Capítulo 38
Pétalas Caindo (6)
— Ossrey, aguente só mais um pouco. A Ordem do Corvo Branco estará aqui em breve — disse Sina enquanto cortava um escravo demoníaco que se aproximava. Ainda era estranho usar seu braço esquerdo, que ficava dormente só de ser balançado.
A boca de Sina estava seca, a garganta apertada, mas ela não conseguia parar de lutar nem por um segundo. Os passos se aproximando pareciam intermináveis, enquanto Sina continuava a balançar sua espada.
— Ainda consigo ouvir o som de alguém lutando. Deve haver alguns cavaleiros resistindo.
Clank!
De repente, a espada de Sina pareceu ficar presa entre ossos. Confusa, tentou puxar a espada, mas não foi fácil. Enquanto isso, um escravo demoníaco balançou sua espada curta, mas Sina bloqueou com o braço direito, resultando em um corte profundo no braço que já pendia sem vida. Com a espada ainda cravada no braço, ela se jogou contra o escravo demoníaco, caindo sobre ele e esfaqueando seu pescoço várias vezes com a espada.
— Somos a Ordem da Rosa Azul. Nunca perderemos para monstros como esses!
Enquanto Sina tentava se levantar, ouviu o som de algo cortando o ar. Sina tombou com uma dor aguda no pescoço, como se estivesse quebrado.
Embora Sina não conseguisse ver direito, conseguia localizar o inimigo pela direção da flecha que perfurava seu corpo. Sina gritou, avançou, apunhalou o inimigo com a espada e voltou apressadamente para Ossrey enquanto rastejava.
— É hora de reviver nossa cidade natal, não acha? — perguntou Sina a Ossrey.
Sina percebeu tardiamente que havia uma flecha enfiada em seu olho esquerdo. Parecia estar cravada na parte externa do crânio não dentro da cabeça, devido ao ângulo do disparo. Após quase desmaiar devido à dor tremenda causada pela tentativa de remover a flecha, Sina acabou a quebrando. Ela sentia a ponta da flecha chacoalhando dentro do crânio, mas rugiu enquanto arremessava longe o pedaço de flecha.
— Sobreviveremos e voltaremos juntos! Ossrey!
Ossrey nunca respondeu aos seus chamados.
A visão de Sina estava turva, era difícil saber se ela conseguia ver claramente; sua visão às vezes ficava vermelha ou, às vezes, um cinza fraco. Sina cortava qualquer silhueta em movimento que via e bloqueava com o braço direito se não conseguisse cortar. Seu braço direito parecia mais carne moída do que um braço; na verdade, a única razão pela qual ainda conseguia segurar a espada era o sangue seco grudando a espada em sua mão.
— …
Sina não falava mais com Ossrey. Para ser precisa, ela não conseguia mais abrir seus lábios ensanguentados e ressecados. Não conseguia mais ver silhuetas em movimento, mas continuava a balançar a espada instintivamente quando a névoa era movida pelo vento. Ela não sabia desde quando, mas seus outros sentidos haviam se tornado extremamente ativos em resposta à sua visão falha. Sina conseguia sentir o movimento da névoa e a sensação do vento roçando seu corpo; até conseguia sentir o gosto do sangue misturado à névoa. Sina não conseguia dizer se estava viva ou não.
‘Talvez eu já esteja morta e ainda lutando no inferno.’
Sina nem mesmo tinha certeza se era dia ou noite – há muito tempo havia perdido a noção do tempo. Parecia que mais de cem anos haviam se passado desde que ouvira Ossrey respondendo a ela. Independentemente disso, Sina não conseguia largar sua espada. Sentia como se alguém estivesse segurando a espada para ela, pois perdeu toda a sensação na mão. Era como se alguém estivesse balançando sua espada para cortar os inimigos por ela e a ajudando a se manter em pé. Mesmo que Sina estremecesse sem saber quem era, não era uma sensação ruim – Sina estava em uma zona. Ela recordou as palavras que ouviu quando foi expulsa da capital.
‘Você carece de fé em Sua Majestade.’
Sina ainda era uma cavaleira na memória distante…
‘Você não pode se tornar uma cavaleira com essa mentalidade.’
