Capítulo 2

Durante todo o tempo em que Sakuta explicava a situação de Touko Kirishima, Miori mantinha uma expressão séria, ocasionalmente marcada por incredulidade. No entanto, ela não o interrompeu enquanto ele expunha sua história.

Ele contou como tinha conhecido a “Papai Noel de minissaia”. Como apenas ele conseguia percebê-la. Como ela se apresentava como Touko Kirishima. Sakuta omitiu a suposta relação dela com o #sonhar e a distribuição da Síndrome da Adolescência. Explicar isso o obrigaria a mencionar os casos de Uzuki e Ikumi, e isso os manteria ali conversando a noite toda.

Provavelmente, Miori só poderia processar até certo ponto dessas informações, então ele decidiu encerrar antes de chegar a esse limite.

“Isso é tudo o que sei”, finalizou.

“Posso fazer uma pergunta?”, ela perguntou, levantando a mão, como se estivesse esperando ansiosamente por sua vez.

“Sim, vá em frente”, respondeu Sakuta, acompanhando o ritmo.

“Por que nós dois?”

Essa era a pergunta óbvia, a primeira que vinha à mente. Qualquer um perguntaria o mesmo.

“É o que eu queria saber.”

Ele adoraria explicar o motivo, mas também não tinha uma resposta. Por que ele conseguia vê-la? Por que Miori também conseguia?

“Caramba.” A resposta de Miori foi sincera. A situação era, objetivamente, bastante assustadora, e nem era preciso ser objetivo para pensar isso. Aquilo estava longe de ser uma sequência de eventos normais.

Graças a ela, Sakuta conseguiu ter outra perspectiva sobre essa confusão, mas isso não tornava a situação menos alarmante.

“Mas tudo bem”, ela disse, alheia à turbulência dele. Seus olhos estavam fixos no teto.

“Isso explica por que a Manami me deu um olhar estranho quando mencionei o ‘Papai Noel do campus’ para ela.”

Ela riu, como se isso tivesse resolvido um mistério. Foi uma risada claramente vazia. O “ha” parecia mais um suspiro.

“Mas ela está viva, certo? Não é um fantasma ou algo do tipo?” Miori perguntou, com uma expressão de seriedade total.

“Sim, bem… Eu apertei a mão dela mais cedo.”

“E a sensação foi…?”

“Tão quente quanto você esperaria.”

“Então ela não é um fantasma.”

Sakuta sentiu que isso não provava muita coisa, mas não discutiu. Toda essa história já era maluca desde o início, então não adiantava esperar provas concretas.

“Não é que as pessoas não possam vê-la; é mais como se elas não conseguissem perceber sua existência.”

“Eu acho que entendo…?” Miori começou, mas logo balançou a cabeça.

“Não, acho que não entendo.”

“Não é só ela. Fukuyama estava olhando a página do concurso de beleza, e ele não conseguia ver a parte sobre a Nene Iwamizawa.”

Isso significava que eles não conseguiam absorver nenhuma informação relacionada a ela. No máximo, o que conseguiam distinguir era uma silhueta distante, indistinta demais para ser identificada. E sua voz, que sozinha, não ajudava a esclarecer nada.

“A página do concurso de beleza? Me pergunto se eu consigo ver isso.”

“Dê uma olhada, e logo você vai…” Enquanto falava, Sakuta se lembrou de uma informação importante.

“Ah, certo. Mitou, você não tem um celular.”

“Francamente, Azusagawa. Você é a última pessoa que pode zombar disso.”

Reclamando, Miori alcançou sua bolsa e puxou um retângulo plano e cinza-escuro. Era um laptop com um logo em formato de fruta.

Ela já havia mencionado usar a internet no computador de casa.

“Você carrega isso com você?”

Era fino, mas não exatamente pequeno. O peso também não era insignificante.

“Minha última aula foi no terceiro período, então trouxe ele para trabalhar no meu relatório.”

Ela lhe deu um sorriso triunfante e o abriu, cantarolando para si mesma. Logo o computador inicializou.

Sakuta tentou se inclinar para espiar, mas ela fechou a tela pela metade para que ele não pudesse ver. Uma defesa sutil.

“Nada de espiar o desktop de uma dama.”

“Por quê, está cheio de…?”

“Bom, sim.”

“Interessante…”

Mas ele recuou. Miori navegou sem dificuldade até o destino online.

“Certo, aqui está. A página do concurso de beleza, vencedora do grande prêmio do ano passado. Era uma aluna do segundo ano na época, com especialização em artes liberais internacionais. De Hokkaido, com 1,60 m, nascida em 30 de março.”

“É ela.”

“Ela tem uma conta nas redes sociais com toneladas de fotos.”

Miori virou o laptop para que ele pudesse ver. Agora ele tinha permissão.

A tela estava cheia de fotos de Nene Iwamizawa. Todas acompanhadas de pequenas postagens sobre sua carreira de modelo, vida no campus e tendências de moda atuais.

Era um registro de como a vida dela tinha sido brilhante. A impressão geral era de que sua vida tinha sido muito realizada, do tipo que todos aspiram a ter, que todos querem viver. Brilhante e cheia de energia.

“Mitou, algo que você está vendo sugere que ela gostaria de desaparecer?”

Miori estava rolando lentamente pela página, mas parou nesse ponto.

“Ela parou de postar em abril, então algo deve ter acontecido naquela época.”

Enquanto respondia, Miori olhou para ele. Piscou duas vezes, avaliando sua reação.

“Por exemplo?”

“Férias acabaram, e Mai apareceu no campus? E roubou toda a atenção.”

Ela falou o nome de Mai com um propósito inegável.

“Ah…” Ele pensou que ela havia acertado em cheio.

“Essa garota era uma modelo e uma rainha da beleza. Ela devia realmente se destacar no campus. Tinha muitas pessoas ao seu redor.”

“Eu posso imaginar.” Essas postagens definitivamente projetavam essa imagem.

“Nene Iwamizawa era a princesa deste reino universitário… até que Mai chegou.”

“Mas Mai Sakurajima é uma rainha.”

“Enfrente-a, e seu reino cai.”

Comparada a uma estudante comum, Nene Iwamizawa podia ter qualidades reais. Ela havia conseguido trabalhos como modelo enquanto ainda era estudante e vencido o concurso do campus, o que lhe deu confiança. Convencida de que ela não era como os outros estudantes. Isso lhe deu uma sensação de superioridade.

Ela era diferente. Especial. Ela era alguém e tinha orgulho disso. E então Mai Sakurajima invadiu.

Uma celebridade genuína, um nome conhecido desde os seis anos. Programas de TV, filmes, comerciais e capas de revistas. Ela fazia de tudo, e não havia como escapar de seu nome e rosto. Seu currículo e reconhecimento estavam muito além do que Nene Iwamizawa havia alcançado.

Nunca foi uma competição. Mai imediatamente se tornou a pessoa mais importante no campus.

“Com sua coroa e vestido lindos arrancados, seu status caiu de volta à plebe. Ela provavelmente nem conseguiu ser a segunda aluna mais famosa.”

“Sim, é preciso mais do que isso para se colocar à frente de Mai.”

Escala diferente, palco diferente, calibre diferente.

Da mesma forma que os nomes de Uzuki e Nodoka nunca eram mencionados ao lado do de Mai.

“A chegada de uma celebridade como Mai Sakurajima deve tê-la abalado profundamente.” Tudo o que ela tinha orgulho foi instantaneamente desvalorizado.

“É por isso que Nene Iwamizawa desapareceu. Ela não conseguia mais perceber seu próprio valor.”

Os homens não lhe lançavam mais olhares apreciativos. As mulheres não a olhavam mais com inveja.

Sua reputação foi fundamentalmente alterada. Ela não era mais especial. Esse status agora pertencia apenas a Mai Sakurajima. Sakuta sentiu que havia descoberto a verdade, mas Miori balançou a cabeça.

“Hmm, não sei se é isso”, ela disse.

“O que eu errei?” ele perguntou, sem entender o que ela queria dizer.

“Mai apareceu, roubou a atenção de todos, fez com que ela não fosse mais especial, fez com que ela fosse comum, e ela sabia que seus ‘amigos’ estavam rindo dela por isso. Aposto que foi isso que fez com que ela quisesse se esconder.”

Com as mãos pousadas sobre o laptop fechado, o tom de Miori nunca vacilou, e mais uma vez, sua visão parecia estar certa.

“……” Nenhuma resposta veio à mente.

Sakuta tinha certeza de que Miori havia avaliado corretamente a posição e a psicologia de Nene.

