diz que me ama.”

“Por aqui.”

Touko se afastou dos portões, claramente sem paciência para as piadas dele.

Ela se afastou da estação Kanazawa-hakkei. Eles seguiram a linha Keikyu em direção a Yokohama por uns bons cinco minutos. Quando chegaram ao rio, seguiram por mais cinco minutos.

Quanto mais o tempo passava, mais residencial a paisagem se tornava.

Quinze minutos após sair da faculdade, estavam perdidos em um mar de edifícios residenciais. Fachadas sofisticadas podiam ser vistas em todas as direções. Aos olhos de Sakuta, pareciam bastante europeias. E de uma região mais quente.

Esse bairro tinha uma energia muito diferente da área ao redor da estação e da faculdade. Se Sakuta tivesse sido trazido para lá vendado, havia uma boa chance de ele ter assumido estar em outro país.

“Você mora por aqui?”

“……”

Ela ignorou propositalmente a pergunta dele.

O caminho que seguiam os levou por um complexo. Ele não tinha certeza se aquele lugar era sequer aberto ao público. Ainda estava pensando nisso quando Touko finalmente parou.

Eles estavam na esquina de um prédio de apartamentos, que tinha uma confeitaria no espaço comercial do primeiro andar. Touko sentou-se no pátio vazio.

“Mont Blanc e um Earl Grey,” disse ela, olhando para Sakuta.

Ele não queria irritá-la, então entrou na loja e fez o pedido. Aquele dia estava se revelando muito caro. Sua carteira estava quase vazia.

Ele pediu à equipe para trazerem o pedido ao pátio e voltou para fora.

Aparentemente, o lugar só fazia o creme de castanha purê sob encomenda. Isso explicava por que ele não tinha visto nenhum Mont Blanc na vitrine. Mas, como o estabelecimento era todo sobre ingredientes frescos, os bolos prontos expiravam em duas horas.

“Você gosta de Mont Blanc?” Sakuta perguntou, sentando-se em frente a ela.

“Este lugar é especialmente bom.”

Ele meio que esperava que ela o ignorasse novamente, mas dessa vez, ele obteve uma resposta. Touko Kirishima gostava de Mont Blanc. Isso não era uma informação significativa, mas Sakuta estava um pequeno passo mais perto de aprender quem ela era como pessoa.

Nesse ponto, o Mont Blanc chegou. O bolo e a xícara de chá foram colocados na frente de Sakuta.

“Você gosta de Mont Blanc?” a garçonete perguntou, colocando um garfo ao lado do bolo.

“Ouvi dizer que este lugar é especialmente bom,” disse ele.

Ele parecia um garoto com um gosto por doces, visitando uma confeitaria sozinho? Provavelmente.

Ela sorriu com isso, disse, ‘Aproveite,’ e voltou para dentro. Em nenhum momento ela notou que Touko estava sentada do outro lado da mesa.

Mais uma prova de que apenas Sakuta podia vê-la. Isso não mudava, fosse ela vestida de Papai Noel ou com roupas normais.

“Aqui,” ele disse, deslizando o bolo para ela, junto com o garfo e o chá.

Touko pegou o garfo, juntou as mãos e murmurou:

“Itadakimasu.”

Esses hábitos persistiam, mesmo quando estava sozinha, mesmo sem ninguém assistindo. Era tão natural que o gesto saía de forma espontânea.

E, por fim, era hora de provar o Mont Blanc. Touko deu uma mordida. O sabor imediatamente trouxe um sorriso aos seus lábios, seu rosto inteiro louvando o bolo.

“Há mais alguma coisa te incomodando, Kirishima?”

“O que você quer dizer com ‘mais’?”

“Algo que você não pode fazer sem mim por perto. Como pedir Mont Blanc aqui.”

“……”

“Isso é Síndrome da Adolescência, certo?”

“Apartir da falta de Mont Blanc, não estou particularmente incomodada.” Ela soou bastante firme.

“Compras?” Esse tinha sido um problema para Mai.

“Você pode comprar qualquer coisa online.”

“Mas receber os pacotes?” Você não podia exatamente assinar enquanto estava invisível.

“Eles têm caixas de correio, e hoje em dia, a maioria dos lugares simplesmente deixa o pacote na sua porta.”

“……”

“Ficou sem palavras?”

