Capítulo 35

Pétalas caindo (3)

A cidadela dos Corvos Brancos foi construída em um penhasco alto com vista para as Montanhas Laus. Seu ambiente hostil, com ar rarefeito e neve permanente, tornava difícil a permanência de qualquer pessoa, exceto os Templários.

Na torre mais alta da cidadela, havia um símbolo gigante de um corvo branco com olhos vermelhos. Havia quem sugerisse que olhos pretos seriam melhores, mas o primeiro capitão da ordem insistiu no vermelho; ele queria se diferenciar da Ordem de Huginn, que usava um corvo como símbolo. Como o principal dever da Ordem do Corvo Branco era rastrear a Ordem de Huginn nas Montanhas Laus, era justo que estivessem conscientes da Ordem de Huginn.

Mas Ethan, o atual capitão da Ordem do Corvo Branco, só via isso como um complexo de inferioridade. Ele acreditava que essa obsessão estava limitando a capacidade da Ordem do Corvo Branco. Era patético pensar que a Ordem deles foi formada apenas para perseguir outra Ordem.

‘Sem falar da existência dos Templários também.’

Os Templários foram criados artificialmente pela Igreja para superar os limites humanos. Os pervertidos da Igreja elogiavam os Templários como sendo o auge da humanidade, os seres humanos mais perfeitos; humanos que superavam todos os outros. Ethan podia adivinhar o que os pervertidos da Igreja estavam perseguindo e obcecados.

‘Sua Majestade.’

Era normal que existissem esquisitões como Arwain – idiotas que desejavam se tornar o imperador, mas foram impedidos pela parede da realidade. Embora Ethan fosse cético quanto ao propósito dos Templários, ele era um dos poucos homens mais habilidosos de todo o império.

— Então aquele idiota acabou morrendo sozinho — murmurou Ethan enquanto lia a carta.

O vento frio soprava no terraço, mas Ethan permanecia imóvel sem usar roupas acima da cintura.

— Pensei que ele duraria mais tempo, já que só atacava as aldeias mais fracas. Estou surpreso — respondeu o vice-capitão Kamil.

Digamos que, Arwain estava sendo desprezado e condenado ao ostracismo dentro da Ordem do Corvo Branco. Isso era normal, já que ele havia entrado para a Ordem com a ajuda da família Ilde. A maioria dos Templários foi selecionada após um esforço excruciante, e seria mentira dizer que eles não achavam que mereciam. Por outro lado, embora Arwain fosse um pouco melhor do que a média dos cavaleiros e não fosse completamente inútil, ele não era nem de longe bom o suficiente para se juntar às fileiras dos Templários, que consistiam em alguns dos indivíduos mais habilidosos entre 1,2 bilhão de pessoas que viviam no império. Sem a influência da família Ilde, ele não teria esperança de entrar para as fileiras dos Templários.

— Ouvi dizer que ele foi morto por um garoto de fora da fronteira — disse Ethan.

— Esse é o fim miserável que lhe convém — Kamil zombou.

— Não seja tão duro. Afinal, ele ainda era um companheiro templário.

— Só o fato de ele ter ocupado a vaga de Celim me faz estremecer. Aposto que o motivo pelo qual ele foi trabalhar em uma área remota foi o medo de que um de nós o espancasse até a morte.

Como era incomum que os membros dos Templários mudassem e como eles compartilhavam um senso de superioridade, os Templários formaram um vínculo especial. A maneira como tratavam um companheiro que morria em batalha era especialmente singular.

— De qualquer forma, é a primeira vez que alguém que não seja da Ordem de Huginn mata um de nossos Templários. Tem sido pacífico desde que Ras Raud desapareceu, mas posso sentir o novo vento soprando do sul. Você disse que houve uma mensagem enviada pela Ordem da Rosa Azul? — perguntou Ethan.

— Sim, senhor. Eles estão pedindo ajuda para derrotar o cara que matou Arwain.

— Não há necessidade de unir forças. Diga a eles para voltarem para o sul, pois nós cuidaremos disso. Mandar a cabeça dele é suficiente. Reúna três caras aí por perto e prepare-se para partir. Vamos ver quem é esse desgraçado que se atreveu a se meter com os Templários. De qualquer forma, temos de recuperar o equipamento de Arwain.

— Sim, senhor.

Os Templários recuperaram o equipamento abençoado com a graça de Sua Majestade na batalha. Por outro lado, a Ordem de Huginn recuperou os cadáveres de seus companheiros mortos. Embora não tenham feito um acordo oficial, os dois lados respeitaram os modos um do outro e deixaram para trás o que cada um queria, mesmo que tivessem rancor um do outro; a Ordem do Corvo Branco deixou para trás os cadáveres do inimigo e a Ordem de Huginn deixou o equipamento do inimigo.

Kamil saiu para se preparar assim que recebeu a ordem de Ethan.

Enquanto isso, Ethan estava ansioso para ver o novo rosto que encontraria em breve. A Ordem do Corvo Branco estava seguindo os rastros da Ordem de Huginn e os considerava sua única ameaça até agora. Mas Ethan não se importava com essa nova brisa de vento. Seu objetivo era amplo demais para que ele ficasse confinado apenas às Montanhas Laus. Ethan mal podia esperar para ver como esse garoto de fora da fronteira o surpreenderia.