“Quando alguém que sempre se achou superior leva uma lição dessas, você não pensa: ‘Bem feito’?”

“Bom, sim.”

“Pessoas que se consideram vítimas nunca imaginam que suas ações possam machucar os outros.”

“Ou acham que têm o direito de fazer isso.”

“O privilégio dos oprimidos”, Miori riu, como se estivesse brincando. Ela manteve um tom leve, mas suas palavras cortaram fundo.

E essa discrepância pareceu engraçada para Sakuta. Ele soltou uma risada ofegante. A conversa foi diminuindo.

“……”

“……” Mas os sorrisos permaneceram.

“Você passou por alguma coisa, Mitou?”

“Tipo o quê?”

“Parece que você está falando por experiência própria.”

“Bom, eu certamente vivi uma vida.”

Ela nunca deixou que ele avançasse mais nessa questão. E isso estava bem para ele. Sakuta estava mais interessado em Touko do que em Miori.

“Ainda assim, Mitou.”

“Hum?”

“Ela é Touko Kirishima.” Ele olhou para o laptop de Miori. Eles só haviam visto a conta de Nene Iwamizawa.

“Com o perfil desse nome, ela poderia rivalizar com Mai. A ponto de abafar as risadas dos seus ‘amigos’. Em vez de desaparecer, tudo o que ela precisaria fazer seria dizer a todos que é Touko Kirishima e subir de volta no topo.”

Isso parecia inconsistente.

“Então ela não é Touko Kirishima.”

“………Hã?”

Houve um longo intervalo antes que ele respondesse, incapaz de entender o que ela queria dizer.

“Você mesmo disse, Azusagawa. Não há motivo para Touko Kirishima desaparecer. Se essa garota desapareceu, isso significa que ela nunca foi Touko Kirishima.”

Uma perspectiva diferentente, mas ainda mais surpreendente — fazia sentido. Era lógico. Apenas um exercício racional…?

“Isso é tão absurdo assim?”

“Não…”

“Mas você está fazendo uma cara estranha.”

“Eu nasci assim.” Miori riu mais do que havia rido o dia todo.

“Seu amigo faz um ponto interessante.” No dia seguinte, sábado, 7 de janeiro.

Antes de seu turno na escola preparatória, Sakuta havia contado a Rio, durante o almoço, sobre sua conversa com Miori.

Eles estavam no segundo andar de um restaurante de sushi perto do portão sul da estação de Fujisawa, atrás da loja de departamentos, onde havia vários restaurantes. Os dois ocupavam uma mesa para quatro pessoas.

“Ela ainda está nos chamando de amigos em potencial”, disse ele, engolindo uma porção de aji frito com arroz.

“Isso soa irritante.”

“Ela está empatada com você, Futaba.”

“……”

Rio ignorou o comentário deliberadamente, dando uma mordida no kinmedai salgado. A proximidade com a água significava que os frutos do mar da região estavam sempre frescos.

“E o que você acha disso?”

“Acho que a teoria da sua amiga em potencial vale a pena ser considerada.”

“Uhum.”

Esse era o problema de Sakuta. Ele havia conhecido uma Papai Noel de minissaia que afirmava ser Touko Kirishima e, até o dia anterior, nunca tinha duvidado que ela realmente fosse.

Mas, de repente, surgiu uma teoria que virava todo esse pressuposto de cabeça para baixo. Um comentário casual da única outra pessoa que ele conhecia que podia realmente ver Touko.

“Mas a conversa que levou a essa ideia, ou seja, por que Touko Kirishima ficou invisível em primeiro lugar, é só especulação de vocês dois, certo?”

“Aquela coisa de ‘Nene Iwamizawa era a princesa do nosso campus’? Bom, sim.”

Eles apenas haviam lido muito sobre sua presença online. Pegaram as palavras “modelo” e “vencedora de concurso de beleza” e criaram um perfil simplificado a partir disso. Assumiram que ela havia tido sua posição roubada por Mai e se encontrava não mais especial, com seus colegas rindo e zombando dela. Assumiram que ela havia perdido sua autoestima e desaparecido, tornando-se uma garota invisível.

“Mas, já que vocês estão especulando, é melhor não se apegar muito a isso. Se o seu pressuposto estiver errado, suas conclusões também estarão.”

“Isso é bem justo.”

Ele deu uma mordida no camarão frito. A crosta fez um som crocante satisfatório. A carne estava suculenta.

“Estou mais preocupado com essa ideia que todo mundo tem na cabeça sobre Sakurajima. Na minha faculdade, estão falando como se fosse um fato confirmado.”

Rio frequentava uma faculdade nacional, especializada em ciências. Mas parecia que esse rumor tinha ganhado força tanto entre os estudantes de exatas quanto os de humanas.

“O mesmo na nossa.” Ele até ouviu algumas garotas do ensino médio discutindo sobre isso no trem:

“É tão legal que Mai Sakurajima seja Touko Kirishima.”

“Ela pode fazer tudo.”

“Ainda assim, Mai deve esclarecer isso em alguns dias.”

“Dia da Maioridade?”

“Mai é a pessoa mais famosa a completar 20 anos este ano.”

“Ah”, Rio disse, assentindo.

“Ela planeja refutar os rumores diante das câmeras, então?” Uma previsão precisa.

“Vão perguntar sobre Touko Kirishima, com certeza.”

“Naturalmente.”

“E ela também vai postar um comentário oficial em suas contas de redes sociais.”

Mai havia ligado na noite anterior do hotel perto do local onde estava gravando. Sua gerente, Ryouko, e os superiores da agência dela haviam ouvido os rumores e estavam preocupados. Mai tinha um bom respaldo.

“Então, foi sobre isso que o post dela de hoje de manhã falava.”

“Hum?” Sakuta piscou, e Rio silenciosamente pegou o celular e o mostrou a ele.

Era uma conta oficial de compartilhamento de fotos que o perfil de Mai Sakurajima mantinha junto com sua agência. A postagem era uma foto oficial dela tirada no set da série de TV que estava filmando, com uma breve menção de que teria um grande anúncio no dia nove.

“Muito a cara da Mai.”

Ela não deixava nenhuma pedra sem virar e sabia exatamente como espalhar as notícias de forma eficaz.

“O problema vem se isso não acabar com o rumor”, disse Rio, comendo o chawanmushi que veio com seu almoço.

Sakuta compartilhava essa preocupação. “Quando as pessoas acreditam em algo, é estranhamente difícil convencê-las de que nunca foi verdade.”

Quando percepções e opiniões divergiam, as pessoas eram relutantes em mudar de opinião ou eram absolutamente contra isso.

Mai e a equipe da sua agência estavam bem cientes disso e estavam agindo de acordo. Preparando-se minuciosamente.

“Qualquer um que viu o sonho que tive provavelmente acreditará nesse sonho, em vez da realidade.”

O sonho do festival de música. Onde Mai disse ao mundo que era Touko Kirishima. Sua voz cantando era muito convincente. As pessoas lembravam disso como se fosse real.

“Se ao menos a verdadeira se mostrasse.” Essa seria a melhor solução. Mas não era uma opção disponível.

“Ela não pode, se estiver invisível. Você vai ter que consertar isso primeiro.” Rio tinha razão.

“Estou fazendo o que posso nessa frente.”

Ele tinha um pseudo-encontro marcado com ela. Dado o que ele sabia sobre ela, se ele fizesse sua parte do acordo, ela provavelmente faria a dela.

“Mas, Futaba…”

“O que?” ela perguntou, colocando sua xícara de chá de volta na mesa.

“Se Nene Iwamizawa não for Touko Kirishima, o que eu faço então?”

Eles queriam que a verdadeira Touko negasse esses rumores estranhos, mas se ela fosse falsa, isso arruinaria os planos.

“Resolva isso quando chegar a hora. Ou apenas faça ela se tornar Touko Kirishima.” Um plano ousado, mesmo vindo de Rio.

“Esse é o tipo de esquema que você bolaria, Azusagawa”, ela acrescentou quando ele ficou perplexo.

“Sim, se isso limpasse o ar em torno de Mai, eu com certeza tentaria isso.”

Ele ainda não tinha certeza do que estava acontecendo com Nene Iwamizawa, mas também não a conhecia bem o suficiente para se envolver de outra forma.

Depois que Sakuta e Rio terminaram suas refeições deliciosas, pagaram a conta e saíram do restaurante. Eram duas da tarde.

Ambos tinham aulas para dar, então caminharam em direção à saída norte da estação.

“Eu sonhei que estava namorando o Kunimi”, Rio disse do nada.

“Hã?” Sakuta piscou para ela.

