— As notícias de que a senhorita Emily é filha do mestre já se espalharam por toda parte.
Apesar das palavras do Bruns. Callius estava calmamente se preparando para partir.
Agora estava colocando sua armadura feita de couro leve.
Embora parecesse modesto à primeira vista, o fato de ser Callius vestindo a armadura o fazia parecer como um aristocrata nobre.
Era um artefato que tinha pegado da tesouraria dos Jervain.
Cota de malha leve de Enos.
As correntes foram costuradas dentro da armadura, tornando-a leve e resistente.
A esgrima do Callius era focada em um estilo rápido, misturado com mudanças imprevisíveis.
Por isso não gostava de armaduras pesadas.
Normalmente usaria uma armadura de couro leve, mas desta vez havia encontrado uma armadura que o servia na tesouraria, então a pegou.
Era leve e não restringia seus movimentos, porém surpreendentemente robusta e resistente a vários tipos de dano.
O porquê disso era óbvio.
Enos era uma espécie de besta demoníaca. As correntes costuradas na parte interna da armadura foram feitas dos minerais que crescem em suas costas.
O couro também era de um Enos, por este motivo o artefato era chamado de Cota de malha leve de Enos.
Callius já tinha confirmado que espadas de carcaça normais não deixariam nem mesmo um arranhão na armadura.
Pelo menos, suas lesões agora não seriam tão sérias quanto antes.
— Você está bem?
— Não é da sua conta.
Era verdade que Emily era sua filha, então não importava se as pessoas soubessem.
Só não tinha achado o momento certo para ele mesmo ter revelado isso.
— As pessoas começaram a se aproximar da senhorita Emily.
— Ela é uma criança esperta, então pode cuidar de si mesma.
Mesmo que se aproximem dela…
Eles não se atreveriam a machucá-la.
Pois agora ela não é a filha do futuro Senhor do Norte?
Claro que teriam pessoas com más intenções.
‘Elburton vai cuidar disso.’
Emily era sua neta afinal.
Não existe nada sobre ela que o faça infeliz.
Diferente do próprio Callius, ela crescerá em sua sombra.
— Você vai pelo menos ver ela?
— Tudo no seu próprio tempo.
Mesmo que ele tenha dito a palavra “pai”, ainda era estranho para a sua filha ouvir.
‘Pelo menos agora todo mundo sabe que ela é minha filha.’
A criança não seria mais forçada a manter esse segredo e poderia chamar de “pai” abertamente, então isso deve ser suficiente por agora.
Callius era o herdeiro do Norte e se tornaria o mestre com o tempo.
Ela viveu uma vida difícil até agora, não seria bom um pouco mais de conforto?
— Ah, mais uma coisa.
— O quê?
Assim que terminou de vestir sua armadura, Callius tirou uma capa do subespaço.
Sua capa favorita, o Manto do Crepúsculo.
Ele a vestiu por cima da armadura, o que lhe deu a aparência de um cavaleiro elegante.
— Você disse que a situação de Rivan e Rinney foi deixada nas suas mãos.
A situação do filho e da filha de um traidor.
Lentamente, todas essas coisas complicadas estavam sendo jogadas em sua direção.
‘O que meus cavaleiros pensariam?’
Parecia que Elburton estava tentando educar seu sucessor do modo mais difícil.
Mas que chateação.
— O que vai fazer?
Callius não sabia sobre Rivan, mas Rinney seria uma excelente cavaleira.
Ela não só se tornaria uma poderosa guardiã do Norte, mas poderia ficar ainda mais forte se treinada apropriadamente.
Porque os olhos dela eram especiais.
— Vou fazer nada, só deixe eles quietos.
Claro que suas vidas agora seriam diferentes de antes.
São agora os filhos de um traidor, então vão sofrer inúmeros olhares de todos os lados.
Mas, mesmo assim, não tinha razão para que Callius os ajudasse. Este era um obstáculo que teriam que superar sozinhos.
— Você preparou a forja?
— Sim, Dexter vai morrer de felicidade quando ver. É bem melhor do que aquele lugar onde ele estava em Tristar.
Callius estava deixando a Espada Forte para trás.
Dexter teria que reforjá-la, repará-la, ou o que for que tivesse que fazer quando chegasse.
Tendo a Espada Forte reparada seria ótimo, caso não fosse possível, Callius teria apenas que viver com o fato.
Mesmo sem a Espada Forte, teria muitas outras, então precisaria apenas achar outra boa espada.
‘Começando pelas espadas espirituais, elas não desaparecem mesmo se quebradas, então é viável criar um artefato a partir delas.’
Callius tinha quatro espadas em mãos.
Naturalmente, quanto mais espadas, melhor, mas não precisava urgentemente de uma no momento.
É uma mentalidade completamente diferente de quando eu tinha apenas uma Espada da Vida.
— Hum.
Callius pegou todas as suas quatro espadas do subespaço.
Duas tinham suas próprias bainhas.
As outras duas, não.
Espada Predadora – Loas.
Espada Relâmpago – Rakan.
