Capítulo 37
Pétalas Caindo (5)
— Concentrem seus ataques na parte traseira! — Ossrey ordenou urgentemente, jogando seus dedos decepados no chão. Seu posto não o qualificava para dar ordens aos cavaleiros, mas ninguém desobedeceu, apesar da ausência de Sina e Haselle. Enquanto isso, Ossrey se preocupava com quanto tempo os cavaleiros da Rosa Azul poderiam resistir contra o Templário.
— Você, e você ai! Levem este herege e saiam da linha de frente! Entreguem-no à Ordem do Corvo Branco na Cidadela do Corvo Branco! — Ossrey ordenou.
— Mas…
— Vão! Agora!
Os cavaleiros só puderam concordar, impotentes.
Enquanto isso, Ossrey olhava para Arwain – sua aparência era miserável a ponto de não estar claro se ele estava vivo ou não; parecia mais um cadáver cinza coberto de poeira e sangue do que em si um Templário.
No entanto, seus movimentos estavam mais vivos do que nunca.
Os corpos dos cavaleiros voavam para o alto sempre que Arwain balançava seu martelo. Nem mesmo seus escudos serviam – os cavaleiros caíam no chão e não conseguiam se levantar. Se fosse difícil atacar os cavaleiros, ele atacava as cabeças de seus cavalos. Todos se perguntavam se alguém no mundo conseguia bloquear o martelo monstruoso de Arwain.
‘Um escudo de Templário realmente será capaz de detê-lo?’
Ossrey estava com medo, mas não tinha escolha senão investir contra Arwain.
Um dos cavaleiros lançou sua lança na cintura de Arwain, apenas para escorregar e dar a ele a chance de esmagar seu crânio.
Esta batalha parecia piorar a cada instante. Era impossível para os cavaleiros perfurar a armadura do Templário com as armas que tinham.
— Todos, recuem e mantenham distância! Não pensem em matá-lo. Encontrem uma maneira de restringir os movimentos dele! — Ossrey gritou desesperadamente. Ele sentia que, se fosse impossível matar Arwain, a única esperança deles era aproveitar seus movimentos lentos e amarrá-lo – até ouvir Juan sussurrar em seus ouvidos por trás de suas costas.
— Ah, não mesmo.
O pescoço de Ossrey rangeu quando ele virou a cabeça – Juan estava bem ali. Ele já havia escapado da rede e perfurado a cabeça dos cavaleiros com uma flecha. Além disso, Ossrey avistou dezenas de soldados cinzas dos Escoteiros mirando seus arcos e flechas em direção a ele, de cima do muro externo.
— O momento em que todos vocês entraram na praça da vila foi o momento em que perderam toda a esperança — murmurou Juan.
Naquele momento, uma flecha perfurou o abdômen de Ossrey.
***
Desde o momento em que Juan planejou permanecer na vila, ele começou a usar a capa cinza para acumular o máximo de poder possível. Não era muito difícil para ele, considerando que o mesmo poder já havia se dissipado no céu da Torre de Cinzas. Embora fosse difícil restaurar o poder ao nível em que mantinha a Torre de Cinzas, ele poderia recuperar poder suficiente para controlar uma pequena vila. Graças à absorção de todo o poder por Juan, o solo secou mesmo após longos dias de chuva.
O poder da capa cinza era mais eficaz contra múltiplos inimigos do que contra um único alvo. O poder que trazia a névoa era persuasivo por si só, mas também continha outro poder sombrio – transformava os mortos em escravos demoníacos. Essa era a razão pela qual o reino de Grunvalde era chamado de ‘Reino decaído’.
Como Juan estava enfraquecido após uma longa luta, ele utilizou os corpos dos Exploradores e criou um ambiente desequilibrado para os inimigos. Depois disso, Juan se dedicou a controlar os cadáveres e a vila ao longo do tempo. Embora não fosse o método mais eficaz para atacar no momento, era o suficiente para aniquilar a Ordem da Rosa Azul.
— K-ugh, arghhh! — Ossrey gritou de dor.