“Estávamos comendo juntos. Tenho quase certeza de que era um encontro.” Rio não olhou para ele. Ela parecia calma.

“Sério?” ele perguntou. Um aceno silencioso. Olhos fixos à frente.

“Mas isso não é possível”, ela acrescentou.

“Kunimi nunca concordaria com isso.”

Infelizmente, Sakuta concordava. Não que houvesse algo de errado com a própria Rio, mas porque esse era o jeito de Yuuma.

“Ele está totalmente apaixonado por aquela namorada ‘cachorro louco’ dele.”

Mesmo que Saki Kamisato e Yuuma terminassem e se separassem, a primavera seria muito cedo para Yuuma começar a ver outra pessoa.

Rio provavelmente também não concordaria com isso. Era um pouco tarde para isso.

Se passasse bastante tempo, talvez as coisas funcionassem, mas Sakuta não conseguia imaginar os dois juntos no próximo ano ou dois, pelo menos.

“Então eu não acho que esses sonhos sejam sobre o futuro.”

Sakuta não conseguiu captar nenhuma nuance no perfil de Rio. Superficialmente, parecia que ela não tinha sentimentos fortes sobre isso. Mas quando ela acordou do sonho, deve ter ficado abalada. Mas, no momento, ela parecia ser sua versão habitual. Pelo menos aos olhos dele.

“Eu acredito em você, Futaba.”

“……” Ela olhou para ele. Não esperava que ele aceitasse isso tão facilmente.

O mundo em geral acreditava que aqueles sonhos eram proféticos. O próprio Sakuta havia visto seu sonho se tornar realidade. Rio sabia disso, e por isso estava surpresa. Perguntando-se por que ele estava tão disposto a acreditar nela. Seus olhos claramente pediam uma explicação.

“Akagi disse a mesma coisa. Esses sonhos não mostram o futuro, mas um vislumbre de outro mundo possível.”

Ikumi havia dito isso ao telefone, no dia 25 de dezembro do ano anterior, logo após a viagem a Hakone. Ele tinha ficado bem surpreso quando ela lhe contou sua teoria, mas, ao mesmo tempo, sentiu que explicava muita coisa.

Acima de tudo, se ela estivesse certa, isso explicava por que ele tinha um celular. Por uma razão simples: quando Sakuta visitou aquele outro mundo… o outro Sakuta tinha um.

“Ela passou mais de seis meses em outro mundo possível, então ela deve saber.”

“Ainda assim, isso não muda muita coisa. Mesmo que os sonhos estejam realmente nos mostrando outro mundo, isso não significa que a mesma coisa não acontecerá neste.”

“Sim. Quer eles mostrem o futuro ou outro mundo, não saberemos o que vai acontecer até que aconteça.”

“Eles só nos dão dor de cabeça.” Deixavam-nos perdidos.

“De fato”, Rio disse, com um toque de tristeza na voz. Era óbvio que ela estava sentindo o peso disso.

Isso lhe dizia que o sonho definitivamente a abalou, mas ela havia aceitado isso à sua própria maneira.

“Aprendi uma coisa com essa confusão com Kasai”, ela murmurou.

“Mm?”

“Não ser capaz de corresponder é sufocante. Será que eu fiz Kunimi se sentir assim?”

Um leve sorriso brincava em seus lábios. Isso fez Sakuta lembrar-se daquele verão. O segundo ano do ensino médio deles. Os três haviam ido assistir aos fogos de artifício.

Assistindo àquelas explosões coloridas, Rio havia sorrido. Assim como estava agora. Dois anos e meio depois, essas eram memórias distantes. O tempo continuava fluindo.

9 de janeiro. Dia da Maioridade. O nome de Mai Sakurajima estava nos trending topics. Equipes de todas as emissoras de TV se reuniram em Fujisawa. Todas estavam lá para cobrir Mai Sakurajima em um quimono de mangas longas. Era uma oportunidade única para fotos.

O encontro dos jovens de vinte anos foi realizado perto do salão cívico e estava lotado de multidões de jornalistas, as notícias até cobriam a quantidade de atenção que ela estava atraindo.

Sakuta assistiu a tudo pela TV.

Mai estava diante de um mar de câmeras, fazendo um discurso, representando todos os que estavam completando vinte anos. Quando ela terminou, os aplausos foram estrondosos.

Uma tarefa cumprida, mas seu verdadeiro trabalho estava por vir.

Após a cerimônia, ela se dirigiu ao lobby do local, onde foi cercada pela imprensa.

As primeiras perguntas eram sobre como era ter vinte anos:

“Você se sente adulta?”

“Já tomou sua primeira bebida?”

Perguntas padrão.

Mai respondeu a todas educadamente, com um sorriso.

A pergunta que todos queriam fazer apareceu depois que cada equipe fez sua primeira pergunta, quando voltou ao orador inicial.

Fumika Nanjou, uma assistente de apresentador de um programa vespertino de variedades.

“As redes sociais estão fervilhando com afirmações de que você é a cantora online Touko Kirishima. Mai, qual é a verdade por trás desses rumores?”

Mai encarou a floresta de microfones.

“Isso seria interessante, certo? Infelizmente, não sou Touko Kirishima. Desculpem a decepção.”

Ela sorriu, falando suavemente, mas com firmeza.

“Você está ciente da hashtag dos sonhos?” alguém perguntou.

“Sim, está em alta.”

“Há muitas postagens com essa tag dizendo que você vai afirmar ser Touko Kirishima.”

“Devo pedir à minha gerente para mostrar minha agenda? Receio que eu simplesmente não tenha tempo para uma carreira musical.”

Isso foi claramente uma piada, e todos riram.

Então, os olhos se voltaram para Ryouko.

“Não posso mostrar sem aprovação!” ela disse, parecendo aflita. Ela cruzou os braços, formando um X. Isso gerou mais risadas.

E com esse clima descontraído, a sessão de perguntas e respostas continuou, independentemente da identidade dela.

“O que você acha de Touko Kirishima?”

“Você acredita que os sonhos podem se tornar realidade?”

Muitas das perguntas estavam tangencialmente relacionadas aos rumores.

Depois de um tempo, Ryouko disse: “Tempo para mais uma pergunta.”

Ela parecia certa de que haviam conseguido esclarecer a situação.

A mão de Fumika Nanjou se ergueu novamente, e Ryouko a apontou.

“Como estão as coisas com seu namorado?”

Um novo ângulo. Mai sorriu.

“Vou deixar isso à imaginação de vocês”, disse ela, colocando a mão direita sobre o peito. Seu dedo anelar brilhava, com o anel que Sakuta havia comprado para ela.

Isso provocou uma enxurrada de cliques de câmeras.

Havia tantos flashes que ele não conseguia nem distinguir Mai.

Mai baixou a cabeça em um profundo agradecimento à imprensa presente.

“Obrigada a todos por virem hoje.”

Com isso, Ryouko a levou para fora.

Toda a conferência foi exibida no noticiário do meio-dia, nos programas vespertinos de variedades e novamente nas notícias da noite e da madrugada, repetidamente, em todos os canais, de todos os ângulos — o quimono de Mai.

As contas oficiais de Mai Sakurajima nas redes sociais também refutaram os rumores.

Sua estratégia de duas frentes produziu os resultados desejados, pensou Sakuta.

A partir daquele dia, a mídia parou de cobrir os rumores sobre ela.

Mas nas contas pessoais das redes sociais?

Era tarde demais para negar.

As agências dela estão apagando incêndios.

Ela deveria simplesmente admitir. Isso é uma farsa.

Postagens como essas abundavam.

Talvez a única maneira de acabar com as histórias de uma vez por todas fosse a verdadeira aparecer.

Uma semana após o Dia da Maioridade, a faculdade voltou ao normal. Ainda havia olhares para Sakuta às vezes, mas eram os olhares habituais de “Oh, esse é o namorado da Mai Sakurajima”.

Arguivelmente, ele tinha cumprido sua promessa a Touko.

Segunda-feira, 16 de janeiro.

Faltavam apenas alguns dias para o término do semestre.

A última semana de janeiro era reservada para aulas de reposição, então aquela era a última semana de aulas. Ele só precisava comparecer até sexta-feira; depois disso, era hora de umas longas férias de primavera.

Quando a faculdade começasse novamente dois meses depois, em abril, Sakuta seria um segundo-anista.

Muitos alunos já estavam em clima de férias, e a vibe era muito parecida com o final do ano letivo de fato. Como equipes esportivas jogando uma partida sem importância. Ninguém conseguia realmente se concentrar.