Mas agora, ela era mais cavaleira do que nunca.
Sina cortou outra silhueta através da névoa, e além da névoa, uma luz fraca iluminava o entorno.
Sina lutava para olhar para cima; embora ainda não conseguisse ver nada, podia sentir o brilho do sol em vez da névoa pesada e da escuridão. Alguém estava a observando, e Sina percebeu instintivamente que a luz era o calor que a havia guiado até agora. Os lábios rachados de Sina se abriram automaticamente enquanto ela se ajoelhava lentamente diante da luz.
— Vossa Majestade.
Sina tentou soltar sua espada, mas seus músculos rígidos não permitiram. Sina colocou as mãos no chão e curvou a cabeça enquanto segurava a espada.
— Apresento minhas saudações a Sua Majestade, o Imperador.
Sua Majestade não respondeu, mas Sina não ficou desapontada. Sua Majestade nunca respondia, apenas observava e guiava; as vontades de Sua Majestade eram manifestadas através dos cavaleiros do império.
— Eu dei o meu melhor para seguir a sua vontade, mas me falta a força.
Sina não acreditava realmente que tudo isso fosse real. Pensava que já estava morta e que finalmente estava encontrando Sua Majestade – agora era hora de receber o julgamento final. Sina apenas se sentia calma e descontraída. Achava que era melhor ter morrido com seus camaradas, já que seria cruel ter sobrevivido sozinha.
— Nunca fui elogiada por ser sua crente mais devota — admitiu Sina serenamente.
Sina nunca recebeu o reconhecimento dos Sacerdotes, Clérigos, Bispos, Inquisidores e Templários – todos aqueles que se consideravam os mais próximos de Sua Majestade. Questionavam a fé de Sina e ostracizavam seus valores. Sina se sentia muito confusa.
— Mas posso afirmar com confiança que nunca cometi nada vergonhoso em seu nome — afirmou Sina.
Sina não conseguia realizar qualquer ato vergonhoso. Tinha plena consciência de que havia traído as expectativas de sua mãe que queria que ela se juntasse à guarda imperial – de ser a pessoa mais promissora e talentosa para se tornar uma cavaleira destacada nas fronteiras.
— Aguardo sua punição.
Sina não conseguia dizer se Sua Majestade se importava, mas ela não se importava.
Ela não adorava Sua Majestade esperando recompensa ou castigo. Decidiu aceitar o silêncio de Sua Majestade como uma punição; no entanto, Sua Majestade de repente falou.
— Eu…
Surpresa com sua voz repentina, Sina levantou a cabeça. Era inédito ouvir Sua Majestade responder. Os Sacerdotes, Bispos e até o Papa apenas manifestavam a vontade de Sua Majestade por meio do movimento das estrelas, mudanças extremas no clima ou profecias ambíguas da santa.
Mas Sua Majestade estava claramente falando na frente de Sina, com a voz que ela sempre imaginou que ele tivesse.
— …nunca revelei minha vontade a ninguém.
Sina estremeceu com sua resposta. Se ele nunca havia revelado sua vontade a ninguém, então as palavras e ações da Igreja haviam sido uma mentira o tempo todo.
— Nunca disse a ninguém para me servir, ou distorcer meus ensinamentos. Nunca disse a ninguém para incendiar vilarejos, nem disse a ninguém para me louvar com o sangue dos fracos – nada disso era a minha vontade.
Sina sentiu como se tivesse sido atingida por um raio.
— Vossa Majestade, então isso significa que eu…
— No entanto, isso não significa que você tenha servido a um fantasma — respondeu o Imperador a Sina antes que ela terminasse suas palavras, quase como se soubesse o que ela estava prestes a dizer.
— Eu apenas queria que todos vocês vivessem de acordo com sua própria vontade. Você fez bem e já é uma boa cavaleira. Já é brilhante e bonita do jeito que é, então continue sendo você mesma.
Os olhos de Sina embaçaram. Ao longo de sua vida, ela foi rejeitada por pessoas que admirava. Até mesmo aqueles de quem ela gostava a abandonaram. Mas neste momento, o ápice da humanidade, Sua Majestade a aprovou.