Espada do Julgamento – Medea.
Espada Tirana – Karaktu.
Ele ficou satisfeito só de olhar para elas.
Depois de contemplar por um momento, Callius rasgou um pedaço de pano do subespaço e enrolou a Espada do Julgamento e a Espada Relâmpago.
Colocando as duas nos encaixes no cinto que estava na cintura, ele colocou toda a comida e itens que tinha preparado no subespaço.
— Estou pronto.
— É triste quando você não tem nada para fazer.
Com a aquisição do subespaço, a necessidade de um carregador havia desaparecido. Bruns ficou triste com isso, mas não era algo que Callius fosse se preocupar.
— Pare de falar besteira. Nós temos um longo caminho pela frente.
Ele já tinha gastado mais tempo do que o esperado.
Alguns dias haviam se passado desde a chegada de Helena.
Uma curta cerimônia já tinha ocorrido.
Normalmente, a cerimônia de sucessão de um título aristocrata do reino de Carpe requer uma audiência com o Rei, mas os quatro grandes títulos nobres tinham algo em especial.
E a do Norte era ainda mais especial.
Pois as terras do Norte tinham uma soberania similar à de um Estado independente, o título de sucessão, portanto, não requer a permissão de ninguém.
— Tudo no Norte pertence aos Jervain.
Verdade seja dita, a cerimônia de sucessão para o título de Conde era feita de uma maneira prática e rápida pela família Jervain.
Assim que a papelada assinada já tinha sido mandada para a capital, Callius agora era um Conde.
— Devo chamar de Conde agora no lugar de mestre?
Um trabalho é apenas um trabalho.
De fato, agora possuía o título de Conde, mas não tinha nenhuma intenção de governar o Norte no momento.
Portanto, meramente herdou o título.
Ele não havia completado as formalidades necessárias para suceder o patriarca.
Demorou bastante para convencer Elburton a dá-lo o título, mas deu tudo certo no final.
Agora, até mesmo a Igreja não o incomodariam com uma interrogação.
O título de Conde trazia muitas vantagens até mesmo para um Inquisidor de Hereges.
— Devo trazer a carruagem?
— Não, vou de cavalo.
Agora ele possui a Sela de Humasys.
Então Callius não tinha mais medo de cavalgar.
A estrada para a Floresta Negra tinha bastante saliências, então um cavalo era uma opção melhor do que uma carruagem.
Callius se dirigiu ao estábulo dentro do castelo, que era conhecido por ter cavalos muito exigentes.
Nevava bastante no Norte, então o lugar estava cheio de cães Comox, mas os cavalos ficavam em um lugar separado.
Pois simbolizavam os cavaleiros.
Ao entrarem no estábulo. O Estaleiro veio educadamente e curvou sua cabeça.
— Hum, eu quero aquele ali
Callius escolheu um cavalo modesto e adequado.
Nada especial foi revelado pelo olho tricolor.
Tudo no local era azul.
— Vou prepará-lo.
— Use isso como cela.
— O quê?
— É para meu uso, apenas.
— Ah, certo. Eu entendo.
Enquanto esperavam o cavalo ficar pronto…
Uma ruiva se aproximou fingindo ser amigável.
— Você vai caçar?
— Como… você sabe?
— Tenho bons ouvidos.
Mentira.
Ao invés disso, todas as sombras dentro do alcance da espada eram os seus ouvidos.
Essa era a habilidade da espada dela.
— Vai me seguir?
— Está de boa por você?
— Não ligo.
Afinal de contas, teria que organizar os cadáveres e materiais do dragão lobo do trovão depois que a caça acabar.
Helena só conseguiria comprar dele.
— Mas você vai ficar bem?
— Eu disse que sim.
— Não falei disso… Você sabe que não pode cavalgar.
Callius ficou surpreso por um momento.
Mas não perdeu a compostura.
— Isso é algo do passado.
— Você é famoso por isso. O filho mais velho de uma grande e nobre casa. Famoso pela sua esgrima e que não consegue cavalgar. Não é algo comum.
Ignorando as provocações da Helena, Callius pegou as rédeas do cavalo que havia sido preparado.
Ele botou um pé no estribo.
Antes de subir, respirou fundo, porque ficou tenso por um momento.
— É só um cavalo, por que está tão nervoso?
Ignorando-a novamente, ele subiu de uma vez no cavalo com um Hiin in in!
O animal levantou suas patas dianteiras por um momento, mas as habilidades de Callius já haviam melhorado.
Esse pequeno impulso chegava a ser engraçado para ele agora.
— Ei, uau.
Ele apertou as rédeas e acalmou o cavalo, mantendo seu equilíbrio.
Suou por um momento com medo de cair, mas teve sucesso.
Callius sorriu e Helena riu dele, falando que ficava fofo quando estava orgulhoso.
Essa mulher era horrível.
— Você não precisa ir comigo para a caçada.
— Você ficou chateado?
— Melhor você procurar um médico. Esses tipos de pensamentos podem ser sintomas de uma doença mental.
Helena ignorou suas palavras com uma gargalhada.