Juan estava realmente impressionado com Ossrey; ele ainda avançava contra Juan em cima de seu cavalo, apesar da grave lesão. A primeira flecha atingindo o alvo foi pura sorte, já que Ossrey não teve tempo de se preparar. A graça do Imperador não era poderosa o suficiente para proteger aqueles que nem sequer pretendiam se defender.
— Você é um cavaleiro notável, reconheço — elogiou Juan.
Enquanto Juan movia a mão, dezenas de flechas voaram em direção a Ossrey. Esse, que usou o escudo para se proteger, mas não conseguiu bloquear todas. O cavalo de Ossrey o derrubou no chão – não podia mais continuar com tantas flechas penetrando em seu corpo. Enquanto isso, Ossrey estava gravemente ferido, mas ainda vivo.
Juan pegou sua espada curta de Ossrey enquanto ele estava caído no chão.
— A-Argh, haa… C-Cavaleiros da Rosa Azul, recuem…
— Não, não há mais volta agora — interrompeu Juan.
Juan disparou uma flecha em direção aos cavaleiros que lutavam contra Arwain. Os cavaleiros foram pegos de surpresa com a flecha que voou subitamente em sua direção e tentaram usar seus escudos, mas logo foram esmagados pelo martelo de Arwain.
Arwain também foi atingido por algumas flechas devido ao seu corpo gigantesco, mas ele parecia não se importar.
— Sir Ossrey! — alguém chamou desesperadamente o nome de Ossrey. Os cavaleiros estavam em desordem, aguardando o comando. No entanto, ninguém estava dando ordens. Os cavaleiros gritavam palavras como ‘Corram!’ ou ‘Corram é o caramba, continuem lutando!’, mas só criava ainda mais caos sem ninguém para liderar a Ordem – não, ainda havia uma pessoa que poderia liderar a Ordem.
— Todos, recuar!
Assim que uma voz familiar comandou, os cavaleiros começaram a mudar seus movimentos.
No mesmo instante, Juan bloqueou um ataque com sua espada curta conforme alguém avançou sobre ele – era Sina, completamente ferida.
Qualquer um podia perceber que a condição de Sina estava ruim, mas ela não tinha escolha.
Sina segurava sua arma com a mão esquerda, ao invés do braço direito, que pendia do ombro.
Juan suspirou ao ver o cabo da espada de Sina tremendo.
— Você deveria estar liderando os cavaleiros e recuando com eles, não voltando para lutar contra mim — repreendeu Juan.
— Eu vou te deter, não importa o que aconteça!
‘Nessa condição? Ah, tá.’
Nesse momento, Juan percebeu que alguns de seus escravos demoníacos, os corpos dos escoteiros mortos, haviam sido atingidos por flechas pelo restantes dos escoteiros que estavam à espera emboscados. Sua coragem em atirar flechas em seus colegas que ainda poderiam estar vivos era digna de admiração.
— Você deu a ordem a eles? — perguntou Juan.
Sina não respondeu. Dezenas de flechas voaram ferozmente em direção a Juan – como se Sina tivesse comandado os Exploradores a atirar neles, sem se importar com sua própria segurança. Os soldados dos Exploradores superavam em número os escravos demoníacos de Juan, resultando em uma fácil queda diante das flechas.
Logo, os cavaleiros começaram a recuar.
— Não… ainda não — murmurou Juan.
A névoa no chão subiu aos céus conforme Juan chamava. De repente coberta pela névoa, o que reduzia sua visibilidade, Sina balançou sua espada com raiva.
— Truques inúteis! Você acha que vamos cair nessa de novo?! — Sina resmungou.
Flash!
Com o som de um flash, uma luz explodiu em algum lugar dentro da névoa.
Juan achou a luz muito familiar; ele se lembrou de ter visto a mesma granada de luz na Torre de Cinzas. Estava claro que os cavaleiros a tinham coletado na Torre de Cinzas para iluminar o caminho dentro da névoa como uma medida contra Juan.
Juan sorriu friamente. Foi apenas depois que Sina o viu sorrir friamente que ela percebeu que algo estava errado.