“Sinto que meus sonhos estão desmoronando. Papai Noel fazendo compras online, usando caixas de correio, com pacotes empilhados na sua porta.”

“Acho que ter o mundo facilitado é um sonho realizado.”

Essa interpretação fazia certo sentido. Talvez, para as pessoas de antigamente, agora elas estivessem vivendo em um mundo que só existia em romances e filmes antigos.

“Então você está satisfeita com o que tem.”

“Estou bem longe de estar ‘satisfeita’. Quero que minha música alcance muito mais pessoas.”

Sakuta não estava falando sobre a carreira dela. Touko sabia disso. Ela apenas falou o que queria, desviando do tópico em questão. Formidável.

“Você pode fazer isso mesmo que seja visível.”

“E posso fazer isso mesmo que não seja.” Touko era definitivamente formidável.

“Alguma ideia de por que acabou assim?”

No caso de Mai, ela tinha uma razão extremamente convincente para que as pessoas parassem de percebê-la.

Todos conheciam ‘Mai Sakurajima’. Ela atuava desde criança. A qualquer momento, em qualquer lugar, havia olhos sobre ela.

Toda a população estudantil de Minegahara não sabia como lidar com a celebridade em seu meio. Em certo sentido, seus objetivos se alinharam.

A escola fingiu não notar Mai, e à medida que pararam de vê-la, esqueceram que ela existia.

Touko também não estava sendo vista ou percebida, mas a causa do caso de Mai tinha sido bastante específica. Ele não podia simplesmente supor que esse caso foi desencadeado por algo semelhante. As circunstâncias subjacentes não coincidiam. O mundo sabia tudo sobre Touko Kirishima e sua música, mas como uma cantora anônima online.

Ninguém sabia quem ela realmente era, como ela se parecia, quantos anos tinha, de onde era, qual era o tamanho do seu sapato ou se gostava de Mont Blanc. Não havia necessidade de desviar o olhar, ninguém incerto de como se comportar ao redor dela.

“Mas você tinha um problema que levou a isso.” Ela não podia nem pedir seu próprio Mont Blanc e precisava de Sakuta para isso.

“Você quer curar minha Síndrome da Adolescência, então?” Essa não era uma resposta à pergunta dele, mas também não era uma negação.

“Se você está desviando tanto, presumo que saiba o porquê.” Ela não disse que não tinha problemas.

“Isso é para mim?” Touko perguntou. Novamente, sem negação. ]

“Ou para outra pessoa?”

Ela só respondia com perguntas. Não mudava sua atitude nem um pouco. Nada do que ele dizia a abalava ou fazia ela piscar. Não parecia que insistir na pergunta o levaria a algum lugar.

“Para mim, é claro,” ele disse. Seguir o exemplo dela parecia ser sua única opção. Talvez isso lhe desse algo com que trabalhar.

“Não vejo como eu ser invisível tem algo a ver com você.”

“Tive um daqueles sonhos. Aqueles que se tornam realidade.”

Ele não tinha certeza de quando recebeu esse presente. Nem era óbvio que ele tinha recebido um presente até se tornar impossível de ignorar. Sakuta só percebeu depois que um sonho suspeitosamente realista se tornou realidade. Sara tinha se tornado sua aluna.

“Se esse sonho é Síndrome da Adolescência, parece que você tem o problema.”

“Com certeza tenho. Continuo encontrando esse Papai Noel que só eu posso ver.”

“Aha! Nesse caso, curar minha Síndrome da Adolescência beneficiaria você.”

Ela genuinamente pensava que lançar sua nova música faria todos felizes. Ela certamente estava ansiosa por isso. Mas não havia nenhuma conexão discernível com a ameaça contra Mai. Nem explicava por que ele tinha que encontrar Touko Kirishima.

“Todos? Até aquele garoto do ensino médio?”

Ele lançou um olhar para o outro lado do estacionamento, onde um garoto de uniforme estava estacionando uma bicicleta.

“Se ele for um bom garoto.”

“E ela?”

Uma garota da faculdade que trabalhava na loja estava trazendo café para uma mesa.

“Se ela for uma boa garota.”

“E quanto à Mai?”

Ele não estava indo a lugar nenhum, então mencionou o nome de sua namorada.

