Capítulo 1
Eu quero, mas não posso ter.
Nunca serei o eu que quero ser.
Eu não posso ter, mas ainda quero.
Nunca serei o eu que quero ser.
Gira em círculos. Criança perdida e tonta.
Pergunte ao espelho, Quem é você?
A resposta é sempre, Quem é você? Só alguém sem nome sabe com certeza.
Touko Kirishima, “Alguém”
Sakuta Azusagawa se encontrava sob um céu estrelado.
Regulus na constelação de Leão. Spica em Virgem. Arcturus em Boötes. O sol tinha acabado de se pôr, e as estrelas da noite de primavera observavam gentilmente a multidão. Mas ninguém ali estava olhando para cima. Um público de dez mil pessoas, mas todos com os olhos fixos na mesma coisa.
Um palco ao ar livre, próximo ao Red Brick Warehouse, em Yokohama.
O evento tinha começado como um simples festival de música à beira-mar. Então, uma banda de rock popular trouxe uma cantora convidada surpresa. Todos os olhos estavam nela. Os de Sakuta também.
Sua voz era clara.
Soberba. Uma voz forte e bela, que se elevava acima do acompanhamento pesado de rock. Sakuta conhecia a mulher que segurava aquele microfone. Todos a conheciam. Mai Sakurajima havia começado sua carreira como estrela infantil e, até hoje, conseguia papéis importantes em filmes e na TV.
A multidão diante do palco não se movia. Era como se o tempo tivesse parado. Ninguém aplaudia. Desde que Mai subiu ao palco, todos estavam paralisados de surpresa.
Sakuta já tinha ouvido essa música antes.
Era um dos maiores sucessos de Touko Kirishima, uma canção famosa por ter sido usada em um comercial. E agora, Mai a estava cantando. Como se fosse sua própria canção. Como se ela mesma fosse Touko Kirishima.
A voz de Mai ecoava no palco, deixando a plateia sem palavras. Ninguém acompanhava o ritmo ou aplaudia. Apenas permaneciam ali, atônitos. A música terminou antes que alguém pudesse se recompor.
Os tijolos vermelhos estavam iluminados por luzes alaranjadas, e o ambiente estava tão tranquilo quanto qualquer outra noite. Os únicos sons vinham do vento e das ondas batendo. Mas naquela escuridão, dez mil pessoas esperavam. Contendo a respiração. Prontas para ouvir o que Mai diria a seguir. Reprimindo pacientemente o desejo de avançar em direção ao palco.
Mai podia sentir a expectativa deles, daí o seu sorriso tímido.
A multidão estava atenta a seus menores gestos, e a antecipação só crescia, prestes a explodir. Mai respirou fundo e ergueu o microfone novamente.
“Gostaria de aproveitar este momento para compartilhar algo com todos vocês”, disse ela.
A multidão ainda não reagiu, apenas observando atentamente.
“Imagino que alguns de vocês já tenham percebido”, continuou ela, fazendo uma pausa e observando o público.
Todos ali estavam ansiosos. Mai olhou por sobre o mar de rostos, absorvendo cada expressão. Então, ela respirou fundo novamente.
“Eu sou Touko Kirishima”, declarou.
Seguiu-se um segundo completo de silêncio. Depois, outro.
Então, toda aquela expectativa acumulada irrompeu. Sem mais contenção, o tempo voltou a fluir. Um rugido foi liberado, sacudindo o ar como um trovão. Alterando completamente o clima do show. Nenhum outro som podia ser ouvido. Os gritos cobriam todo o local, tão potentes quanto o bramido de uma gigantesca fera. Naquele momento, naquela localização, as emoções de uma multidão de dez mil pessoas trouxeram à tona algo com uma vontade própria.
Somente Sakuta foi deixado para trás.
Ainda parado, atônito.
Alguém pulou, esbarrando em seu ombro, despertando-o de seu devaneio.
“Então, vou cantar mais uma música”, disse Mai, estalando os dedos, e os tambores começaram a tocar.
A multidão avançou, lutando para ficar na primeira fila. Sakuta foi empurrado para longe do palco. Mai parecia tão pequena lá em cima, a uns quarenta ou cinquenta metros de distância. Ele observou sua figura distante por mais um momento, mas, no meio da canção, ele se virou e foi embora. O palco estava fortemente iluminado, mas não havia luz que iluminasse sua saída.
Enquanto caminhava, Sakuta puxou algo do bolso.
Em sua mão estava o leve peso de um smartphone. A tela era quase ofuscante, mas seus dedos dançavam sobre ela, discando um número no topo de sua lista de contatos nos “A”. Ele colocou o telefone no ouvido, e o aparelho tocou três vezes.
“Akagi falando.” A voz de Ikumi estava na linha.
“É o Azusagawa”, disse ele.
“Eu sei. O que foi?”
“Preciso de um favor.”
“Você, pedindo minha ajuda? Isso é alarmante.” Ela estava meio brincando, meio falando sério.
“Pode me encontrar agora?”
“Isso é repentino.”
“Talvez não tenhamos muito tempo.” Seus olhos voltaram para Mai, que ainda cantava no palco.
“……Entendi”, respondeu Ikumi.
Ela devia ter perguntas. Isso era completamente inesperado. Mas Ikumi não disse mais nada, considerando a urgência no tom de Sakuta.
“Onde devo ir?”
“Estou no Red Brick Warehouse, então… na Estação Yokohama?”
“Ok. Te vejo lá.” Ele apertou o botão vermelho, encerrando a ligação. Seu semblante sombrio se refletiu na tela escurecida. Ao olhar para ela, Sakuta sussurrou — para ninguém em particular:
“O resto depende de você.”
Só então Sakuta percebeu que estava sonhando. Quando abriu os olhos, o rosto irritado de Mai estava olhando para ele.
“Bom dia, Mai”, ele tentou cumprimentar sua namorada, mas estranhamente achou difícil falar. Talvez não fosse tão estranho assim, os dedos de Mai estavam puxando sua bochecha com força.
“Eu estava falando enquanto dormia?”, perguntou ele, tentando adivinhar o motivo da irritação dela.
“O que você e a Akagi estavam fazendo?” Obviamente, ele havia acertado em cheio. Ele devia ter dito o nome dela.
“Eu estava com um smartphone e liguei para ela.” Tinha sido um sonho muito estranho.
“Você, com um telefone?” Ela parecia incrédula.
“Exatamente.”
“Seu telefone?”
“Ele saiu do meu bolso, então presumo que fosse meu.”
“Hum. Que sonho esquisito.” Mai soltou sua bochecha. Ela parecia confusa. A ideia dele ter um celular parecia tão estranha para ela quanto para ele. Durante todo o tempo que se conheciam, ele nunca tivera um.
Sakuta se sentou e se recostou no sofá. Olhou ao redor.
Era um quarto desconhecido, com um aroma desconhecido. Estava claro que ninguém morava ali, era limpo demais. Eles estavam em uma pousada de águas termais em Hakone. Era por isso que ambos estavam vestindo yukata.
“Foi um sonho muito estranho”, Sakuta elaborou.
“Havia um palco montado no Red Brick Warehouse para um festival de música. Você estava cantando uma música da Touko Kirishima… e quando a música terminou, você disse à multidão que era Touko Kirishima.”
“Mesmo para um sonho, isso é ridículo.” Mai riu.
“…” Mas Sakuta não riu. Percebendo isso, Mai o olhou com mais atenção.
“…Sakuta, você está pensando que foi um desses sonhos premonitórios?”
“Não posso dizer que não foi. Pareceu muito real.”
Ele ainda conseguia sentir o telefone em sua mão. Sua palma lembrava o peso dele. A voz de Mai ainda ecoava em seus ouvidos, em sua mente.
“Mas eu não tenho planos de aparecer em festivais de música. Não é minha área.”
“Eu sei.”
Mai Sakurajima era uma estrela de cinema e televisão. Ela fazia comerciais e trabalhava como modelo. Seus papéis podiam exigir que ela cantasse às vezes, mas ela não se apresentava regularmente.
“Mesmo se surgisse uma oferta assim e você sentisse a necessidade de comprar um telefone… não há chance de eu afirmar que sou Touko Kirishima.”
“Porque você não é Touko Kirishima.”
Mai estava certa. A própria oferta de participar de um festival não era impossível. E ele podia comprar um telefone um dia. Esses dois pontos estavam dentro do reino das possibilidades.
Mas, como ele acabara de dizer, Mai não era Touko Kirishima. Essa parte do sonho não fazia sentido algum.
“Acho que estou pensando demais.”
“Tem acontecido muita coisa estranha ultimamente.” Isso era verdade. E ele tinha certeza de que ainda não tinham visto o fim de tudo isso.
“E você, Mai? Algum sonho estranho?”
“Nenhum. Dormi como um bebê.”
“Estamos em um encontro de uma noite, então não sei se aprovo isso.”
“Viemos até Hakone. Quero relaxar. Talvez seja melhor deixar essas águas termais te curarem um pouco mais.”
Mai tinha razão. Essa era uma chance de relaxar.
“Então, vou dar um mergulho no banho principal.”
“Dê uma boa caminhada ao redor da pousada também. Fique fora por pelo menos uma hora.”
“Por quê?”
“Quero usar este banho também.”
Mai olhou através da porta de vidro para o onsen moderno, que estava ligado ao quarto.
“Eu adoraria te fazer companhia.”
“Só vai!” Mai apontou para a porta da frente.
Nesse momento, Ryouko Hanawa, a empresária de Mai, desceu as escadas.
“Bom dia.”
Bom dia, Ryouko.”
“Bom dia, Sra. Hanawa.”
“Bom dia para vocês dois.” Muitas saudações.
“Ah, Mai”, disse Ryouko, como se tivesse acabado de lembrar.
“Sim?” Mai respondeu, empurrando Sakuta em direção à porta.
“Eu me esqueci de te contar ontem, mas recebemos uma proposta inusitada.”
Ryouko olhou para Sakuta, incerta se deveria falar sobre isso na frente dele.
“Então, não é para filme nem programa de TV?” perguntou Mai.