Sakuta não era diferente; ele caminhou pelos portões da manhã sem pressa. A maioria das provas finais já havia terminado, e ele havia entregue todos os relatórios, então não havia necessidade de pânico.

Bocejando, ele andava apenas rápido o suficiente para chegar à aula a tempo.

Ele sentiu alguém ao lado dele.

“Bom dia.”

Ele olhou para o lado e ficou surpreso ao encontrar Touko Kirishima ali.

Ela usava botas, saia e um suéter de gola alta com um casaco por cima. Traje típico de uma universitária, misturando-se à multidão. Se ela não tivesse falado com ele, ele provavelmente nem teria notado sua presença.

“Bom dia”, disse ele, achando que deveria começar por aí. “O que te traz ao campus a essa hora?”

“Tenho aulas.”

Ela fez isso soar normal.

“Mesmo sendo invisível?”

“Estou pagando por elas. Parece um desperdício não frequentar.”

Um argumento bastante sólido.

Isso o fez se perguntar.

“Espera, você tem vindo às aulas todos os dias?”

“Essa é uma pergunta estúpida”, Touko riu. Seu tom sarcástico era a resposta que ele precisava.

Sakuta não havia notado porque ela estava em um ano e curso diferentes. Suas aulas nunca coincidiriam. E ela estava vestida como estava hoje. Sem a roupa de Papai Noel de minissaia, Touko não se destacava no meio da multidão de universitários ao redor dela.

“Deixe o dia trinta de janeiro livre,” disse ela, interrompendo os pensamentos dele. “Vou deixar você ter esse encontro.”

“Estou ansioso por isso.”

“Porco safado de dois-timing.”

Zombando de sua resposta, ela sumiu em direção ao prédio de pesquisas. Sua silhueta se misturava facilmente à multidão. Se não fosse pelo fato de que ninguém mais podia vê-la, ela seria uma garota universitária perfeitamente normal.

Mais tarde naquele dia, após a aula do quarto período terminar, Sakuta foi até a plataforma da estação de Kanazawa-hakkei, onde encontrou uma universitária loira sentada em um banco. Ela estava esperando o trem, ouvindo música em seus fones de ouvido sem fio.

Ele se aproximou e sentou ao lado dela.

“E aí, Toyohama.”

“Estou claramente ouvindo algo,” resmungou Nodoka, mas ela tirou os fones de ouvido e apertou o botão de pausa no player de música do celular. “E então? O que é?”

“O que você acharia se a idol mais famosa do país começasse a frequentar nossa faculdade amanhã?”

“Não saberia até acontecer.”

Uma resposta bem típica da Nodoka.

“Justo.”

“Não ficaria exatamente empolgada, no entanto.”

Nodoka colocou seus fones de ouvido de volta no estojo. Ao examinar mais de perto, eles eram do mesmo tipo que Uzuki havia feito um comercial.

“Mesmo que não me incomode, todo mundo vai nos agrupar — somos ambas idols — e começar a comparar e contrastar.”

“Te olhando com desdém por dentro, lançando olhares de pena?”

“Você está tentando arrumar confusão?”

“Não se preocupe, você tem seus pontos fortes.”

“Enfia esse hipotético onde o sol não bate.”

Nodoka já havia atingido seu ponto de ebulição, mas não ficou lá por muito tempo. Um momento depois, ela já havia se acalmado o suficiente para suspirar dramaticamente.

“Isso é sobre minha irmã, né?” ela perguntou, mudando o foco. Ela cruzou as pernas e apoiou um cotovelo nelas, descansando o queixo na palma da mão.

“Você está à frente de mim, Toyohama.”

“Literalmente tudo o que você faz é sobre ela, Sakuta.”

Seus longos cílios piscavam enquanto ela olhava para o outro lado da estação.

“Bom, sim,” ele disse.

“Então, o quê? Você quer fazer dela a vilã?”

Nodoka lançou um olhar fulminante para ele.

“Você acha que eu faria isso?”

“Foi o que pareceu.”

Ela parecia irritada, e seus olhos semicerrados confirmavam isso.

“Mai é, você sabe… especial? Não é a forma mais inteligente de dizer, mas todos a conhecem; todos a adoram; só o fato de ela estar por perto já muda as coisas.”

“……”

Nodoka parecia bastante surpresa. Ela piscou para ele.

“O que foi esse olhar?”

“Eu só achei que você não percebia o quão especial ela é. Você sempre age de forma tão normal perto dela, achei que fosse alheio.”

“Ela é especial para mim também.”

“Poupe-me.”

Cortado. Nodoka virou-se novamente para os trilhos. Havia estudantes do outro lado, esperando um trem para levá-los na outra direção.

“Mas eu entendo o que você está tentando dizer, Sakuta.”

“Você entende?”

“Quando começamos aqui, cruzei com muitas garotas desse tipo.”

“Desse tipo?”

“Elas eram as garotas mais populares no colégio. Mas na faculdade, minha irmã estava aqui, e elas perderam de vista sua identidade, seu status, seu valor próprio, tudo.”

Ele não havia especificado nada disso, mas Nodoka realmente sabia do que ele estava falando. Com precisão cirúrgica.

“Por que você parece surpreso?”

“Bem, é surpreendente.”

“Eu sou uma idol, né? Nossa vida gira em torno de status e identidade.”

Nodoka lhe deu um chute. Não muito forte.

“Idols não deveriam chutar seus fãs.”

“Você nunca vem aos nossos shows.”

“Vou estar lá quando vocês chegarem ao Budokan.”

“Não vou te colocar na lista. Compre seu próprio ingresso.”

“Beleza, vou pedir pra Zukki então.”

Ele soltou isso, mas causou uma irritação genuína em Nodoka. Ela fez questão de se levantar só para chutá-lo mais forte.

“Ah!”

O golpe na panturrilha fez um barulho audível.

“Onde você aprendeu a chutar assim?”

“Estou fazendo kickboxing para melhorar minha resistência.”

Nodoka fez uma pose de luta, exibindo-se. Parecia muito bom. Alarmente. Talvez ele devesse considerá-la menos frequentemente para provocá-la. Ele não queria ser o saco de pancadas dela.

“As garotas que você descreveu como ‘desse tipo’ — o que elas estão fazendo agora?” ele perguntou, esfregando a perna machucada.

“Já faz um ano. Elas se acalmaram.”

Ela voltou a se sentar no banco, parecendo desinteressada.

“Justo.”

“Ou elas superaram, desistiram, ou encontraram outra forma de medir seu valor.”

“E você?”

“O que tem eu?”

“Você é a presidente do clube das vítimas da Mai.”

“Não vá fundando clubes estranhos com o meu nome,” respondeu Nodoka, socando o ombro de Sakuta. Talvez fosse melhor fazer com que ela parasse o kickboxing antes que acabasse sendo presa.

“Mas ter a Mai na sua vida definitivamente te mudou, Toyohama.”

No outono do segundo ano do ensino médio, sua meia-irmã, Mai, havia desencadeado a síndrome da adolescência de Nodoka. Ela sempre esteve mais próxima de Mai do que qualquer outra pessoa e, por isso, foi profundamente influenciada.

“Eu…,” começou Nodoka, mas suas palavras pararam. Quando seus lábios voltaram a se mexer, era como se estivesse falando para si mesma.

“Ela está tão longe,” sussurrou, olhando para os trilhos. “Não importa o quanto eu me esforce, nunca vou alcançá-la. Eu ainda não entendo como o mundo parece para ela. Seus programas de TV e filmes são esperados para ser sucessos, e se fracassarem, ela leva a culpa. Mas… você já a ouviu reclamar? Eu nem consigo imaginar como isso deve ser.”

Essa sensação de distância era palpável.

“Então, Sakuta…,” Nodoka disse, virando-se para ele.

Ela olhou diretamente nos olhos dele, de forma muito intensa.

“Mm?”

“É bom que você fique do lado da minha irmã.”

Nada do que ela havia dito respondia diretamente à pergunta dele. Mas essa última frase era o que mais importava.

O trem chegou. Um expresso com destino ao Aeroporto de Haneda. Ambos pegariam esse trem até a Estação de Yokohama.

“Eu vou,” disse Sakuta, levantando-se. E, já de pé, ele repetiu essas palavras em sua mente.

Segunda-feira, 30 de janeiro.

Numa manhã gélida, Sakuta se preparou para sair e foi até a estação Kanazawa-hakkei, mesmo sem ter aulas. Eram pouco mais de dez horas, o horário em que ele chegaria para uma aula no segundo período.

