Capítulo 51

A Véspera da Guerra (2)

Conforme Ethan invadiu a sala, as pessoas em meio a escuridão se levantaram nervosas.

Os guardas seguiram Ethan perplexos. O certo a se fazer era o impedir a invasão do lugar, mas, nenhum guarda se atreveria a mexer com um templário.

— Ethan? Este é o conselho administrativo de Hiveden. Não é um lugar onde alguém como você possa sair invadindo assim.

Ethan encarou o homem que o repreendeu. Ele costumava ser um nobre insignificante na capital, mas após se mudar para Hiveden se tornou o chefe da indústria de empréstimos. Os outros na sala não eram muito diferentes; dentre eles havia uma prostituta, um vigarista, um gângster, um apostador e até mesmo o líder dos contrabandistas.

As autoridades da cidade sem lei conhecida como Hiveden eram esse variado grupos de criminosos.

— Parece que o Conde Henborn morreu mesmo. Você é o novo chefe do conselho de Hiveden?

— Sou. Meu nome é Ardin. Me disseram que você foi o último a se encontrar com o Conde Henborn. Sabe de algo sobre a morte dele? — Ardin perguntou, em um tom de suspeita.

O restante do conselho não possuía escolha a não ser se impor e passar a se movimentar agora que Henborn, que costumava ser o líder do conselho, fora encontrado morto na última noite.

— Eu não teria deixado o corpo dele intacto se fosse o responsável pela morte dele. Eu pensei que matar sem deixar suspeitas era especialidade de vocês, me enganei? — Ethan retrucou com um olhar zombeteiro.

As expressões de Ardin e do resto dos membros do conselho mudaram quando ouviram sobre a suspeita de Ethan de eles terem usado veneno para assassinar Henborn.

A suspeita de Ethan era normal, já que os próprios membros do conselho também suspeitavam uns dos outros. A razão pela qual o conselho foi convocado imediatamente após a morte de Henborn era para que todos os membros pudessem monitorar uns aos outros e confirmar que o culpado não era um deles.

— Por favor, tenha boas maneiras. — Disse Ardin com cautela, pois era o único que poderia responder a um Templário tendo em vista seu status.

Ethan nem se preocupou em olhar para Ardin e tirou a espada da cintura, fincando-a instantaneamente na mesa. Com um som alto, a mesa rachou como se estivesse prestes a se partir ao meio. A espada de Ethan perfurou tão profundamente o móvel que a lâmina nem sequer estava visível.

— A única cortesia que mostrarei é não matar vocês, criminosos, agora mesmo. O Conde Henborn não está mais aqui para proteger vocês, e a Ordem de Huginn por trás de vocês está com o tempo contado. A Ordem do Corvo Branco está a caminho. — Disse Ethan.

Ardin gelou e engoliu em seco.

— Eu deveria ter feito isso há muito tempo atrás, mas antes tarde do que nunca. Planejo limpar a cidade e jogar o lixo fora. Contudo, darei uma chance a vocês.

— O-O que quer de nós?

— Desistam do seu controle sobre a autonomia da cidade.

Ardin imediatamente fez uma expressão de desaprovação.

— Não é possível! O direito de controle sobre a autonomia de Hiveden foi aprovado pelo conselho dos nobres! Não é algo que pode tirar de nós assim! Se estiver com alguma intenção gananciosa…

Nesse momento, a mão de Ethan se estendeu para segurar o pescoço de Ardin e o erguer ao ar.

Os demais membros do conselho imediatamente sacaram suas armas, e os guardas antes escondidos nas sombras logo saltaram para fora e cercaram Ethan.

Ethan não tinha guardas para protegê-lo, pois tinha vindo sozinho para o conselho, enquanto os membros do conselho tinham guardas que pareciam muito mais habilidosos em comparação a soldados comuns.

No entanto, Ethan nem piscou quando os viu.

— Você realmente acha que me importo com a riqueza ou com autoridade? — Ethan sussurrou para Ardin enquanto ainda segurava seu corpo no ar. — Deixe os cães e os porcos brigarem por isso. A única coisa que me importa é acabar com os inimigos de Sua Majestade.