“É relacionado à música”, disse Ryouko, evitando os detalhes. Mas isso era o suficiente para eles. Sakuta olhou para Mai e a encontrou olhando de volta para ele.
“Uma participação em um festival de música?” perguntou Mai.
“Hã?” Ryouko piscou.
“Como você adivinhou?” Mai e Sakuta trocaram olhares novamente e sorriram evasivamente.
Sakuta aproveitou um banho matinal nas termas principais, ele as tinha só para si, e, depois de um delicioso café da manhã em uma cabine privativa na área de refeições, eles relaxaram no quarto até a hora do check-out.
Eles chegaram ao estacionamento às onze horas.
Como Ryouko havia chegado em outro carro, eles se separaram ali. Ela disse que iria visitar algumas padarias locais antes de voltar para casa, esse era seu passatempo agora.
Ao entrar no carro, ela advertiu: “Não deixem tirarem muitas fotos.”
“Então, algumas são permitidas?” Sakuta perguntou enquanto ela se afastava.
“Imagino que sim”, Mai respondeu, sorrindo. Com isso em mente, eles entraram no carro dela.
Eles dirigiram mais para as montanhas, até Gora, a última parada da linha de trem Hakone Tozan. A partir dali, os trilhos eram substituídos por bondinhos e teleféricos. Havia muitos casais na faixa dos vinte e trinta anos nas lojas ao redor da Estação Gora, conversando alegremente, comprando presentes e comendo dango.
“Ryouko disse que o festival de música será no dia 1º de abril.”
“Falta bastante tempo.”
Hoje era 25 de dezembro, Natal, um belo dia para um encontro. Eles tinham mais de três meses até o festival.
“A proposta veio da banda que apareceu no meu último filme. Eles queriam que eu fosse a vocalista convidada surpresa.”
“Você realmente mandou bem na música deles.”
“E as pessoas ainda falam sobre isso, daí a proposta. É um agrado para os fãs, então Ryouko e a agência estão a bordo.”
Fazer uma recriação ao vivo de uma cena de um filme seria muito divertido para qualquer um que pegasse a referência.
Eles chegaram a Yumoto pouco depois das três. A previsão de trânsito indicava engarrafamentos à noite, então decidiram sair antes que as coisas piorassem. Fizeram uma parada em Odawara para encomendar kamaboko para o Ano Novo e estavam de volta em Fujisawa antes das cinco.
“Eu vou passar aí logo depois das seis.”
“Estou ansioso por isso.”
Após concordarem em jantar juntos, eles se separaram do lado de fora de seus respectivos prédios. Ele verificou se não havia nada na caixa de correio e, em seguida, entrou no elevador. Ele só tinha passado uma noite fora, mas realmente sentia como se estivesse voltando para casa. Esse sentimento só aumentou quando ele saiu do elevador e caminhou em direção à porta de seu apartamento.
Ele destrancou a porta e entrou. Assim que fez isso, ouviu vozes vindas de dentro, provavelmente da TV. Kaede tinha passado a noite com os pais em Yokohama, mas as luzes estavam acesas, e ele podia ouvir movimentos.
Quando Sakuta tirava os sapatos, Kaede apareceu carregando o gato deles, Nasuno.
“Você está atrasado!” ela disse. Nasuno miou. Sakuta interpretou isso como uma saudação de boas-vindas.
“Eu estava em um encontro, então, na verdade, estou até cedo.” Assim que tirou os sapatos, ele entrou na sala.
“Mas por que você está aqui, Kaede? Pensei que fosse ficar com a mamãe e o papai.”
“Fiquei com pena de deixar o Nasuno sozinho, e eu tenho um turno às seis. Além disso, preciso falar com você.”
A voz dela foi diminuindo à medida que ele se dirigia para a sala de estar. Não porque ela estava ficando para trás, mas porque estava ficando mais quieta. Ele podia ouvir os passos dela logo atrás.
“Sobre o quê?”, perguntou, colocando a sacola de lembranças sobre a mesa de jantar.
“……”
Kaede não respondeu imediatamente. Sakuta se virou para ela, e Kaede evitou o olhar enquanto colocava Nasuno no chão.
A TV mudou de comerciais para o noticiário.
“Continuando nossa discussão sobre os problemas de conectividade que estão afetando todas as redes sociais: Desde o início desta manhã, usuários de diversos serviços relataram dificuldades para acessar os sites.”
A tela mostrava os logotipos de serviços baseados em textos e fotos, vários deles.
“Sobre isso”, Kaede disse, apontando para a tela.
Sakuta não fazia ideia do que ela estava falando.
“Isso?”, ele perguntou, voltando sua atenção para a TV. O apresentador começou a detalhar mais a situação.
“Fontes dizem que os problemas podem ter sido causados por uma enxurrada de usuários tentando postar sob a hashtag #dreaming. Foram tantos usuários que os problemas técnicos continuam até horas depois.”
Lendo o teleprompter, o apresentador prosseguiu explicando a hashtag em si, começando com: “Muitos de vocês já ouviram falar disso…”.
“Hashtag sonhando de novo…”, Sakuta pensou. Ele tinha ouvido muito sobre isso ultimamente e estava tendo dificuldades com seus próprios sonhos aparentemente proféticos, que estavam relacionados de alguma forma — direta ou indiretamente.
Não era um bom sinal o fato de a tendência ter crescido a ponto de aparecer no noticiário, mesmo que estivessem focando apenas nos problemas de conectividade que ela causou.
“Kaede, posso pegar seu laptop emprestado?”
“Ah, claro.”
Ele abriu o laptop e tentou acessar um serviço de postagem rápida. Levou um tempo considerável. Ele esperou pacientemente e, eventualmente, o site carregou. Como o noticiário havia dito, os problemas claramente ainda não haviam sido resolvidos.
Ele fez uma busca pela hashtag #dreaming. Mais uma vez, levou quase um minuto inteiro, mas, pelo menos, os resultados apareceram. Uma lista cheia de sonhos.
Eu sonhei que terminei com meu namorado. As razões eram tão precisas. Era exatamente quem ele é! Eu tive que rir. #sonhando
Por favor, não. Eu sonhei que entrei na faculdade—argh! Era só um sonho! Eu me mudei para Tóquio, comecei uma nova vida, estava tudo ótimo—e aí eu acordei! #sonhando
Observação das flores de cerejeira à noite. Um amigo da faculdade ficou bêbado e vomitou por toda parte. Não vou deixar esse cara tocar em bebida de novo. #sonhando
Sonhei que minha namorada terminou comigo. Foi horrível. Ela disse várias coisas, mas o motivo principal foi o jeito como eu seguro os hashis. Preciso consertar isso rápido. #sonhando
Cada post descrevia um momento breve no tempo, mas com grande especificidade. Como se tivesse acontecido no dia anterior. Aquilo parecia muito com o sonho que ele tinha tido. E a lista de postagens continuava sem parar. Mais eram adicionadas a cada segundo. Não eram apenas algumas centenas ou milhares, mas quase chegando aos seis dígitos. Era esse o número de pessoas que tinham sonhado na noite anterior e se sentiram inspiradas a postar sobre isso.
Supondo que todos esses sonhos realmente mostrassem o futuro, o que isso significaria? Como isso afetaria o que estava por vir? O rapaz que foi dispensado por segurar os hashis de forma errada poderia escapar desse destino ao segurá-los corretamente. Ele poderia ser dispensado por outro motivo. Não havia como saber até o momento chegar.
“……”
Sentindo olhares sobre si, ele olhou para cima. Kaede parecia ter mais a dizer.
“Então, sobre o que você sonhou?” ele perguntou.
“Hã?”
Ela piscou para ele.
“Você queria falar sobre isso, certo? Estão dizendo que esses sonhos se tornam realidade.”
“Sim, mas…”
Ela franziu os lábios, parecendo contrariada. Estava claramente dividida. Ele conseguia perceber sua hesitação.
“É embaraçoso falar sobre isso?” ele perguntou, pegando a sacola de lembrança.
“Não é embaraçoso, é só…”
“Só?”
“……Eu sonhei que a outra eu voltou.”
A mão de Sakuta parou, pairando sobre a caixa. Ele olhou para cima e encontrou os olhos dela, e ela desviou o olhar, acariciando o gato. Ainda agachada, disse: “Ela e Nasuno estavam esperando você chegar em casa.”
“……”
Sem dizer nada, Sakuta pegou a caixa de mochi e a abriu. Tirou um pedaço—parecia prestes a se desfazer em suas mãos—e o colocou na boca. Derreteu antes que ele pudesse mastigar.
Achando que deveria preparar algo para beber, ele pegou as canecas do tanuki e do panda da cozinha. Encheu a chaleira elétrica e apertou o botão de ligar.
“Tem algo te incomodando? Algo que possa reacender o transtorno dissociativo?”
Ele colocou flocos de café instantâneo na caneca do tanuki e chocolate em pó na caneca do panda.
“Eu não sou você, Sakuta. Tenho meus próprios problemas.”
“Como?”
A água na chaleira começou a borbulhar. Além disso, Sakuta tinha muitos problemas.
“Meu futuro”, Kaede admitiu, claramente relutante em dizer.
“Bem, isso é uma preocupação saudável. Clássico ‘inverno do segundo ano do ensino médio’.”
A água ferveu, e ele despejou um pouco em cada caneca. O aroma amargo do café e a fragrância doce do chocolate se misturaram no ar.
“Você não se preocupou com isso.”
“Eu me preocupei! Com que desculpa dar à Mai se eu reprovasse nas provas.”
Ele entregou a caneca do panda para Kaede.
“Mas você passou.”
“Eu não consegui pensar em uma desculpa que ela acreditasse. Tive que estudar muito.”
“……”
Kaede tomou um longo gole de chocolate.
“Se você tivesse reprovado, Sakuta—o que acha que teria dito?”
“Bem, a Mai foi quem me ajudou a estudar.”
“Mm-hmm.”
“Então eu provavelmente diria ‘Você não me ensinou direito.'”
“……”
Kaede congelou, com a boca aberta, perplexa.
“Naturalmente, eu faria soar como uma piada!”