Uma semana antes, a estação estava cheia de estudantes, mas agora estava deserta, já em ritmo de férias de primavera. Estava tão quieto que ele conseguia ouvir os próprios passos.

Isso facilitava sua movimentação na estação — ele subiu as escadas sem ninguém em seu caminho e saiu pelos portões sem ter que esperar na fila.

O teto da estação dava lugar a um céu azul claro. Descendo as escadas para o oeste, ficava a caminhada de dois ou três minutos até o campus. Mas hoje Sakuta desceu pela outra escada.

A Linha Seaside corria na ponte acima. Ele passou por baixo dela, esperou duas vezes para atravessar a Rota 16, e então virou em direção ao mar.

Seguiu a estrada até avistar o letreiro azul de uma loja de conveniência, momento em que virou à direita em uma rua lateral.

Diante dele estava o caminho de peregrinos que atravessava as águas. Um torii aparecia para saudá-lo. O asfalto se transformava em cascalho.

A cada passo, o barulho da estrada principal ficava mais distante, e o cheiro do oceano se tornava mais forte.

O caminho em si tinha cerca de quatro ou cinco metros de largura. Havia árvores perenes dos dois lados, marcando a trilha.

Ele seguia em direção ao mar, até cruzar uma pequena ponte com corrimãos vermelhos. A ponte era tão curta que bastavam alguns passos para atravessá-la.

Do outro lado, Sakuta se encontrava em uma ilha igualmente pequena. Talvez dez passos de um lado ao outro.

Nada além do Santuário Biwajima.

Isso normalmente chamaria atenção em um dia comum, mas o foco de Sakuta estava em outro lugar.

Na costa da ilha.Uma mulher vestindo um traje vermelho impressionante. Ela não tinha usado aquele traje de minissaia de Natal recentemente. A própria garota que o havia convocado ali.

De pé, olhando para o mar.Com os passos fazendo barulho no cascalho, Sakuta se aproximou.

“Este santuário foi construído por Hojo Masako,” disse Touko. “O período Kamakura foi há oitocentos anos. Incrível que ainda esteja de pé, quando você pensa nisso.”

“Suas músicas também durarão muito tempo, Kirishima.”

Ele se colocou ao lado dela, admirando a vista. A Linha Seaside preenchia sua visão, correndo ao longo do horizonte. Uma vista que ninguém no período Kamakura poderia imaginar.

“A música realmente dura tanto assim?” perguntou ela, claramente cética.

“Algumas sim. Música clássica tem, o quê, três ou quatrocentos anos?”

Não parecia que as pessoas parariam de ouvir aquilo em uma ou duas décadas. Uma ou duas décadas depois, provavelmente estariam pensando a mesma coisa. Nesse caso, oitocentos anos eram totalmente viáveis. Talvez até um milênio inteiro.

“Você me chamou aqui para falar sobre isso?”

“Claro que não. Vamos pegar um carro nas proximidades.”

Finalmente, Touko olhou para ele. Mas apenas por um segundo.

“Venha,” disse ela. “Vou deixar você ser o ajudante do Papai Noel.”

Com isso, ela começou a subir o caminho de peregrinos.

“Se você tivesse me avisado, eu teria trazido uma fantasia de rena,” disse ele, seguindo-a.

Dez minutos depois, Sakuta estava em um carro.

Especificamente, ele estava no banco do passageiro de um carro compacto que Touko dirigia, tendo alugado de um serviço de compartilhamento de carros.

“E eu pensando que o Papai Noel dirigia um trenó puxado por renas.”

Eles estavam indo ao norte pela Rota 16.

“Você tem carteira de motorista?” perguntou ela.

“Vou começar na autoescola depois de amanhã,” disse ele, com os olhos no tráfego vindo na direção oposta.

“O que você está olhando?”

“Imaginando como isso parece de fora.”

“Como se o namorado de Mai Sakurajima estivesse tendo um encontro secreto com outra mulher,” Touko disse com um sorriso, claramente se divertindo.

“Possivelmente. Se eles conseguirem realmente te ver.”

Até agora, apenas Sakuta e Miori podiam perceber Touko.

“Um carro sem ninguém no banco do motorista deve ser bem assustador.”

Ele certamente faria uma segunda olhada.

Como em um filme de terror.

“É assim que nascem as lendas urbanas do mundo,” disse Touko, como se isso não a afetasse.

Um carro sem motorista na Rota 16. Um carro fantasma, levando um passageiro. Quando chegasse em casa, ele teria que verificar online para ver se alguém estava comentando sobre isso.

“Ah, isso está te incomodando?”

“De que forma?”

“Ficar sozinho comigo. Você está saindo com alguém?”

“Eu pareço solteira?”

“Não exatamente.”

Sakuta seguiu seu instinto ao fazer essa pergunta. O jeito que Touko se comportava ao seu redor sugeria que ela tinha um parceiro. Ela não parecia desconfortável perto de Sakuta da maneira que a maioria das garotas da sua idade ficava em relação aos homens. Sua postura transmitia uma sensação de experiência. Isso se aplicava também a eles dois no carro, sem aquele tenso constrangimento que costuma surgir em situações assim.

“Temo que você esteja um pouco enganado. Eu tive um até a chegada da primavera.”

“Vocês terminaram?”

“Você deve ter notado, mas ninguém pode me ver. Inclusive, meu namorado.”

Ele olhou para o perfil dela, mas não viu sinais de emoção. A Minissaia Santa simplesmente estava dirigindo.

“Há quanto tempo vocês estavam juntos?”

“Desde o verão do segundo ano do ensino médio.”

“Então, desde que você estava de volta em Hokkaido?” Ele sabia que ela tinha se mudado para cá no início da universidade.

“Certo.”

“Então, antes de Nene Iwamizawa começar a se chamar Touko Kirishima.”

“……”

Essa pergunta Touko não respondeu. Sua expressão permanecia impassível.

Provavelmente era melhor para ele tentar outra abordagem.

“Se ele é de Hokkaido, deve ter se tornado um relacionamento à distância depois que vocês se formaram, certo?”

“Ambos fizemos as provas aqui, mas ele não passou.” Touko parou atrás do carro à sua frente, no sinal vermelho.

“Isso toca bem perto de casa.”

Essa poderia muito bem ter sido a sorte de Sakuta.

“Dois anos seguidos.”

Ainda pior.

“Onde ele está agora?” Pelo menos, eles ainda estavam juntos na primavera passada. Touko mesmo havia dito isso.

“Ele passou na terceira tentativa e se matriculou aqui na primavera.” O sinal ficou verde, e ela seguiu o carro à frente.

“Ele finalmente alcançou você e então não pôde mais te perceber?”

“Exatamente.” A voz dela estava calma. Sua atenção estava na estrada.

“Se eu fosse ele, estaria flertando como louco. Compensando o tempo perdido.”

“……”

Touko não disse nada. Sua mente parecia estar presa ao que aconteceu.

“Você estava feliz quando ele te disse que tinha passado?”

“Menos feliz do que aliviada. Eu sou a que queria vir para cá… e ele seguiu minha liderança.”

“Qual é o curso dele?”

“Ciências estatísticas.”

Igual ao de Sakuta.

“Eu o conheço?”

Ele examinou o perfil dela. Não conhecia todos do seu curso, mas sabia pelo menos de um garoto de Hokkaido.

“……”

Ela não respondeu. Mas também não negou. E isso era tudo que ele precisava saber.

“Fukuyama, hein?”

Ele pretendia isso como uma simples confirmação, mas sua voz quebrou. Era uma revelação inesperada, e ele estava um pouco agitado com isso. Ficou surpreso ao perceber como estava reagindo dessa forma.

“……”

Touko não apontou isso. Ou respondeu de um jeito ou de outro. Ela apenas continuou dirigindo.

“Fukuyama sabe que Touko Kirishima é Nene Iwamizawa?”

“Ele não sabe.”

“Por que você não contou para ele?”

“Sua namorada compartilha tudo sobre o trabalho dela?”

“Bem, não, não compartilha tudo.”

Mas era possível ficar juntos tanto tempo sem ele saber de nada? Será que Nene conseguiu evitar deixar escapar algo?

Como Nene Iwamizawa, ela se vangloriava online sobre seu trabalho de modelo, sobre o concurso de beleza. Reunindo curtidas e seguidores.

Uma garota assim conseguiria manter Touko Kirishima em segredo? Por que ela precisaria esconder isso do próprio namorado? Isso parecia uma grande contradição.

“Fukuyama sabe sobre Touko Kirishima.”

“Parece que sim.”

“Então por que ele não pode te ver?”

“Porque ele não sabe que eu sou Touko Kirishima.”

