Capítulo 48

Os Jackdaws (2)

— Annabelle, você envolveu a ordem dos cavaleiros desta vez por causa desse garoto? — Dilmond perguntou a Anya.

Anya hesitou por um momento, mas logo assentiu com a cabeça.

— Para falar a verdade, a maior parte da oposição à sua decisão foi de mim. Não apenas porque a condição do Sir Ras não está boa, mas também porque a atenção da Igreja está voltada para nós devido ao tumulto na região sul.

— Sir Dilmond, eu…

— Eu ainda não confio completamente em sua decisão ou neste garoto. Mas consigo entender por que você decidiu apostar neste garoto.

Anya ainda estava confusa.

Nem ela nem Juan pareciam querer se explicar para Dilmond.

— Sir Ras está dormindo no momento. Seria melhor encontrá-lo amanhã, pois você não poderá falar com ele hoje mesmo se o visitar. Ficaremos na superfície para ficarmos de olho na Ordem dos Corvos Brancos — Dilmond disse.

Anya assentiu e conduziu Juan e Heretia até o esconderijo subterrâneo.

Enquanto Dilmond encarava as costas deles até desaparecerem de sua vista, o cavaleiro ao lado dele de repente fez uma pergunta.

— Senhor, você conhece aquele garoto?

— Não, nunca o vi antes — Dilmond respondeu.

— Então por quê…?

— Porque ele me lembrou Sua Majestade por um segundo; Sua Majestade também tinha cabelos pretos e usava uma espada em chamas. Embora tenha se passado muito tempo e eu possa estar me lembrando erroneamente, acho que a maneira como Sua Majestade costumava falar também era bastante semelhante à desse garoto. Sua Majestade não se importava com formalidades quando estava com seus camaradas.

— Perdão? Eu ouvi dizer que Sua Majestade possuía cabelos loiros tão brilhantes quanto o sol, não era verdade? — perguntou um dos cavaleiros, curioso.

— Não, os cães da Igreja tentaram retratar e fabricar a imagem de Sua Majestade com uma auréola sagrada atrás dele. É apenas uma interpretação errada, mas eles continuam a descrevê-lo assim porque acham que é mais sagrado. Além disso, pessoas de cabelos pretos só vêm de além da fronteira, então há também a questão de manter a propaganda de que aqueles além das fronteiras não recebem as bênçãos de Sua Majestade. Na realidade, Sua Majestade tinha cabelos pretos —  Dilmond disse com uma careta, como se lembrasse de algo desagradável.

— Então, a identidade daquele garoto…

— Sim, eu não sei… – Dilmond disse confuso. — Não tenho certeza se será a chegada da desgraça ou da esperança, mas parece que um novo vento logo soprará pelo império.

***

— Hm, Juan?

— O quê?

— Se não se importar, pode nos contar sobre a conversa que teve com o Sir Dilmond mais cedo? — Anya perguntou hesitante enquanto seguia Juan.

Ao se virar, Juan percebeu que Heretia também o observava com um olhar curioso.

Juan tentou dar uma resposta vaga, mas então se lembrou do rosto de Sina Solvane do nada. Juan se lembrou de como Sina disse que, embora estivesse convencida de que Juan era o Imperador, ela não podia admitir tal fato, já que essa verdade apenas esmagaria os sonhos e esperanças de inúmeras pessoas que ansiavam e aguardavam o retorno do Imperador. Juan não queria que suas respostas vagas e ambíguas fizessem com que mais pessoas começassem a pensar como Sina.

— Não é nada. Eu só fiquei feliz em ver alguém que eu conhecia — Juan respondeu.

Embora Juan houvesse se encontrado com Dilmond apenas uma vez, ainda era bom ver alguém de sua memória. Juan pode ter encontrado Dilmond enquanto ele fazia um discurso, ou quando estava conferindo a cavalaria, mas não estava claro em sua memória.

Juan deixou claro para Anya que não queria falar mais sobre o assunto.

Anya parecia ter mais perguntas, mas não as fez.