— Mas que tom sombrio. Você não vai para a igreja depois da caçada de todo modo? Eu vou para o mesmo lugar, então vamos juntos. Já que vim tão longe no Norte, como poderia voltar correndo para o meu trabalho? Como não sou nativa daqui, seria bom admirar algumas paisagens.
— Como queira então.
Puxando as rédeas, Callius se dirigiu aos portões do castelo.
Durante o caminho, os nortenhos curvaram suas cabeças para Callius quando o viram.
As crianças acenaram rudemente para ele, mas Callius simplesmente os ignorou.
— Estou surpreendida.
— O que quer dizer?
— Um nobre deve sacar sua espada e educar a plebe quando eles se comportam de forma tão rude quanto aquelas crianças. Não foi isso que você me ensinou?
— Dizem que as pessoas só são capazes de mudar quando estão prestes a morrer. Você não está morrendo ou algo assim, certo?
— Se você vai ficar falando bobagens sem sentido, vá embora.
— Ah. Veja, aquela criança ali.
Callius olhou para a direção em que Helena estava olhando.
Na multidão que estava reunida ali, uma garota familiar apareceu.
— Ei, Ei. É sua filha. Você nem sequer foi vê-la, não é? Mesmo que esteja partindo hoje e não vá voltar por um tempo.
— Você seria melhor se não fosse tão bisbilhoteira.
— Que rude… chamar uma dama de bisbilhoteira.
Deixando Helena que resmungava para trás…
Callius se aproximou da Emily que o estava observando.
Ela estava com a espada nas mãos.
Aquela que Callius deu, Espada da Vida – Lucen
Ele deveria dizer algo?
Talvez acenar para ela?
Mas não fez nem um, nem outro. Seria embaraçoso, e não tinha nada a dizer.
Mas foi então que…
Emily surgiu na multidão. Com um brilho prateado de poder divino a cobrindo, ela então atacou Callius com sua espada.
Taeeeng!
Foi uma surpresa e tanto.
No entanto, Callius calmamente recebeu o ataque dela.
O cavalo assustado levantou suas patas dianteiras, causando uma confusão, mas Callius não caiu.
— O que está fazendo?
Ela era de fato a filha do Callius.
Suas ações o lembravam muito de si mesmo.
— Se você está partindo, poderia ao menos ter me falado. Por que não me contou?
Mais uma vez, ela levantou sua espada acima de sua cabeça e avançou. Emily pulou até alcançar sua altura com um único salto e atacou o pescoço de Callius.
Um ataque tão sofisticado e inconstante que ninguém poderia pensar que vinha de uma criança.
Com aquele salto, ela brandiu a ponta da espada em quatro ataques consecutivos.
Rápidos e inconstantes.
‘Ela já está nesse nível?’
Depois de ver a esgrima do Callius, a habilidade dela tinha melhorado bastante.
Sua espada continuou avançando, porém se transformava constantemente.
Era de fato a esgrima dele.
Callius, pelo contrário, respondeu aos ataques dela de forma direta.
Um bloqueio simples e um golpe simples.
A batalha durou apenas essa troca de golpes.
A multidão, que estava ali, ficou inicialmente surpresa pela esgrima demonstrada pela criança e ainda mais pela calma da esgrima do Callius ao recebê-la.
Eles completamente esqueceram que eram pai e filha levantando suas espadas um contra o outro, e os olhos deles foram atraídos pela dança de espadas que estava acontecendo.
Apesar dos ataques contínuos da Emily, Callius bloqueou e contra-atacou todos os ataques com movimentos mínimos.
Quando atingiu o centro de Lucen, Emily caiu de costas no chão.
Um silêncio permaneceu no espaço entre os dois.
— Pegue.
Teok.
— O quê?
— É uma pedra sagrada. Pegue. Da próxima vez que eu te ver. Te darei uma nova espada.
— A espada que tenho é suficiente.
— Será que é mesmo?
— …
— …
O silêncio surgiu novamente entre os dois.
Callius olhou para Emily, e ela abaixou sua espada e olhou para ele.
Então, Emily falou primeiro.
— Quando… você vai voltar?
— Quando for a hora certa.
— Tá bom…
As palavras trocadas entre os dois pareciam muito desanimadas para uma conversa entre pai e filha, mas Helena sorriu por alguma razão.
Então o pai e a filha não conseguem ser honestos um com o outro?
Mas os dois de alguma forma pareciam felizes.
— Por que você não consegue ser mais honesto? Você não vai voltar aqui tão cedo, então seja um pouco mais gentil e peça para ela esperar.
— Hiin in in!
Ignorando Helena novamente, Callius puxou as rédeas.
Nota:
[1]사슬 경갑 Cota de malha leve de Enos). Isso geralmente é um paradoxo, porque a cota de malha medieval — feita costurando correntes de metal em cima da armadura de couro — não é uma armadura leve, mas uma armadura média. O texto enfatiza que esta é uma armadura de couro, com correntes escondidas dentro do couro, por isso ficou cota de malha leve.