Ethan saiu de seu quarto com apenas uma espada e uma capa sobre seu corpo. E então viu Kamil subindo as escadas sem ninguém a seguindo.

— Os outros estão prontos? Por que voltou tão cedo?

— Capitão, recebemos um novo relatório. É uma emergência — disse Kamil com urgência.

— O quê?

Kamil entregou apressadamente uma carta a Ethan. E quando Ethan a leu, decidiu esquecer tudo sobre o garoto.

— Preparem todos os cavaleiros da Ordem para partir. Preciso de cada um deles.

***

Um som de tremor de terra ressoou por toda a estrada principal nas montanhas Laus. A Ordem da Rosa Azul levou um dia e uma noite inteira para chegar ao vilarejo Veras, localizado na estrada principal. A chuva parou de cair e deixou o ar úmido. Embora houvesse neblina, ela não afetou a movimentação dos cavaleiros. Todos os cavaleiros estavam exaustos, mas estavam no limite e prontos para entrar na batalha final.

‘Juan está aqui.’

Da mesma forma, Sina estava igualmente nervosa. Ela queria encontrá-lo, mas ao mesmo tempo não queria. Ela não tinha certeza se seria capaz de lutar contra ele, mesmo que se encontrassem. Sina parou os cavaleiros no subúrbio, pois achava que seria impossível para eles lutar contra Juan enquanto estivessem exaustos.

Naquele momento, Sina viu um homem-bode se aproximando dela.

— Você é a Dama Sina Solvane da Ordem da Rosa Azul? A capitã da Unidade de Perseguição?

— Sim. O que está acontecendo?

O capitão saudou Sina e informou. — O alvo está atualmente no meio da aldeia. Poucos de nossos soldados foram pegos em seu ataque e morreram. Achei que era impossível derrotá-lo sozinho e estamos cercando-o neste momento. Felizmente, o cerco está sendo bem-sucedido e ele não consegue escapar.

‘Não é que ele não possa se dar ao trabalho de fugir, mas está preferindo não fazê-lo.’

Sina pensou consigo mesma, mas não disse nada ao capitão. Ela não queria diminuir o trabalho árduo feito pelos soldados encharcados pela chuva.

— Muito bem. Vamos continuar a partir daqui. Houve alguma notícia da Ordem do Corvo Branco?

— Hm, bem. Eu ia mencionar isso…

Sina sentiu uma sensação sinistra ao ler a preocupação no rosto do capitão.

— A Ordem do Corvo Branco decidiu ficar de fora dessa missão — confessou o capitão.

— O quê? Eles estão ficando de fora mesmo quando um Templário foi morto? — perguntou Sina, duvidando de seus ouvidos.

Era um fato bem conhecido que os Templários tinham um forte vínculo. Sem falar em assassinato, eles capturavam e puniam o criminoso, mesmo que fosse apenas o equipamento deles que tivesse sido danificado. Até mesmo os nobres poderiam ser decapitados se danificassem o equipamento dos Templários.

— Sim, Dama. Eles disseram que foi detectada uma movimentação da Ordem de Huginn. Aparentemente, Ras Raud apareceu desta vez.

— O mestre dos corvos, hein? — Sina murmurou.

A Ordem de Huginn havia assassinado dezessete templários da Ordem do Corvo Branco até agora; dois deles eram capitães no momento de suas mortes. Quanto ao exército sob seu comando, o número de mortos era incontável. A Ordem de Huginn também foi prejudicada no processo, mas Ras Raud nem sequer foi ferido. Era natural que a Ordem do Corvo Branco se concentrasse na Ordem de Huginn e não em Juan.

A Ordem de Huginn ficou escondida por vários anos depois que sua tentativa de assassinar Barth Baltic falhou. Mas, de alguma forma, eles começaram a se mover novamente em um momento como esse.

‘Isso não pode ser uma coincidência.’

Ou a Ordem de Huginn estava ajudando Juan ou Juan tendo algum tipo de contato com eles.

A frustração fervilhava dentro de Sina. Eles teriam que suportar um número considerável de baixas se tivessem que capturar Juan sem nenhuma ajuda dos Templários da Ordem do Corvo Branco.

Sina olhou para a parede externa da aldeia. A parede estava queimada e desmoronada como se tivesse sido atacada. Sina imaginou o muro caindo sobre os cavaleiros da Ordem da Rosa Azul.

— Acho que não tenho escolha…

Sina sentiu um farfalhar em seus pés ao entrar na aldeia, e percebeu que era sangue seco que manchava suas botas. Sina ficou pálida de medo quando viu cadáveres espalhados por toda a praça do vilarejo. Ela notou pelo menos mais de trinta corpos, mas parecia que havia mais devido ao fato de a montanha que cercava a praça do vilarejo ser estreita.

Sina prometeu a si mesma que faria com que o capitão, que descreveu essa perda como “poucos soldados” pagasse o preço.