— De qualquer forma, Ras não está bem?

— Não. Ele está em má condição desde alguns anos atrás. Foi por isso que tentamos assassinar Barth Baltic, mesmo sabendo que estávamos sendo apressados. E assim, falhamos. Como consequência do incidente, estamos nos escondendo na Montanha de Laus há anos.

— E você preencheu o vazio deixado por Ras?

— Sim, mas eu não sou boa o suficiente. Sir Ras me ensinou muita coisa. Para ser honesta, há muitos outros que são muito mais adequados para ocupar o lugar dele do que eu, como o Sir Dilmond ou o Sir Piette. Mas todos queriam que a pessoa que sucedesse Sir Ras fosse alguém jovem…

— E pelo que parece, você não está dando conta.

— Não posso ocultar o fato de que não sou habilidosa o suficiente. Precisamos proteger a ordem dos cavaleiros na ausência do Sir Ras, e ao mesmo tempo, fazer de tudo para protegê-lo. Todos estão tendo dificuldades, já que Sir Ras nos liderou nas últimas décadas — disse Anya, dando a Juan um olhar furtivo, como se esperasse que Juan preenchesse o vazio deixado por Ras.

Juan ignorou o olhar de Anya e apontou para o Poliedro Indefinido que ela segurava.

— Essa joia tem algo a ver com se preparar para os problemas que se aproximam de Ras?

— Sim. Se o golem da Torre das Cinzas era uma maneira de destruir o império na ausência de Sir Ras, este Poliedro Indefinido é uma das formas de melhorar sua condição atual.

Juan encarou o Poliedro Indefinido com um olhar desconfiado. A joia era bastante incomum, até para Juan, e emitia uma atmosfera desconfortável devido à sua energia e habilidade. Sua descrição de ser capaz de absorver energia negra parecia correta. A gema tinha propriedades bastante semelhantes a um veneno mortal e causaria danos massivos uma vez que sua energia fosse liberada – embora fosse desconhecido quanto de energia ela havia absorvido anteriormente.

‘É como uma bomba de energia profana.’

A coisa mais perturbadora sobre a joia era que era impossível adivinhar sua origem. Não se parecia com nada que Juan já tinha visto antes, e sua composição era extraordinária. Como Juan buscava força e inteligência com a mesma intensidade, ele podia entender por que outros sentiam uma ânsia vaga por causa da joia.

— Como essa joia vai ajudar a melhorar a condição do Ras? Ele está viciado em alguma coisa? — perguntou Juan.

Anya tinha uma expressão amarga, junto com sinais de culpa em seu rosto.

— Você vai descobrir quando encontrá-lo amanhã. Estamos planejando começar a usar o Poliedro Indefinido a partir de hoje. — Anya encerrou a conversa por ali.

Caminhando na escuridão, Anya de repente parou no meio do longo canal e se virou, olhando de um lado para o outro entre Juan e Heretia com olhos oscilantes.

Juan se perguntou por que Anya de repente parou quando não havia nada ao redor deles, quando percebeu as ações de Anya.

Juan abriu a boca antes que Anya o fizesse.

— Heretia, seria melhor se você voltasse agora.

— Hã? Por quê? — protestou Heretia.

— Aqui deve ser o esconderijo da Ordem de Huginn de verdade. Você não tem relação com eles, sem mencionar o fato de que você nem sabia onde eles estavam em primeiro lugar.

Heretia se encolheu. Juan já havia percebido que ela estava mentindo o tempo todo. Heretia era uma boa mentirosa, mas não boa o suficiente para esconder completamente a verdade.

No entanto, Juan não se importava, considerando a dívida que devia a Harmon Helwin. Deixar Heretia sair impune com suas mentiras era suficiente para saldar a dívida.

— Minha família tem muitas fontes de informação, então eu estava planejando investigar isso. Na verdade, eu já dei instruções e teria sido apenas uma questão de tempo até que eu descobrisse sobre eles — disse Heretia, quase como se estivesse se desculpando.

— Não importa mais. Volte.

