Capítulo 33

Pétalas caindo (1)

— Muitos de nós vêm das Montanhas Laus, mas nunca ouvimos falar de uma aldeia élfica lá. Só vimos elfos empobrecidos e miseráveis ​​na cidade, por isso ficamos chocados ao ver uma raça tão bonita e elegante. Mas a nossa missão tinha que ser cumprida. Nós… conduzimos um ataque noturno como sempre fazíamos e matamos aqueles que não podíamos vender como escravos, enquanto sequestrávamos o resto deles. Essa foi a ordem do nosso patrocinador — admitiu o capitão.

— Tinha um cara meio estranho entre nós. Ele não era muito bom nesse negócio de guerra, mas todos gostavam dele porque ele era muito talentoso; ele até matou três dos elfos armados naquela noite. Ele então foi sozinho saquear casas vazias e procurar elfos que ainda haviam sido deixados para trás, mas não falei muito com ele porque sabia que estaria seguro sozinho. Então ouvi um grito alto vindo da casa em que ele entrou.

— …

— Quando entrei correndo na casa, pude ver, pelas cortinas, uma elfa segurando um bebê morto, com a faca dele cravada no peito. Não foi difícil para mim descobrir o que havia acontecido com base em seu rosto pálido. Ela não parava de gritar, então rapidamente a tiramos da casa e deixamos o corpo do bebê lá. Dissemos a ele que teríamos matado o bebê de qualquer maneira, já que não poderíamos vendê-lo como escravo. Sempre foi assim que foi feito e seria melhor para o bebê de qualquer maneira, mas ele não parecia muito consolado. — O capitão permaneceu em silêncio por um segundo e depois continuou.

— Naquela noite, ele libertou todos os elfos. A maioria deles conseguiu escapar, mas ele foi pego enquanto tentava levar a mulher histérica, que havia enlouquecido depois de perder o bebê. Ele acabou sendo vendido como escravo para pagar pela perda de todos aqueles elfos. Quem sabe o que aconteceu com ele depois… Eu gostaria de saber.

O capitão tentou ler o rosto de Juan para descobrir por que ele estava fazendo tal pergunta, enquanto Juan respirava fundo.

Juan então percebeu por que o capitão hesitava tanto em lhe contar a história. A segurança do império podia não ser de sua conta, visto que o império os tratava como cães de guarda, mas pelo menos o capitão entendia que o ato de expulsar um colega era motivo para se envergonhar.

— Quem patrocina os Exploradores da Montanha Laus? — perguntou Juan.

— Ilde. A família Ilde da capital — respondeu o capitão.

— Qual era o nome do soldado expulso? E o nome da mulher elfa?

— O nome dele era Luca, mas não sei o nome da elfa.

Juan então sacou uma adaga e golpeou os dedos do capitão. Num piscar de olhos, dois dedos foram cortados de sua mão e ele começou a rolar, gritando de dor.

— A-argh….! O-O que você fez?! Eu respondi todas as suas perguntas! — gritou o capitão.

— Eu disse que pouparia sua vida; Eu não disse nada sobre manter seus dedos intactos — disse Juan enquanto acenava para o capitão. — Volte aqui. Tenho mais dedos para cortar.

— O-o quê… você é louco! A-afaste-se de mim!

O capitão tentou se desvencilhar de Juan, mas Juan rapidamente pulou em suas costas para o imobilizar, e começou a cortar seus dedos um por um. Assustados com os gritos desesperados do capitão, os soldados tentaram encontrar uma maneira de escapar, mas foi impossível sob a vigilância de Anya.

— Não terei escolha a não ser cortar os tendões dos joelhos de vocês se tentarem fugir — ameaçou Anya, não deixando aos soldados outra escolha a não ser colocar o rosto de volta na lama.

Depois de cortar todos os dedos, Juan olhou satisfeito para o capitão.

— Isso vai impedir você de empunhar uma arma novamente.

— A-arghh… — o capitão grunhiu de dor.

Juan virou a cabeça para ver os outros soldados que estavam paralisados ​​de medo.

O ar frio da longa chuva embranqueceu a respiração de Juan enquanto ele suspirava profundamente; o outono se aproximava mais rápido do que o esperado.

— Anya — disse Juan.

— O que foi, garoto?

— Meu nome é Juan.