“A maioria das pessoas não faria isso. Nem conseguiria!”
“Bem, eu não fiz.”
Kaede soltou um longo suspiro, mas não parecia mais tão abatida. Ele podia ver um leve sorriso surgindo no canto de sua boca.
“Então, se eu reprovar nas minhas provas, é culpa sua”, ela disse.
“Como assim?”
“Eu vou para a faculdade.”
“Eu pensei que você estivesse com dificuldades para decidir seu futuro.”
“E eu acabei de tomar uma decisão. Ainda não me dou muito bem com multidões, mas… ontem, a Komi disse que a faculdade que ela quer é a mesma que você.”
Por Komi, Kaede se referia à sua amiga de longa data, Kotomi Kano.
“Pensei que seria legal se eu pudesse ir para lá com ela. Isso é permitido?”
“Por que não seria?”
“Quero dizer, parece uma motivação meio fraca.”
“Minha motivação foi cem por cento ir para a faculdade com a Mai.”
“Você só está fazendo o que ela manda.”
“É assim que parece?”
Era verdade, mas Kaede o fazia parecer totalmente submisso.
“Kaede, no seu caso, ir para a faculdade também tem a ver com o seu desejo de sair mais, ir para lugares mais distantes… certo?”
“Sim, mas… soa cafona quando você explica assim.”
“Você deve fazer o que quer fazer.”
“Mm. Obrigada.”
“Como está o horário? Seu turno é às seis?”
Ele olhou para o relógio; eram 5:40.
“Ack! Sakuta, fala isso mais cedo!”
Kaede correu para o quarto e voltou um momento depois, vestida com as mesmas roupas, mas com um casaco por cima. Foi direto para a porta da frente.
“Estou indo!” ela gritou.
“Certo. Se cuida.”
“Tranca a porta pra mim!”
“Claro.”
Ele se levantou e foi até a porta, mas Kaede já havia saído. A porta se fechou com força, então ele trancou e voltou para a sala de estar.
“Ela sonhou com a outra Kaede, hein?”
O murmúrio escapou de seus lábios.
Se aquele sonho fosse real, ele não poderia simplesmente ficar parado. Quando Kaede superou seu transtorno e voltou a ser a Kaede original, os médicos haviam alertado que havia uma grande chance de recaída. Era assim que funcionava o transtorno dissociativo.
Mas ele conscientemente evitava ligar essa ideia à outra Kaede. Mesmo que os sintomas de sua irmã voltassem a aparecer, isso não significava que o resultado seria o mesmo,então ele evitava pensar nisso. Especialmente depois que Kaede conseguiu passar no vestibular. Agora, ela estava cursando aulas online com sucesso e trabalhando em um emprego de meio período. Kaede estava indo tão bem que ele não precisava se preocupar com uma recaída. Ela estava levando uma vida normal.
“Eu acho que só vamos ter que ficar de olho nela”, disse ele, olhando para Nasuno, que respondeu com um miado encorajador.
Com a intenção de descansar por um momento, ele pegou sua caneca. O café estava esfriando, mas ele tomou um gole… e então seus olhos se fixaram no telefone.
“Ah, certo.”
Aquilo o lembrou de uma pergunta que precisava fazer. Ele pegou o telefone e buscou em sua memória um número de onze dígitos. O mesmo que havia discado em seu sonho,o número de telefone de Ikumi Akagi.
Com o telefone no ouvido, ele podia ouvir o som de chamada. A ligação havia sido completada. O número estava em serviço. O telefone tocou cinco vezes sem sucesso. Ninguém atendeu. Ele foi direcionado para a caixa postal.
Então, ele deixou uma mensagem: “Este é o número de Ikumi Akagi? Sou Sakuta Azusagawa. Se eu estiver certo, agradeceria se pudesse retornar a ligação. Obrigado.”
Com isso, ele desligou. Se aquele realmente fosse o número de Ikumi, ele imaginou que ela retornaria a ligação rapidamente. Ela era diligente e agiria assim que ouvisse a mensagem. Essa avaliação se provou correta, e o telefone tocou menos de um minuto depois. O visor mostrava o número que ele havia acabado de discar.
“Alô?” Sem certeza de que era Ikumi, ele atendeu como se fosse um estranho ligando.
“Aqui é Akagi”, disse ela, tão formal quanto ele. Mas a maneira como ela lidou com a situação era muito típica de Ikumi.
“Oh, sou eu. Azusagawa”, ele disse, mudando para um tom mais casual.
“Mm-hmm”, ela respondeu, provavelmente acenando com a cabeça.
“Desculpe por te pegar de surpresa hoje.” Era 25 de dezembro. Natal.
“Está tudo bem. Estávamos só limpando depois de uma festa de Natal.”
“Do programa de voluntariado de apoio educacional?”
“Sim. Todos se divertiram bastante.”
“Então valeu a pena.”
“Você tem uma namorada maravilhosa, então deveria mesmo estar me ligando?”
“Já saímos para o nosso encontro. E vamos jantar juntos mais tarde.”
“Então? Quem te deu meu número?” Sem interesse em suas histórias, Ikumi foi direto ao ponto.
“Ninguém.”
“Então como…?”
“Eu sonhei com isso. Sonhei que estava te ligando.”
“E você lembrou do número e decidiu tentar?”
“Você me poupou de explicar tudo.”
“Isso é… bem inquietante.”
“Você quer dizer pelas implicações?”
“Isso é parte.”
“E a outra parte é a minha decisão de ligar?”
“……” Ela respondeu com silêncio. O silêncio sinalizou que ela concordava. Ele ao menos gostaria que ela tivesse dito isso em voz alta.
“Você acha que o sonho que eu tive tem a ver com o que está nas notícias?”
“Provavelmente, sim.”
“E já que o meu número era real, pode realmente mostrar o futuro.”
Essa era uma conversa absurda à primeira vista, mas Ikumi parecia imperturbável. Isso era bem típico dela, pensou Sakuta. Ikumi tinha passado pela sua própria cota de esquisitices trazidas pela Síndrome da Adolescência, o que a tornava flexível o suficiente para lidar com coisas como essa.
“E eu te liguei para confirmar isso, Akagi. Eu sei que é repentino.”
“Sem problemas. Eu tinha algo para te contar também.”
“Você também teve um sonho?”
“Imagino que tenha sido no mesmo dia e horário. Sonhei que você me ligou.”
“……Oh.”
Isso o surpreendeu, mas ele não sabia ao certo com o que deveria estar surpreso, o que, ironicamente, o ajudou a aceitar a situação.
“Sobre o que conversamos?”
“Você me ligou do nada e queria se encontrar na estação de Yokohama imediatamente. Parecia que precisava da minha ajuda com algo sério. E a ligação foi de um número de celular. Depois do pôr do sol.”
“Isso certamente combina com o meu sonho.”
As diferenças eram apenas de perspectiva. Chamador versus receptor, o ponto de vista de Sakuta versus o de Akagi. Todo o resto coincidia.
Era coincidência? Possivelmente. Mas, dado o que ele tinha visto nas notícias, era difícil simplesmente descartar isso.
“Azusagawa…”
A voz de Ikumi interrompeu seus pensamentos.
“Mm?”
“Acho que descobri algo.”
“Sobre os sonhos?”
“Sobre o que eles realmente são.”
“Sério…?!”
Sua voz se elevou um pouco, e Nasuno deu um pulo.
“Esses sonhos são na verdade…”
Olhando para os botões do telefone, Sakuta ouviu atentamente o que Ikumi disse a seguir. Ele não estava consciente do que estava olhando,seu foco inteiro estava nos ouvidos, em suas palavras.
O que ela disse foi algo que só Ikumi poderia ter deduzido. Isso o abalou. Mas, mais do que isso,fazia sentido. A explicação dela se encaixava perfeitamente com o que ele sabia sobre os sonhos.
“Vindo de você, Akagi, estou inclinado a acreditar.”
Com o Natal terminado, os Papais Noéis, renas e árvores decoradas desapareceram das ruas, substituídos pela ansiedade de final de ano que veio junto com uma frente fria. Todos começaram nervosamente a encerrar assuntos pendentes antes da chegada do ano novo. Encolhidas contra o frio, as pessoas andavam rapidamente. Havia uma vaga sensação de pânico no ar, como se algo estivesse logo atrás delas. Era assim todo ano.
A única diferença real dessa vez era o quanto as pessoas falavam sobre a hashtag dos sonhos. As reportagens sobre os problemas de conectividade trouxeram o assunto à tona. A cobertura passou para os programas de variedades, com mais histórias sendo divulgadas diariamente.
Comentaristas sérios discutiam as alegações de algumas alunas do ensino médio de que seus sonhos haviam se tornado realidade e faziam investigações sérias sobre o fenômeno aparentemente oculto.
Mentes racionais achariam isso bobo, mas, seja por falta de outro assunto ou por perceberem que isso estava rendendo audiência inesperada, os programas estavam dedicando cada vez mais tempo ao tema.
A hashtag estava se tornando mais proeminente ao redor de Sakuta também. Não passava um dia sem que ele ouvisse alguém comentando sobre isso.
Quarta-feira, 28 de dezembro. Era a última aula do cursinho do ano, e a hashtag apareceu ali também. Assim que Sakuta entrou, uma voz o chamou:
“Você está atrasado, Sensei!”
Um de seus alunos estava à espreita na área livre, esperando para emboscá-lo,Kento Yamada, um aluno do primeiro ano da sua antiga escola, Minegahara High.
“Você nunca chega tão cedo, Yamada.”
Kento geralmente chegava pouco antes das aulas começarem e saía assim que elas terminavam. Ele odiava tanto estudar que nem aproveitava os estandes de autoestudo. Ainda assim, nunca se atrasava, então ele provavelmente era mais sério em relação ao cursinho do que aparentava.
“Sakuta-sensei, por aqui.” Ele acenou para Sakuta ir até a parede. Sakuta foi sem questionar.
“Posso faltar à aula de hoje?” Kento perguntou.
“Posso saber o motivo?” Era uma pergunta óbvia. Kento imediatamente olhou ao redor para se certificar de que ninguém estava ouvindo, depois espiou por cima da parede na área dos professores.