“……”

Ele sentiu o olhar de Touko mudar momentaneamente. Foi rápido demais para ele perceber qualquer emoção, mas não havia como negar que o nome de Mai provocou algum tipo de reação.

“Ela não precisa. Ela já tem tudo.”

O tom dela não mudou. Ela era a mesma Touko com quem ele estava conversando o tempo todo. Apenas as palavras haviam mudado. Ele tinha quase certeza de que essa era a primeira vez que ela expressava uma opinião pessoal sobre alguém além de Sakuta.

“Você não gosta da Mai?” Havia um indício disso por trás das palavras dela.

“Eu costumava não gostar dela. Uma vez.” Touko admitiu prontamente, mas como algo do passado.

“Agora não?”

“Ela está namorando esse cara realmente esquisito, e eu meio que admiro isso.”

Isso não era necessariamente um elogio. Quase certamente era meio sarcástico. Ela definitivamente estava zombando de Sakuta, torcendo a faca. Mas a parte do ‘admirar’ parecia real para ele. Autêntica.

Se ele confiasse nessa intuição, então Touko não estava tentando prejudicar Mai. Isso tornava as coisas mais fáceis, mas ele ainda não podia descartar completamente a possibilidade, mesmo que parecesse remota demais. Buscando uma resposta mais definitiva, ele investigou mais a fundo.

“Você está fazendo algo contra a Mai?” Ele se forçou a não piscar, observando de perto. E a resposta de Touko foi de confusão.

“Sobre o que estamos falando?” ela perguntou, um instante depois. Foi uma pergunta genuína. Sua cabeça estava ligeiramente inclinada enquanto ela olhava diretamente nos olhos dele, evidentemente surpresa pela pergunta.

“Sobre o quanto eu amo a Mai,” ele disse, desviando o olhar e recostando-se na cadeira.

Ele ficou aliviado. A reação dela sugeria que Touko era extremamente improvável de ser o ‘perigo’.

“Ela realmente tem o gosto mais estranho para garotos. É curioso, considerando quantas opções ela deve ter tido em sua linha de trabalho.”

Touko terminou a última mordida do Mont Blanc, saboreou o sabor, e depois tomou o gole final do Earl Grey, já frio.

A xícara vazia pousou no pires. E Touko levantou-se silenciosamente.

Isso era um sinal inconfundível de que a conversa deles havia terminado. Mas ele não podia deixá-la sair assim. Ele precisava obter algo que justificasse o gasto com o bolo e o chá.

“Posso fazer uma última pergunta?”

“O que?”

“Como é ter tantas pessoas ouvindo sua música?”

Sakuta permaneceu sentado, olhando para Touko. Cantar, e ter todos ouvindo suas músicas.

Isso era o que mais importava para ela no momento. O que ela disse hoje deixou isso claro para ele e motivou essa pergunta. Um sorriso genuíno apareceu nos lábios dela. Era como se ela estivesse esperando que ele perguntasse.

“Não há nada igual. Nada mais é tão bom assim.”

Ela parecia realizada. A luz do cumprimento preenchia seus olhos enquanto ela sorria para ele, vinda de um lugar de pura gratificação.

Uma emoção pura e natural.

Como ela poderia parar de fazer algo tão divertido? Por que sequer consideraria isso?

Suas palavras, sentimentos, expressão, tudo mostrava o quanto ela estava envolvida em sua música.

“Obrigada por isso,” Touko disse.

Como se a última pergunta dele tivesse feito seu dia. Ela acenou uma vez e saiu alegremente. Sakuta ficou observando até que ela sumisse de vista.

Finalmente, as luzes do pátio se acenderam. O dia havia se transformado em noite. Era difícil colocar seus sentimentos em palavras.

Sakuta tinha aprendido algumas coisas, mas ficou mais confuso em relação a outras. A urgência e a compreensão estavam todas emaranhadas em sua mente. No entanto, ele sentia que havia conseguido uma dica importante: a nova música de Touko Kirishima.

Ele precisaria ser extremamente cuidadoso na véspera de Natal.

“Se nada mais, eu deveria levar um Mont Blanc para casa.”

Quando ouviu sobre o prazo de validade de duas horas do confeiteiro, ele quis experimentar o doce. Ele pensaria mais sobre essa questão depois de comer um pouco de açúcar.