Os olhos de Anya se arregalaram. Surpresa por Juan ter inesperadamente dito a ela seu nome.

— Quero que você me diga seu nome verdadeiro, assim que puder confiar em mim… Cansei de sofrer tentando descobrir nomes — disse Juan enquanto olhava para Anya com os olhos úmidos.

— Claro, Juan — Anya mal conseguiu responder.

— Além disso, precisamos fazer alterações no plano que fizemos na taverna. Adiarei o encontro com seu mestre por alguns dias.

Juan então falou com os soldados que ainda permaneciam deitados no chão. — Vou poupar as vidas de vocês.

Olhares interrogativos se espalharam entre os soldados, enquanto o capitão era o único que permanecia aflito. Juan então ordenou aos aldeões que continuavam paralisados ​​de medo.

— Vão, e espalhem essas palavras para quem me procura — disse o garoto encharcado de chuva e sangue.

— O traidor que procuram está nesta aldeia.

***

— No que você estava pensando, Juan?!

Juan tomou a taberna vazia só para si, já que ninguém permaneceu na aldeia depois de ouvir a declaração feita por ele. Graças a isso, Juan pôde secar despreocupadamente as roupas molhadas em frente à lareira da taberna.

— Eu disse a eles para espalharem as minhas palavras, não para saírem da aldeia. Então por que todos eles foram embora?

— Porque eles sabem que nada restará nesta aldeia depois de você lutar contra a Ordem do Corvo Branco e a Ordem da Rosa Azul! Quem sabe o que vai acontecer? As paredes externas já desabaram só por causa de um garotinho! O que o fez pensar que essa declaração era uma boa ideia? Isso não fazia parte do nosso plano, fazia?

O plano inicial de Juan e Anya era lutar se tivessem a vitória garantida ou fugir depois de verificar a força dos Templários, supondo que eles estivessem em menor número. De qualquer forma, o fato de eles deixarem a aldeia o mais rápido possível não mudaria. Seria sensato, já que eles estavam sendo perseguidos.

— Não é tarde demais, Juan. Não sobrou ninguém na aldeia, então ninguém vai notar que estamos saindo.

— Fique quieta — Juan retrucou para Anya, fuzilando-a com o olhar.

Anya parou de falar, e então assustou Juan com sua reação; ela levantou a blusa para expor a barriga, mantendo os olhos bem fechados.

— O que você está fazendo?

— Você não vai me bater? — perguntou Anya.

Quando Juan colocou a mão na testa, ele se lembrou de quando havia batido em Anya antes.

— Eu não vou bater em você. Agora abaixe a blusa, não quero ver.

— Mas você bate ou mata alguém toda vez que fica bravo.

— Eu não estava planejando fazer isso agora, mas posso fazer se você continuar falando.

No entanto, Anya não ficou quieta. Ela estava chateada, mas ao mesmo tempo parecia agitada e até um pouco animada. Juan não tinha ideia de por que ela estava tão animada, mas não suportava a ver mais inquieta do que o normal.

— Você tem um plano para enfrentar a Ordem do Corvo Branco e a Ordem da Rosa Azul ao mesmo tempo?

— Não.

— Então o que lhe dá confiança para esperar por eles aqui? Nem estamos na montanha! — repreendeu Anya.

— Seria difícil me encontrar nas montanhas. O objetivo de ficar aqui é permitir que eles me encontrem facilmente.

— O quê?

— Não gosto de como eles estão incendiando todas as aldeias só para me procurar. Eles vão parar de queimar aldeias inocentes se eu avisar que estou aqui — disse Juan enquanto jogava um pedaço de lenha seca na lareira.

— …

Juan percebeu que Arwain e a Ordem da Rosa Azul podiam não ser os únicos procurando por ele. Era provável que muitos mais, juntamente com a Ordem do Corvo Branco e os Exploradores da Montanha Laus, tivessem se juntado à busca, o que significava que ainda mais aldeias estavam sendo invadidas. Juan pretendia ignorar tais fatos, mas as coisas eram diferentes agora. Aldeias em chamas não eram mais apenas assunto de outra pessoa, mas também dele.

— Anya, não vou continuar me escondendo. Aqueles que me perseguem podem vir me encontrar quando quiserem. Estava disposto a ter misericórdia deles, mas acho que terei que matá-los se decidirem ficar no meu caminho. Cada um de nós tem seu lugar.