— N-não! Apague a luz! — Sina gaguejou.
Mas era tarde demais. A granada de luz iluminando o interior da névoa expôs os cavaleiros, transformando-os em presas fáceis para os escravos demoníacos de Juan.
Os cavaleiros que explodiram as granadas foram instantaneamente atacados com flechas. Ao mesmo tempo, pedaços de carne se espalhavam por toda parte sempre que se ouvia o som de um martelo sendo balançado.
— Não acho aquele desgraçado em lugar nenhum!
— E-Ele apareceu do nada…
— N-Não. Eu estava tentando apunhalar o monstro. Não quis te acertar…
Os cavaleiros explodiram em gemidos desesperados. Os escravos demoníacos tinham a habilidade de desaparecer e aparecer na névoa.
— Se eu fosse seu único inimigo, seu plano teria sido bem-sucedido — Juan deu de ombros.
— Ahhhh!
Sina empurrou desesperadamente sua espada. Ver Sina balançando fraca e precariamente sua espada com a mão esquerda, enquanto todo o seu corpo estava cheio de ferimentos, era uma cena patética.
Juan facilmente esquivou do ataque de Sina e a derrubou com o pé.
Sina foi lançada ao chão novamente. Enquanto cambaleava e tentava se levantar, os dedos de Sina tocaram algo – era Ossrey.
— Ossrey! Ossrey, acorde!
— Dama… Sina… — murmurou Ossrey, gemendo.
Sina tentou apoiá-lo, mas era impossível sustentar um homem adulto com a condição atual de seu corpo. Enquanto isso, ela podia ouvir o grito desesperado dos cavaleiros lutando, amaldiçoando e pedindo ajuda dentro da névoa, mas ela estava absolutamente impotente para fazer qualquer coisa por eles.
— Levante-se, Ossrey! Você está planejando morrer aqui?! — Sina gritou desesperadamente para Ossrey.
— Eu… queria que nós… voltássemos à capital… juntos — murmurou Ossrey com uma voz fraca.
Foi apenas então que Sina percebeu o acordo que Ossrey e Kato tinham feito. Kato não estava na posição de decidir se eles poderiam ou não retornar à capital, especialmente quando Sina basicamente deixou a capital por conta própria. Mas Sina podia fazer uma suposição sobre o que Ossrey tinha em mente ao fazer o acordo com Kato.
— Sim, devemos voltar para a capital! Se você se tornará ou não um Templário após retornar não importa, você precisa se levantar primeiro!
As palavras de Ossrey saíram apenas como um sussurro. Sina levantou a cabeça em desespero, tentando encontrar Juan, mas ele já estava fora de vista.
— Juan! Sou eu quem morrerei aqui! Então, deixe meus cavaleiros em paz! — Sina gritou.
— Sina, você ainda é tão ingênua depois de todos esses anos estudando história? — A voz de Juan veio de algum lugar além da névoa. — O imperador não poupa a vida de inimigos que poderiam representar uma ameaça. Dentro desta névoa estavam os corpos de cerca de trinta outros dos Exploradores.
Mais passos do que nunca podiam ser ouvidos dentro da névoa. Os sons pesados e arrepiantes de passos se aproximando não pertenciam aos cavaleiros da Rosa Azul.
Enquanto isso, os gemidos e gritos dos cavaleiros haviam diminuído significativamente. Não demorou para que um terrível silêncio preenchesse o ar além da névoa; apenas o som de passos pesados pairava ao redor de Sina.
Sina ergueu sua espada e manteve os olhos nos arredores, mas não conseguia ver ninguém. Até mesmo Juan havia desaparecido além da névoa.
— Juan! Revele-se! Vamos acabar com tudo aqui e agora! — Sina gritou dentro da névoa.
— Não — respondeu Juan calmamente.
Sina olhou ao redor enquanto respirava pesadamente, mas não conseguia descobrir de onde vinha a voz. Os únicos sons que ela podia ouvir eram os passos pesados e os gemidos de Ossrey, enquanto a névoa ao redor deles continuava a engrossar.