Heretia mordeu os lábios.

A expressão de Anya não era muito diferente da de Juan.

Heretia queria protestar, mas foi apenas graças a Juan que ela conseguiu chegar tão longe com seu plano.

Anya se aproximou de Heretia e a conduziu para longe.

— Vou arrumar alguém para te levar de volta. Você não terá problemas mesmo se a Ordem do Corvo Branco a encontrar, já que você não tem nada a ver com a nossa ordem — disse Anya.

— Eu preciso do Poliedro Indefinido… — protestou Heretia antes de ser levada por Anya. — Era um item que eu poderia ter em minha posse se você não tivesse roubado… Eu realmente preciso. Não posso simplesmente voltar assim.

— Você nem sequer me compensa por cooperar com o seu plano, e ainda está me dizendo que quer o Poliedro Indefinido?

— Pelo menos meu plano era uma alternativa melhor do que você ficar vagando pelas ruas. Sei que pareço irracional, mas eu realmente preciso do Poliedro Indefinido. Já sacrifiquei muita coisa para simplesmente desistir dele agora.

— A condição do Sir Ras vai piorar sem ele — retrucou Anya com sobrancelhas franzidas.

Ouvindo isso, Heretia não pôde mais protestar, e Juan leu a expressão sutil em seu rosto. Heretia não queria que Hiveden caísse, e ela não queria prejudicar a Ordem dos Huginn também. Mas dadas as circunstâncias, não importa qual escolha fizesse, ela estava destinada a perder pelo menos uma das duas.

Juan decidiu aliviar suas preocupações.

— Volte por enquanto.

— Mas, Juan…

— Eu disse para voltar. Se realmente precisa do Poliedro Indefinido, estou certo de que não se importaria de esperar alguns dias. Vou tentar te ajudar se você esperar.

***

Juan passou um dia no esconderijo subterrâneo de Hiveden. O esconderijo era rudimentar, mas era grande e estável, como se tivesse sido construído na época da construção da cidade. Havia também características como corredores complicados e armadilhas para retardar inimigos externos em caso de uma invasão.

Assim que Juan acordou do sono, foi levado à residência de Ras por Anya.

Os olhos sonolentos de Anya e as olheiras abaixo deles permitiam saber que ela havia estado ocupada a noite toda.

Ela virou seguindo o corredor turvo várias vezes e passou por um dispositivo especial.

Caminhando ao lado de Anya, Juan sentiu que esses caminhos foram feitos para aprisionar Ras ao invés de protegê-lo.

Os passos de Anya eram pesados, e ela não disse uma palavra enquanto se movia. Tudo o que ela fez foi murmurar algo baixinho enquanto olhava para o raio de sol da manhã que vazava pelo buraco de ventilação.

— Sir Ras encontra a paz quando há sol… — murmurou Anya.

Juan relembrou suas memórias de Ras na noite passada. Ras era o mais jovem dos quatro filhos que Juan havia adotado. Comparado aos seus irmãos, Ras não passava muito tempo com Juan. Ele era uma criança que amava o sol quente mais do que qualquer um. Juan não conseguia acreditar que tal criança residia nessa escuridão.

— Juan, é aqui onde o Sir Ras Raud está — disse Anya para Juan por trás de seu olhar.

Juan olhou silenciosamente para a porta que se abria lentamente diante de seus olhos. Havia um raio de sol fraco vazando do teto no meio da escuridão. O raio de sol que vazava em um ângulo era fino, como um fio. E dentro da sala, alguém estava agachado, refletindo o sol fraco nas costas da mão.

— Ras.

O homem agachado levantou lentamente a cabeça. Ele usava uma túnica marrom-avermelhada espessa com uma máscara branca. A espada pendurada em sua cintura tilintou conforme ele se movia, e havia um cheiro estranho semelhante ao de pacientes doentes vindo dele. Em uma de suas mãos, ele segurava o Poliedro Indefinido.

— Nos deixe sozinhos por um tempo — disse Juan a Anya enquanto olhava para trás.