Se ele tivesse conectado aquele nome a Nene Iwamizawa, Takumi deveria ter conseguido perceber Nene. Assim como ele podia perceber a cantora da internet Touko Kirishima.

Sakuta entendeu essa lógica. Mas era só isso?

“Ou é porque na mente dele, você é Nene Iwamizawa?”

“E daí?”

Ele deveria dizer isso? Honestamente, Sakuta não tinha certeza. Mas sentia que não dizer nada os levaria a lugar nenhum. Precisava ter certeza.

“Você realmente é Touko Kirishima?”

Ele manteve simples.

E a resposta veio rápida.

“Eu sou Touko Kirishima.”

Como se fosse uma afirmação de fato.

Sem hesitação.

Sem necessidade de hesitação.

Porque era verdade.

A atitude e o tom dela confirmaram isso.

Ela não estava mentindo.

E para provar suas palavras, Touko começou a cantar.

A música que ela havia transmitido ao vivo na véspera de Natal.

Aquela que ele tinha chegado tarde demais para ver.

Uma voz linda, ecoando através do portão, provando além de qualquer dúvida que ela era Touko Kirishima.

Naquele momento, Sakuta pensou assim. Sentiu isso. E ainda assim—não dissipou o ar tenso.

Ainda havia uma névoa sobre as coisas. Uma verdade invisível, escondida naquela neblina.

Ele se sentiu ainda mais convencido disso.

O sistema de navegação do carro disse: “Chegando ao seu destino.”

O mapa na tela mostrava Motomachi, em Yokohama.

“Santa compra presentes em Motomachi?”

A Minissaia Santa caminhava à frente de Sakuta, os saltos de suas botas fazendo barulho. Eles estavam em uma área comercial em Motomachi, Yokohama. Não havia nenhum fliperama acima, apenas céus abertos. Quando o Porto de Yokohama foi inaugurado para navios internacionais, as áreas vizinhas—Yamashita e Yamate—foram convertidas em residências estrangeiras, trazendo negócios para Motomachi. Por essa razão, muitos dos prédios aqui ainda mostravam vestígios da arquitetura ocidental da época.

A área de compras mantinha esse clima antigo, destacando a mistura de culturas que ocorreu naquela época. Aqui, você encontrava lojas antigas que estavam em funcionamento desde a fundação de Motomachi, ao lado de lojas que acabaram de abrir. O novo se misturando com o velho. De certa forma, essa cidade sempre foi um caldeirão cultural.

Esse lugar estaria lotado em um fim de semana, mas ao meio-dia de um dia de semana, as multidões eram escassas. A minissaia Santa caminhando era uma visão marcante e destoante. Mas, claro, ninguém prestava atenção em Touko. Ninguém percebeu que ela estava lá. A própria garota já estava além disso. Se encontrasse uma loja promissora, entrava com tudo.

Sua primeira escolha vendia roupas casuais e produtos para o lar. Depois, seguiu para um lugar que vendia roupas esportivas com marca de jacaré. Em seguida, duas boutiques de moda americana, seguidas de três lojas de moda masculina. Ela olhou para uma coisa em cada lugar.

Cachecóis masculinos. Às vezes, ela transformava Sakuta em seu manequim, experimentando um, conferindo a cor com suas roupas. Um sorriso brincava em seus lábios, como se ela estivesse um pouco empolgada. Como se estivesse escolhendo um presente para seu namorado.

Depois de uma hora e meia assim, ela voltou para uma das boutiques americanas e comprou um cachecol laranja brilhante.

“Compre isso para mim,” ela disse, entregando-o a ele.

“Isso é o fim das demandas do Papai Noel?”

“Eu tenho mais um lugar para visitar, então apresse-se.”

Sakuta pegou o cachecol dela.

“Você quer que embrulhem para presente?”

“Por favor,” disse Touko, já de costas para ele.

Com o cachecol comprado, Sakuta saiu para encontrá-la sentada em um banco do outro lado da rua, com as pernas cruzadas. O ar frio e a vibração de Motomachi combinavam estranhamente bem com a roupa de Papai Noel.

“Aqui,” disse ele, entregando o cachecol a Touko.

“Obrigada,” ela disse, levantando-se enquanto o pegava. “Próximo.”

Com isso, ela se afastou, indo uma quadra longe da rua principal. Passou por um restaurante francês famoso por seu fondant au chocolat. Mais adiante havia uma padaria tão antiga que tinha sido a primeira da área a começar a vender pão por unidade. Virar à esquerda ali levaria de volta à rua principal, mas Touko foi à direita, em direção às colinas de Yamate.

Subiram uma escadaria suave, ao longo do cemitério estrangeiro, subindo continuamente. Passaram pelo Observatório Meteorológico Local de Yokohama e além. Havia muitos prédios de estilo ocidental nessa área.

“Até onde vamos?”

“Quase lá.”

“Você diz isso, mas já estamos caminhando há bons dez minutos.”

“Somente sete ou oito.”

“Isso é basicamente dez.”

“Olhe! Chegamos.”

Ela se virou, direcionando sua atenção para a mansão branca ao lado deles. O exterior estava decorado como uma vitrine, com as decorações e a vibração gritando Natal. Havia um grande cachorro branco no jardim ao lado, mas nenhuma sinalização de renas.

“Parece a casa onde o Papai Noel mora.”

Era exatamente esse tipo de loja. Havia até uma placa pendurada na entrada mostrando a contagem regressiva para o Dia de Natal. Era apenas janeiro, mas claramente eles não podiam esperar.

“Você pode estar meio certo,” disse Touko, abrindo a porta e entrando. Parecia uma loja—e parecia mesmo uma. Sakuta a seguiu, sem entender por que estavam ali.

Sua primeira impressão—bem, provavelmente todos pensavam a mesma coisa. Era como entrar em um mundo de inverno.

Bonecos do Papai Noel, renas de pelúcia, globo de neve com árvores de Natal dentro. Bonecos de neve vestindo roupas de Papai Noel. Cartões de Natal por todas as paredes. À esquerda, à direita, no chão e no teto—tudo coberto de Natal.

Nesse lugar, a roupa de minissaia de Touko parecia trajes normais. As roupas de Sakuta pareciam erradas.

“Estamos procurando uma rena de lata. Tamanho de palma.”

Isso não era bem como encontrar uma agulha em um palheiro, mas encontrar uma rena em uma floresta de Natal ainda era uma tarefa complicada.

“É aqui?” ele perguntou, espantado.

Touko o ignorou, pesquisando diligentemente por conta própria.

“Rena… rena… rena de lata…,” murmurou Sakuta, vasculhando a vasta gama de produtos de Natal.

“Procurando algo em particular?” Um membro da equipe emergiu da parte de trás.

“Você tem alguma rena de lata?”

“Ah, acho que sei o que você quer dizer.” Isso foi mais fácil do que ele pensava. O homem acenou para Sakuta entrar mais.

“Muitas pessoas vieram aqui para isso ultimamente.”

Ele retirou uma rena da prateleira e a colocou na palma de Sakuta.

“Estão na moda?” Sakuta perguntou.

“Você me diz,” disse o homem, dando de ombros.

Houve um silêncio constrangedor. Sakuta mostrou a rena para Touko, e ela acenou com a cabeça.

“Eu vou levar,” ele disse.

“O caixa é por aqui.”

Ele deixou Touko ali e seguiu o homem. Pagou pela rena e pediu para embrulharem. Isso seria mais um dos presentes do Papai Noel?

“Volte sempre!” disse o homem, vendo-o sair da loja com um sorriso. Que lugar acolhedor e convidativo.

“Aqui está sua rena,” ele disse, estendendo a sacola. Touko a pegou, mas lhe ofereceu a sacola com o cachecol dentro.

“Isso é para mim?”

“Dê isso a Takumi.”

“Você não deveria estar lá comigo?”

“……”

Ela parou em seu caminho.

“É o aniversário do Fukuyama, certo?”

“……”

“É por isso que você escolheu essa data?”

“Não faz sentido eu ir. O Takumi não pode me ver.”

“Talvez ele veja hoje.”

“Tentei várias vezes.”

“Hoje pode ser diferente.”

“Não é da sua conta,” ela respondeu, irritada.

“É sim. Você fez ser minha.”

“Você pediu isso.”

O olhar penetrante de Touko o afastava. Ele não deixou que isso acontecesse.

“Eu quero que você pare com essa coisa de ser invisível e diga ao mundo que você é Touko Kirishima,” disse ele, ficando um pouco agitado também.

“É por causa da sua namorada?”