Ele deixou Ardin cair no chão ofegando por ar enquanto recuava. Medo e ódio por Ethan se manifestaram no rosto de Ardin enquanto Ethan sorria estendendo a mão para os outros guardas.

— Abaixem suas armas. Se continuarem as segurando, posso interpretar errado as suas ações e entender isso como um desafio.

— Você não faz ideia de quantas espadas estão apontadas para você nesse quarto. — Ardin ameaçou Ethan.

— Realmente, mas me pergunto quantos deles conseguiriam de fato chegar perto de mim.

Ardin se calou – seu silêncio implicava que ele concordava com Ethan. Mesmo que Ardin ordenasse que seus guardas o atacassem, ele não tinha certeza de quantos deles poderiam resistir ao contra-ataque de Ethan.

 

O capitão da Ordem do Corvo Branco era um dos homens mais poderosos do império. Por outro lado, mesmo que por algum milagre fossem capazes de matá-lo, Hiveden não seria capaz de lidar com as consequências de matar um Templário. Era óbvio que sua ordem de cavaleiros iria buscar vingança contra cada uma das pessoas que estavam naquela sala, seja alguém que deixou uma marca na armadura de Ethan, ou alguém que só assistiu.

Embora a Igreja apoiasse Ethan, o mesmo se aplicava ao conselho governante de Hiveden, eles tinham os nobres da capital e os Templários corruptos para protegê-los. Se os nobres da capital e os Templários corruptos unissem forças, a Ordem do Corvo Branco não teria escolha senão pagar o preço pela sua arrogância.

— Você acha mesmo que os nobres da capital deixariam você tirar de nós o direito de autonomia?

— Eles não vão. Mas você não acha que todos vocês vão morrer antes disso? — Ethan riu.

Ardin se arrepiou por inteiro com a risada de Ethan.

‘Esse lunático realmente está planejando encontrar a Ordem de Huginn e destruí-la, independentemente das consequências.’

Agora a questão recaía sobre de que lado eles deveriam ficar para sobreviver.

Ardin e os outros membros do conselho calcularam rapidamente os lucros, o apoio e o potencial futuro que ganhariam através da Ordem de Huginn e compararam tudo com os riscos que teriam de enfrentar se rejeitassem a oferta de Ethan; não era uma decisão difícil de tomar.

— Vou considerar sua oferta. Por favor, nos dê algum tempo para pensar.

— Vocês têm até amanhã para decidir.

— É pouco tempo! Preciso de pelo menos mais uma semana…

— Já posso ver você implorando aos nobres da capital para interferirem. Mas se acha que choramingar como um bebezinho vai mudar alguma coisa, está errado — disse Ethan enquanto saía pela porta. — Repito, vocês têm até amanhã de manhã. Se eu não receber uma resposta sua até lá, Hiveden terá que lidar com uma guerra. Me pergunto quanto tempo esta cidade durará contra a Ordem do Corvo Branco e os Patrulheiros da Montanha Laus.

***

A sala inteira ficou em silêncio. Os membros do conselho sentiram como se a espada cravada no meio da mesa estivesse cravada em suas testas.

O primeiro a quebrar o silêncio foi Ardin, alguém que liderou Hiveden servindo de perto o Conde Henborn.

— O que vamos fazer?

— Como assim “o que vamos fazer”?! — um homem careca se levantou e gritou irritado com o tom de ansiedade na voz de Ardin. — É óbvio o que esses fanáticos farão depois de nos tirarem os nossos direitos de autonomia! Eles farão com que a nossa cidade seja exatamente como uma daquelas cidades religiosas comuns. Esses desgraçados podres da Igreja vão roubar nossa base de operações!

Ardin olhou para o careca apavorado. Seu nome era Yuldrick e ele era o capitão dos mercenários. Embora fossem chamados de mercenários, nada mais eram do que um grupo de bandidos quando não tinham trabalho.

— Eu concordo. Eles podem até dizer que nos deixarão em paz desde que renunciemos ao nosso direito à autonomia, mas aposto que continuarão a tentar controlar a nossa cidade. Não seria tão difícil para eles se aproveitarem de nós pela segunda vez. Acabaremos como os Patrulheiros da Montanha Laus e teremos que servi-los por toda a eternidade — disse Celpha, o líder da indústria da prostituição e chefe da indústria do tráfico humano.