Sina continuou caminhando. Através da neblina, ela podia ver a silhueta de um menino. Sina parou a uma distância em que poderia ver o rosto dele. Juan estava sentado no meio da praça sangrenta.

— Já faz algum tempo, Sina Solvane.

A aparência de Juan não era muito diferente da última vez que Sina o tinha visto.

Ele ainda parecia pobre por não ter conseguido se limpar, e seus olhos ainda tinham a mesma profundidade assustadora, como se fossem engolir você.

Mas Sina sentiu como se o espírito dele tivesse mudado. Seu espírito ainda abrigava um ódio ardente, mas não era quente; era bastante frio.

— Você fez algo terrível, Juan. Esses que você matou eram corajosos soldados do exército imperial. Eles merecem um funeral honroso.

— Eu disse a eles para levarem os corpos, mas não o fizeram. Por que veio sozinha? Onde estão os outros? Eu esperava que você trouxesse os Templários — Juan deu de ombros.

— Os Templários não virão — disse Sina.

Sina pensou em blefar por um segundo, mas sabia que Juan não acreditaria. Se ela tivesse que enfrentar Juan sem os Templários, seria melhor pisar em ovos com ele.

Juan pareceu surpreso. Olhando para a expressão dele, Sina pensou que, ou Juan era um ator muito bom ou que ele realmente não tinha ideia do que estava acontecendo. Mas Juan não era do tipo que escondia nada, pelo que Sina sabia.

— Juan, sugiro que se renda. Eu o protegerei o máximo que puder se você se render agora. Tenho certeza de que a corte imperial terá piedade de você se for submetido a um julgamento justo e prometer se redimir por meio de serviços — ofereceu Sina.

— Mesmo quando eu matei um templário?

— Só estou fazendo essa oferta porque a Ordem do Corvo Branco não está aqui.

Juan caiu na gargalhada com a oferta de Sina, depois balançou a cabeça.

— É muito generoso de sua parte, mas não estou interessado. Eu estava planejando matar todos eles se viessem — disse Juan.

— Por que isso? Peço desculpas se a operação de limpeza o ofendeu, mas ela foi ordenada por um inquisidor sem nosso consentimento. Você não acha que devemos nos acalmar agora que o Templário e o Inquisidor envolvidos na operação de limpeza estão mortos? — Sina tentou conciliar Juan.

— Kato está morto? — Juan perguntou.

— Sim. Seus ferimentos pioraram e ele morreu no leito da enfermaria.

Juan olhou para Sina, mas ela manteve a calma. Até onde Juan se lembrava, os ferimentos de Kato eram graves, mas não o suficiente para que ele morresse em um leito de enfermaria. Além disso, Kato era um Sacerdote, o que significava que ele poderia se curar. Mesmo que fosse difícil para ele se recuperar totalmente, ele teria sobrevivido facilmente com sua habilidade.

— É uma pena. Eu mesmo queria acabar com ele.

— Te garanto que ele não sentiu dor em seus últimos momentos.

Juan assentiu. Embora fosse inesperado que tanto Kato quanto a Ordem do Corvo Branco estivessem ausentes, seu plano permanecia inalterado. Quando Juan se levantou, a cortina cinza se estendeu.

Sina sentiu como se toda a praça do vilarejo estivesse se agitando.

‘Ele está usando a névoa novamente?’

Sina rastreou cuidadosamente o movimento da névoa. Ela considerou a possibilidade de Juan usar a névoa como da última vez que ele criou caos contra os cavaleiros, mas já tinha feito um plano para contra-atacar. Seria difícil para ele criar caos novamente usando a névoa.

— Você não veio aqui pensando que eu aceitaria sua negociação, não é?

— … — Sina permaneceu em silêncio.

— É bom ser astuto. Na verdade, essa era uma coisa que eu achava que lhe faltava. Você precisa ser mais parecida com o imperador; ele era desprezível e não hesitava em usar qualquer meio necessário quando se tratava de lidar com seus inimigos.

— Não insulte Sua Majestade — advertiu Sina.

— Se alguém pudesse insultar o imperador, essa pessoa seria eu — disse Juan ao virar a cabeça. Ele viu uma silhueta sobre a névoa de neblina. — É uma pena que eu não tenha conseguido matar Kato com minhas próprias mãos, mas meus planos não mudarão. Não pouparei a vida de meus inimigos. Matarei qualquer um que estiver em meu caminho.

Ao mesmo tempo, Sina gritou, e os batedores que cercavam a aldeia dispararam suas flechas.

Juan escondeu seu corpo sob a névoa fina, mas Sina desembainhou sua espada e correu para lá antes que ele pudesse se esconder. A espada de Sina roçou no cabelo de Juan e cortou alguns fios, mas Juan nem pareceu se importar. Com o movimento de Sina como um sinal, o som de uma trombeta alta ressoou por toda a aldeia.

Naquele momento, ouviu-se o som do galopar de um cavalo.

A Ordem da Rosa Azul estava se aproximando deles pela parte de trás da aldeia em cavalos de guerra gigantes.

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