Era o aniversário de Mai, e que motivo melhor haveria para comer um bolo?

Com trinta minutos restantes para a validade do Mont Blanc, Sakuta finalmente chegou a Fujisawa. Ele sabia que duas horas seriam suficientes para chegar em casa, mas até que o trem realmente parasse na estação, ele sentia como se estivesse carregando uma bomba-relógio. Foi uma experiência extremamente perturbadora. E se o trem atrasasse? E se um acidente causasse um atraso? Qualquer problema poderia facilmente tê-lo atrasado até que o tempo se esgotasse.

Felizmente, o trem o levou a Fujisawa no horário previsto. Agora ele só precisava caminhar até seu apartamento por conta própria. Ele andou o mais rápido que pôde sem balançar muito a caixa do bolo. Ele chegou em casa sem incidentes. O Mont Blanc estava seguro e intacto, e ainda havia tempo antes que ele expirasse. Aliviado, ele colocou a chave na porta.

“Cheguei,” ele chamou, e deu o primeiro passo para dentro,e congelou. Havia muitos sapatos. Sapatos de garotas.

Sakuta colocou os seus no final da fila e entrou no corredor. Ele podia ouvir pessoas se movendo, mas ninguém falando. Apenas música, com a voz de uma garota cantando. Ele não conhecia a música, mas reconheceu a voz. Ritmo animado, alegre, agradável ao ouvido. Mas os vocais e as letras eram melancólicos, amargos.

Sakuta se lembrou do que Touko tinha dito a ele.

“Você está brincando…”

Era essa a música de Natal dela?

Ele precisava ter certeza, então correu para a sala de estar.

“Sakuta, bem-vindo de volta,” disse Mai. Das quatro garotas no sofá, apenas ela se virou para olhar para ele. As outras simplesmente moveram os lábios em um cumprimento, suas mentes completamente fixas na tela da TV. Um cabo estava conectado ao laptop, e o vídeo estava sendo transmitido de um site de uploads.

Neve branca pura. Alguém olhando para fora de um quarto. Um gato esfregando-se contra os pés de alguém. Ninguém mais por perto. Alguém deitado na cama, com as mãos estendidas para o teto, tentando agarrar algo… mas não havia nada lá.

Onde você está agora? Com quem você está? Em que está pensando?

Estou sozinho em casa. Com meu gato. Pensando em você.

Mas não estou sozinho. Nem triste. As lágrimas não estão caindo.

Não estou sufocando, sem dor no coração, não estou sufocando.

Então, por favor…

Me diga (não quero saber) quem você ama.

Eu tenho que saber (não quero saber) sobre a pessoa que amo.

Os visuais por si só não eram nada de especial. Mas combinados com essas letras e vocais, eles dificultavam a respiração. O nome da música era “I Need You”. Data de lançamento—hoje. Uma hora antes. Ela havia mencionado a véspera de Natal, então ele baixou a guarda. Sakuta havia assumido que não seria hoje. O nome de Touko Kirishima estava bem ali no campo do upload.

Pouco depois, a música terminou. Um silêncio momentâneo caiu sobre a sala. Kaede alcançou o laptop, abaixou o volume e apertou o play novamente. Então, ela finalmente disse: “Bem-vindo de volta, Sakuta.”

“É,” ele disse, seus olhos se movendo para o lado dela—onde Nodoka e outra garota estavam sentadas. “Por que você está aqui, Zukki?”

Ele esperava Mai e Nodoka, mas Uzuki foi uma surpresa. Não é de se admirar que havia muitos sapatos na porta.

“Vim comer bolo!”

Havia um bolo na mesa de jantar com várias fatias já faltando.

“Resposta errada. Você veio para comemorar o aniversário da Mai.”

“Eu cantei a música e tudo!”

“Kaede e eu cantamos com ela,” Nodoka acrescentou.

“Hmm,” ele disse, olhando para sua irmã.

“Por que eu não cantaria?” ela perguntou com uma carranca.

“O que tem na caixa?” Mai perguntou, olhando para sua mão.

“Mont Blanc que só tem quinze minutos de vida.”

Todos já tinham comido uma fatia de bolo, mas Kaede, Nodoka e Uzuki devoraram suas porções de Mont Blanc. Isso foi um exemplo perfeito da regra de que “doces vão para um segundo estômago”. Ele só tinha comprado quatro, então ele e Mai acabaram dividindo a última fatia. Quando terminaram de lavar a louça, já eram quase oito horas.