“Você sabe que ainda há pessoas lá fora que acreditam que a Mai é Touko Kirishima.”

“Então por que eu teria que fazer algo por você e sua namorada?”

“Porque ser Touko Kirishima é o que você mais quer.”

“……”

“Nossos objetivos estão alinhados.”

Touko cerrou os lábios. Nenhuma resposta, novamente. Isso mostrava que ela estava hesitando. Provava que ela ainda não havia desistido.

“Me empresta seu celular. Você tem o número do Fukuyama, certo?”

“……”

“Você comprou um presente porque ainda tem esperança.”

“……”

“O cachecol que ele está usando agora é um que você deu a ele, certo?”

O novo era de uma cor semelhante.

“O primeiro presente de aniversário que eu dei a ele depois que começamos a namorar. Está todo desgastado. Ele deveria apenas substituí-lo.”

“É um presente da namorada dele, então é importante para ele.”

“Ele nem pode me ver.”

“Guarde suas queixas para o próprio homem.”

Sakuta estendeu a mão, esperando pelo telefone dela.

“……”

Os olhos de Touko estavam em sua palma. Hesitante. Parte dela queria ter esperança, mas isso se equilibrava contra os medos de ter essas esperanças despedaçadas novamente. Ela hesitou assim por uns trinta segundos sólidos.

“…Tudo bem,” ela disse.

Ele mal conseguia ouvi-la.

Mas ela deixou o celular na mão dele.

Sakuta abriu a lista de contatos e discou o número de Takumi.

Ele segurou o telefone no ouvido, ouvindo o toque.

A primeira chamada não foi atendida.

“……”

Takumi ainda não atendeu na segunda.

“……”

Os olhos de Touko estavam nele, expectantes, tensos. Ele finalmente teve um resultado diferente em sua terceira tentativa. Um estalido na linha e, um momento depois, “Alô?”

Takumi parecia cético. Ele não podia perceber Nene, então não saberia que este era o número dela. Ele provavelmente não fazia ideia de quem estava ligando.

“Ah, Fukuyama? Sou eu, Azusagawa.”

“Huh? Hã? Por que?!”

Por que ele estava ligando de um celular? Por que ele sabia o número do Takumi? Ele podia imaginar ambas as perguntas girando na mente do homem.

Mas se ele tentasse explicar isso, o sol se poria antes de chegarem ao ponto.

“Não é importante.”

“É, porém?!”

“Fukuyama, você está por aí? Estou ouvindo barulho de multidão.”

“Estou na Estação Kamata. Linha Keikyu.”

O PA anunciou a chegada de um trem com destino a Sengakuji.

“Por que Kamata?”

“Porque vou transferir para um trem em direção a Haneda. Estou indo para o aeroporto.”

“De volta para Hokkaido?”

“Sim. Tenho algumas coisas para resolver.”

Ele claramente não queria falar sobre isso.

“Então o que você quer, Azusagawa?” ele perguntou, antes que Sakuta pudesse insistir.

“Você tem tempo livre?”

“Estou adiantado, então tenho uma hora até meu voo.”

“Então espere no aeroporto. Tenho algo para você.”

“Hã? O que—? Você está me assustando aqui, cara!”

“Fukuyama, você disse que é seu aniversário, certo?”

“É.”

Isso parecia deixar Takumi ainda mais nervoso. Sakuta entendia isso. Se suas posições tivessem se invertido, provavelmente ele se sentiria da mesma forma.

“Na verdade, eu sou bem exigente quanto a essas coisas, então eu comprei um presente para você.”

“Okay, tudo bem. Vou esperar na sala de embarque do aeroporto. Terminal 2.”

“Estarei lá. Até mais.”

Não havia tempo a perder, então ele desligou.

“Aeroporto de Haneda,” disse ele, e Touko deu um leve aceno.

O carro entrou na Rota Bayshore pelo pedágio de Shinyamashita.

“……”

“……”

Nem Sakuta nem Touko disseram uma palavra a princípio. A tensão no carro era tão espessa que se poderia cortá-la.

Honestamente, Sakuta achava que ir ver Takumi era um grande risco. Ele não tinha como saber como isso iria terminar. Se o cachecol de aniversário fornecesse o ímpeto para que Takumi percebesse Nana novamente, ótimo. Mas o oposto era igualmente provável, e isso poderia terminar com ela sem ser vista.

O primeiro resultado, naturalmente, não apresentava problemas. Mas e se o segundo acontecesse? A única solução possível que ele finalmente havia encontrado poderia muito bem ir pelos ares. Trair as esperanças de Sakuta e Nene. Ele não conseguia imaginar o que isso faria a ela. Talvez nada… talvez tornasse as coisas muito piores. Era arriscado.

Mas ele decidiu apostar em Takumi mesmo assim. Sakuta não tinha como salvar Nene por conta própria. Isso não era como quando ele declarou seu amor por Mai diante de toda a escola. Para Nene Iwamizawa, Sakuta era nada mais que um espectador. Ele não fazia parte da vida dela.

Se houvesse alguém que realmente pudesse alcançá-la, esse alguém era Takumi. Sakuta tinha que apostar nele.

O carro estava correndo suavemente por uma área recuperada, ao longo da Rota Bayshore.

“Me conta sobre o Fukuyama.”

“Sobre o que?”

“Quem pediu quem em namoro?” Sakuta perguntou, seus olhos no carro à frente.

“Takumi nunca teve coragem, então eu o empurrei para isso.”

“Como?”

“Eu mencionei que um garoto do terceiro ano tinha me chamado para sair. Isso acendeu uma chama nele.”

Pelo canto do olho, ele viu que não havia sorriso no rosto dela. Sua voz estava plana.

“Eu posso vê-lo suando com isso.”

“Demorou um tempo para ele agir.”

“Isso mostra o quanto ele realmente se importava.”

“É assim que funciona?”

Touko olhou para ele.

“Quero dizer, eu diria algo imediatamente.”

Do lado esquerdo, ele viu um grande edifício — a siderúrgica.

“Você até diz a ela o quanto a adora no campus.”

“Eu geralmente só fico com amor.”

“Você é muito estranho.”

Isso ele deixou passar.

Ele fez outra pergunta em vez disso.

“Você e ele estudaram na mesma escola?”

“Sim, também na mesma escola secundária.”

“Você estava ciente dele naquela época?”

“Eu sabia que ele gostava de mim.”

“O que te fez gostar dele?”

“Você faz muitas perguntas.”

Claramente, ela queria uma pausa.

Mas Sakuta continuou pressionando.

“Eu gosto de como você não precisa se preocupar com o que diz ao redor dele, e ele não se preocupa com o que diz a você.”

“Por exemplo?”

“Quando a faculdade começou, Fukuyama foi o primeiro a perguntar se era verdade sobre mim e a Mai.”

A notícia se espalhou quase imediatamente de que ele estava namorando Mai Sakurajima, e muitas pessoas estavam curiosas. Mas ninguém se atrevia a se aproximar e perguntar. Eles estavam deixando os cães deitados descansarem.

Takumi ignorou essa compreensão tácita e lançou a pergunta.

“Você realmente está namorando a Mai Sakurajima?”

Aquele momento havia mudado para sempre a posição de Sakuta no campus. Seu relacionamento com Mai passou de rumor para fato. De suposição para realidade.

Isso foi uma mudança maior do que se poderia imaginar.

“Para um cara que não consegue coragem para pedir uma garota em namoro, ele sempre foi bom nisso.”

“Como assim?”

“Na escola secundária, um garoto se mudou de Tóquio para a nossa área. Um estudante transferido. Ele tinha evitado a escola por um tempo, e rumores sobre isso o precederam — todo mundo acabou esperando que alguém falasse com ele primeiro.”

As mãos de Touko estavam no volante, e seu perfil sugeria que ela estava fazendo uma viagem pela memória.

“E Takumi foi o primeiro a falar com ele, como se não tivesse notado nada disso.”

“Isso é bem legal.”

“Eu acho que devo isso ao estudante transferido. Foi quando comecei a notar o Takumi.”

“Ele tem ido a muitos encontros, então você tem direito de ficar brava com ele.”

“Se ele puder me ver, eu vou ficar.”

Havia um leve sorriso em seus lábios.

“Mesmo assim, nunca imaginei que o Fukuyama fosse mais velho que eu.”

Ele estava completando vinte e um anos hoje. Dois anos mais velho que Sakuta.

“Vou ter que chamá-lo de senpai.”

“Takumi vai odiar isso.”

“Castigo justo para um homem que esqueceu sua namorada.”

“Você é uma pessoa estranha.”

“Eu sou totalmente normal.”