Depois de garantir que estavam sozinhos, ele disse: “Me empresta seu ouvido.”
“Prefiro não ficar encurvado com outro cara,” Sakuta respondeu, mas isso não os levaria a lugar nenhum, então ele fez o que lhe foi pedido.
“Eu tive um sonho na véspera de Natal.”
“Sobre o quê?”
“Bem… eu estava em um encontro em Enoshima. Com Yoshiwa.”
“Que sonho agradável.”
“Tinha sardinha branca crua, então deve ter sido na temporada—final de março, início de abril? Estávamos trocando mordidas de sorvete, de mãos dadas…” Sua voz já estava muito baixa no início, mas a vergonha a sufocava ainda mais. Eventualmente, seu olhar caiu tanto que ele se tornou completamente inaudível.
Mas isso já havia sido o suficiente para Sakuta entender.
“Em outras palavras, vê-la agora seria constrangedor, então você quer pular a aula.”
“Sim!”
“Evitar ela vai piorar as coisas.” Essa era a opinião honesta de Sakuta.
“Para de estar certo.”
“Todo mundo sabe disso.”
“Ainda assim, por favor!” Kento juntou as mãos em sinal de prece.
“Yamada, você não estava de olho na Himeji?”
“Agh! Sensei, não diga isso em voz alta!”
“Você está mais alto que eu.”
Kento escaneou os arredores novamente, mas não havia ninguém na área de autoestudo. Havia pessoas na área dos professores, mas não próximas o suficiente para ouvir.
“Himeji, uh… traçou linhas bem claras.” Ele parecia um pouco magoado, mas não mediu palavras.
“O que aconteceu?”
“Eu a encontrei na Estação Fujisawa, à noite, na véspera de Natal.”
Sara tinha estado com Sakuta e Mai naquele dia. Eles a haviam deixado na estação depois, o que provavelmente foi quando ela encontrou Kento. Anteriormente, Juri relatou um sonho no qual Sara rejeitava Kento na véspera de Natal… o que provavelmente foi esse incidente.
“Ela começou dizendo ‘Desculpe se te dei sinais errados.’ Me disse que estava apaixonada por outra pessoa.”
“E o que você fez?”
“Eu disse ‘Feliz Natal’ e consegui uma risada dela.”
Ele talvez não estivesse ciente, mas provavelmente essa foi a melhor resposta possível do ponto de vista de Sara. Ela fez o melhor para resolver a situação, e, em certo sentido, correu bem.
“E então, naquela mesma noite, você sonha com Yoshiwa. Você não perde tempo.”
“Eu só fui dormir, e o sonho veio até mim. Não é minha culpa!”
“Ainda assim, não há nada de errado com os sonhos. Eles são apenas sonhos. Achei que você não acreditava nessa coisa da hashtag?”
“Eu não acredito! Mas e se ela tiver tido o mesmo sonho?! Coisas assim aconteceram com várias pessoas online!”
Kento estava sendo incomumente perspicaz hoje. Os sonhos de Sakuta e Ikumi haviam coincidido. Ela estava no sonho dele, e ele no dela. Pela mesma lógica, se Kento havia sonhado com Juri, ela também poderia ter sonhado com o encontro deles em Enoshima. E isso seria embaraçoso.
“Nesse caso, aja normalmente. Como se você não tivesse sonhado.”
“Sensei, você acha que eu sou capaz disso?”
“Eu disse sabendo que você não é.”
“Cruel!”
“Supondo que ela tenha tido o mesmo sonho que você… Yoshiwa é muito melhor em esconder as coisas, então ela provavelmente vai conseguir o que você não consegue. Isso pode te ajudar a se acalmar.”
“Ok, sim…”
Kento quase acreditou nessa ideia quando a porta se abriu e outra pessoa entrou. A própria garota de quem eles estavam falando, Juri Yoshiwa, tinha voltado de seu torneio de vôlei de praia em Okinawa, ostentando um novo bronzeado.
Ela viu Sakuta e Kento conversando e ficou visivelmente tensa. Seus olhos vagaram, e ela rapidamente virou as costas para eles. Para Kento. Então ela se moveu rapidamente em direção à sala de aula. Claramente, estava fugindo da cena.
“Bem, Yoshiwa definitivamente teve o mesmo sonho,” Sakuta disse. Kento ficou vermelho como um tomate.
Naturalmente, a aula daquele dia foi singularmente improdutiva. Kento e Juri estavam extremamente conscientes dos movimentos um do outro, e isso dominou todo o clima dos oitenta minutos.
Assim que terminou, ambos saíram correndo, como se fosse uma competição para ver quem poderia sair mais rápido.
“Tenham um feliz… e já se foram.”
Depois, Sakuta tinha uma reunião com Toranosuke. Sakuta estava substituindo Rio como seu professor. Isso era menos uma reunião formal e mais uma conversa rápida enquanto estavam na área de autoestudo.
“Kasai, você tem certeza de que quer que eu te ensine?”
“Com certeza.”
Toranosuke inclinou a cabeça educadamente, diminuindo seu grande corpo. Respeitar superiores era uma característica da cultura dos clubes esportivos.
“Não me culpe se você não entrar na faculdade da Futaba.”
“Na véspera de Natal, eu sonhei que minhas notas no simulado foram horríveis.”
“A física quântica nos diz que o futuro não está definido, então vamos fazer o nosso melhor para evitar isso.”
Sakuta teria que garantir que o garoto passasse. Pelo menos, assegurar que a matéria que ele ensinava não fosse o que segurasse Toranosuke.
Eles discutiram brevemente as datas das aulas para o ano novo, e a reunião terminou. Mas, na saída, Toranosuke o parou.
“Ah, certo, Azusagawa-sensei.”
“Mm?”
“Obrigado por ajudar a Sara.”
“A Himeji te disse alguma coisa?”
“Eu a vi do lado de fora da minha casa depois do treino de ontem. E… conversamos.”
Sara provavelmente não mencionou a Síndrome da Adolescência ou Touko Kirishima. Dado o modo como Toranosuke falou, provavelmente foi uma conversa bem ampla. Eles cresceram juntos, então devem ter lembrado de algumas coisas do passado. E isso pareceu ser suficiente para aliviar seus medos sobre ela.
“Ela mencionou a Futaba?”
“Ah, sim. Disse que vai ter aulas com a Futaba-sensei por um tempo.”
Sakuta tinha discutido isso com Sara no mesmo dia, e eles concordaram que ela deixaria a sua aula e passaria a ter aulas com Rio em vez disso. Mas isso não era o que Sakuta estava perguntando aqui.
“Não era isso. Eu quis dizer… seus problemas românticos.”
“Ah, bem… ela disse algo sobre não deixar que eu fosse rejeitado pela garota por quem a rejeitei.”
“Típico da Himeji.”
“Pode crer,” Toranosuke concordou, fazendo uma careta.
Isso foi o fim do turno de Sakuta no cursinho, então ele acompanhou o garoto até a saída e depois foi embora também. Já estava escuro há muito tempo; nuvens finas flutuavam pelo céu noturno. Estrelas espiavam pelas frestas de vez em quando.
“Ainda assim, muita gente está falando sobre seus sonhos.” Era o suficiente para fazê-lo resmungar em voz alta.
Não restava muito tempo no ano. Talvez, uma vez que o ano novo chegasse, todos esquecessem sobre a hashtag dos sonhos.
Parte dele esperava que sim, e parte dele sabia que não.
3 de janeiro, um novo ano.
Logo após o meio-dia, Sakuta levou Mai para a casa de seus pais em Yokohama. A programação de Ano Novo na TV já estava começando a se acalmar, e todos assistiam enquanto comiam o zoni preparado por sua mãe — pela primeira vez desde o ano anterior. Kaede havia passado a noite anterior com eles, então também estava comendo com o grupo.
A sopa zoni continha mochi, frango, repolho chinês, cenouras e fatias de kamaboko vermelho e branco. Eles haviam encomendado esse último ingrediente em Odawara, durante o retorno de Hakone, para que fosse entregue no Ano Novo.
“Mai, obrigada pelo kamaboko”, disse a mãe de Sakuta, enquanto ele saboreava uma mordida.
“Enviamos isso em meu nome!”, ele disse.
“Mas todos sabemos que foi ideia da Mai”, respondeu sua mãe. Mai não disse nada, mas seu sorriso falava por si.
“Não dá para enganar minha mãe”, Sakuta brincou.
“Esse garoto, eu juro”, disse a mãe. Mai observava a pequena discussão, sorrindo feliz.
Após o almoço, Sakuta e seu pai ficaram encarregados de lavar os pratos, enquanto Kaede, sua mãe e Mai se sentaram no sofá, assistindo à programação de Ano Novo.
Então, o apresentador anunciou: “Mas antes, uma atualização do nosso setor de notícias”, e a tela mudou para um âncora mais velho. Ele se curvou uma vez e começou a transmitir as notícias com uma voz calma.
“Na manhã de hoje, em uma área residencial próxima à província de Kanagawa, Yokohama, um homem foi preso por vandalizar placas de carros. A polícia respondeu a reclamações de moradores da área e o pegou em flagrante. Parece que ele usou alicates para entortar mais de uma dúzia de placas. Comentários da polícia sugerem que o homem afirmou ter sonhado que ficaria desempregado após se formar em abril e estava se revoltando. Em uma conta de mídia social que se acredita pertencer ao acusado, havia uma postagem com a hashtag #sonhando, datada de 25 de dezembro do ano passado. A investigação policial se concentrará em como isso levou a este incidente. Isso é tudo da redação.”
Ele se curvou novamente, e a breve atualização terminou. A tela voltou à programação de Ano Novo, com vozes animadas ecoando pelos alto-falantes.
“Bem, isso foi estranho”, comentou a mãe de Sakuta.
“Uhum”, Mai concordou, sem saber como responder. Era uma história muito estranha.
Nenhuma pessoa comum ficaria tão irritada com um sonho a ponto de descontar em carros alheios. Mas aquele incidente bizarro havia se tornado uma notícia comum. Tudo sobre aquilo parecia errado. No entanto, era um caso real, não um artigo obscuro encontrado na internet, mas algo que a TV noticiava, algo que a polícia estava investigando e dando entrevistas sobre.