— Ter a Ordem do Corvo Branco no nosso pé já é preocupante, mas também temos que tomar cuidado com os sacerdotes por trás deles. Ouvi dizer que o Conde Henborn estava planejando dar um presente ao bispo Rietto, mas foi roubado. Isso pode acabar se voltando contra nós. Talvez os idiotas da Igreja estejam tentando aproveitar essa oportunidade para dominar a cidade. — Disse Gino, o dono do cassino.

Como se tratava de uma questão de subsistência, a maioria dos membros do conselho se opôs à ideia de abrir mão do direito de autonomia da cidade. Embora a maior parte dos seus ganhos fossem provenientes de métodos ilegais, eles não podiam deixar de sentir como se a sua principal fonte de renda estivesse sendo roubada. A atmosfera na sala logo ficou pesada.

— Então por que vocês não disseram isso a Ethan quando ele estava aqui? — Ardin murmurou para os membros do conselho.

A sala mais uma vez ficou em silêncio com as palavras de Ardin.

— Como estão nossas defesas na cidade? — Gino cuidadosamente quebrou o silêncio.

— Temos mercenários e muitas forças armadas. Mas não temos equipamento adequado. As muralhas são baixas e finas e não temos panelas suficientes para ferver óleo e nem flechas suficientes para atacar, também faltam guardas para patrulhar as muralhas.

Hiveden não foi construída durante a era dos deuses ou a era do imperador; ela havia sido fundada recentemente. Como a cidade ficava próxima da capital, não havia necessidade de se preocupar com a invasão estrangeira. E por estes motivos, a muralha foi mal construída com apenas o propósito de separar o interior e o exterior da cidade, e não com o propósito de servir de defesa. Pelas mesmas razões, a cidade também carecia de equipamentos de defesa.

— O quê? Então qual é o sentido de ter guardas?

— Não sei se você é idiota mesmo ou se faz, mas é porque é mais importante monitorar nossos cidadãos “honrados” e “cumpridores da lei” para que não se esfaqueiem, do que cuidar dos inimigos estrangeiros inexistentes.

Era difícil dizer que Hiveden tinha uma segurança excelente. Embora algumas pessoas rissem disso, a cidade de fato tinha forças de segurança. Mas elas já estavam sobrecarregadas, tendo que evitar que pequenas brigas se transformassem em grandes massacres.

Os membros do conselho colocaram as mãos nas testas ao perceberem essa realidade.

— Todos concordamos que é impossível lutar contra a Ordem do Corvo Branco, certo? — Celpha grunhiu.

— Ah, sim, eles definitivamente nos acusarão de prejudicar a dignidade de Sua Majestade se ousássemos deixar um arranhão em seus equipamentos. Precisamos dar justificativas para nossas ações… como provar que a Ordem de Huginn não está escondida em nossa cidade.

— Bom, temos nossos contatos na capital. Vamos contatá-los primeiro. Sua Santidade tem se beneficiado do dinheiro que enviamos, então estará do nosso lado. A Ordem do Corvo Branco não seria capaz de recusar o comando de Sua Santidade.

— Você não ouviu o que aquele lunático disse? Ethan disse que não se importa com as consequências.

— Bem, Sua Santidade terá que pelo menos nos enviar um exército se a Ordem do Corvo Branco se recusar a seguir as ordens! Ele tem vivido do nosso dinheiro até agora! — Yuldrick gritou como se tivesse enlouquecido.

Os outros membros do conselho encararam Yuldrick como se ele fosse um louco.

— Você realmente acha que existe a possibilidade da Igreja e a Ordem da Capital lutarem contra a Ordem do Corvo Branco por nós? O Regente não é o tipo de homem que se move por dinheiro, enquanto os porcos da Igreja não correm o risco de serem abatidos, pois só se preocupam com eles próprios. Temos que lidar com isso sozinhos. — Ardin suspirou.

— Vamos pelo menos entrar em contato com a capital primeiro. Eles terão que agir de uma forma ou de outra. Quem sabe? Podem até pressionar a Igreja, ao contrário das nossas expectativas. Também há uma chance de Ethan estar blefando.

— Eu espero mesmo que esteja. — Ardin disse enquanto balançava a cabeça.