Ele checou o navegador, e Haneda estava a apenas alguns quilômetros. Para Sakuta, parecia que eles poderiam chegar até Takumi antes do voo dele partir.

Mas, considerando os procedimentos de embarque e checagem de bagagem, eles não teriam muita margem de manobra.

Talvez cinco, dez minutos no máximo. Não muito tempo. Era incerto se essa pequena janela seria suficiente para fazer com que ele percebesse Nene Iwamizawa.

Saber que estavam com pouco tempo estava tornando as coisas tensas. Eles já podiam ver o aeroporto. Um avião estava decolando dele.

Encontrar estacionamento levou um pouco de tempo, mas eles conseguiram chegar ao aeroporto propriamente dito alguns minutos antes do que o navegador havia previsto.

Mas isso era apenas o aeroporto em geral. A entrada diante deles era uma das maiores do país. Saindo do carro, eles ainda precisavam ir até o Terminal 2, onde Takumi estava esperando. Sakuta estava definitivamente apressado no caminho para o elevador.

“Fukuyama disse Terminal 2.”

Touko apertou o botão, chamando o elevador. O botão para descer. Ele chegou rapidamente.

Eles pularam dentro, e Sakuta pressionou o botão de fechar a porta, depois o botão para o segundo andar — onde o saguão de partidas estava listado. O elevador desceu em silêncio. Apenas Sakuta e Touko estavam a bordo.

“……”

“……”

Nenhum deles disse uma palavra. Um silêncio preencheu o espaço. Os segundos se estenderam por muito mais tempo do que deveriam.

Finalmente, houve um ding.

Houve um atraso agonizante enquanto as portas se abriam lentamente, e então eles saíram no saguão de partidas.

Ele se estendia amplamente em ambas as direções. Sakuta olhou para a esquerda, depois para a direita, e mal conseguia ver as paredes distantes. O teto se erguia acima deles.

No saguão, havia balcões de serviço para as respectivas companhias aéreas, máquinas para processamento de check-ins e portões de segurança além desses. Em frente a eles, havia lojas de presentes, restaurantes do aeroporto e máquinas de vendas automáticas.

Era uma quarta-feira comum, então não estava tão movimentado, mas ainda assim parecia grande demais para localizar qualquer homem em específico.

“Me dá seu telefone. Vou ligar para ele,” Sakuta disse, mas os olhos de Touko estavam olhando para além dele.

“Aí está ele.”

Ela apontou para um relógio com um gigante 2 no topo. O homem sentado no banco ao lado era definitivamente Takumi. Jeans, um casaco grosso, aquele velho cachecol laranja em volta do pescoço, telefone na mão.

Sakuta respirou fundo e se aproximou.

“Fukuyama,” ele disse.

Takumi pulou.

“Você realmente veio.”

“Eu disse que viria.”

“Do nada? Eu pensei que você estava me enrolando.”

Ele sorriu, balançando a cabeça. Muito Takumi.

Pelo menos, eles estavam aqui a tempo. Agora, para a parte difícil.

Sakuta ainda não tinha resolvido como abordar o assunto. Não havia resposta certa. Ele não achava que dar a ele toda a explicação sobre Nene Iwamizawa resolveria o problema. Takumi não podia vê-la. Não podia mais percebê-la. Para ele, ela não existia.

Ainda perdido, Sakuta olhou para Touko. Ela estava ao seu lado, alguns passos atrás.

Ela deu um passo mais perto, movendo os lábios.

“Takumi,” ela disse. O nome de seu namorado.

“Bem, é bom que você esteja aqui, mas estou apertado de tempo,” Takumi disse, com os olhos apenas em Sakuta. Nunca lançou um olhar na direção de Touko. Apenas falava com Sakuta.

Sakuta podia ver as mãos de Touko se apertando em torno do presente.

“Escuta, Takumi. Olhe para mim,” ela disse, mas ele não respondeu.

“Eu preciso passar minhas malas pela segurança, ou não vou conseguir embarcar.”

A interação deles não envolvia interação. Então Sakuta falou.

“Fukuyama.”

“Mm?”

“Seu cachecol.”

“Esse aqui?” Takumi segurou a ponta pendurada.

“Você se lembra de quem te deu?”

“Quem…? Ah. Huh.”

Takumi tentou responder, então congelou.

“……”

Sua expressão se encheu de dúvida. Ele franziu a testa, como se não estivesse certo do porquê de não saber. Seus lábios estavam comprimidos.

“O que… Por que eu não…?”

Ele estava falando consigo mesmo, mas pensar não o levava a lugar algum. Ele não tinha respostas.

“Você esqueceu alguém importante.”

“…Huh? O que você quer dizer?”

A confusão de Takumi aumentou.

“Esse cachecol foi um presente da sua namorada do ensino médio.”

“Não, cara, de jeito nenhum!”

Takumi riu, levando isso como uma piada.

“……”

Mas Sakuta estava muito sério. Não sorriu nem deu risada.

“Você realmente ganhou isso da sua namorada, Fukuyama,” insistiu ele.

“……”

Desta vez, Takumi reagiu com silêncio.

Seu sorriso ainda estava congelado — mas lentamente desaparecendo.

“……Desculpe, cara. Eu não sei do que você está falando,” ele conseguiu dizer, dez segundos depois.

“Você esqueceu dela, Fukuyama. Mais precisamente, você não pode mais percebê-la.”

“……”

Takumi lhe lançou um longo olhar, piscando.

“Você não consegue lembrar quem te deu o cachecol, certo?”

“……Bem, não.”

“……”

Touko estava bem ao lado dele, assistindo à conversa deles, os lábios apertados.

“Juro que você teve uma namorada no ensino médio.”

“……”

A expressão de Takumi não mudou. Estava rígida de dúvida e confusão.

“Vocês foram juntos ao ensino fundamental, e você a convidou para sair no seu segundo ano do ensino médio.”

“……”

Não importava o que dissesse, Takumi continuava olhando para Sakuta. Ele estava ouvindo seriamente, mas não entendendo nada disso. Ele deveria estar perplexo com o quão absurdo essa história era, mas ainda assim estava ouvindo Sakuta.

“O nome dela é Nene Iwamizawa.”

Ele ouviu Touko gaspar ao ouvir o nome.

Mas Takumi apenas disse: “Desculpe, nunca ouvi falar dela antes.”

Nene congelou. Toda emoção drenou de seus olhos.

“Eu realmente namorei com ela?”

“O cachecol prova isso.”

Takumi olhou para ele.

“……”

Por um longo momento, ele apenas olhou. Sem emoção no rosto.

O silêncio era sufocante.

“Azusagawa, desculpe, mas…”

Ele nunca tinha visto Takumi tão completamente perdido.

“…Não entendo.” Essa situação toda parecia estar desgastando Takumi. Ele forçou um sorriso fraco, como se estivesse tentando encerrar uma conversa que não conseguia compreender.

“Pense de novo,” Sakuta começou a dizer — mas antes que as palavras saíssem de sua boca, um anúncio ecoou pelos alto-falantes do saguão.

“Passageiros do Voo 555 para o Aeroporto New Chitose, por favor, dirijam-se à inspeção de bagagens.”

“Augh, droga, preciso ir.”

Takumi pegou sua mala e se levantou.

“Espere, Fukuyama!”

“Vamos conversar mais quando eu tiver tempo. Desculpe, estou realmente apressado.”

Ele se dirigiu para a segurança, mas Sakuta não estava disposto a desistir.

“Eu sei que é difícil de acreditar, mas não estou mentindo!”

“Eu te conheço o suficiente, Azusagawa. Acredito nisso.”

“Isso é real!”

“Eu escuto você!”

E esse foi todo o tempo que ele teve. Takumi encostou seu telefone no portão de entrada e passou pela segurança. Sakuta não tinha ingresso e não podia segui-lo mais longe.

Takumi se virou uma vez para acenar.

Sakuta levantou uma mão em reconhecimento.

“Obrigado por me ver partir!” Takumi disse, e desapareceu pelo portão de metal.

Não havia mais nada que Sakuta pudesse fazer. Ele sabia que isso era possível. Mas esperava que não terminasse assim.

Não pôde deixar de se sentir desapontado. E Touko devia estar se sentindo ainda pior. Sakuta se virou de volta para o banco onde começaram.

“Kirishima…?”

Nenhum sinal dela. Nenhum Papai Noel de minissaia em lugar algum. Tudo o que encontrou foi um presente embrulhado. Um presente do Papai Noel, deixado para trás onde Touko estava em pé.

 

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Entrem aí para dar uma força para a equipe 😉

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