A queda das redes sociais havia tornado a hashtag #sonhando de conhecimento público, e as esperanças de Sakuta haviam sido frustradas — mesmo agora, o mundo ainda falava sobre isso. Em vez de desaparecer, #sonhando estava se tornando ainda mais conhecido.
“O que você sonhou, Mai?”, Kaede perguntou distraidamente, presumindo que ela tivesse tido um sonho. Sakuta nem achou isso estranho.
“Eu não tive nenhum”, respondeu Mai, uma resposta completamente normal. Ela havia dito o mesmo na manhã seguinte. Nada de estranho nisso. Mas, por algum motivo, aquilo o incomodava agora.
“Ah, é?”, Kaede disse, piscando. Isso era prova de que, na mente dela, todos tinham sonhado.
A maioria dos jovens tinha. Sakuta, Kaede, Kento, Juri, Toranosuke — todos eles. O sonho de Ikumi até havia coincidido com o de Sakuta. Mai era a única pessoa que ele conhecia que não havia sonhado. Provavelmente era o mesmo para Kaede. Por isso, ela ficou surpresa com a resposta de Mai. Seria apenas coincidência?
“Diretamente da província de Kanagawa, em Enoshima!”, anunciou a tela, mostrando uma apresentadora com um vibrante quimono de mangas longas.
A mãe de Sakuta parecia ter tido uma ideia e se virou para Mai.
“Mai, o seu está chegando este ano, certo? Sua cerimônia de maioridade… Ah, não a chamamos mais assim. A reunião dos jovens de vinte anos, não é?”
“Ah, sim, é na próxima semana.”
“Você tem um quimono?”
“Minha mãe apareceu ontem e deixou um aqui.” Ela pegou o telefone e mostrou uma foto para Kaede e para a mãe de Sakuta.
“Uau, que lindo! Perfeito para você, Mai”, Kaede disse, impressionada.
“É mesmo! Mal posso esperar para você completar vinte anos, Kaede.”
“Isso ainda está longe.”
“Só três anos.”
“Três anos é muito tempo.”
Sakuta mantinha um ouvido na conversa agradável, mas aquela dúvida persistente ainda estava com ele. Por que Mai não havia sonhado?
Quando o relógio marcou quatro horas, começou a escurecer, e Sakuta se levantou.
“Hora de irmos”, disse ele. Mai também se levantou, pegando seu casaco e bolsa.
“Vocês podiam ficar para o jantar.”
“Tenho trabalho. Voltaremos quando estivermos livres.”
“Poxa, você não trabalhou ontem? Tire uma folga!”
“Tenho turnos amanhã e depois de amanhã também.”
Com isso, ele saiu pela porta. Olhando para cima, Sakuta percebeu que metade do céu estava escura. O oeste estava tingido de laranja, mudando para um azul claro, depois marinho e, finalmente, noite.
“Até mais!”
“Obrigada por nos receberem.”
Seus pais os acompanharam até o nível da rua. Mai e Sakuta acenaram para Kaede e se dirigiram ao estacionamento onde o carro de Mai estava. Ela pagou a taxa do estacionamento de três horas e dirigiu para longe.
A tela do GPS mostrava o caminho de volta para Fujisawa.
“Mai, posso pegar seu telefone emprestado?”, ele perguntou quando pararam em um semáforo vermelho.
“Pode.”
Como ela estava com as mãos no volante, ele pegou a bolsa dela no banco de trás e puxou o telefone. A capa tinha orelhas de coelho.
“Está bloqueado.”
“Aponta a tela para mim.”
O aparelho reconheceu o rosto dela e se desbloqueou. Um telefone muito diligente. O semáforo ficou verde, e, enquanto o carro começava a se mover, Sakuta discou um número. O telefone tocou uma vez e a chamada foi atendida.
“Oi, mana! Quais são as novidades?”, Nodoka parecia estar de ótimo humor.
“Sou eu,” disse Sakuta.
“Ah, por quê?”, respondeu Nodoka. A voz dele foi o suficiente para acabar com seu bom humor, possivelmente jogando-o no abismo.
“Você tem um minuto?”
“Estou em uma aula de dança, mas estamos no intervalo. Por isso atendi.” Ela soava irritada, claramente pedindo para ele ir direto ao ponto.
“Já é dia três e você já voltou ao trabalho?”
“Temos um show em breve. Então, o que foi?”
“Você teve um sonho na véspera de Natal?”
Com as mãos no volante, Mai lançou um olhar para ele. Logo voltou a focar na estrada, mas estava claramente prestando atenção.
“Hã? De onde você tirou isso?”
“Apenas responde.”
“Tive. Estávamos fazendo um show em um salão em Yokohama. Uzuki… todos nós tivemos o mesmo sonho, no mesmo lugar, com o mesmo show.”
“Que loucura.”
“Já temos um show marcado lá para o dia primeiro de abril, então nenhum de nós ficou tão surpreso.”
“Eu acho que vocês deviam estar.”
Ele imaginou Uzuki dizendo algo como “Uau! O destino está ao nosso lado!” e encerrando a conversa.
“Então, Sakuta? Por que está perguntando isso?”
“Só queria saber se você tinha tido um.”
Agora ele tinha o que queria. Era uma pergunta simples de sim ou não. Nodoka, Uzuki e o resto do Sweet Bullet haviam tido sonhos. Isso era tudo o que ele precisava saber.
“Desculpa interromper seu intervalo. Tchau.”
“Ei, não des…..”
Como já havia obtido o que queria, ele desligou. Nodoka ainda estava falando, então achou que talvez ela ligasse de volta. Esperou alguns segundos, mas o telefone não tocou. Talvez o intervalo dela estivesse acabando. Talvez ela tenha decidido que não era importante. De qualquer forma, Sakuta não se importava.
“Obrigado pelo celular, Mai.” Ele o colocou de volta na bolsa dela. Ela claramente estava esperando por aquilo.
“Sakuta, o fato de eu não ter sonhado está te incomodando?”
“Você é a única pessoa que conheço que não teve um.”
“Eu estou mais preocupada com o sonho estranho que você teve.”
“Não posso discordar disso.”
O ponto de Mai era válido. As pessoas que tiveram sonhos estranhos deveriam ser a verdadeira preocupação. Kaede, Ikumi, Nodoka, Uzuki, Kento e Juri.
“E seus pais também não sonharam.”
Eles haviam dito isso mais cedo. Nenhum deles jamais teve um sonho que parecesse especialmente real.
“Mas eles são adultos. Não exatamente no auge da adolescência.” Se esses sonhos eram parte da Síndrome da Adolescência, então eles só estavam afetando pessoas nessa faixa etária. Onde estava o limite superior para isso ainda era um mistério.
“Então acho que não sou mais adolescente”, Mai murmurou, como se fosse um fato simples. Aquilo carregava mais peso do que suas palavras sozinhas.
“Você é muito madura”, ele disse.
“Já está na hora de você crescer, Sakuta.” Ela sorriu, provocando-o.
“Isso com certeza me pouparia toda essa preocupação com a Síndrome da Adolescência.”
Essa seria definitivamente a solução ideal. O problema estava na definição de “crescer”. Já que a Síndrome da Adolescência derivava da instabilidade mental da juventude, provavelmente não era algo que se resolvia apenas com o passar do tempo. Amadurecer internamente era a verdadeira definição de crescimento. E, por esse padrão, Mai certamente já tinha alcançado isso.
“……O que significa que você está certa.”
“Hmm?”
“As pessoas que sonharam é que são as estranhas.”
“E você está por aí vendo esse Papai Noel que eu não consigo ver.”
“Isso me faz parecer bem fora da realidade.” Objetivamente falando, ele realmente estava.
“Agradeça à sua maravilhosa namorada por aguentar a sua bagunça.”
“Meu objetivo atual é entrar em uma autoescola depois das provas finais para que eu possa dirigir também.” Ele ainda não havia mencionado isso antes.
“Então é por isso que você está pegando tantos turnos durante as férias!”, Mai disse, sorrindo.
Dois dias depois, 5 de janeiro. O turno de Sakuta no restaurante começava às cinco. Era o seu quarto dia seguido trabalhando lá; todo o dinheiro que ganhava era destinado para pagar a autoescola. Encolhido contra o frio de inverno, ele entrou pelas portas da frente.
“Bem-vindo!”, uma voz brilhante e alegre o saudou com o toque do sino. Uma garçonete de estatura pequena apareceu para recebê-lo. Era uma colegial que ele nunca tinha visto ali antes, mas que conhecia muito bem.
“Eu não sou um cliente, então você deveria dizer ‘Bom dia’.” Ele era o veterano ali, e Sara Himeji usava um crachá de “EM TREINAMENTO”.
“Você deveria pelo menos fingir surpresa!”, Sara protestou, emburrada. “Tipo, ‘Por que você está aqui?!’ ou ‘Quando isso aconteceu?!’. Sabe, como uma pessoa normal.”
“Você aceitou o trabalho, não é? Não é nenhum mistério.”
“Você é tão chato!”
Ela parecia frustrada com a recusa dele em dar a reação que esperava. Deixando ela reclamar, ele foi em direção ao vestiário. “Bom dia”, disse, oferecendo a saudação padrão de início de turno, mesmo sendo no final da tarde. Ele passou pela entrada da cozinha a caminho do vestiário. Ele podia ouvir os passos de Sara o seguindo.
“Sensei, esse uniforme não é fofo?”, perguntou ela.
“Fica bem em você”, ele disse, sem nem olhar para trás.
“Sério? Que ótimo!” Ela ainda bateu palmas de alegria. Sakuta foi para trás dos armários para se trocar para o uniforme de garçom. Primeiro, tirou a parte de cima e de baixo, ficando apenas de roupa íntima.
“Ah, Himeji…”, ele chamou por cima dos armários enquanto colocava a camisa e começava a abotoá-la, ainda ouvindo ela do outro lado.
“O que foi?”, respondeu Sara.
“Você sonhou na véspera de Natal?”