Os membros do conselho sussurraram para seus subordinados com olhares preocupados. Aparentemente nenhum deles tinha uma visão positiva sobre o que estava por vir. Eram pessoas que passaram por todo tipo de dificuldades, mas nem uma única pessoa queria se envolver com os Templários.

— Vamos encerrar a reunião do conselho então. O resto de nós pode voltar para casa e passar algum tempo com nossas famílias…

— Por que não cooperamos com a Ordem de Huginn?

Quem sugeriu isso foi Opert, o chefe dos contrabandistas, que permaneceu em silêncio durante toda a reunião. Ele expandiu sua influência contrabandeando espécies raras de escravos e itens de além da fronteira para os nobres da capital. Muitos dos membros do conselho frequentemente recebiam sua ajuda, pois ele trazia facilmente itens que eram proibidos pela Igreja.

Ardin sempre considerou Opert um homem inteligente, mas agora estava pensando em mudar sua percepção de Opert.

— O que você quer dizer com cooperar com a Ordem de Huginn?

— Isso mesmo o que eu disse. Sugiro unir forças com a Ordem de Huginn para derrubar a Ordem do Corvo Branco. Não é como se estivéssemos em menor número. Além disso, temos membros de diversas organizações para lutar, além dos guardas; eles são de grande utilidade com sua bravura e habilidades.

— Você é burro? Se cooperássemos com a Ordem de Huginn, seríamos rotulados em todo o império como uma cidade que está de mãos dadas com os traidores. Você não consegue imaginar o que vai acontecer?

O exército imperial entraria em ação e o regente Barth Baltic seria quem os lideraria. Todos os edifícios de Hiveden seriam esmagados e os ossos dos cidadãos transformados em pó e espalhados por toda parte. A menos que eles se escondessem nas montanhas como a Ordem de Huginn, o exército imperial se livraria de todos os vestígios de sua existência. Várias cidades foram destruídas assim após o assassinato de Sua Majestade – o número de cidades destruídas ultrapassava os dois dígitos.

Esses terríveis períodos de dizimação aterrorizaram todo o império. A cooperação de Hiveden com a Ordem de Huginn só foi possível porque eles só se moviam sigilosamente.

Opert tentou dizer mais alguma coisa, mas Ardin o ignorou completamente. De qualquer forma, sua organização tinha a menor influência dentro do conselho; Ardin o ignorou e encerrou a reunião do conselho.

— Então vamos todos retornar e…

— Senhor Ardin!

Ardin estava prestes a explodir de raiva. Sentia como se o mundo inteiro estivesse contra ele, declarando o fim da reunião do conselho e o impedindo de voltar para casa. Ardin se sentiu desconfortável ao olhar para o soldado que sofria tentando buscar um pouco de ar para respirar com um rosto pálido.

— E-Eu acho que você deveria dar uma olhada no que está acontecendo lá fora.

— Lá fora?

Ardin e os outros membros do conselho se dirigiram à janela com uma expressão curiosa. Olhando para fora do terraço, havia algumas pessoas também olhando para o céu. Ardin ergueu a cabeça para ver o que havia no céu e logo notou uma leve luz dourada cobrindo toda a cidade como uma bolha. Ardin não fazia ideia do que era aquela luz dourada.

Naquele momento, alguém apertou seu pulso. Era Yuldrick, o capitão dos mercenários. Seu rosto ficou pálido, ao contrário de quando ele estava doido para lutar há pouco tempo.

— A-Ardin. Acho que é melhor nos rendermos.

— O quê? Por que está dizendo isso agora? E o que é isso no céu?

— E-Eu vi esse tipo de Graça no campo de batalha quando fui contratado pela ordem dos cavaleiros. I-isso é uma parede feita com a força de uma Graça; agora que foi colocada, nenhum objeto ou som pode sair da muralha. Os Templários chamavam esta Graça de “O Pé do Imperador”.

— Muralha? — Ardin respondeu com uma pergunta.

Yuldrick assentiu apressadamente com a cabeça.

— O mais importante é que eles matavam todas as almas que se recusassem a se render sempre que usavam esta Graça. Literalmente todos eram pisoteados pelos pés do imperador. Ethan está basicamente nos dizendo que se não cedermos, ele destruirá a cidade inteira.

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