“‘Kay, vou levar Uzuki até a estação.”

“Zukki, você não vai passar a noite na casa da Mai?”

“Estou indo para Hiroshima cedo amanhã!” Ela sorriu para ele, mostrando o sinal de paz. “Preciso ir para casa e fazer as malas!” ela acrescentou, seguindo Nodoka até a porta. Kaede acompanhou e colocou um casaco.

“Vou acompanhá-las um pouco. Quero parar na loja.”

“Okay, tomem cuidado.”

Sakuta terminou de secar as mãos e espiou ao redor da mesa bem a tempo de ver a mão de Uzuki acenando uma última vez enquanto a porta se fechava com um clique. Ele voltou para a sala de estar.

“Kaede está sendo bem atenciosa,” disse Mai.

Certamente não doía ter alguns minutos extras a sós no aniversário dela.

“Devemos nos aconchegar?”

“Não.”

“Aww.”

“Você se encontrou com ela?”

Isso significava Touko Kirishima.

Os olhos de Mai estavam na caixa de bolo de Mont Blanc. Eles tinham acabado de ouvir a música de Natal que ela disse estar trabalhando, o que em grande parte negou tudo o que ele sentiu que havia tirado dela. Mesmo assim, ele relatou a conversa deles a Mai. Como ela não tinha sido uma Mamãe Noel de minissaia desta vez. Como ela o fez comprar Mont Blanc e chá. Que Touko sabia que suas músicas estavam causando a Síndrome da Adolescência. E que ela já teve uma rixa com Mai.

“O que você fez?” ele perguntou.

“Nada. Nunca a conheci.”

“Você recebe muita inveja unilateral?”

O status de Mai era sólido como atriz e modelo. Ela ganhou fama quando criança e era popular entre o público de todos os tipos. Isso significava que também havia pessoas que não gostavam dela, que não estavam felizes com seu sucesso. Inveja, ciúme e inferioridade eram partes inescapáveis da experiência humana.

“Sim.”

Mai acenou com a cabeça como se fosse natural. Ela estava simplesmente fazendo o melhor com o trabalho que lhe era dado, mas estava bem ciente de que isso sozinho magoava os sentimentos das pessoas. Nodoka era apenas uma pessoa que lutava com essas emoções.

“Mas na sua visão, ela não está especificamente tentando me prejudicar, certo?”

“Certo.”

Ela definitivamente tinha pensamentos sobre Mai. Mas ele não sentiu nada sinistro o suficiente para levar a crimes ou acidentes. A maneira como ela falou sobre como costumava se sentir parecia mais como desviar o olhar de uma luz brilhante. Isso significava que eles tinham que estar atentos à segunda possibilidade mencionada por Rio.

Outra coisa importante da conversa com Touko foi a música de Natal. A música que ela queria que as pessoas ouvissem na noite anterior ao grande dia. Talvez ela tivesse outros planos para a própria véspera de Natal.

“Um, Sakuta…”

“Mm?”

“Não faça planos para o dia 24 ou 25.”

“Eu os mantive livres para poder ficar com você, Mai.”

“Eu não quero que você se preocupe, então vou estar com você o tempo todo.”

“Mesmo?”

“Vamos para umas termas em Hakone e relaxar juntos.”

“Você não vai chegar no dia e dizer ‘Desculpe, apareceu trabalho’, certo?”

Isso já havia levado a lágrimas antes.

“Eu disse à Ryouko para não deixar isso acontecer desta vez.”

Ainda parecia arriscado.

“Toyohama e Kaede não vão estar com a gente?”

“Nodoka tem um concerto de Natal, e Kaede vai assistir. Ela disse que vai passar as festas com seus pais depois que isso acabar.”

Sweet Bullet sempre tinha um concerto de Natal programado. Kaede já havia dito a Sakuta que planejava ir. Nenhum deles estaria lá para atrapalhar seu tempo com Mai.

“Esse é o meu presente de Natal,” disse Mai.

“Esteja lá.” Naturalmente, Sakuta vibrou de alegria.

E naquela mesma noite… Sakuta Azusagawa teve um sonho estranho.

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