“Sim!”
“Com o quê?”
“Estava com uma amiga em Enoshima.”
“Enoshima, hein?”, ele murmurou. Mesmo lugar que o sonho de Kento e, presumivelmente, o de Juri.
“Você não viu o Yamada por lá?”, perguntou Sakuta, colocando uma perna nas calças.
“Totalmente vi. Estava em um encontro com a Yoshiwa. E pensar que ele dizia que estava apaixonado por mim! Que babaca.”
“Você traçou uma linha, então ele seguiu em frente.” Ele apertou o cinto e colocou o avental, então saiu dos armários.
“Yamada te contou, né? No mesmo dia em que você me rejeitou.” Essa foi uma pequena provocação dela; ela fez um bico depois de dizer isso.
“Hã?”, uma nova voz soou, nem de Sakuta, nem de Sara. Tomoe estava na porta, já em seu uniforme. Provavelmente tinha entrado bem a tempo de ouvir a última frase de Sara, daí o suspiro chocado.
“O que foi, Koga?”, ele perguntou, como se nada tivesse acontecido.
“Er, eu… ia mostrar para a Himeji como funciona o caixa, mas ela não estava no salão.” Ela estava procurando por Sara.
“Então o Sakuta-sensei vai me mostrar!”, Sara disse, movendo-se para o lado dele e agarrando o cotovelo dele de forma provocativa. Os olhos de Tomoe se voltaram para aquela mão. Reflexivamente.
“Senpai, o que você fez?”, ela perguntou, lançando um olhar irritado para ele. Ela estava carrancuda, a ponto de ficar mal-humorada.
“Oh! Tomoe-senpai, você está com ciúmes?”, Sara perguntou, provocando-a antes que Sakuta pudesse responder.
“C-claro que não!”
“Mas você está confusa. Aconteceu algo entre vocês dois?”, Sara claramente sabia que sim. Até poucos dias antes, ela conseguia ler mentes. Provavelmente tinha aprendido o suficiente para juntar as peças e saber que algo havia acontecido, se não os detalhes.
“Nada disso. Vamos logo pro caixa.” Encerrando o assunto, Tomoe virou-se para sair.
“Ah, me dá um minuto”, disse Sara. “Tem algo que o Sakuta-sensei precisa ouvir.” Ela tirou o celular do bolso e começou a mexer na tela.
“Isso aqui… você sabia?”
Sara mostrou a tela do celular para Sakuta. Uma rede social com postagens curtas, filtradas pela hashtag “dreaming”.
“Mai Sakurajima revela que é Touko Kirishima. Primeiro de abril. Festival de música no Red Brick Warehouse. #dreaming”
“A vocalista convidada da banda é Mai Sakurajima, cantou uma música de Touko Kirishima, e então anunciou que sempre foi Touko Kirishima! #dreaming”
“Parece que muita gente teve esse sonho. Eu também. Mai Sakurajima confirma que é Touko Kirishima em um festival de música. #dreaming”
“Isso confirma tudo. Touko Kirishima e Mai Sakurajima são a mesma pessoa. #dreaming”
Havia muitas postagens como essas. Ele rolou a página dez vezes e ainda não encontrava o fim. Isso fazia sentido.
“Há tipo, cinco mil delas…,” disse Sara, com um olhar de desconforto. Ela sabia muito bem o quão sinistro aquilo era. Claramente, não era algo para ser descartado, e sua expressão deixava claro que estava levando a sério.
“Isso é definitivamente muita coisa,” disse Sakuta, expressando sua opinião sincera.
Durante todo o tempo em que trabalhou, ele não conseguia tirar aquelas cinco mil postagens da cabeça. Todos tinham visto o mesmo show.
Tinham sido parte daquela plateia. E todos tinham visto Mai Sakurajima pegar o microfone e declarar que era Touko Kirishima. Eles sonharam com isso. O mesmo sonho que Sakuta também tinha tido. Ele imaginou que os detalhes coincidissem, a única diferença seria a perspectiva de onde assistiam. Isso significava que todas essas postagens vinham de membros daquela audiência.
Assim como os sonhos de Sakuta e Ikumi se sobrepuseram, esses cinco mil postadores sonharam com o mesmo momento no futuro. Nesse ponto, aquilo já não era apenas “estranho”. Sakuta achou realmente perturbador.
Sempre que ele tinha um momento livre, sua mente voltava para aquelas postagens. O turno seguiu em frente.
Às nove, os funcionários do ensino médio, Tomoe e Sara foram embora, deixando Sakuta, o gerente, e outro trabalhador universitário no restaurante. Foi o primeiro dia de Sara no trabalho, mas ela saiu sorrindo e acenando.
“Estou indo embora, Sakuta-sensei!”
A hora seguinte passou rápido, e o turno de Sakuta terminou. Não houve muito movimento naquela noite, então por volta das nove e meia, o gerente disse para ele sair mais cedo. Sem questionar, ele se despediu às dez em ponto e foi para o vestiário enquanto tirava o avental.
Ele entrou na sala de descanso, pretendendo se trocar atrás dos armários. Assumiu que estaria vazia, mas havia uma colegial por lá. Tomoe, com os olhos grudados no celular.
“Você ainda está aqui, Koga?”
“Oh, Senpai.”
“Para de mexer no celular e vai para casa.”
“Eu queria te perguntar uma coisa, então estava te esperando.”
Sobre Sara? Ele imaginou que isso levaria a reclamações. Mas o que Tomoe disse em seguida era sobre um assunto completamente diferente.
“Você parecia preocupado com as postagens #dreaming, então pensei em compartilhar meu sonho.”
Tomoe olhou diretamente para ele, claramente levando isso a sério. O fato de ela ter esperado uma hora inteira por ele chamou sua atenção. Parecia algo que ela não podia falar durante o trabalho, então tinha ficado quieta até então. Nesse caso, ele achou melhor conversarem fora dali.
“Me deixa trocar rápido, então. Aqui não é o melhor lugar pra isso, então te escuto no caminho.”
“Entendido,” Tomoe disse, assentindo. Fora do restaurante, Sakuta e Tomoe seguiram em direção à estação de Fujisawa.
“Você teve um sonho na véspera de Natal, Koga?”
“Parece que todo mundo teve. Nana, meus amigos da sala… Alguém ficou de fora? Acho que não.”
Era limitado à geração deles, mas até onde Sakuta sabia, Mai era a única que não havia sonhado. Se isso também fosse verdade no círculo de Tomoe, então as exceções eram realmente raras.
Eles passaram pela estação e seguiram para o leste. O tráfego de pedestres diminuiu, e Sakuta foi direto ao ponto.
“Então você viu o grande anúncio da Mai?”
“Não vi.”
“Então o quê?”
“Meu sonho começou bem antes de primeiro de abril.”
“Quanto antes?”
“Quatro de fevereiro.”
Uma data muito específica. E que não lhe soava familiar. Era o dia depois de Setsubun… mas isso era tudo o que ele sabia.
“O que aconteceu?”
“A Sakurajima-senpai estava trabalhando com a polícia de Fujisawa, atuando como chefe de polícia por um dia.”
“Ela estava?” Isso era novidade para ele.
“Houve um acidente durante o evento. No meu sonho, as notícias disseram que ela ficou gravemente ferida e não havia recuperado a consciência.” Isso também era inédito.
“Você tá falando sério?”
“Eu não inventaria uma coisa dessas.”
“Eu sei.”
“As notícias disseram que alguns equipamentos caíram sobre ela, e ela foi levada às pressas para o hospital.”
Era apenas um sonho, mas o tom de Tomoe era sombrio, como se tivesse testemunhado isso pessoalmente. A expressão dela também era grave.
Nem a parte de chefe de polícia, nem o colapso dos equipamentos tinham aparecido nas postagens da hashtag dreaming. Tudo o que Sakuta tinha visto relacionado à Mai era sobre o festival de música em primeiro de abril e o anúncio chocante.
O sonho de Sakuta também tinha sido sobre isso. O de Ikumi também.
“O que aconteceu com a Mai depois que ela foi para o hospital?”
“Não houve notícias sobre sua recuperação. Pelo menos, até o dia nove de abril.”
“……Hã?” Ele soltou um som surpreso. O que ela tinha acabado de dizer?
“No dia nove de abril, não havia mais notícias.” Sakuta não tinha ouvido errado.
“Eu perguntei a você, mas você não me disse muita coisa.”
Tomoe o olhou com irritação, como se ele fosse responsável pelo que aconteceu no sonho dela.
Aquilo não era a única coisa estranha ali. Do que, afinal, Tomoe estava falando? As especificidades e a extensão do seu sonho iam muito além do que Sakuta havia experimentado ou do que qualquer post sobre “sonho” envolvia. Era uma grande mudança.
E, dentro desse sonho, ela havia feito um esforço consciente para entrar em contato com ele. Como se estivesse vivendo uma vida normal…
“Uh, Koga.”
“O quê?”
“Seu sonho durou tanto assim?”
Ele já havia passado por algo muito semelhante uma vez. Com a própria Tomoe. No verão do segundo ano do ensino médio, estranhas memórias de ficar preso nos mesmos poucos dias.
“Acho que sim” ela desviou o olhar, claramente não querendo dizer mais. Isso já lhe dizia tudo que ele precisava saber.
“Você viu tudo, da véspera de Natal até o dia 9 de abril?”
“E daí?” Ela fez uma careta para ele, praticamente admitindo.
Isso correspondia aos sintomas anteriores da Síndrome da Adolescência de Tomoe. A simulação do futuro. O retorno do demônio de Laplace.
“Eu não fiquei presa repetindo o mesmo tempo, ou algo assim.” ela disse evasivamente.
“Então, você percebeu que a formatura do ensino médio estava chegando e ficou nervosa sobre fazer amigos na faculdade?”
“Cala a boca.” Ele havia acertado em cheio.
“Como você está?” ela perguntou.
“Hm?”
“Você fez amigos?” Uma mudança de assunto forçada.
“Tenho um ou dois com quem falo com frequência.”
Takumi provavelmente poderia ser considerado um amigo. Takumi, com certeza, faria um escândalo se ele dissesse que não eram amigos.