— Não quero matar você com minhas próprias mãos. Comecei a gostar da sua existência.
— Volte aqui!
— Então morra aí como um cachorro, da mesma forma que seus cavaleiros.
— JUAAAN!!!
No entanto, não houve resposta para os gritos angustiados de Sina.
***
Juan decepou a cabeça do último dos Exploradores restantes. Não havia mais deles cercando a vila. Não foi muito difícil para Juan matar os Exploradores presos dentro da névoa; alguns conseguiram escapar, mas ele não se incomodou em persegui-los.
Ao fazer um gesto, a névoa se dissipou no ar e se fundiu com a capa cinza. Juan havia contado com o poder da capa cinza durante a batalha, mas ainda estava exausto.
Juan saiu vitorioso, mas tal feito não teria sido possível sem alguns dias de preparação. Dispersando o poder da capa cinza de Grunvalde no céu e corrompendo o solo para invocar escravos demoníacos. Mesmo que os Templários tivessem vindo, eles não teriam conseguido escapar. Era uma quantidade excessiva de poder a ser usada apenas contra a Ordem da Rosa Azul, mas Juan não tinha arrependimentos, pois a Ordem do Corvo Branco não estava vindo.
Juan recolheu a névoa e desceu pela vila. Escravos demoníacos vagando se desfizeram, transformando-se em pó quando a luz do sol brilhou sobre seus corpos, e uma leve fumaça surgiu de seus restos. Entre o pó dos escravos demoníacos estavam os corpos dos cavaleiros caídos da Ordem da Rosa Azul — seus corpos estavam espalhados por toda a praça da vila; alguns morreram tentando fugir, enquanto o restante morreu lutando contra os escravos demoníacos.
Caminhando entre os cadáveres, Juan encontrou Arwain. Sua armadura estava coberta de marcas, mas ainda parecia intacta.
Juan pensou no que fazer com o equipamento de Templário de Arwain. Certamente ajudaria Juan se ele o absorvesse, mas ele sentiu que seria um desperdício de equipamento. Embora a graça dentro da armadura fosse rude e simples, poderia ser útil para pessoas além de Juan; Juan não era capaz de utilizar tal equipamento em sua condição atual.
‘Só vou ter que enterrá-las em algum lugar.’
Juan ordenou a Arwain que cavasse em algum lugar na floresta que fosse fácil de lembrar e depois o instruiu a tirar sua armadura. Pouco depois de Arwain tirar sua armadura, seu corpo pegou fogo e eventualmente virou pó.
Juan cobriu seus restos com terra e folhas.
— Você fez bem, obrigado. — Era a primeira e única vez que Juan agradeceria a Arwain.
Juan então voltou à praça da vila. A praça da vila estava ensanguentada, mas o tempo cuidaria disso. Mais cedo ou mais tarde, as bestas se reuniriam, atraídas pelo cheiro de sangue.
Juan virou forçadamente a cabeça na direção que ele estava evitando – ele tinha que verificar uma última vez.
Seu olhar pausou em um ponto. Era um ponto onde ele esperava ver o corpo de Sina.
No entanto, Sina estava lá, ainda viva e parecendo um espantalho caindo.
— Si…–
Juan tentou se aproximar enquanto a chamava, mas parou.
Ao redor de Sina estavam os corpos dos Exploradores. E a condição dela não estava melhor; era como um cadáver ambulante. Seu braço direito quebrado estava coberto de cicatrizes e marcas de flechadas, como se ela houvesse o usado como escudo. Haviam flechas presas em todo o seu corpo; no lugar de seu olho esquerdo, havia um buraco, como se ela tivesse puxado de lá uma flecha.
No entanto, Sina estava viva, e aparentemente ainda capaz de lutar.
— Sina — Juan chamou por seu nome.
Sina lentamente se virou para Juan, e seus lábios secos racharam conforme um sorriso apareceu em seu rosto.
— Vossa majestade.
A cavaleira lentamente se ajoelhou perante Juan.