— Perdão? Mas…

— Por favor.

Anya pareceu surpresa por um momento com o pedido de Juan, já que ele parecia estar longe de ser alguém que sabia dizer “por favor”. Anya olhou de um lado para o outro entre Juan e Ras. Quando viu Ras acenar lentamente com a cabeça, ela se afastou.

Juan abriu a boca primeiro quando ficaram sozinhos.

— Lembro-me de quando nos conhecemos pela primeira vez.

O homem por trás da máscara branca encarou Juan. Seus olhos estavam cheios de escuridão, completamente sem alma e sem vida.

— Foi no décimo terceiro templo de Nigrato, o Deus da Morte. Na época, Nigrato havia se suicidado para fortalecer seu poder mais uma vez. Havia incidentes frequentes de seus seguidores sequestrando crianças e as oferecendo como sacrifícios para revivê-lo.

Talter desfrutava de um banquete de loucura vívida. Mas Nigrato era um deus que se contentava com a morte lenta, decomposição de um corpo e até mesmo esqueletos. Era natural que o deserto seco fosse seu lar.

— Você era uma sacrifício que tinha sido sequestrado. E foi enterrado vivo no templo subterrâneo de Nigrato. Não sei o que se passava em sua mente naquele lugar onde nem um único raio de luz alcançava. Ao invés de ser a presa de Nigrato, você escolheu a vida, comendo os outros cadáveres e bebendo a água do esgoto.

Ras deixou cair o Poliedro Indefinido de sua mão. Seus dedos ossudos brancos e magros tremiam.

— Destruí o templo e o trouxe comigo. Mas nunca pensei uma vez sequer que o havia salvado. Foi você quem se salvou. Afinal, seu coração era forte demais para ser levado por alguém como Nigrato — continuou Juan.

Ras estava meio erguido agora.

Ao se levantar, Juan percebeu seus ossos finos e brancos através de sua túnica antiga e esfarrapada. A garganta de Juan se apertou ao ver as manchas pretas de decomposição em seus ossos.

— Você tinha uma personalidade reservada. Comparado aos seus irmãos, você era mais jovem e tinha uma visão ruim, provavelmente porque passou muito tempo na escuridão do templo de Nigrato. Seus irmãos gostavam de esgrima, mas você preferia ler na biblioteca. Embora seus irmãos costumassem zombar de sua personalidade sombria, mais do que tudo, você gostava de se sentar perto da janela onde o sol brilhava mais forte na biblioteca.

Antes que percebesse, Ras estava se aproximando lentamente de Juan. Ras era alto, com mais de dois metros de altura, mas seus passos eram silenciosos e leves para alguém de seu tamanho.

— Você era mais inteligente do que qualquer um, especialmente com sua compreensão requintada de magia. Embora pudesse pensar que eu não sabia muito sobre você e que não passei muito tempo com você, havia coisas que certamente não poderia esquecer sobre você. Eu nunca poderia esquecer a expressão que você fazia quando se concentrava em aprender os novos feitiços de magia que eu ensinava a você, ou a expressão que fez quando percebeu como criar uma esfera de luz no escuro, Ras.

Ras se ajoelhou na frente de Juan. Sendo um homem alto, ele ainda era uma cabeça maior que Juan mesmo ajoelhado. Ras encurvou o corpo como se nem mesmo conseguisse entender tal diferença de altura, e tremeu. Ele levantou lentamente a mão para sentir o rosto de Juan, e Juan o deixou fazer o que quisesse.

A mão de Ras era dura e fria. Juan estendeu lentamente a mão para colocar na máscara de Ras.

— Ras, meu filho.

O movimento de Ras congelou. Mas ele não podia rejeitar o toque de Juan. Juan o desmascarou lentamente. Por trás da máscara, um crânio humano branco foi revelado. O filho mais novo de Juan havia se tornado um morto.

『Pai.』

Ras começou a soluçar enquanto se ajoelhava aos pés de Juan. Seu rosto sem pele não era capaz de derramar uma única lágrima.

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