Também havia Miori, que havia descrito a relação deles como “amigos em potencial”. Isso poderia significar que ainda não eram amigos de fato. Sakuta, por sua vez, estaria perfeitamente bem em dar esse salto.
“Mas é diferente do ensino médio.”
“Como assim?”
“A gente meio que só sai junto. Sem se conhecer tão bem quanto eu conhecia o Kunimi ou a Futaba.”
No ensino médio, as vidas de todos se sobrepunham, o que aprofundava as conexões. Sem nem precisar tentar, você acabava sabendo onde as pessoas moravam. Eram tão próximos assim.
Mas na faculdade, o raio de ação de todos se expandia, e quase não havia sobreposição. Quando você saía do campus, não fazia ideia do que os outros estavam fazendo. E essa distância mantinha os relacionamentos superficiais.
Isso não era bom nem ruim. Era simplesmente como as coisas funcionavam. E permitia que as pessoas mantivessem uma distância segura, evitando machucar umas às outras.
“Hm, entendi.”
Tomoe aceitou a explicação, mas claramente não compreendia de verdade. Para ela, ainda não parecia real.
“Koga, só não entre em pânico e tente entrar em um grupo que não é certo para você, de novo.”
“Bem, se eu fizer isso, vou até você reclamar.”
“Mas no máximo uma vez por semana.”
“Além disso, é aqui que eu desço.”
Eles haviam chegado a uma encruzilhada, e Tomoe parou. Ela teria que virar à esquerda, enquanto Sakuta seguiria pela direita.
“Obrigada por compartilhar, Koga. Isso foi de grande ajuda.”
Ele estava levemente preocupado com o reaparecimento da “pequena diabinha”, mas havia aprendido algo importante com isso.
“Então me pague um Mont Blanc que só é bom por duas horas.”
“Dez está bom?”
“Um já basta!”
“Não precisa se segurar.”
“Se quer me agradecer, faça de maneira normal!”
“Isso é pedir muito.”
“Suuuuure. Até mais, Senpai.”
Tomoe acenou e se afastou. Ele a observou ir, e logo ela se virou novamente.
“Você está tornando isso esquisito!”
Ela apontou para a rua, mandando ele seguir seu caminho. Então, saiu correndo, tentando sair do seu campo de visão. Logo, ele a perdeu de vista.
“Nunca fico entediado observando ela” ele murmurou, e então virou na direção oposta.
Por um tempo, seus passos ecoaram pelas ruas residenciais. Sua respiração era o único outro som.
Tudo o que ele havia feito era comparecer ao trabalho, mas acabou ouvindo muitas histórias estranhas.
As notícias de Sara sobre todas as pessoas que compartilharam o mesmo sonho que ele. E a simulação do futuro de Tomoe.
Era muita informação confusa de uma só vez, mas uma peça do quebra-cabeça se encaixou. Mai estaria em coma.
O que Tomoe havia visto não poderia estar mais alinhado com o aviso de que Mai estava em perigo. E ele estava grato por saber disso com antecedência. Se ela estava destinada a ter algum equipamento caindo sobre ela, não deveria ser tão difícil de evitar.
A maior parte disso não fazia sentido, mas isso, pelo menos, parecia seguro.
Isso não significava que ele não tinha preocupações — ele ainda não fazia ideia de como isso se conectava à outra parte da mensagem: encontrar Touko Kirishima.
E por que ele sonhou com Mai se chamando por esse nome? Isso ainda não fazia sentido.
Como as peças se encaixavam? Quais partes não estavam relacionadas de forma alguma? Só de pensar nisso, sua cabeça começava a girar.
“Estou tão perdido.”
As palavras escaparam, refletindo claramente seu estado mental. Naquela noite, Mai ligou. Enquanto conversavam, ela mencionou:
“Ah, certo. No dia quatro de fevereiro, eu serei chefe de polícia por um dia.”
Direto da boca dela. Exatamente como Tomoe havia prometido.
As férias de inverno terminaram, e as aulas da faculdade recomeçaram no dia seguinte, 6 de janeiro. Sakuta se preparou cedo e saiu a tempo para sua aula do primeiro período. Na estação Fujisawa, ele embarcou na Linha Tokaido em direção à Estação Yokohama. De lá, ele trocou para a Linha Keikyu e desembarcou na Estação Kanazawa-hakkei. O trajeto todo, de casa até a faculdade, levava cerca de uma hora.
A plataforma estava cheia de estudantes. Todos formavam filas e atravessavam os portões, e Sakuta era apenas mais um naquela multidão. Era a mesma cena que ele via todas as manhãs, lembrando-lhe que estava de volta à rotina da faculdade.
Mas algo parecia um pouco estranho. Diferente. Ele sentia mais olhares sobre si do que o normal. Mais do que o usual por ser o namorado de Mai Sakurajima.
Pensando nisso, ele passou pelos portões e desceu as escadas do lado oeste da estação. Sentindo-se visivelmente desconfortável, ele seguiu pela estrada ao longo dos trilhos, e então ouviu passos rápidos se aproximando por trás.
“Azusagawa, feliz ano novo, cara.”
Ao seu lado apareceu Takumi Fukuyama. Assim como Sakuta, ele era estudante de ciências estatísticas. Takumi usava um casaco preto e um cachecol laranja chamativo.
“Feliz Ano Novo.”
“Espero que seja um bom ano.”
“Vamos fazer ser um bom ano.” Sakuta decidiu pronunciar bem.
“Você é muito formal.”
“A namorada mais fofa do mundo me treinou para levar saudações a sério.”
“Agora estou com inveja” Takumi respondeu, levando a brincadeira a sério. Talvez nem fosse tão brincadeira assim.
“Então, sobre a Sakurajima, a garota mais fofa do mundo, isso é verdade?”
“O que exatamente?” Mai era famosa, sempre havia algo sobre ela para comentarem.
“Online, estão dizendo que ela é a Touko Kirishima.”
“Você não pode acreditar em tudo que vê nos sonhos.”
“Mas estão dizendo que essa coisa de previsão coletiva realmente acontece.”
Takumi mostrou a Sakuta a tela de seu celular. Nela havia um artigo de um site de notícias. O título incluía a expressão “precognição coletiva”, não era algo que se via todo dia. Segundo o artigo, já haviam sido observados fenômenos semelhantes no exterior. Ele tentava oferecer uma explicação razoável para os sonhos da véspera de Natal que muitos jovens haviam experimentado. Mas, quanto mais Sakuta lia, menos fazia sentido.
“Você sonhou, Fukuyama?”
“Eu estava em Hokkaido.”
“Por que Hokkaido?”
“Eu sou de lá” disse Takumi, sorrindo.
“É a primeira vez que ouço isso.”
“Eu juro que disse isso quando me apresentei!”
“Vir de Hokkaido para cá é algo grande?”
Ele conhecia outra pessoa de lá.Touko Kirishima. Ele tinha visto essa informação no perfil de Nene Iwamizawa.
“O quê?” disse Takumi, confuso. Ele não sabia sobre ela.
“Eu conheci outra pessoa de lá recentemente.”
“Aposto que ela é linda” Takumi se inclinou, um pouco ansioso demais. Sakuta deu um passo para trás, mantendo distância.
“Não tanto quanto a Mai.”
“Me apresenta!”
Ele adoraria, mas isso era fisicamente impossível. Apenas Sakuta podia vê-la. Mas contar algo tão fora do comum a Takumi só o faria parecer louco—naturalmente, ele não ia revelar a verdade ali. O melhor seria mudar de assunto.
“Fukuyama, por que você escolheu esta faculdade?”
Se ele quisesse apenas ir para a cidade, havia várias opções. Parecia provável que ele tivesse uma razão específica para escolher uma universidade administrada pela Cidade de Yokohama.
“Não muda de assunto! Ela deve ser muito bonita.”
Infelizmente, Takumi não desistia tão facilmente. Ele estava faminto por amor.
“Tudo bem, se ela concordar, eu te apresento.”
“Sério? Agora estou feliz de ser seu amigo.”
Será que ele ficaria tão feliz se soubesse que ela era invisível? Sakuta se perguntou isso enquanto passavam pelos portões da faculdade. Fazia um tempo desde que ele havia estado no campus.
O caminho arborizado estava totalmente livre das folhas de gingko.
“Azusagawa…”
“Hm?”
“Por que eu escolhi esta faculdade?”
“……”
Pensando que Takumi estava brincando, Sakuta olhou para ele, e viu sua testa franzida.
“Fukuyama?”
“Hm?”
“Você está bem da cabeça?”
Por que mais ele esqueceria algo assim?
E, com isso, eles chegaram ao prédio da sala de aula. Sakuta sentiu olhares sobre ele o dia inteiro. Durante as aulas, nos corredores, enquanto comia seu curry no refeitório… quase sempre havia alguém olhando para ele. Como se todos quisessem saber se Mai Sakurajima era realmente Touko Kirishima.
A cada vez, ele lançava um grito silencioso: “Ela não é!”, mas seu apelo não alcançava ninguém.
“Aquela coisa que você mencionou de manhã, Fukuyama? Parece que todo mundo já sabe.”
“Claro que sabem” Takumi deu de ombros, enquanto comia seu próprio prato de curry. Para ele, aquilo não era grande coisa, só informação pública. A ideia havia se tornado tão prevalente que seria estranho não saber.
Parecia que o que deveria ser um boato estava sendo tratado como fato.
A manhã sozinha já tinha sido suficiente para Sakuta perceber o quão difundido o assunto estava e quão rápido as informações se espalhavam.
“Ainda bem que a Mai não está aqui hoje.”
Ela estava em Kyoto durante a semana, filmando um programa de TV. Mesmo Mai provavelmente ficaria frustrada com essa teia de mentiras.
“Ah, certo. Azusagawa.”
“Você tem curry no rosto.”
“Meu aniversário é no dia trinta. Deste mês.” Limpando o rosto, Takumi ofereceu uma informação que ninguém havia pedido.
“Parabéns, então.”
“Então me apresenta essa garota de Hokkaido antes.”
“Vou ver o que posso fazer.”