— Mas a Ordem do Corvo Branco…

— Bem, vamos sofrer um pouco, já que desta vez teremos inimigos mais difíceis — Juan encolheu os ombros.

— Eu vou ficar.

— O quê? — questionou Juan.

— Você deveria seguir seu caminho. Ficarei aqui como isca para chamar a atenção deles. Dessa forma, você estará seguro e também poderemos evitar vítimas inocentes — disse Anya com firmeza.

Juan olhou para Anya com uma expressão atordoada.

— Talvez haja uma chance em cem de que seu plano funcione, mas não acho que você vai durar mais do que eu ao enfrentar o ataque dos cavaleiros. Mais importante ainda, você e eu somos completamente diferentes.

— E se eu cortar e tingir meu cabelo?

— Claro que eles vão cair nessa. Por que você não tenta crescer um pouco mais também? — Juan respondeu sarcasticamente.

— Aqueles que não sabem muito sobre nós podem cair nessa. De qualquer forma, não sou tão alta.

Como Juan a ignorou completamente, Anya girou os dedos e murmurou. — Então, vou me separar de você aqui.

— O quê…?

— Não me entenda mal. Só não acho que seria de muita ajuda para você se ficasse. Na verdade, era capaz de eu acabar atrapalhando. Mas talvez possa te ajudar se encontrar meus conhecidos que moram nas montanhas Laus — elaborou Anya.

Juan inclinou a cabeça ao ouvir a palavra “conhecidos”, mas ficou convencido; não seria ruim ter alguém ao seu lado para servir de reforço. Juan normalmente se recusaria a aceitar qualquer ajuda de outras pessoas, mas agora não era hora de recusar.

— Tudo bem, faça o que quiser. Vou tentar descobrir alguma coisa também — disse Juan enquanto mexia no elmo dos Templários de Arwain.

***

— O que você disse?

Quando a chuva começou a diminuir e o céu começou a clarear, Sina ouviu uma notícia inesperada de um soldado dos Exploradores da Montanha Laus. Enquanto era tratado do ombro quebrado, ele deu seu terceiro relatório a Sina.

— O traidor procurado foi avistado na aldeia de Veras, no meio das montanhas Laus. O Templários Arwain tentou eliminá-lo imediatamente, mas falhou e foi morto no local. Nós, os Exploradores da Montanha Laus, também lutamos muito, mas tivemos que interromper a operação e recuar, pois nossos soldados ficaram gravemente feridos.

— Que absurdo! O que você quer dizer com ‘traidor procurado’? Tem certeza de que está falando sobre esse garoto de cabelos pretos? — Sina perguntou enquanto segurava um cartaz de procurado de Juan feito com base na descrição de seu próprio relatório.

Os olhos do soldado se encheram de medo só de olhar para o cartaz. — S-Sim, é ele. Ele foi absurdamente implacável.

— Juan venceu um templário…? Como…?

Sina supôs que Juan estivesse no mesmo nível que ela da última vez que se separaram, mas Juan havia evoluído muito em apenas algumas semanas. Ela não conseguia nem imaginar o que aconteceu para ele evoluir tão rápido ao ponto de vencer um Templário.

— Espere. Por que havia um Templário na Vila Veras? A Ordem dos Cavaleiros mais próxima seria a Ordem do Corvo Branco, mas ainda não é uma grande distância da vila de Veras até o território da Ordem dos Huginn? Especialmente considerando a forte chuva, por que ele estava na aldeia?

— H-Hm… porque eles estavam realizando uma operação especial… — admitiu o soldado.

— O que você quer dizer com operação especial?! — Sina questionou.

O soldado tentou evitar responder à pergunta de Sina, mas não durou muito e acabou sucumbindo ao interrogatório dela. Sina ficou em estado de choque ao ouvir sua resposta.

— Uma operação de limpeza foi realizada? Sob as ordens do Inquisidor Kato?

— S-sim.

— Mas como? Nenhum de nós enviou uma mensagem telepática — questionou Sina com suspeita, mas logo seu rosto se distorceu.

Enviar uma mensagem telepática era uma das habilidades concedidas por Sua Majestade. Embora Kato nunca tenha admitido ter tal habilidade, fazia sentido que ele mantivesse isso em segredo agora que suas intenções ficaram claras.

Sina se virou e correu imediatamente para onde Kato estava.

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