— O que mais eu poderia dizer para você… — murmurou o Imperador com pena.
Sina, por outro lado, sentia-se completamente estranha.
— A noite está se aproximando, e ficará tão escura que pode suspeitar que as noites até agora foram apenas crepúsculo. Mas quero que você permaneça brilhante mesmo nas noites mais escuras e seja uma luz para aqueles que precisam de ajuda.
— Queimarei meu corpo com prazer e me tornarei a lenha para o farol em nome de Vossa Majestade.
— Não por mim — sussurrou o Imperador suavemente. — Mas para aqueles que estão perdidos na escuridão.
***
Sina abriu lentamente os olhos ao som de madeira queimando. Podia ver um céu escuro acima dela, tão escuro que parecia que estar cercada pela luz brilhante antes havia sido apenas um sonho.
Sina percebeu que ainda estava viva ao sentir o calor de uma fogueira em sua bochecha direita.
Ao tentar se levantar, sentiu uma dor terrível em todo o corpo e gritou.
— Você é tão barulhenta.
O corpo inteiro de Sina doía intensamente, e cada célula de seu corpo pulsava.
Naquele momento, Sina sentiu algo entrando em sua boca – um dedo. Sangue escorria de um longo corte feito nele. Sina tentou cuspir o dedo assim que percebeu que estava bebendo sangue, mas não conseguia reunir forças em seu corpo.
— É bom para você, então apenas beba.
Sina não tinha escolha. Estranhamente, Sina sentiu a dor se dissipar enquanto bebia o sangue gotejante do dedo. Só depois de muito tempo que Sina recuperou a consciência para perceber que o dedo não estava mais em sua boca. Sina virou a cabeça para encontrar alguém agachado na escuridão. Sina reconheceu a silhueta.
— Juan.
— Você levou dois dias para acordar. Eu estava prestes a te deixar se você não abrisse os olhos hoje — respondeu Juan.
Juan estava sentado a uma distância onde o calor da fogueira não alcançava. Sina tentou se levantar, mas logo desistiu; mesmo deixando de lado a dor, seus músculos convulsionavam sempre que ela colocava força em seu corpo. Ela procurou por sua espada, a vendo junto com seu equipamento pendurados em uma árvore próxima. Foi quando Sina percebeu que estava nua.
— Não tive escolha a não ser te tratar — reclamou Juan.
Sina olhou fixamente para Juan, mas não o culpou. Como Juan disse, seu corpo estava cheio de cicatrizes de queimaduras e pele costurada. Embora fosse feito de maneira grosseira, o tratamento foi definitivamente feito corretamente.
— Pensei que você tinha dito que iria me matar — disse Sina.
— Eu disse que não te mataria com as minhas próprias mãos. Não achei que você sobreviveria até o final.
— E os outros cavaleiros? Mais alguém sobreviveu?
— Não, só você.
Sina sentiu seus olhos lacrimejarem, mesmo que já esperasse por essa informação.
— Você deveria ter me deixado morrer. Teria morrido sozinha se me deixasse sem tratamento.
Sina tinha pelo menos três ou quatro ferimentos fatais, pelo menos era o que lembrava. Se tivesse sido deixada sozinha, teria morrido na praça da vila entre seus companheiros por sangramento excessivo.
Juan não respondeu.
— Você me salvou para me fazer provar do desespero? Ou foi para me mostrar como sou impotente?
— Não tenho tempo para desperdiçar com um hobby ruim de te humilhar.
— Então me diga.
Juan não queria responder, mas sabia que Sina não deixaria esse tópico de lado até que ele desse uma resposta.
— Estou planejando usar você como mensageira.
— Mensageira? — questionou Sina.
— Sim. Vendo que a Ordem do Corvo Branco não veio, parece que os Templários da Ordem do Corvo Branco não estão cientes de quão séria é essa situação. Se os Templários tivessem se juntado, talvez a Ordem da Rosa Azul não teria sido derrotada tão miseravelmente. Não acha que a Ordem da Rosa Azul teria tido uma melhor chance de resistir com a ajuda deles?
Enquanto Juan falava, Sina se moveu ferozmente em raiva e desmaiou por um momento. Quando ela recuperou a consciência novamente, Juan estava afastando seu corpo da fogueira.