Sakuta finalmente se livrou dos olhares incômodos durante a terceira aula, uma disciplina do currículo básico.
Como o professor havia avisado, eles teriam um exame. Muitas disciplinas padrão terminavam com um relatório, mas essa oferecia uma prova cheia de questões dissertativas. O professor permitiu o uso de anotações e materiais de referência, mas não de celulares. Essa era uma regra que Sakuta nunca tinha encontrado no ensino médio.
Nos primeiros quarenta minutos, o único som era o de lápis mecânicos no papel, ocasionalmente interrompido pelos barulhos de pensamento de Takumi. Fora isso, silêncio.
Um tipo de silêncio tenso, e Sakuta assumiu que esse silêncio continuaria até o fim do exame, mas não naquele dia.
Houve um barulho alto vindo do fundo. Alguém tinha aberto a porta deslizante com força. No entanto, ninguém se virou. Trinta estudantes continuaram concentrados em seus ensaios.
O próprio Sakuta continuou escrevendo. Ele assumiu que era apenas um colega chegando atrasado.
Então, ele ouviu o som de saltos se aproximando pelo corredor, como se viessem direto em sua direção. Pararam bem ao seu lado. Uma sombra escureceu a sua página.
“Venha comigo um momento.” disse a intrusa. Confuso, Sakuta levantou os olhos. Uma garota universitária estava ali.
Touko Kirishima, seu nome verdadeiro, Nene Iwamizawa.
“Precisamos conversar” ela disse, assim que conseguiu sua atenção.
Todos na sala deveriam ter ouvido ela falar, mas nenhum estudante olhou para cima, nem mesmo o professor de cabelos brancos que matava o tempo com um livro. Ninguém reagiu. Não porque estavam concentrados no exame.
No assento ao lado, Takumi folheava um livro de referência de forma distraída, sua concentração já havia se esgotado há muito tempo. Muitos estudantes à frente deles já tinham terminado e estavam apenas olhando para o nada. As regras diziam que quem terminasse poderia sair após uma hora, então eles provavelmente estavam esperando esse tempo.
De qualquer forma, se alguém começasse a falar de repente, eles teriam olhado para cima. O professor teria feito algo. Essa estranha falta de reação só era possível porque eles não podiam ver Touko. Não podiam ouvir sua voz.
Estou fazendo um exame. Incapaz de responder em voz alta, ele rabiscou isso em suas anotações.
“Então, vou esperar até você terminar.”
Touko sentou-se de lado no assento à frente do dele, olhando diretamente para ele. Observando cada um de seus movimentos. Fitando-o com firmeza.
Isso tornava impossível para ele continuar escrevendo. Seria melhor resolver logo o que quer que ela quisesse e depois terminar o teste.
“Com licença! Minha barriga está doendo. Preciso ir ao banheiro” ele anunciou, levantando-se.
Ele se curvou um pouco, com uma mão esfregando a barriga. Uma atuação terrível, Mai certamente riria dele.
Mas o professor apenas disse: “Vá em frente” e apontou para a porta.
Então, ele se dirigiu à saída.
Touko se levantou, parecendo satisfeita consigo mesma. A cadeira rangia, mas ninguém notou. Então, Touko viu que o cachecol de Takumi havia caído no chão. Ela se abaixou, pegou-o, sacudiu o pó e o colocou de volta na mesa dele.
“……” Takumi não reagiu, e ela o olhou por um longo momento. Esperando que ele agradecesse? Em vão, ele não percebeu.
Não era surpresa que ele não pudesse vê-la, e não parecia que Sakuta seria capaz de apresentá-los. Ele teria que pensar em algum outro presente de aniversário.
“Hmph” Touko bufou, então se virou e saiu da sala. Sakuta a seguiu, ainda fingindo que sua barriga doía.
Miori estava sentada perto do fundo, e seus olhos se encontraram com os de Sakuta. Ela lançou-lhe um olhar acusador. Achava que ele estava fingindo? Provavelmente.
Fora da sala de exame, Touko andou por todo o corredor longo e entrou em uma sala de aula vazia. Sakuta a seguiu e fechou a porta atrás de si.
Com apenas os dois, estava ainda mais silencioso do que na sala de exame.
“O que você quer?” ele perguntou, indo direto ao ponto. Esperando poder voltar logo para sua redação.
“O que sua namorada está aprontando?”
“O que você quer dizer?”
“Todo mundo está dizendo que ela é a Touko Kirishima.”
“Alguém deu a eles todos um sonho estranho.”
“Ela é sua namorada. Faça-a consertar isso.”
“Isso seria bom para ela, então eu adoraria. Mas se você tem um problema com isso, por que não se apresenta como a verdadeira Touko Kirishima?”
O jardim central estava logo do lado de fora da janela. Foi ali que Touko tinha feito sua transmissão ao vivo na véspera de Natal.
“Você poderia fazer uma transmissão aqui e agora. Eu ajudo.” Isso parecia o mais rápido.
“Não adianta.”
“Você já tentou?”
“Ninguém consegue ver nada que tenha meu rosto. No máximo conseguem uma imagem distante de minhas costas.” Onde só conseguiam distinguir sua silhueta.
“Então você só precisa se tornar visível de novo.”
E para isso, ele precisava saber por que Touko havia se tornado invisível. Ele não imaginava que ela lhe contaria isso facilmente… e sempre havia a possibilidade de que ela também não soubesse.
“Kirishima, você sabe por que está assim?”
“Não” ela respondeu bruscamente.
“Iwamizawa sabe por quê?”
“……” Isso lhe rendeu silêncio. Silêncio indicava concordância.
“Vou interpretar isso como um “sim”.
Ele já havia conversado com ela o suficiente para perceber que ela era péssima em mentir. E ela tinha o hábito de se calar quando ele estava certo.
“Sua namorada precisa negar isso.”
“Uma vez que um boato ou erro se espalha tanto assim, é bem difícil de desmentir.”
Algumas pessoas acreditavam cegamente. Outras não se importavam, e a verdade não fazia diferença. Tentar explicar a verdade com paixão provavelmente não seria muito eficaz. A verdade era como as pessoas a percebiam.
“E se você sabe disso, já tem um plano, certo?” Touko disse, lançando-lhe um olhar investigativo.
“Se eu tiver, tem recompensa?” ele perguntou, olhando em seus olhos.
“Hmmm” ela disse, cruzando os braços. Ela pensou em algo logo e sorriu.
Cruzando olhares com ele novamente, disse: “Eu te levo em um encontro.”
“Se não for um encontro com pernoite, dificilmente me interesso.”
“Eu não me importaria. Se você não tem medo da sua namorada.”
O brilho nos olhos dela indicava que ela estava tentando provocá-lo. Ela estava se divertindo com aquilo.
“Você venceu. Vou fazer algo.”
“Então temos um acordo.” Ela estendeu a mão, e ele a apertou.
Se eles pudessem esclarecer as coisas sobre Mai e aprender mais sobre Touko, seria como matar dois coelhos com uma cajadada só. Esqueça a piada sobre um encontro com pernoite.
“Dê um jeito nisso” ela disse, virando-se para ir embora.
“Que sonho você teve, Kirishima?” ele perguntou.
Ele imaginou que ela simplesmente ignoraria, mas Touko parou na porta e se virou.
“Eu não tive um sonho.” Uma resposta surpreendente, neste ponto. Mai não era a única.
“Igual à Mai” ele disse. Touko fez uma careta.
“Você tem tempo para isso? Melhor voltar para a aula. Está ficando apertado.”
Nesse momento, o sino tocou. Fim do terceiro período, e o fim do exame.
Foi a vez dele fazer uma careta. Claramente, era isso que ela queria. Touko disse “Até mais”, acenou com a mão e desapareceu.
Quando Sakuta voltou para a sala de aula principal, ela estava deserta. Sua folha de respostas havia sido recolhida, e as únicas coisas que restavam eram suas coisas e uma garota, sentada do outro lado do corredor de onde estavam os pertences dele. Ele reconheceu aquele penteado meio preso, meio solto, Miori havia feito o mesmo exame. Ela o ouviu chegando e se virou.
“Bem-vindo de volta, cara de vômito.”
“O que é isso, o título de uma novela matinal?”
“Ninguém assistiria isso.” Ela riu, divertida.
“Todo mundo já foi embora. Estão planejando uma festa de início de semestre ou uma bebedeira pós-exame.”
Miori olhou ao redor da sala vazia. Takumi havia mencionado algo assim.
Sakuta tinha, na verdade, conhecido Miori em uma dessas festas de currículo comum.
“Você não foi com eles, Mitou?”
“Se eu for, só vão tentar me paquerar.” Era impressionante como ela conseguia dizer isso sem soar rancorosa.
“E eu tinha uma pergunta para você, Azusagawa.”
“Meu tipo? É a Mai.”
“Então, quem era a garota com quem você saiu?”
“……” Essa era a última pergunta que ele esperava, e o deixou sem reação.
“Fugindo para um encontro, no meio da prova? Céus.” Demorou um minuto para ele sequer registrar o que estava ouvindo. O que Miori estava dizendo?
“Ela se veste de Papai Noel às vezes, não? Minissaia e tudo.” Ela continuou impiedosamente acumulando provocações. E ele já não podia mais rejeitar a ideia.
“……Você consegue vê-la, Mitou?”
“Ela entra assim, como eu não veria?”
“Não, quero dizer, você pode vê-la?”
“O que você quer dizer com isso?” Miori parecia confusa, obviamente sem entender o que ele estava dizendo.
“Você e eu somos as únicas pessoas que podem ver aquela mulher.”
“……”
Agora era a vez dela de congelar. Parecia que ela não estava processando aquilo de jeito nenhum. Não parecia que ela havia entendido suas palavras.
Por um longo momento, ela simplesmente piscou para ele.
“……”
“……” Um silêncio muito, muito longo se passou.
Seus lábios não se moveram novamente até que o sino do quarto período tocasse.
“Azusagawa” ela disse.
“O quê?”
“Você é maluco?” Levou muito tempo para ela chegar a essa conclusão. Mas era, de longe, a mais apropriada.
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