— Parece que estou cuidando de uma criança brincando perto de um penhasco — disse Juan sarcasticamente.
— Eram todos cavaleiros honrados. Não os desrespeite.
— Considerando que morreram no campo de batalha, claro. Acho que poderia ser pior. De qualquer forma, poupei sua vida porque precisava de alguém para entregar minha mensagem à capital.
— Se você acha que serei mensageira para um herege, está enganado.
— Só ouvir o que estou dizendo agora é suficiente. Aqueles idiotas da capital vão fuçar sua mente de qualquer maneira. Vá e diga a eles…
Sina não pôde negar. Era verdade que havia pessoas na capital que poderiam usar drogas e magia para fazer isso.
Juan se curvou para Sina, e seus olhos negros com profundidade infinita pareciam um abismo ainda mais escuro que o céu noturno.
— …que o imperador voltou. Diga a eles que aqueles que ousaram usar o título do imperador e distorcer sua vontade serão punidos, que nem a morte pode lavar seus pecados. Diga a eles que os traidores não encontrarão o imperador benevolente que lembram, mas o imperador cheio de ira e vingança. Diga a eles que o imperador voltou — Juan sussurrou com um sorriso sombrio. — Voltou com sua espada.
Sina permaneceu em silêncio, incapaz de desviar o olhar de Juan. Ela foi dominada por um poder avassalador. Sentia como se estivesse sendo segurada firmemente em seu punho apenas olhando para seus olhos.
Sina nem se deu ao trabalho de perguntar a Juan quem era o imperador, pois Juan deu a resposta várias vezes. Embora ela se negasse a aceitar, as palavras de Juan estavam abalando Sina.
O imperador que ela encontrou em seu sonho disse que nunca havia ordenado sua vontade a ninguém. Isso significava que todos aqueles que representavam a vontade de Sua Majestade na capital poderiam estar mentindo.
— Você não é Sua Majestade — Sina grunhiu enquanto resistia; era tudo o que ela podia fazer. — Sua Majestade não guarda ódio. Ele conhece o valor do perdão e do amor — refutou enquanto Juan ria dela.
— Você não sabe de nada. O imperador nunca trouxe nada além de desespero.
— Isso é mentira. Sua Majestade deu coragem à humanidade que estava sofrendo.
— Não é mentira. O imperador sempre trouxe o desespero mais profundo aos seus ‘inimigos’.
— Não distorça a vontade de Sua Majestade! — gritou Sina.
— Não sei mais o que dizer. Estou apenas interpretando minhas próprias palavras — Juan sorriu de forma sarcástica.
— Ainda há muitas pessoas aguardando o retorno de Sua Majestade… — retrucou Sina enquanto encarava Juan.
— Claro que há. Eu também os vi.
— Você definitivamente não é o imperador que estão esperando. Claro, não há como você ser realmente Sua Majestade e eu nunca vou reconhecer isso, mas se você ainda afirma ser o imperador… não posso te deixar em paz. — Sina encarou Juan. Ela só tinha um olho, mas seu olhar era ainda mais forte do que quando tinha ambos os olhos. — Não terei escolha a não ser te matar para protegê-los do desespero que você trará.
— Acho que não poderei evitar quando você ganhar a habilidade de me matar — Juan sorriu satisfeito.
Juan estendeu a mão em direção ao lado esquerdo do rosto de Sina. Ela lutou para evitar sua mão, mas seu corpo estava fora de controle. No momento em que a mão de Juan cobriu o olho esquerdo de Sina, ela sentiu uma dor ardente.
— …!
Era uma dor tão tremenda que Sina nem conseguiu gritar.
Juan passou muito tempo escaldando uma grande cicatriz profunda no lado esquerdo de seu rosto. Durante esse tempo, Sina desmaiou repetidamente e acordou várias vezes convulsionando. Finalmente, Sina começou a espumar pela boca e perdeu completamente a consciência.
— Se você for a única que sobreviveu novamente, a capital definitivamente vai pegar pesado com você. Mas não vão desconfiar de você quando virem essa cicatriz — Juan murmurou enquanto olhava para o corpo caído de Sina.